Lição 9
The Continent and the Obstinate Man
Portanto, será continente aquele que permanece firme em qualquer razão e em qualquer escolha, ou aquele que permanece na reta; e incontinente aquele que não permanece firme em qualquer escolha e em qualquer razão, ou aquele que não permanece na razão falsa e na escolha não reta, como se levantou a dúvida antes? [1435]
Ou será por acidente que se comporta assim em relação a qualquer, mas por si mesmo em relação à razão verdadeira e à escolha reta, um permanecendo firme, e o outro não permanecendo? Pois, se alguém escolhe ou persegue isto por causa daquilo, por si mesmo escolhe e persegue isto, mas por acidente aquilo primeiro. Ora, dizemos absolutamente aquilo que é por si mesmo. Portanto, há um sentido em que um permanece firme em qualquer opinião e o outro a excede, mas absolutamente aquele que permanece na verdadeira. [1437]
Há, porém, alguns que permanecem firmes na opinião, e há aqueles a quem chamam de teimosos, a saber, dificilmente persuadíveis e não facilmente demovíveis. [1440]
Os quais têm algo de semelhante ao continente, assim como o pródigo ao liberal e o audaz ao confiante. [1441]
Mas são diferentes em muitas coisas. Pois um, a saber, o continente, não muda por causa da paixão e da concupiscência, e, quando isto convier, será facilmente persuadível; o outro, porém, não muda a partir da razão, porque assumem concupiscências e são conduzidos por muitas delícias. [1442]
Ora, os teimosos são obstinados na própria opinião, indóceis e rudes. E são obstinados na própria opinião por causa do prazer e da tristeza; pois se alegram quando vencem, se não são demovidos, e se entristecem se as suas convicções se tornam frágeis, como acontece com as sentenças. Por isso, assemelham-se mais ao incontinente do que ao continente. [1444]
Há, porém, alguns que não permanecem firmes naquilo que lhes parece, não por incontinência, como no caso de Neoptólemo, no Filoctetes de Sófocles, o qual, embora por causa do prazer não tenha permanecido firme, permaneceu por um prazer bom; pois dizer a verdade era para ele um bem, mas foi persuadido por Ulisses a dizer o falso. Com efeito, nem todo aquele que faz algo por causa do prazer é intemperante, ou perverso, ou incontinente, mas aquele que o faz por causa de um prazer torpe. [1445]
Ora, porque há também alguém que é tal que se deleita menos do que convém com as coisas corporais e não permanece firme na razão, o meio-termo entre este e o incontinente é o continente. Pois o incontinente não permanece firme na razão por causa de algo maior, ao passo que este por causa de algo menor; o continente, porém, permanece firme e não muda por causa de nenhum dos dois. [1446]
Ora, é preciso, se de fato a continência é coisa séria, que ambos os hábitos contrários sejam perversos, como também aparecem sê-lo. [1448]
Mas, porque um deles se dá em poucos e raramente, é manifesto que, assim como a temperança parece ser contrária somente à intemperança, assim também a continência à incontinência. [1449]
Ora, porque muitas coisas se dizem por semelhança, também a continência do temperante veio a chamar-se por semelhança. [1451]
Pois tanto o continente é capaz de nada fazer à margem da razão por causa das delícias corporais, quanto o temperante. [1452]
Mas um tem, e o outro não tem, concupiscências perversas. E um é tal que não se deleita à margem da razão, ao passo que o outro é tal que se deleita, mas não se deixa conduzir. [1453]
Semelhantes são também o incontinente e o intemperante, sendo embora diferentes, mas ambos perseguindo os deleites corporais; um, porém, julgando que se deve, o outro não julgando. [1454]
1435. Portanto, será continente aquele etc. Depois que o Filósofo determinou a dúvida pela qual se sabe se a continência e a incontinência existem, e mostrou também a matéria acerca da qual se dão, aqui determina a dúvida pela qual se sabe o que é a continência.
E, a respeito disto, faz duas coisas:
primeiro, mostra se o continente permanece firme em qualquer princípio e o incontinente se afasta de qualquer princípio, pelo que se resolve a quarta dúvida proposta contra o segundo argumento provável;
segundo, mostra se o prudente pode ser incontinente, pelo que se resolve a segunda dúvida levantada contra o quinto argumento provável, ali: nem simultaneamente prudente etc.
