Lição 1
Liberality
Falemos, a seguir, da liberalidade. [649]
Com efeito, ela parece ser uma mediania a respeito das riquezas; pois o liberal é louvado não nas coisas bélicas, nem naquelas em que o temperante é louvado, nem tampouco nos juízos, mas a respeito da doação e da tomada de dinheiro, e mais na doação. [651]
Chamamos dinheiro tudo aquilo cujo valor se mede pela moeda. [653]
Ora, tanto a prodigalidade quanto a avareza são, a respeito do dinheiro, uma superabundância e um defeito. [654]
A avareza atribuímo-la sempre àqueles que se esforçam pelo dinheiro mais do que é preciso. [655]
Já a prodigalidade a imputamos por vezes, abrangendo com ela os homens intemperantes; pois chamamos pródigos aos incontinentes e aos que se consomem na intemperança. Por isso também parecem ser péssimos, pois têm ao mesmo tempo muitas malícias. Não são, porém, chamados propriamente assim; pois pródigo quer ser aquele que tem um único mal, o de corromper o próprio patrimônio. Pois pródigo é aquele que se arruína por si mesmo; e a dissipação do próprio patrimônio parece ser uma espécie de ruína de si mesmo, visto que se vive por meio dele. É assim, pois, que entendemos a prodigalidade. [656]
Daquelas coisas que têm alguma utilidade, é possível usar bem e mal; ora, as riquezas estão entre as coisas úteis; e cada um usa otimamente daquilo em torno do qual possui a virtude particular; e das riquezas usará otimamente aquele que possui a virtude a respeito do dinheiro; ora, este é o liberal. [658]
O uso do dinheiro parece consistir no gasto e na doação, ao passo que a aceitação e a guarda são mais propriamente a posse. [659]
Por isso é mais próprio do liberal dar a quem é preciso do que receber donde é preciso e não receber donde não é preciso. [660]
Pois é mais próprio da virtude fazer o bem do que recebê-lo, e realizar boas ações do que não realizar as torpes. Ora, não é obscuro que ao dar seguem-se o fazer o bem e o bem operar, ao passo que ao receber segue-se o receber bem ou o não operar torpemente. [661]
E a gratidão é devida a quem dá, não a quem recebe ou não recebe, e o louvor ainda mais. [662]
É também mais fácil não receber do que dar; pois as pessoas mais facilmente deixam de emitir o que é próprio do que de receber o que é alheio. [663]
Mas são chamados liberais os que dão; já os que não recebem não são louvados pela liberalidade, mas não menos pela justiça; e os que recebem nem sequer são muito louvados. [664]
Dentre aqueles que possuem a virtude, os liberais são os mais amados, pois são úteis: e isto está na doação. [665]
649. Falemos, a seguir, da liberalidade etc. Depois que o Filósofo tratou da fortaleza e da temperança, que respeitam aquilo pelo qual se conserva a própria vida do homem, começa aqui a tratar das outras medianias, que respeitam certos bens ou males secundários.
E primeiro trata das medianias louváveis que são virtudes;
segundo, daquelas que não são virtudes, mas paixões, em: quanto ao pudor etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, trata das virtudes que respeitam as coisas exteriores;
segundo, das virtudes que pertencem aos atos humanos, em: nas conversações e no convívio etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, trata das virtudes que respeitam os bens exteriores;
segundo, da virtude da mansidão, que respeita os males exteriores, em: a mansidão é uma certa mediania etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, trata das virtudes que respeitam as riquezas;
segundo, daquelas que respeitam as honras, em: a magnanimidade etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, trata da liberalidade;
segundo, da magnificência, em: parece ser consequente etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, investiga a matéria da liberalidade e dos vícios opostos;
segundo, determina os atos deles a respeito da matéria própria, em: daquelas coisas que têm alguma utilidade etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra que a liberalidade diz respeito ao dinheiro;
segundo, mostra que os vícios opostos versam sobre a mesma matéria, em: ora, tanto a prodigalidade etc.
Acerca do primeiro, faz três coisas:
primeiro, diz sobre o que é sua intenção;
segundo, mostra a matéria da liberalidade, em: com efeito, ela parece ser etc.;
terceiro, expõe o que havia dito, em: chamamos dinheiro etc.
650. Diz, pois, primeiramente que, depois da temperança, deve-se falar da liberalidade. E isto por causa da conveniência da liberalidade com a temperança; pois, assim como a temperança modera as concupiscências dos prazeres do tato, assim a liberalidade modera a cobiça de adquirir ou de possuir as coisas exteriores.
