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Lição 4

The Generic Matter of Continence and Incontinence

Deve-se dizer, a seguir, se há alguém incontinente absolutamente, ou se todos o são segundo uma parte, e, se há, acerca de que coisas o é. [1354]

É manifesto, pois, que os continentes, os perseverantes, os incontinentes e os moles versam sobre os prazeres e as tristezas. [1355]

Ora, dentre as coisas que produzem prazer, umas são necessárias, outras são, na verdade, elegíveis por si mesmas, mas têm superabundância. Necessárias são, na verdade, as corporais, e digo tais e aquelas que dizem respeito ao alimento e à oportunidade dos prazeres venéreos, e tais coisas corporais acerca das quais estabelecemos a intemperança e a temperança; não necessárias, porém, mas elegíveis por si mesmas, digo, por exemplo, a vitória, a honra, as riquezas e tais bens e deleitáveis. [1356]

Portanto, aqueles que, quanto a estas coisas, à margem da reta razão que há neles, sobreexcedem, não os dizemos incontinentes absolutamente, mas acrescentando: incontinentes de dinheiro, de lucro, de honra e de ira, não absolutamente, mas como outros e ditos por semelhança, do mesmo modo que o homem que venceu nas Olimpíadas, pois neles a noção comum diferia pouco da própria, mas contudo era outra. E há um sinal disto: a incontinência é vituperada não apenas como pecado, mas também como uma certa malícia, quer existindo absolutamente, quer segundo uma certa parte; mas nenhum destes o é. [1358]

Dentre aqueles, porém, que versam sobre os prazeres corporais, acerca dos quais dizemos o temperante e o intemperante, aquele que, não por eleição, persegue as superabundâncias dos deleitáveis e foge das tristezas, da fome, da sede, do calor, do frio e de tudo o que diz respeito ao tato e ao gosto, mas à margem da eleição e do intelecto, diz-se incontinente, não por acréscimo, como se fora acerca destas coisas ao modo da ira, mas absolutamente apenas. E há um sinal disto: com efeito, dizem-se moles acerca destas coisas, mas acerca de nenhuma daquelas. [1360]

E por causa disto colocamos no mesmo o incontinente e o intemperante, e o continente e o temperante, mas não nenhum daqueles, por versarem de algum modo sobre os mesmos prazeres e tristezas; estes, na verdade, versam sobre estas coisas, mas não do mesmo modo, mas estes elegem, aqueles, porém, não elegem. [1361]

Por isso, diremos que é mais intemperante aquele que, sem concupiscer ou com concupiscência quieta, persegue as superabundâncias e foge das tristezas moderadas, do que este que o faz por concupiscer fortemente. Pois que faria aquele, se lhe estivesse presente a concupiscência juvenil e uma forte tristeza acerca das indigências dos prazeres venéreos? [1362]

Ora, porque dentre as concupiscências e os deleites uns são do gênero dos bens e das coisas nobres — pois dentre os deleitáveis alguns são por natureza elegíveis, outros são contrários a estes, e outros são intermediários, como dividimos antes, por exemplo, o dinheiro, o lucro, a vitória e a honra —; ora, quanto a todas as coisas, tanto tais como as intermediárias, os homens não são vituperados por padecê-las, concupiscê-las e amá-las, mas por fazê-lo de algum modo e superabundar. [1363]

Por isso, alguns que, fora da razão, ou se detêm ou perseguem algo daquelas coisas que por natureza são de algum modo belas e boas, por exemplo, em torno da honra, esforçando-se mais do que é preciso, ou em torno dos filhos e dos pais. Pois de fato estas coisas são dos bens, e são louvados os que se esforçam em torno delas; contudo, há também nestas certa superabundância, se alguém se rebela como Níobe, e até contra os deuses, ou como Sátiro, cognominado amante do pai, em torno do pai, pois parecia deveras insensato. [1365]

