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Lição 7

Friendship Between Unequals

Há, porém, outra espécie de amizade que se dá segundo a superabundância, como a do pai para com o filho e, de modo geral, a do mais velho para com o mais novo, a do marido para com a esposa e a de todo aquele que comanda para com o comandado. [1625]

Ora, essas amizades diferem entre si; pois não é a mesma a dos pais para com os filhos e a dos que comandam para com os comandados, mas tampouco a do pai para com o filho e a do filho para com o pai, nem a do marido para com a esposa e a da esposa para com o marido. [1626]

Com efeito, diversa é a virtude e a obra de cada um deles. [1627]

Diversas são também as razões pelas quais amam; logo, diversos são também os amores e as amizades. [1628]

Certamente as mesmas coisas não são feitas por cada um a cada um, nem se deve buscá-las. Quando, porém, os filhos retribuem aos pais o que se deve aos que os geraram, e os pais aos filhos o que se deve aos filhos, permanente e virtuosa será a amizade de tais pessoas. [1629]

Ora, em todas as amizades que existem segundo a superabundância é preciso que também o amor se faça de modo análogo, como, por exemplo, que o melhor seja mais amado do que ama, e assim também o mais útil e cada um dos demais de modo semelhante. Pois, quando o amor se faz segundo a dignidade, então se estabelece de algum modo uma igualdade, o que parece de fato pertencer à amizade. [1630]

Não parece, porém, que o igual se dê do mesmo modo no que é justo e na amizade. Pois, no que é justo, o igual é em primeiro lugar o que é segundo a dignidade, e em segundo lugar o que é segundo a quantidade; na amizade, ao contrário, o que é segundo a quantidade vem em primeiro lugar, e o que é segundo a dignidade em segundo lugar. [1631]

E isso é manifesto, se houver grande distância de virtude ou de malícia ou de qualquer outra coisa; pois então já não são amigos, nem mesmo o julgam digno. [1633]

Isso, porém, é manifestíssimo no caso dos deuses; pois estes superexcedem ao máximo em todos os bens. É manifesto também no caso dos reis; pois não julgam dignos de ser seus amigos os que lhes são muito inferiores. Nem os melhores ou os mais sábios têm por amigos os que de nada são dignos. [1634]

Em tais casos, pois, não há uma definição precisa de até que ponto são amigos; pois, subtraídas muitas coisas, a amizade ainda permanece, mas, estando muito separados, como de Deus, já não permanece. [1635]

Donde também se duvida se porventura os amigos não queiram para os amigos os maiores dos bens, como, por exemplo, que sejam deuses. Pois então já não serão amigos deles, nem mesmo lhes serão bens, uma vez que os amigos são bens. [1636]

Se, pois, foi bem dito que o amigo quer os bens para o amigo por amor deste, é preciso que ele permaneça tal qual é; ora, a ele, sendo homem, quererá que sejam os maiores bens. Talvez, porém, não acima de todos; pois cada um quer os bens para si mesmo ao máximo. [1637-1638]

1624. Altera autem est amicitiae species etc. Depois que o Filósofo distinguiu as espécies de amizade que consistem na igualdade, aqui distingue as espécies de amizade que se dão entre pessoas desiguais.

E a respeito disso faz duas coisas:

primeiro, determina aquilo que em comum pertence à distinção de tais amizades;

em segundo lugar, determina a distinção dessas amizades segundo as suas noções particulares, em: videtur autem quemadmodum etc.

A respeito do primeiro faz duas coisas:

primeiro, trata das amizades do que superexcede para com o superexcedido, como a do pai para com o filho, a do marido para com a esposa e coisas semelhantes;

em segundo lugar, trata das amizades que parecem existir entre contrários, como entre o pobre e o rico, e coisas semelhantes, em: ex contrariis autem etc.

A respeito do primeiro faz três coisas:

primeiro, distingue esse gênero de amizade das amizades precedentes;

em segundo lugar, distingue essas amizades entre si, em: differunt autem etc.;

em terceiro lugar, mostra como tais amizades se conservam, em: eadem quidem utique etc.