651. Depois, quando diz: com efeito, ela parece ser etc., mostra qual é a matéria da liberalidade. E diz que é uma certa mediania a respeito do dinheiro, como claramente se manifesta, ou seja, pelo fato de o liberal ser louvado não nas coisas bélicas, a respeito das quais versa a fortaleza, nem nos prazeres do tato, a respeito dos quais versa a temperança, nem tampouco nos juízos, a respeito dos quais versa a justiça, mas ser louvado na doação e na tomada, isto é, na aceitação, do dinheiro, mais, contudo, na doação do que na aceitação, como se mostrará adiante.
652. Deve-se, todavia, considerar que algo pode ser chamado matéria da virtude moral de dois modos:
de um modo, como matéria próxima, e deste modo as paixões são matéria da maior parte das virtudes morais;
de outro modo, como matéria remota, e deste modo os objetos das paixões são postos como matérias.
Assim como a matéria próxima da fortaleza é o temor e a audácia, e a matéria remota são os perigos de morte; e a matéria próxima da temperança são as concupiscências e os prazeres, e a matéria remota os alimentos e o ato venéreo. Assim, pois, também a matéria próxima da liberalidade é a cobiça ou o amor do dinheiro, e a matéria remota é o próprio dinheiro.
653. Depois, quando diz: chamamos dinheiro etc., expõe o que se entende pelo nome de dinheiro. E diz que pelo nome de dinheiro se significam todas aquelas coisas cujo valor devido pode ser medido pela moeda, como o cavalo, a veste, a casa e tudo aquilo que pode ser avaliado em moedas; porque dar ou receber estas coisas é o mesmo que dar ou receber dinheiro.
654. Depois, quando diz: ora, tanto a prodigalidade etc., mostra de que modo, a respeito da referida matéria, há também vícios opostos à liberalidade.
E a respeito disto faz três coisas.
Primeiro, propõe em comum aquilo que pretende. E diz que também a respeito do dinheiro se comportam segundo a superabundância e o defeito a prodigalidade e a avareza. Pois o meio e os extremos versam sobre o mesmo; por isso, como a prodigalidade e a avareza são os extremos da liberalidade, segue-se que também elas versam sobre o dinheiro.
655. Em segundo lugar, em: a avareza, na verdade etc., mostra especialmente a respeito da avareza que sempre a associamos, isto é, a atribuímos, àqueles que se empenham, isto é, se preocupam, em adquirir ou conservar o dinheiro mais do que é preciso.
656. Em terceiro lugar, em: a prodigalidade, porém etc., mostra de que modo a prodigalidade versa sobre o dinheiro. E diz que às vezes estendemos o nome de prodigalidade, atribuindo-o aos homens intemperantes; pois às vezes chamamos pródigos àqueles que vivem incontinentemente e consomem suas riquezas na intemperança, seja de comidas, seja de prazeres sexuais. Por isso, tais homens parecem ser os piores neste gênero, porque têm ao mesmo tempo muitos vícios, isto é, a intemperança e a prodigalidade. E embora às vezes tais homens sejam chamados pródigos, o nome de intemperança, contudo, lhes convém propriamente; porque o nome de pródigo foi imposto para significar um único vício que consiste na indevida corrupção ou consumo da substância, isto é, das próprias riquezas. E isto ele prova a partir do próprio nome de prodigalidade: pois pródigo se diz como que perdido, na medida em que o homem, ao corromper as próprias riquezas pelas quais deve viver, parece destruir o seu ser, que se conserva pelas riquezas;
657. mas é preciso que isto lhe convenha por si mesmo, porque cada coisa tem a espécie e a denominação daquilo que lhe convém por si; portanto, aquele verdadeiramente se diz pródigo a quem por si convém consumir suas riquezas, como que não tendo o devido cuidado com elas, ao passo que aquele que consome sua substância por causa de outra coisa, por exemplo, por causa da intemperança, não é por si consumidor das riquezas, mas é por si intemperante; pois às vezes acontece que também homens ávidos e apegados, por causa da força da concupiscência, consumam seus bens. Assim, pois, falamos agora da prodigalidade, ou seja, enquanto alguns consomem as próprias riquezas por si mesmas e não por causa de outra coisa.