Portanto, não há malícia alguma em torno destas coisas, por causa daquilo que se disse, isto é, que por natureza cada um dos objetos elegíveis é elegível por si mesmo, mas depravadas e a serem evitadas são as suas superabundâncias. Semelhantemente, tampouco há incontinência; pois a incontinência não só é algo a ser evitado, mas também está entre as coisas censuráveis. [1366]

Mas, por causa da semelhança da paixão, aplicando o termo à incontinência em torno de cada coisa, dizem, por exemplo, mau médico e mau ator, o qual absolutamente não chamariam de mau. Assim como, portanto, tampouco aqui cada um deles é mau por causa da malícia, mas segundo o análogo semelhante, assim evidentemente também ali se deve considerar que só é incontinência e continência aquela que se refere às mesmas coisas da temperança e da intemperança, ao passo que em torno da ira dizemos por semelhança; por isso também, aplicando o termo, chamamos alguém de incontinente da ira, como da honra e do lucro. [1367]

1354. Mas se há algum incontinente etc. Depois que o Filósofo mostrou que, apesar da ciência, alguém pode agir depravadamente, pelo que se pode saber se há continência e incontinência, aqui determina a respeito da matéria da continência e da incontinência.

E primeiro mostra qual é a matéria de ambas;

segundo, compara-as a outros hábitos que se referem à mesma matéria, ali: mas em torno daquelas coisas que são pelo tato etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, diz sobre o que versa a intenção;

segundo, manifesta o proposto, ali: portanto, visto que etc.

Deve-se, porém, considerar que acima, ao propor a sexta dúvida, disse que, se a continência e a incontinência se referissem a todas as coisas, ninguém seria absolutamente incontinente. E por isso, pretendendo resolver esta dúvida, propõe duas coisas a serem tratadas,

das quais a primeira é se alguém é absolutamente incontinente ou se todos são chamados incontinentes de modo particular;

a segunda é, se alguém é absolutamente incontinente, em torno de que tipo de matéria o é.

1355. Em seguida, quando diz: portanto, visto que etc., desenvolve o proposto.

E primeiro propõe a matéria geral como manifesta. E diz ser manifesto que os continentes e os incontinentes, os perseverantes e os moles se dizem em torno dos prazeres e das tristezas.

1356. Segundo, ali: mas visto que estas coisas são etc., investiga a matéria específica das coisas ditas.

E primeiro mostra como de modos diversos se diz continência e incontinência em torno de diversos prazeres;

segundo, compara entre si as incontinências dos diversos prazeres, ali: mas visto que é menos torpe etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, mostra como alguém se diz de modos diversos continente ou incontinente segundo a diferença dos prazeres humanos entre si;

segundo, segundo a diferença dos prazeres humanos em relação aos bestiais, ali: mas visto que há certas coisas etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, mostra o proposto;

segundo, manifesta certas coisas que havia dito, ali: mas visto que das concupiscências etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro, distingue os prazeres humanos;

segundo, mostra como, em torno deles, alguém se diz de modos diversos continente ou incontinente, ali: portanto, aqueles etc.;

terceiro, infere certos corolários do que foi dito, ali: e por isso, na mesma coisa etc.

1357. Diz, pois, primeiro que, dentre aquelas coisas que causam prazer ao homem, algumas são necessárias à vida humana, ao passo que outras não são necessárias, mas, consideradas em si mesmas, são elegíveis para o homem, embora possa haver nelas superabundância e defeito: o que ele acrescenta para diferenciá-las das virtudes, nas quais não pode haver superabundância e defeito. E diz que são necessárias certas coisas corporais, por exemplo, as que pertencem ao alimento e às coisas venéreas, e outras coisas corporais deste tipo, em torno das quais estabelecemos acima a temperança e a intemperança; mas diz serem elegíveis por si mesmas, e não necessárias, coisas como a vitória, a honra, as riquezas e outros bens e deleitáveis deste tipo.