A respeito do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra como a continência se relaciona com seu próprio princípio, o qual se toma segundo isto: permanecer firme na razão;
segundo, mostra como se relaciona com a noção comum de virtude, que consiste nisto: estar no meio, ali: porque há alguém etc.
A respeito do primeiro, faz três coisas:
1436. primeiro, mostra em que princípio o continente permanece firme de modo louvável e de que princípio o incontinente se afasta de modo repreensível;
segundo, mostra como alguns permanecem firmes num princípio de modo repreensível, ali: há, porém, alguns firmes etc.;
terceiro, como alguns se afastam de modo louvável da razão, ali: há, porém, alguns etc.
A respeito do primeiro, faz duas coisas.
Primeiro, levanta a questão, que é esta: se se chama continente aquele que permanece firme em qualquer princípio, isto é, seja reto seja falso, e em qualquer escolha, isto é, seja reta seja falsa, ou se se chama continente somente aquele que permanece firme no princípio reto e na escolha reta.
E há uma dúvida semelhante: se se chama incontinente aquele que não permanece firme em qualquer princípio e escolha, ou somente aquele que não permanece firme no princípio reto.
Ou também a questão pode ser levantada assim: pode chamar-se incontinente aquele que não permanece firme num princípio e numa escolha falsos, como acima foi proposto nas dúvidas?
1437. Segundo, ali: ou por acidente etc., resolve a questão proposta. E diz que se chama continente e incontinente aquele que permanece ou não permanece firme em qualquer princípio por acidente, mas, falando por si, aquele que permanece ou não permanece firme no princípio verdadeiro e na escolha reta. E isto expõe assim: com efeito, se alguém escolhe ou persegue, isto é, busca, isto por causa daquilo, isto é, isto no lugar daquilo, por exemplo, se escolhe o fel no lugar do mel, porque, por causa da semelhança da cor, julga que aquilo é mel, é manifesto que, falando por si, escolhe e busca aquilo por causa do que escolhe e busca o outro, por exemplo, o mel, mas por acidente escolhe e busca o que está antes, isto é, aquilo que escolhe no lugar do outro, por exemplo, o fel.
1438. E a razão disto é que, nas coisas apetecíveis, aquilo a que se refere a intenção de quem apetece é por si (pois o bem, enquanto é apreendido, é o objeto próprio do apetite), ao passo que aquilo que está fora da intenção é por acidente; por isso, aquele que tem a intenção de escolher o mel e escolhe o fel fora de sua intenção, escolhe por si o mel, mas por acidente o fel; suponha-se, então, que haja alguém que julgue verdadeiro um princípio falso, por exemplo, se alguém julga ser verdadeiro isto: que é bom fornicar; se, portanto, permanece firme neste princípio falso, pensando que ele é verdadeiro, permanece por si firme num princípio verdadeiro, mas por acidente num falso, pois tem a intenção de permanecer firme no verdadeiro; e a mesma razão vale para o incontinente que se afasta de um princípio falso que julga ser verdadeiro;
1439. assim, pois, fica patente que o continente ou o incontinente permanece ou não permanece firme por si no princípio verdadeiro, e por acidente no falso. Ora, chamamos absolutamente aquilo que é por si, ao passo que aquilo que é por acidente se diz sob certo aspecto. E, por isso, acontece de certo modo que o continente ou o incontinente permaneça firme em qualquer opinião, mesmo falsa, mas absolutamente se chama continente ou incontinente aquele que permanece ou não permanece firme no princípio ou opinião verdadeira.
1440. Em seguida, quando diz: há, porém, alguns firmes etc., mostra como alguns permanecem firmes num princípio de modo repreensível.
E, primeiro, mostra quem são;
segundo, como se relacionam com o continente, ali: os quais, de fato, algo semelhante etc.;
terceiro, mostra a diferença, ali: há, porém, outros etc.
quarto, como se relacionam com o incontinente, ali: há, porém, os obstinados etc.