1625. Diz, pois, primeiro que, além das referidas amizades, que dissemos consistir na igualdade por serem de semelhantes segundo a virtude ou a utilidade ou o deleite, há uma certa outra espécie de amizade que se dá segundo a superabundância, na medida em que uma pessoa excede a outra, como a amizade que é do pai para com o filho e, universalmente, do mais velho para com o mais novo, e do marido para com a esposa, e, universalmente, de todo aquele que tem comando sobre alguém para com aquele sobre quem tem comando.

1626. Em seguida, quando diz: differunt autem etc., mostra a diferença dessas amizades entre si.

E primeiro propõe o que pretende.

E diz que tais amizades diferem em espécie entre si, e aponta duas diferenças: uma, segundo as diversas relações de superabundância,

pois uma é a espécie de amizade do pai para com os filhos e outra a do que comanda para com os súditos que comanda; a outra diferença, porém, se dá segundo a diversa relação do que excede e do excedido, pois não é a mesma a amizade do pai para com o filho e a do filho para com o pai, nem também é a mesma a do marido para com a esposa e a da esposa para com o marido.

1627. Em segundo lugar, em altera enim etc., mostra o proposto com duas razões.

A primeira delas é que, uma vez que a amizade se diz segundo o hábito e segundo o ato, é necessário que a cada amigo esteja presente alguma virtude habitual para executar as coisas que são da amizade e também a própria obra da amizade; ora, é manifesto, em cada uma das pessoas referidas, que não é a mesma obra, como, por exemplo, a do pai para com o filho e a do marido para com a esposa, ou também a do filho para com o pai, e, por conseguinte, não é a mesma virtude; logo, também são diversas as amizades.

1628. A segunda razão ele expõe em altera autem etc. E é esta: nas referidas amizades encontram-se diversas razões pelas quais amam, pois por uma razão o pai ama o filho, e o filho o pai, e o marido a esposa; ora, segundo as diversas razões de amar, são diversos os amores e, por conseguinte, diversas as amizades.

1629. Em seguida, quando diz: eadem quidem etc., mostra como as referidas amizades se conservam.

E primeiro mostra que se conservam por isto: que mutuamente se prestam um ao outro o que é preciso segundo o amar e o ser amado;

em segundo lugar, mostra como o amar e o ser amado se relacionam com a amizade, em: multi autem videntur etc.

Acerca do primeiro, faz três coisas;

primeiro mostra como as amizades sobreditas se conservam pelo fato de que mutuamente oferecem um ao outro aquilo que é preciso;

segundo mostra que essas coisas são consideradas segundo a analogia, ali: o proporcional, porém etc.;

terceiro mostra como isto compete de modo diverso à justiça e à amizade, ali: não do mesmo modo, porém etc.

Diz, portanto, primeiro que nessas amizades não se fazem as mesmas coisas de ambas as partes dos amigos, nem tampouco é preciso requerer as mesmas coisas que alguém faz. Assim como o filho não deve requerer do pai a reverência que a ele mostra, tal como nas amizades sobreditas se requeria deleite em troca de deleite e utilidade em troca de utilidade; mas quando os filhos oferecem aos pais aquilo que é preciso oferecer aos princípios de sua geração, e os pais oferecem aos filhos aquilo que é preciso oferecer aos por si gerados, então a amizade de tais será permanente e epiikes, isto é, virtuosa.

1630. Depois, quando diz: o proporcional, porém etc., mostra de que modo se ofereça o que é preciso nessas amizades. E diz que em todas as amizades que são segundo a superabundância de uma pessoa em relação a outra, é preciso que o amar se faça segundo a proporção, isto é, que o melhor seja amado mais do que ame, e razão semelhante vale para o mais útil e o mais deleitável, ou de qualquer outro modo mais excelente. Pois, sendo cada um amado segundo a dignidade, então se fará certa igualdade, a saber, de proporção, a qual parece pertencer à amizade.