1358. Em seguida, quando diz: portanto, aqueles etc., mostra como, em torno das coisas ditas, alguém se diz continente ou incontinente.

E primeiro como em torno das não necessárias;

segundo, como em torno das necessárias, ali: mas os que se ocupam das corporais etc.

Diz, pois, primeiro que aqueles que, em torno dos ditos bens não necessários, se esforçam de modo excessivo, fora da reta razão que neles há, não se dizem absolutamente incontinentes, mas com alguma adição, por exemplo, incontinentes do dinheiro ou do lucro ou da honra ou da ira, como se fossem outros os absolutamente incontinentes e aqueles fossem chamados incontinentes por semelhança, o que a adição assinala; assim como, quando se diz que um homem venceu em Olímpia, a respeito deste a noção comum de homem difere pouco da própria que a adição designa, mas contudo, de algum modo, é outra.

1359. E aduz um sinal de que, em torno das coisas ditas, alguém não se diz absolutamente incontinente, pois a incontinência é censurada não só como certo pecado, o que pode acontecer também quando alguém persegue algum bem, mas de modo desordenado; a incontinência, porém, é censurada como certa malícia, isto é, aquela pela qual se tende a algum mal; a qual, ou é malícia absolutamente, por exemplo, quando a razão e o apetite tendem ao mal, e esta é a verdadeira malícia que se opõe à virtude; ou é malícia segundo certa parte, a saber, porque o apetite tende ao mal, mas não a razão, como acontece na incontinência; mas nenhum dos ditos incontinentes é censurado como mau, mas somente como pecador, porque tende ao bem, mas além do que é preciso; por isso nenhum deles é absolutamente incontinente.

1360. Em seguida, quando diz: mas os que se ocupam das corporais etc., mostra de que modo alguém se diz incontinente em torno das coisas necessárias. E diz que aqueles que se comportam mal em torno dos prazeres corporais, com os quais se ocupam a temperança e a intemperança, não de tal modo que por eleição persigam as superabundâncias dos prazeres e fujam das tristezas, por exemplo, da fome e da sede e de outras coisas deste tipo que pertencem ao gosto e ao tato, mas fora da reta eleição que têm e fora do reto intelecto que neles há, perseguem e fogem das coisas ditas — tais, digo, dizem-se incontinentes, não com alguma adição, como se dizia incontinente da ira, mas absolutamente. E para isto aduz um sinal, pois os moles, que são próximos aos incontinentes, dizem-se assim em torno de tristezas deste tipo, por exemplo, porque não podem suportar a fome ou a sede ou algo deste tipo, mas não se dizem em torno de alguma das outras coisas, por exemplo, porque não podem suportar a pobreza ou algo deste tipo.

1361. Em seguida, quando diz: e por isso, na mesma coisa etc., infere certos corolários do que foi dito.

O primeiro dos quais é que na mesma classe se põem o incontinente e o intemperante, e o continente e o temperante, não de tal modo que um deles seja o outro, mas porque de algum modo se referem às mesmas coisas, a saber, aos prazeres e às tristezas corporais, mas não do mesmo modo, e sim o temperante e o intemperante com eleição, ao passo que o continente e o incontinente sem eleição.

1362. O segundo, que disto se segue, ele o põe ali: por isso, mais etc. E diz que, pelo que foi dito, é claro que peca mais e é mais censurado o intemperante, porque peca perseguindo prazeres supérfluos e fugindo de tristezas moderadas, não porque padeça concupiscência, ou a padece com quietude, isto é, remissamente, e por isso é pior do que o homem que peca nas coisas ditas por causa de veemente concupiscência, tal como é o incontinente. Pois quem peca sem concupiscência, que faria se lhe sobreviesse forte concupiscência, tal como a dos jovens, e forte tristeza em torno da indigência das coisas venéreas?

