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Lição 17

Shame

Da vergonha, porém, não convém falar como de uma certa virtude; ela antes se assemelha a uma paixão do que a um hábito. [867]

Define-se, portanto, como temor da desonra. [868]

Realiza-se, porém, a respeito dos perigos, de modo semelhante ao temor; pois os que se envergonham enrubescem, e os que temem a morte empalidecem. Ambos, na verdade, parecem ser coisas corporais, o que parece pertencer mais à paixão do que ao hábito. [869]

Ora, esta paixão não convém a toda idade, mas à juvenil. [870]

Pois julgamos que é preciso que os jovens sejam pudicos, porque, vivendo segundo as paixões, pecam muito, mas pela vergonha são refreados. E louvamos, de fato, os jovens pudicos. [872]

Mas ninguém louvará um velho por ser vergonhoso; pois julgamos que não é preciso que ele pratique aquilo em que há vergonha. [873]

Tampouco a vergonha é do homem virtuoso, se de fato ocorre em coisas más; pois não se devem praticar tais coisas. [874]

Pois, se estas são torpes segundo a verdade, e aquelas segundo a opinião, em nada difere; pois nem umas nem outras se devem praticar, e por isso não se deve ter vergonha. É próprio do mau tanto ser tal quanto praticar algo torpe. [875]

Ora, comportar-se assim em relação às coisas torpes, de modo que, se praticasse algo de tal espécie, se envergonharia, e por isso ser julgado virtuoso, é inconveniente. Pois a vergonha ocorre nas coisas voluntárias; mas o virtuoso jamais praticará voluntariamente coisas más. [877]

A vergonha seria, na verdade, por suposição, algo próprio do virtuoso; pois, se praticasse, envergonhar-se-ia. Isto, porém, não se dá a respeito das virtudes. [879]

Mas, se a impudência é má e não se envergonhar de praticar coisas torpes é mau, nem por isso quem pratica tais coisas é mais virtuoso por se envergonhar. [880]

Ora, tampouco a continência é virtude, mas algo misto; disto, porém, se tratará no que vem depois. Agora, porém, falemos da justiça. [883]

867. De verecundia autem ut quadam etc. Depois que o Filósofo tratou dos meios que são virtudes, aqui trata de um certo meio que não é virtude, a saber, da vergonha.

E primeiro mostra que a vergonha não é virtude;

em segundo lugar, aduz algo semelhante a respeito da continência, a qual, embora seja louvável, não é virtude, em: non est autem neque continentia etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, investiga o gênero da vergonha;

em segundo lugar, mostra o seu sujeito, em: non omni utique aetati etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas.

Primeiro, propõe o que pretende. E diz que da vergonha não convém falar como de uma certa virtude, mas ela antes se assemelha a uma paixão do que a um hábito, que é o gênero da virtude.

868. Em segundo lugar, em determinatur igitur etc., prova o proposto de dois modos.

Primeiro, pela definição da vergonha. Pois diz-se que a vergonha é o temor da desonra, isto é, da confusão que se opõe à glória; mas o temor é uma certa paixão; logo, a vergonha está no gênero da paixão.

869. Em segundo lugar, em perficitur autem circa pericula etc., prova o mesmo pelo efeito da vergonha. A respeito disto deve-se considerar que as paixões são movimentos do apetite sensitivo, que se serve de órgão corporal; donde todas as paixões se produzem com alguma transmutação corporal; e, de modo semelhante, comporta-se em geral, quanto a isto, a vergonha e o temor que é a respeito dos perigos de morte, a saber, quanto ao fato de que ambas as paixões se indicam por uma transmutação da cor corporal;

870. mas em particular diferem, porque os que se envergonham enrubescem, e os que temem a morte empalidecem. A razão desta diferença é que a natureza transmite os espíritos e os humores ao lugar onde sente a falta; ora, a sede da vida está no coração, e por isso, quando se teme o perigo da vida, os espíritos e os humores acorrem ao coração e, por isso, as partes exteriores, como que abandonadas, empalidecem; a honra, porém, e a confusão estão nas partes exteriores, e por isso, quando o homem, pela vergonha, teme da honra, ao recorrerem os humores e os espíritos às partes exteriores, o homem enrubesce. Assim, pois, fica claro que tanto a vergonha quanto o temor da morte são coisas corporais, enquanto têm anexa uma transmutação corporal, o que parece pertencer mais à paixão do que ao hábito. E assim fica claro que a vergonha não é virtude.

871. Em seguida, quando diz: non omni utique aetati etc., mostra qual é o sujeito conveniente da vergonha.

E primeiro mostra a que idade convém;

segundo mostra a que condição, ali: pois nem os estudiosos etc.

Acerca do primeiro faz três coisas.

Primeiro propõe o que pretende, a saber, que a paixão do pudor não convém a toda idade, mas à juvenil.

872. Segundo, ali: pois julgamos etc., prova que o pudor convém à idade juvenil. E isto de dois modos.

De um modo, pela propriedade da juventude, a saber, porque os jovens, por causa do fervor da idade, vivem segundo as paixões e por isso estão propensos a pecar de muitas maneiras; e disto são refreados pelo pudor, pelo qual temem a torpeza, e por isso o pudor convém aos jovens.