Diz, pois, primeiro que há alguns que permanecem demasiadamente firmes em sua própria opinião, e estes são aqueles que os homens chamam obstinados, isto é, de firme parecer ou pertinazes, porque dificilmente algo lhes é persuadido e, se algo lhes tiver sido persuadido, não são facilmente mudados daquela convicção. Isto parece acontecer sobretudo aos melancólicos, que recebem com dificuldade, mas retêm fortemente o que receberam, à maneira da terra.
1441. Em seguida, quando diz: os quais, de fato, algo semelhante etc., compara tais pessoas com o continente. E diz que tais pessoas parecem ter algo semelhante ao continente, porque têm por excesso aquilo que é próprio do continente, assim como o pródigo tem algo semelhante ao liberal e o audacioso ao confiante, isto é, ao forte; pois tais pessoas permanecem firmes no princípio mais do que devem, ao passo que o continente segundo o que deve.
1442. Segundo, ali: há, porém, outros etc., mostra a diferença. E diz que os mencionados diferem em muitas coisas do continente. Para evidência disto, deve-se considerar que de dois modos alguém pode ser removido de sua opinião:
de um modo, da parte da própria razão, por exemplo, se sobrevém alguma razão mais forte;
de outro modo, da parte da paixão, que perverte o juízo da razão no particular operável.
1443. Portanto, a diferença está principalmente nisto: que este, a saber, o continente, não é mudado da razão por causa da paixão da concupiscência, mas, todavia, quando é preciso, será bem persuadido por outra razão melhor apresentada (por isso é louvável, porque não é vencido pela concupiscência, mas pela razão); este, porém, a saber, o pertinaz, não é mudado de sua opinião por causa de alguma razão apresentada, mas recebem as concupiscências e muitos deles são levados pelos prazeres para fora da razão (assim, pois, são repreensíveis, porque, embora não se deixem vencer pela razão, são, todavia, vencidos pela paixão).
1444. Em seguida, quando diz: há, porém, os obstinados etc., mostra como tais pessoas se relacionam com o incontinente. E diz que esses que chamamos obstinados chamam-se também de próprio parecer, isto é, homens de sua própria sentença ou de seu próprio sentir, e são indisciplinados, porque não querem ser instruídos por outro, e são também rústicos, porque, enquanto sempre querem seguir seu próprio sentir, não podem facilmente conviver com os outros. São, porém, de próprio parecer, isto é, de seu próprio sentir, por isto: que buscam demasiadamente algum prazer e fogem demasiadamente de alguma tristeza; pois se alegram quando, discutindo com os outros, vencem, isto é, se não são mudados de sua opinião por alguma persuasão, e se entristecem se aquilo que é próprio deles, a saber, suas sentenças, parece frágil, de modo que seja preciso abandoná-las. Ora, isto é próprio do incontinente e do mole: apetecer superabundantemente os prazeres e fugir das tristezas. Por isso fica patente que os pertinazes se assemelham mais ao incontinente do que ao continente.
1445. Em seguida, quando diz: há, porém, alguns que a estes etc., mostra como alguns se afastam de modo louvável da razão. E diz que há alguns que não permanecem firmes naquilo que lhes parece, não por causa da incontinência, mas por causa do amor da virtude. Assim se narra no livro que Sófocles escreveu sobre Filoctetes que Neoptólemo não permaneceu naquilo que lhe parecia, não, todavia, por causa da incontinência, embora tenha feito isto por causa de algum prazer não mau, mas bom; pois apetecia, como que a certo bem, dizer a verdade, e isto lhe era deleitável, mas Ulisses o persuadira a dizer o falso em proveito da pátria, e a essa persuasão ele não permaneceu fiel por causa do prazer da verdade, nem, todavia, por isso foi incontinente. Pois nem todo aquele que opera algo por causa do prazer é intemperante ou depravado ou incontinente, mas somente aquele que opera algo por causa de um prazer torpe.
1446. Em seguida, quando diz: porque há alguém etc., mostra como a continência se relaciona com a noção de virtude, à qual pertence estar no meio.
E, a respeito disto, faz duas coisas:
primeiro, manifesta que a continência está no meio, assim como também a temperança;
segundo, mostra que às vezes a continência, por causa da semelhança, é chamada temperança, ali: porque, segundo a semelhança etc.
