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Lição 14

Fortitude

Que a fortaleza, portanto, é meio-termo acerca dos temores e das audácias, já antes foi dito. [528]

Ora, tememos as coisas terríveis. E estas são, para dizê-lo absolutamente, males. Por isso também definem o temor como expectativa do mal. Tememos, portanto, todos os males, como a má reputação, a pobreza, a doença, a inimizade, a morte. [530]

Pois não parece que o forte se ocupe de todos os males. [532]

Pois algumas coisas é preciso temer, e isso é bom, e não temer outras é mau; por exemplo, a má reputação: quem a teme é decente e recatado, quem não a teme é sem-vergonha. E este é dito por alguns forte por metáfora, pois tem algo de semelhante ao forte, visto que é impávido, como também o forte o é. [533]

Ora, a pobreza talvez não se deva temer, nem a doença, nem, universalmente, quaisquer coisas que não provêm da malícia nem de si próprio. Mas nem sequer quem é impávido acerca destas coisas é forte; e a este também o dizemos por semelhança, pois alguns, sendo tímidos nos perigos da guerra, são liberais e comportam-se com boa ousadia no gastar dinheiro. [534]

Nem tampouco, se alguém teme a injúria aos filhos ou à esposa, ou a inveja, ou algo semelhante, é tímido; nem, se ousa ser açoitado, é forte. [535]

Com que tipo de coisas terríveis, pois, se ocupa o forte? Acaso com as máximas? Pois ninguém suporta mais os perigos do que ele. Ora, a coisa mais terrível é a morte, pois é o fim, e nada mais parece existir para os mortos, nem bem nem mal. [536]

Não parecerá, porém, que o forte se ocupe da morte que ocorre em toda circunstância, como no mar ou nas doenças. Em quais, então? Acaso nas melhores? E tais são as que ocorrem na guerra. [537]

Pois é no máximo e ótimo perigo. [538]

E concordes com estas coisas são também as honras nas cidades e junto às monarquias. [539]

Principalmente, porém, será dito forte quem é impávido diante de uma boa morte e de tudo o que, sobrevindo de repente, traz a morte. E tais coisas são sobretudo as que se dão na guerra. [540]

Mas, além disso, também no mar e nas doenças é destemido quem é forte. Não, porém, do mesmo modo que os marinheiros; pois estes desesperam da salvação e desprezam tal morte, ao passo que aqueles têm boa esperança por causa da experiência. [541]

E semelhantemente agem com virilidade naquelas circunstâncias em que há fortaleza ou em que é bom morrer. Mas em tais formas de morte não existe nenhuma das duas coisas. [542]

528. Que a fortaleza, portanto, é meio-termo etc. Depois que o Filósofo tratou das virtudes morais em geral, aqui começa a tratar de cada uma em particular.

E primeiro trata das virtudes que se ocupam das paixões interiores;

segundo, da justiça, que se ocupa das operações exteriores, no livro V, em: quanto à justiça e à injustiça etc.

Ora, a primeira parte divide-se em duas partes:

na primeira, trata das virtudes morais que se ocupam das principais paixões que dizem respeito à própria vida do homem;

segundo, trata das virtudes morais que se ocupam de certas paixões secundárias que dizem respeito aos bens exteriores do homem, no livro IV, em: digamos, pois, em seguida etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, trata da fortaleza, que se ocupa das paixões que dizem respeito às coisas destrutivas da vida humana;

segundo, trata da temperança, que se ocupa das paixões que dizem respeito àquelas coisas pelas quais a vida humana se conserva, a saber, os alimentos e os prazeres sexuais, em: depois disto, sobre a temperança etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro, investiga a matéria da fortaleza;

segundo, determina o modo de sua operação, em: mas o terrível não é o mesmo em todas as coisas etc.;

terceiro, determina algumas propriedades da virtude, em: mas quanto às audácias e aos temores etc.

Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas:

primeiro, retoma o que ficou manifesto pelas premissas sobre a matéria da fortaleza, isto é, acerca de quais paixões ela se ocupa;

segundo, investiga os objetos daquelas paixões enquanto a fortaleza se ocupa delas, em: mas tememos etc.

529. Diz, portanto, que já foi dito acima, no livro II, que a fortaleza é uma certa mediania acerca dos temores e das audácias. Pois a fortaleza implica uma certa firmeza da alma pela qual a alma permanece imóvel diante dos temores dos perigos.

530. Depois, quando diz: mas tememos etc., investiga os objetos das paixões mencionadas segundo o modo pelo qual a fortaleza se ocupa delas, e especialmente da parte do temor, com o qual a fortaleza principalmente se ocupa, como se dirá adiante: ora, os objetos do temor e da audácia são os mesmos, pois aquilo mesmo que alguém foge por temor, outro ataca por audácia.