De outro modo prova o mesmo pelo costume humano; pois estamos acostumados a louvar os jovens que têm pudor.

873. Terceiro, ali: mas ninguém o velho etc., mostra que a outra idade, a saber, a senil, não convém o pudor. E diz que ninguém louva o velho por ser pudico, porque julgamos que não convém que ele pratique algo de torpe, pelo qual costuma haver o pudor, tanto porque, pela longitude do tempo, os reputamos experimentados, quanto porque, cessando o fervor da idade, reputamos que, por causa da paixão, não deve praticar nada de torpe.

874. Depois, quando diz: pois nem os estudiosos etc., mostra a que condição dos homens compete ou não compete o pudor.

E acerca disto faz duas coisas:

primeiro mostra que não compete ao virtuoso;

segundo exclui certas cavilações contra o proposto, ali: pois se estas coisas por um lado etc.

Diz, portanto, primeiro que o pudor não pertence ao virtuoso. Pois o pudor é a respeito das coisas depravadas; mas o virtuoso não pratica coisas depravadas, porque a virtude é a que torna bom aquele que a possui e torna boa a sua obra; portanto, o pudor não compete ao virtuoso.

875. Depois, quando diz: pois se estas coisas etc., exclui três objeções contra o que foi dito.

A primeira delas é que alguém poderia dizer que o pudor não é somente acerca daquelas coisas que são torpes segundo a verdade, as quais são contrárias à virtude, mas também acerca daquelas que são torpes segundo a opinião.

876. Mas ele mesmo diz que nada difere para o proposto, porque nenhuma das duas coisas deve ser praticada pelo virtuoso, a saber, nem as torpes segundo a verdade nem as torpes segundo a opinião, e por isso não incumbe ao virtuoso envergonhar-se de algo. Mas isto pertence ao depravado, ser tal que pratique algo de torpe ou segundo a verdade ou segundo a opinião.

877. Põe a segunda objeção ali: mas estar assim disposto para as coisas torpes etc. Pois alguém poderia dizer que, embora o virtuoso não tenha nada de que se envergonhe, está, todavia, disposto de tal modo que, se praticasse algo de tal gênero, disto se envergonharia. Se, portanto, por causa disto alguém julgasse que o pudor competisse ao estudioso, prova que isto é inconveniente de dois modos.

878. Primeiro, porque o pudor, propriamente falando, não olha senão para os defeitos voluntários, aos quais é devido o vitupério; mas repugna à virtude que alguém pratique voluntariamente o mal; portanto, não lhe compete o pudor pela razão referida. Seria de outro modo, porém, se o pudor fosse daquelas coisas que podem acontecer involuntariamente, como a doença acontece involuntariamente ao homem; donde, ao virtuoso, mesmo são, pode competir cuidar de um médico por causa da enfermidade que poderia acontecer.

879. Segundo, exclui a referida objeção, ali: ora, seria certamente etc. E diz que, segundo a referida objeção, o pudor seria algo virtuoso por suposição, a saber, porque o virtuoso se envergonharia se praticasse coisas torpes. Isto, porém, não é daquelas coisas que propriamente convêm aos virtuosos; antes, convêm-lhes absolutamente, como é patente acerca de todas as virtudes. Donde resta que o pudor não convém propriamente ao virtuoso.

880. Põe a terceira objeção ali: mas se a desvergonha etc. Pois alguém poderia concluir que, porque a desvergonha e o não se envergonhar de uma operação torpe é algo depravado, por causa disto o envergonhar-se seja virtuoso.

881. Mas ele mesmo diz que isto não é necessário, porque ambas as coisas, a saber, tanto o pudor quanto a desvergonha, supõem uma operação torpe, que não compete ao virtuoso; suposta, todavia, esta, é mais conveniente que alguém a despreze pelo pudor do que não se importe com ela pela desvergonha. Disto também aparece que o pudor não é uma virtude, pois, se fosse virtude, estaria no virtuoso.

882. Deve-se, porém, atentar que acima pôs uma paixão louvável, a saber, a nêmesis, da qual aqui não faz menção porque não é sua intenção determinar aqui acerca destas paixões. Pois isto pertence antes à retórica, como é patente no livro II da Retórica. Donde, nem aqui determinou acerca do pudor senão mostrando que ele não é uma virtude, e resta que o mesmo deve ser entendido acerca da nêmesis.

883. Depois, quando diz: ora, não é etc., aduz algo semelhante acerca da continência, a qual, embora seja louvável, não é uma virtude, mas tem algo de virtude misturado; pois o continente segue a razão reta, o que pertence à virtude, sofre, todavia, concupiscências depravadas veementes, o que pertence ao defeito da virtude; e destas coisas se falará abaixo, no livro VII. Aduz, porém, de modo bastante conveniente, a semelhança acerca da continência, porque o pudor é máximamente requerido onde abundam as paixões depravadas, o que convém aos continentes, como foi dito.

884. Por último, faz a conexão com o que se segue, dizendo que se deve tratar, em seguida, da justiça. E nisto se termina a sentença do quarto livro.