A respeito do primeiro, faz três coisas.
Primeiro, mostra de quais coisas a continência é o meio. E diz que se encontra algum homem assim disposto, que se alegra com os prazeres corporais menos do que seria preciso, e isto não por causa do fim do bem, mas por causa do enfado, pelo que não permanece na razão que julga que é preciso, segundo o que é necessário, usar de tais prazeres; do incontinente, porém, já se disse que não permanece firme na razão por isto: que se alegra com tais prazeres mais do que seria preciso;
1447. por isso o meio destes dois é o continente. Pois o incontinente não permanece firme na razão por causa de algo maior, ao passo que aquele outro por causa de algo menor, porque, a saber, aquele quer usar dos prazeres mais do que seria preciso e este menos; mas o continente permanece firme na razão e não é afastado dela nem por causa de um dos mencionados, isto é, nem por causa do maior nem por causa do menor.
1448. Segundo, ali: é preciso, porém, se de fato etc., mostra como se relacionam com a bondade e a malícia. Ora, é manifesto, do que foi dito, que a continência é algo bom, por isso é preciso que ambos os hábitos que lhe são contrários, a saber, tanto segundo o mais como segundo o menos, sejam maus, como também aparece por isto mesmo: que não permanecem firmes na razão, mas tomam ou mais ou menos.
1449. Terceiro, ali: mas por causa do outro etc., responde a uma questão tácita, a saber, por que só a incontinência parece ser contrária à continência, tendo esta dois hábitos contrários. E diz que isto acontece por isto: que o outro ocorre em poucos casos, a saber, que alguém se afaste da razão para o menos, e por isso não é tão manifesto como o outro extremo (pois em mais casos acontece que, a respeito dos prazeres corporais, se faça o afastamento da reta razão para o mais), e pela mesma razão a temperança parece ser contrária somente à intemperança, porque a insensibilidade não é manifesta por isto: que ocorre em poucos casos.
1450. Deve-se, porém, considerar aqui que à continência se atribuem de dois modos os extremos:
de um modo, da parte da razão à qual adere, e segundo isto acima se disse que o pertinaz se relaciona com o continente assim como o pródigo com o liberal, ao passo que o outro extremo é, para o menos, o vício da instabilidade;
de outro modo, atribuem-se-lhe os extremos da parte da concupiscência que vence, e assim a continência é o meio entre os extremos agora postos.
1451. Em seguida, quando diz: porque, segundo a semelhança etc., mostra que a continência, por causa da semelhança, às vezes se chama temperança.
E, primeiro, compara segundo isto a continência com a temperança;
segundo, a incontinência com a intemperança, ali: semelhantes, porém etc.
A respeito do primeiro, faz três coisas.
Primeiro, propõe o que pretende. E diz que, porque muitas coisas são nomeadas metaforicamente ou segundo a semelhança, daí é que também a continência recebe às vezes o nome de temperança por semelhança.
1452. Segundo, ali: com efeito, o continente etc., mostra em que está a semelhança. Pois o continente tem a faculdade de nada operar fora da razão por causa dos prazeres corporais, e isto mesmo pode fazer o temperante.
1453. Terceiro, ali: mas este, de fato etc., põe duas diferenças. A primeira delas é que o continente tem concupiscências depravadas, mas o temperante não as tem, porque o seu concupiscível está ordenado pelo hábito da temperança.
A segunda diferença é a que põe ali: e este, de fato etc. A saber, que o temperante está assim disposto pelo hábito da temperança, que não se deleita fora da razão, ao passo que o continente está assim disposto que de fato se deleita fora da razão, mas não é levado pela paixão.
1454. A seguir, quando diz: são semelhantes etc., compara a incontinência com a intemperança. E diz que também o incontinente e o intemperado são semelhantes, embora difiram, de modo que o incontinente é chamado intemperado por semelhança; pois são semelhantes nisto, que ambos perseguem, isto é, buscam, os deleites corporais, mas diferem nisto, que o intemperado julga que se devem seguir tais deleites, por causa do hábito que perverte o juízo sobre o fim, ao passo que o incontinente não julga assim, porque nele se conserva o princípio, como se disse acima.