1363. Em seguida, quando diz: mas visto que das concupiscências etc., manifesta o que havia dito, atribuindo a causa pela qual, em torno das coisas não necessárias, não há incontinência absolutamente.

E primeiro mostra por que, em torno delas, não há incontinência absolutamente;

segundo, por que, em torno delas, se diz incontinência com adição, ali: mas por causa da semelhança etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro, propõe quais sejam tais prazeres não necessários;

segundo, conclui qual seja o esforço em torno deles;

terceiro, conclui ademais que, em torno deles, não há malícia nem incontinência absolutamente, ali: portanto, não há malícia etc.

Diz, pois, primeiro que certas concupiscências e prazeres são daquelas coisas que, segundo o seu gênero, são boas e louváveis;

1364. pois há três gêneros de deleitáveis: uns são por natureza elegíveis, a saber, aqueles para os quais a natureza inclina, outros são contrários a estes, como aqueles que são contra a inclinação da natureza, e outros ainda são intermediários entre estes, como se vê no dinheiro e no lucro e na vitória e na honra. Por isso, em torno de todos estes intermediários, não são censurados alguns só por padecerem a concupiscência e o amor deles, mas pelo modo de concupiscer, que é superabundante.

1365. Em seguida, quando diz: por isso, alguns etc., conclui do que foi premissado qual seja o esforço dos homens em torno das coisas ditas. E diz que aqueles que, fora da razão, ou possuem ou perseguem algo daquelas coisas que são naturalmente belas e boas, não são censurados como maus, por exemplo, aqueles que se esforçam em torno da obtenção da honra ou em torno do cuidado dos filhos ou dos pais mais do que é preciso. Pois estas coisas são bens, e são louvados aqueles que se esforçam em torno delas como é preciso; contudo, em tais coisas pode haver certa superabundância viciosa, por exemplo, se alguma mulher, por amor supérfluo dos filhos, se rebela contra Deus, por exemplo, por causa da morte dos filhos, como se lê de certa mulher que se chama Níobe; ou se alguém, por demasiado amor dos pais, age de modo insensato, como certo homem de nome Sátiro, que foi cognominado Filópator, isto é, amante do pai, parecia deveras insensato por causa do amor que tinha em torno do pai.

1366. Em seguida, quando diz: portanto, não há malícia etc., conclui que, em torno das coisas ditas, não há malícia; isto por causa de que cada uma delas, considerada em si mesma, é naturalmente elegível, mas só as suas superabundâncias são depravadas e a serem evitadas. E semelhantemente, tampouco há incontinência absolutamente em torno das coisas ditas, pois a incontinência não só é algo a ser evitado como pecado, mas também é censurável como torpe. E por isso, em torno dos prazeres corporais, que são torpes e servis, como se disse no terceiro livro, há propriamente incontinência, e prazeres deste tipo não devem ser apetecidos pelo homem, a não ser por causa da necessidade.

1367. Em seguida, quando diz: mas por causa da semelhança etc., mostra por que se diz incontinência com adição em torno das coisas não necessárias. E diz que isto acontece por causa da semelhança da paixão, a saber, porque, assim como alguém concupisce imoderadamente os prazeres corporais, assim também o dinheiro e as outras coisas ditas, e é semelhante a quando dizemos que algum homem é mau médico ou mau ator, isto é, representante, o qual contudo não se diz absolutamente mau. Assim, portanto, nestas coisas que assim se dizem más, não dizemos malícia absolutamente a respeito de cada uma delas, mas segundo certa semelhança proporcional, a saber, porque o mau médico está para as coisas que são do médico assim como o mau homem está para as coisas que são do homem; assim também, no gênero da continência, só chamamos absolutamente de continência e incontinência aquela que se refere às mesmas coisas da temperança e da intemperança, mas em torno da ira dizemos incontinência por semelhança e por isso acrescentamos incontinente da ira, como incontinente da honra e do lucro.