Acerca disto, portanto, faz três coisas:

primeiro, mostra quais sejam os objetos do temor;

segundo, mostra acerca de que gênero destes se ocupa a fortaleza, a saber, acerca do temor da morte, em: pois não acerca de todas as coisas etc.;

terceiro, mostra em especial acerca do temor de qual morte se ocupa a fortaleza, em: mas parecerá certamente etc.

531. Diz, portanto, primeiro que as coisas terríveis são aquelas que tememos, como que objetos do temor. Ora, deste gênero são, para dizê-lo universalmente, quaisquer males. Por isso também os filósofos definem o temor dizendo que é a expectativa do mal. E toma-se aqui a expectativa de modo comum, por qualquer movimento do apetite em direção a algo futuro, embora, contudo, a expectativa, propriamente falando, não seja senão do bem, assim como também não o é a esperança. É manifesto, portanto, que todos tememos alguns males, como a má opinião, isto é, a infâmia, que se opõe à honestidade; a carência, isto é, a pobreza, que se opõe aos bens da fortuna exterior; a enfermidade, a inimizade e a morte, que se opõem aos bens pessoais.

532. Depois, quando diz: pois não acerca de todas as coisas etc., mostra acerca do temor de quais males se ocupa a fortaleza.

E primeiro mostra acerca de quais não se ocupa;

segundo, conclui acerca de quais se ocupa, em: acerca de quais coisas terríveis, portanto etc.

Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas.

Primeiro, propõe o que pretende, a saber, que a fortaleza não parece ocupar-se do temor de todos os males.

533. Segundo, em: pois algumas coisas etc., prova o que se propõe.

E primeiro que a fortaleza não se ocupa do temor da infâmia. Pois o forte é louvado por não temer. Mas há certas coisas que é preciso temer para viver bem, e é bom temê-las, isto é, enquanto o próprio temor não só é necessário para conservar a honestidade, mas o próprio temor é também algo honesto; ao passo que o não temer tais males é um certo mal desonesto; como fica patente a respeito da infâmia, pois quem a teme é louvado como decente, isto é, comedido nos costumes, e pudico, ao passo que aquele que não teme tal mal é censurado como impudico. Logo, fica patente que a fortaleza não se ocupa do temor de tais males. Contudo, às vezes aquele que não teme a infâmia é por alguns chamado, metaforicamente, de forte; o qual se assemelha ao forte enquanto é impávido.

534. Segundo, em: mas a carência etc., mostra que a fortaleza não se ocupa do temor da pobreza. E diz que a pobreza não se deve temer como se dizia acerca da infâmia, assim como também não a enfermidade, nem alguma daquelas coisas que não pertencem à malícia do homem, da qual ele próprio é causa. Pois em vão o homem teme aquelas coisas que não pode evitar; portanto, o homem deve temer acerca de tais coisas isto: não incorrer, por sua própria malícia, em alguma delas, porque assim o temor é útil para evitá-las, mas não de outro modo. E, contudo, embora não se deva temer tais coisas, aquele que é impávido acerca delas não é chamado forte, a não ser talvez por semelhança, porque não temer a pobreza parece pertencer a outra virtude, a saber, à liberalidade, por cujo ato alguns são louvados, enquanto ousam audazmente gastar dinheiro, os quais, contudo, nos perigos maiores, a saber, os bélicos, são chamados absolutamente tímidos. Não é, portanto, do temor da carência que se ocupa a fortaleza.

535. Terceiro, em: nem tampouco se alguém etc., mostra que a fortaleza não se ocupa de quaisquer temores dos males pessoais. E diz que o homem não é chamado tímido pelo fato de temer que alguém injurie ou inveje a si mesmo, ou aos filhos, ou à esposa, ou qualquer outra coisa deste gênero; nem tampouco alguém é chamado forte pelo fato de não temer ser açoitado, mas suportar audazmente os açoites, porque estas coisas não são as mais terríveis. Ora, alguém é chamado forte absolutamente pelo fato de ser forte acerca das coisas mais terríveis; ao passo que aquele que em algumas outras coisas é intrépido não é chamado forte absolutamente, mas naquele gênero.

536. Depois, quando diz: acerca de quais coisas certamente etc., mostra acerca do temor de quais males se ocupa a fortaleza. E diz que alguém é chamado absolutamente forte pelo fato de ser intrépido acerca daquelas coisas que são as mais terríveis. Pois a virtude se determina segundo o máximo da potência, como se diz no livro I Do céu; e por isso é preciso que a virtude da fortaleza se ocupe daquelas coisas que são as mais terríveis, de modo que ninguém suporte perigos mais do que o forte. Ora, entre todas as coisas, a mais terrível é a morte. E a razão disto é que ela é o termo de toda a vida presente, e nada, depois da morte, parece ser para o homem bem ou mal dentre aquelas coisas que pertencem à vida presente, que nos são conhecidas, pois aquelas coisas que pertencem ao estado das almas depois da morte não nos são visíveis; ora, é muito terrível aquilo pelo qual o homem perde todos os bens que conhece. Por isso parece que a fortaleza propriamente se ocupa do temor dos perigos da morte.