658. Em seguida, quando diz: daquelas coisas, porém, das quais há alguma utilidade etc., mostra de que modo a liberalidade e os vícios opostos operam a respeito da mencionada matéria.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, trata do liberal;
segundo, do pródigo, em: aquele, porém, que superabunda etc.;
terceiro, do avarento, em: a avareza, porém etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro, trata do ato da liberalidade;
segundo, expõe algumas propriedades dela, em: o liberal, porém, é veementemente etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra qual seja o ato principal da liberalidade;
segundo, mostra qual ele deve ser, em: as operações, porém, que são segundo a virtude etc.
A respeito do primeiro faz três coisas.
Primeiro, mostra que o ato da liberalidade é o bom uso do dinheiro, por tal razão. Todas as coisas que são úteis para algo, delas se pode usar bem ou mal; ora, as riquezas são buscadas como úteis para outra coisa; logo, delas se pode usar bem ou mal; ora, se de algumas coisas se pode usar bem, o bom uso dessas coisas pertence à virtude que versa sobre elas; logo, usar bem do dinheiro pertence à liberalidade, que versa sobre o dinheiro, como se mostrou acima.
659. Em segundo lugar, em: o uso, porém etc., mostra qual seja o uso do dinheiro. E diz que o uso do dinheiro consiste em desembolsá-lo, o que se faz mediante o pagamento de despesas e mediante doações, mas receber ou guardar o dinheiro não é usar do dinheiro, e sim possuí-lo. Pois pela recepção do dinheiro adquire-se a sua posse, e pela guarda ele se conserva; com efeito, a recepção é como uma certa geração do dinheiro, ao passo que a guarda é como uma certa retenção habitual; ora, o uso não designa a geração nem o hábito, mas o ato.
660. Em terceiro lugar, em: por causa disso etc., infere uma conclusão do que foi dito.
E primeiro a expõe, concluindo do que precede que mais pertence ao liberal dar o dinheiro a quem é preciso, o que é usar bem dele, do que recebê-lo de onde é preciso, o que pertence à devida geração do dinheiro, e não recebê-lo de onde não é preciso, o que pertence à remoção do contrário.
661. Em segundo lugar, em: pois, mais, da virtude etc., confirma a conclusão apresentada com cinco razões,
das quais a primeira é esta. Mais pertence à virtude fazer o bem do que recebê-lo, porque fazer o bem é melhor e mais difícil; igualmente, também mais pertence à virtude operar bem do que abster-se de uma operação torpe, porque o afastamento do termo é o princípio do movimento, ao qual se assemelha o evitar a operação torpe, ao passo que a operação do bem se assemelha à chegada ao termo, que aperfeiçoa o movimento. Ora, é manifesto que, pelo fato de alguém dar, faz o bem e opera bem; ao receber, isto é, à recepção, porém, pertence receber bem, na medida em que alguém recebe de onde é preciso, ou não operar torpemente, na medida em que alguém não recebe de onde não é preciso. Logo, segue-se que à virtude da liberalidade mais pertence dar bem do que receber bem ou abster-se de uma má recepção.
662. A segunda razão expõe em: e o agradecimento ao que dá etc. E é esta. À operação da virtude devem-se o louvor e a ação de graças; ora, ambas as coisas mais se devem ao que dá do que ao que recebe bem ou não recebe mal; logo, a virtude da liberalidade consiste mais em dar do que em receber.
663. A terceira razão expõe em: e é mais fácil, porém etc. E é esta. A virtude versa sobre o difícil; ora, é mais fácil que alguém não receba o alheio do que dê o que é seu, porque, quando alguém dá aquilo que lhe é próprio, como que corta de si aquilo que lhe está incorporado; logo, a virtude da liberalidade versa mais sobre a doação do que sobre a recepção.
664. A quarta razão expõe em: mas também são chamados liberais etc. E ela se toma do modo comum de falar. Pois são chamados sobretudo liberais aqueles que dão; já aqueles que não recebem desordenadamente não são muito louvados pela liberalidade, mas antes pela justiça; e aqueles que recebem não são muito louvados; logo, a liberalidade parece versar sobretudo sobre as doações.
665. A quinta razão expõe em: são amados, porém, sobretudo etc. E é esta. Entre todos os virtuosos, os liberais são amados sobretudo, não, na verdade, com a amizade do honesto, como se a liberalidade fosse a maior virtude, mas com a amizade do útil, na medida em que são úteis aos outros; e são úteis por isto, que dão; logo, a liberalidade consiste sobretudo nas doações.