1631. Depois, quando diz: não do mesmo modo, porém etc., mostra como isto convém de modo diverso à justiça e à amizade.

E primeiro estabelece a diferença;

segundo manifesta por um sinal, ali: é manifesto, porém etc.;

terceiro resolve certa dúvida, ali: e daí se duvida etc.

Diz, portanto, primeiro que a igualdade e a proporção que se consideram segundo a dignidade não se comportam do mesmo modo na justiça e na amizade. Pois, como foi dito acima no quinto livro, acerca da justiça é preciso que primeiro se considere ou se estime a dignidade segundo a proporção, e então se faça a comutação segundo a igualdade; mas na amizade é preciso, ao contrário, que primeiro se considere certa igualdade entre as pessoas que mutuamente se amam, e em segundo lugar se ofereça a cada uma aquilo que é segundo a dignidade.

1632. E a razão dessa diversidade é que a amizade é certa união ou sociedade de amigos, a qual não pode existir entre os que estão muito distantes, mas é preciso que se aproximem da igualdade; donde à amizade pertence usar de algum modo da igualdade já constituída, mas à justiça pertence reduzir à igualdade as coisas desiguais, e, existindo a igualdade, cessa a obra da justiça; e por isso a igualdade é o último na justiça, mas o primeiro na amizade.

1633. Depois, quando diz: é manifesto, porém etc., manifesta por um sinal o que havia dito.

E acerca disto faz três coisas.

Primeiro propõe o sinal e diz que aquilo que foi dito, a saber, que a igualdade se requer primeiro na amizade, é manifesto pelo fato de que, se houver muita distância seja de virtude, seja de malícia, seja de qualquer outra coisa, os homens não permanecem amigos, nem tampouco se reputa digno que alguns tenham amizade com aqueles que muito distam deles.

1634. Segundo, ali: é manifestíssimo, porém etc., estabelece um tríplice exemplo.

O primeiro, de fato, acerca dos deuses, que sobre-excedem em muitíssimo os homens em todos os bens, donde não têm amizade com os homens, de modo a conversar e conviver com eles; ora, chama deuses, ao modo dos gentios, às substâncias separadas.

Põe o segundo exemplo acerca dos reis, de cuja amizade não se reputam dignos aqueles que muito deles ficam aquém.

Põe o terceiro exemplo acerca dos homens ótimos e sapientíssimos, dos quais não se tornam amigos aqueles que são de todo indignos.

1635. Terceiro, ali: certo, decerto etc., responde a uma questão tácita. Pois poderia alguém perguntar em quão grande distância a amizade pode ser preservada e em quão grande não. Mas ele mesmo responde que em tais coisas não se pode dar uma determinação certa, mas basta saber isto em geral: que, tiradas de um muitas coisas que existem no outro, ainda permanece a amizade; e, se muito distarem, como, por exemplo, os homens em relação a Deus, já não permanece tal amizade da qual falamos.

1636. Depois, quando diz: donde também se duvida etc., resolve certa dúvida incidente.

E primeiro a levanta. E diz que, do que foi dito, se duvida se os amigos querem para seus amigos os máximos bens, por exemplo, que sejam deuses ou reis ou virtuosíssimos. E parece que não, porque então já não permanecerão amigos deles, e assim eles mesmos perderão grandes bens, a saber, os próprios amigos.

1637. Segundo, ali: se, portanto etc., resolve a sobredita dúvida de dois modos.

Primeiro, de fato, porque, tendo-se dito acima que o amigo quer bens ao amigo por causa dele, é preciso supor que, tendo ele obtido aqueles bens, ele próprio permaneça tal qual é; pois o amigo quer os máximos bens ao amigo enquanto homem existente, não enquanto transladado aos deuses.

1638. Põe a segunda solução ali: mas talvez etc. E diz que o amigo quer bens ao amigo não mais do que a todos os outros, porque cada um quer sobretudo bens para si mesmo, donde não é preciso que queira ao amigo aqueles bens pelos quais ele próprio perderá o amigo, o que é um grande bem.