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Lição 5

Understanding and Wisdom

Ora, uma vez que a ciência é uma estimação acerca dos universais e das coisas que são por necessidade, e que há princípios das coisas demonstráveis e de toda a ciência (pois a ciência se dá com razão), do princípio do cognoscível não haverá nem ciência, nem arte, nem prudência. Pois o cognoscível é demonstrável, ao passo que estas versam sobre coisas contingentes, que podem ser de outro modo. Nem tampouco há sabedoria destas coisas; pois é próprio do sábio ter demonstração de certas coisas. Se, pois, aquelas coisas nas quais dizemos o verdadeiro e de modo algum mentimos, acerca das coisas que não podem ou também podem ser de outro modo, são a ciência e a prudência, e a sabedoria e o intelecto, e nenhum destes três pode versar sobre tais princípios (e chamo os três: prudência, ciência, sabedoria), resta, portanto, que o intelecto seja dos princípios. [1175]

Ora, atribuímos a sabedoria, nas artes, às artes mais exatas, como, por exemplo, chamamos Fídias, o escultor em pedra, de sábio, e Policleto, o estatuário. Aqui, pois, nada mais significamos por sabedoria senão que ela é a virtude da arte. [1180]

Julgamos, porém, que alguns são sábios totalmente, não segundo uma parte nem sábios em alguma outra coisa, assim como Homero diz na Margite: A este nem cavador nem lavrador os deuses puseram, nem sábio em qualquer outra coisa. Por isso, é manifesto que a sabedoria será a mais exata das ciências. [1181]

É preciso, pois, que o sábio não apenas saiba as coisas que procedem dos princípios, mas também diga o verdadeiro acerca dos próprios princípios. Por isso, a sabedoria será intelecto e ciência.

1175. Ora, uma vez que a ciência versa sobre os universais etc. Depois que o Filósofo determinou acerca das virtudes intelectuais que aperfeiçoam o intelecto acerca das coisas que procedem dos princípios, aqui determina acerca das virtudes intelectuais que aperfeiçoam o intelecto acerca dos próprios princípios.

E acerca disto faz duas coisas.

E primeiro determina acerca do intelecto, que versa sobre os princípios da demonstração;

segundo determina acerca da sabedoria, que versa sobre os princípios dos entes, ali: a sabedoria, porém, nas artes etc.

Mostra, pois, primeiro que, além das outras virtudes intelectuais, é necessário que haja um intelecto acerca dos princípios da demonstração. Com efeito, a ciência é uma certa estimação acerca dos universais e das coisas que são por necessidade (pois os particulares e os contingentes não podem alcançar a certeza da ciência, porque não são conhecidos senão enquanto caem sob o sentido),

1176. deve-se, em terceiro lugar, considerar acerca da ciência que, das coisas que se demonstram e da própria ciência, que versa sobre as coisas demonstráveis, é necessário que haja certos princípios (o que é patente disto: que a ciência se dá com razão demonstrativa que procede dos princípios às conclusões); porque, pois, assim se comporta acerca da ciência, é necessário que dos princípios da ciência não haja nem ciência, nem arte, nem prudência, das quais já se falou.

1177. Que, porém, destes não haja ciência, é evidente, porque aquilo de que há ciência é demonstrável, ao passo que os primeiros princípios das demonstrações não são demonstráveis, do contrário se procederia ao infinito. E que destes princípios não haja arte ou prudência, é evidente pelo fato de que estas duas virtudes versam sobre aquilo que pode ser de outra maneira, o que não se pode dizer dos princípios da demonstração; é preciso, com efeito, que estes sejam mais certos do que as conclusões, que são por necessidade. Disto também é evidente que destes princípios não pode haver sabedoria, que é outra virtude intelectual da qual se falará depois; pois pertence ao sábio ter demonstração acerca de algumas coisas, isto é, das primeiras causas dos entes, ao passo que os princípios são indemonstráveis, como foi dito.

1178. Se, portanto, as virtudes intelectuais pelas quais assim dizemos o verdadeiro que nelas nunca subjaz a falsidade, seja acerca das coisas necessárias que não podem ser de outra maneira, seja acerca das contingentes, são estes hábitos, a ciência, a prudência sob a qual compreende a arte que também versa sobre as coisas contingentes, e ainda a sabedoria e o intelecto, uma vez que nenhum dos três que são a prudência, a sabedoria e a ciência pode versar sobre os princípios indemonstráveis, como fica evidente pelo que precede, resta que destes princípios haja o intelecto.