537. Depois, quando diz: mas parecerá certamente etc., mostra acerca do temor de qual morte se ocupa a fortaleza.

E acerca disto faz duas coisas:

primeiro, mostra acerca de que gênero de morte se ocupa a fortaleza;

segundo, mostra em que ordem ela se comporta também acerca de todos os gêneros de morte, em: mas principalmente etc.

Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas:

primeiro, propõe o que pretende;

segundo, prova o que se propõe, em: pois no maior etc.

Diz, portanto, primeiro que a fortaleza não se ocupa tampouco da morte que alguém suporta em qualquer acaso ou ocupação, como no mar ou na enfermidade, mas da morte que alguém suporta pelas coisas ótimas, como acontece quando alguém morre na guerra em defesa da pátria. E a mesma razão vale para qualquer outra morte que alguém suporta pelo bem da virtude, mas faz menção especial da morte na guerra, porque em tal empreendimento, mais frequentemente, os homens morrem pelo bem.

538. Depois, quando diz: pois no maior etc., prova o que se propõe de duas maneiras.

Primeiro, porque a morte que ocorre na guerra está no maior perigo, pois ali facilmente o homem morre; está também no ótimo perigo, porque tais perigos o homem suporta pelo bem comum, que é o ótimo, como se disse no livro I. Ora, a virtude se ocupa do máximo e do ótimo. Logo, a virtude da fortaleza se ocupa sobretudo da morte que ocorre na guerra.

539. Segundo, em: e são concordes etc., prova o mesmo pelo fato de que aos que morrem por tal morte, ou àqueles que corajosamente se expõem aos perigos de tal morte, são prestadas honras tanto nas cidades, que vivem em comunidade, quanto também nas monarquias, isto é, junto aos reis que dominam sozinhos, porque aos que combatem corajosamente na guerra eram prestadas algumas honras tanto em vida quanto depois da morte. Ora, a honra é o prêmio da virtude. Logo, a virtude da fortaleza é considerada acerca de tal morte.

540. Depois, quando diz: mas principalmente etc., mostra em que ordem se comporta a fortaleza acerca de todos os gêneros de morte.

E primeiro, de que modo se comporta no temer a morte;

segundo, de que modo se comporta na audácia que ocorre acerca de tais perigos, em: e semelhantemente agem virilmente etc.

Acerca do primeiro ponto, faz duas coisas.

Primeiro, mostra acerca de que morte se ocupa principalmente a fortaleza. E diz que alguém é chamado forte principalmente pelo fato de se comportar impavidamente acerca da boa morte, assim como também toda virtude se ordena ao bem, e acerca dos perigos que trazem a morte, sobretudo se forem repentinos; pois naquelas coisas que é preciso realizar de repente mostra-se sobretudo que alguém opera por hábito, ao passo que em outras coisas alguém pode operar, por premeditação, coisas semelhantes àquelas que se fazem por hábito. Ora, são sobretudo tais, isto é, pertencentes ao bem e repentinos, os perigos bélicos. Por isso, o forte é intrépido principalmente acerca destes.

541. Depois, quando diz: mas ainda no mar etc., mostra de que modo o forte se comporta impavidamente acerca das outras mortes. E diz que também, por consequência, tanto no mar quanto nas enfermidades o forte é intrépido, a saber, porque não fica estupefato nem se perturba por causa do temor de tais coisas. Contudo, os fortes são intrépidos no mar de modo diverso dos marinheiros: pois os fortes, ainda que não esperem salvar-se, contudo não temem, desprezando tal morte, pois não se importam tanto com ela a ponto de se comoverem desordenadamente; ao passo que os marinheiros são intrépidos nos perigos do mar enquanto esperam poder escapar bem por causa da experiência.

542. Depois, quando diz: e semelhantemente etc., mostra que a fortaleza não se ocupa principalmente apenas do temor da morte bélica, mas também das audácias de tais perigos. E diz que, semelhantemente, também os fortes agem virilmente atacando os perigos naquelas coisas em que a fortaleza é louvável ou nas quais é bom morrer, como ocorre nas coisas bélicas; pois é bom que o homem exponha a sua vida pelo bem comum. Mas nas mencionadas corrupções, isto é, na morte que ocorre no mar ou na enfermidade, nem a fortaleza é louvável nem da morte segue algum bem. Por isso, atacar audazmente tais perigos não pertence à virtude da fortaleza.