1179. Toma-se, porém, aqui o intelecto não pela própria potência intelectiva, mas por um certo hábito pelo qual o homem, em virtude da luz do intelecto agente, conhece naturalmente os princípios indemonstráveis. E o nome é bastante adequado: pois princípios deste gênero são conhecidos imediatamente uma vez conhecidos os termos; conhecido, com efeito, o que é o todo e o que é a parte, sabe-se logo que todo o todo é maior que sua parte; ora, diz-se intelecto ( intellectus ) por aquilo que lê dentro ( intus legit ), intuindo a essência da coisa, donde também no terceiro livro Da alma se diz que o objeto próprio do intelecto é o que a coisa é; e assim convenientemente se denomina intelecto o conhecimento dos princípios que se tornam logo conhecidos uma vez conhecido o que a coisa é acerca dos termos.

1180. Em seguida, quando diz a sabedoria, porém etc., trata da sabedoria.

E primeiro mostra o que é a sabedoria;

segundo infere um certo corolário do que foi dito, ali: é preciso, portanto, que o sábio etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro mostra o que se chama sabedoria tomada em sentido particular

e segundo, a partir disto, o que é a sabedoria em sentido absoluto, ali: que haja, porém, alguns etc.

Diz, portanto, primeiro que, entre as artes, atribuímos o nome de sabedoria às artes mais certas, isto é, àquelas que, conhecendo as primeiras causas no gênero de algum artefato, dirigem as outras artes que versam sobre o mesmo gênero; assim como a arte arquitetônica dirige os que operam manualmente, e segundo este modo dizemos que Fídias foi um sábio lapidário, isto é, cortador de pedras, e Policleto um sábio estatuário, isto é, fazedor de estátuas. Aqui não dizemos que a sabedoria seja outra coisa senão a virtude da arte, isto é, o que há de último e mais perfeito na arte, quando, a saber, alguém atinge aquilo que é o último e mais perfeito na arte: pois isto é a virtude de cada coisa, como se diz no primeiro livro Do céu e do mundo.

1181. Em seguida, quando diz: que haja, porém, alguns etc., mostra o que é a sabedoria dita em sentido absoluto. E diz que, assim como julgamos alguns serem sábios em algum artefato, assim também julgamos alguns serem sábios totalmente, isto é, a respeito de todo o gênero dos entes e não segundo alguma parte, mesmo que não sejam sábios acerca de algum outro artefato, como Homero diz de um certo homem que os deuses o haviam feito não cavador nem arador nem sábio em algum outro artefato particular, mas sábio em sentido absoluto. Donde é manifesto que, assim como aquele que é sábio em algum artefato é o mais certo naquela arte, assim aquela que é sabedoria em sentido absoluto é a mais certa entre todas as ciências, na medida em que atinge os primeiros princípios dos entes, que em si mesmos são os mais conhecidos, ainda que alguns deles, a saber, os imateriais, sejam menos conhecidos quanto a nós; ora, os princípios mais universais são também quanto a nós mais conhecidos, como aqueles que pertencem ao ente enquanto ente, cujo conhecimento pertence à sabedoria dita em sentido absoluto, como fica evidente no quarto livro da Metafísica.

1182. Em seguida, quando diz: é preciso, portanto etc., infere um certo corolário do que foi dito. E diz que, porque a sabedoria é a mais certa, ao passo que os princípios das demonstrações são mais certos do que as conclusões, é preciso que o sábio não somente saiba aquilo que se conclui dos princípios das demonstrações acerca daquilo que considera, mas também que diga o verdadeiro acerca dos próprios princípios, não porém que os demonstre, mas na medida em que pertence ao sábio dar a conhecer as coisas comuns, por exemplo o todo e a parte, o igual e o desigual e outras deste gênero, as quais, uma vez conhecidas, logo se tornam conhecidos os princípios das demonstrações; donde também pertence a tal sábio disputar contra os que negam os princípios, como fica evidente no quarto livro da Metafísica.

1183. Assim, portanto, conclui ademais que a sabedoria, na medida em que diz o verdadeiro acerca dos princípios, é intelecto, mas na medida em que sabe aquilo que se conclui dos princípios, é ciência. Distingue-se, todavia, da ciência tomada comumente, por causa da eminência que possui entre as outras ciências; é, com efeito, uma certa virtude de todas as ciências.