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Lição 11

Happiness and Leisure

E a felicidade parece estar no ócio; pois não estamos ocupados senão para termos ócio, e guerreamos para conduzir a paz. As operações das virtudes práticas estão, pois, nas coisas políticas ou nas coisas bélicas, mas as ações que versam sobre estas parecem não ser de ócio. As bélicas, com efeito, de todo o não são: pois ninguém escolhe guerrear em vista do próprio guerrear, nem preparar a guerra; pareceria, com efeito, ser inteiramente um assassino violento quem tornasse os amigos combatentes para que se fizessem lutas e mortes. Há também a do político, que não é de ócio e, além do próprio conviver civilmente, busca adquirir poderes e honras, ou antes a felicidade para si mesmo e para os cidadãos, sendo esta outra que a política, a qual também buscamos como manifestamente sendo outra. Se, pois, as ações que são segundo as virtudes, as políticas e as bélicas, sobressaem em beleza e grandeza, mas estas não são de ócio e apetecem algum fim e não são elegíveis por si mesmas, ao passo que a operação do intelecto parece diferir pela dedicação, sendo especulativa, e não apetecer nenhum fim além dela mesma e ter um prazer próprio, o qual aumenta a operação, e ser autossuficiente e ociosa e sem fadiga, quanto é humano, e quaisquer outras coisas que se atribuem ao bem-aventurado aparecem existir segundo esta operação, será, pois, esta a felicidade perfeita do homem, tomando uma extensão perfeita de vida; pois nada do que pertence à felicidade é imperfeito. [2098]

Ora, tal vida será melhor do que a que é segundo o homem. Pois não viverá assim segundo aquilo que é homem, mas segundo aquilo de divino que nele existe. E quanto isto difere do composto, tanto também a operação difere daquela que é segundo a outra virtude. Se, portanto, o intelecto é divino em relação ao homem, também a vida que é segundo ele é divina em relação à vida humana. [2105]

Ora, é preciso que o homem, sendo homem, não pense as coisas humanas, nem, sendo mortal, as coisas mortais, segundo os que assim aconselham, mas, quanto for possível, torne-se imortal e faça tudo para viver segundo o melhor daquilo que há nele. Pois, ainda que seja pequeno em massa, muito mais supera todas as coisas em potência e preciosidade. E cada um parecerá também ser isto, se de fato é o que é principal e melhor; seria, pois, inconveniente que alguém escolhesse não a vida de si mesmo, mas a de algum outro. E o que foi dito antes convém também agora: pois o que é próprio a cada um é por natureza o melhor e o mais deleitável para cada um; e para o homem, a vida que é segundo o intelecto, se de fato é sumamente isto que é o homem. Este, portanto, é também o mais feliz. [2107]

2098. Videturque felicitas etc. Postos os cinco argumentos com os quais se mostrava que a felicidade consiste na especulação da verdade segundo a conveniência com aquilo que foi dito acima, aqui acrescenta um sexto, que procede de certa condição da felicidade que acima não havia colocado. Pois a felicidade consiste em certo ócio; com efeito, diz-se que alguém está em ócio quando não lhe resta algo a fazer, o que acontece quando alguém já chegou ao fim, e por isso acrescenta que não estamos em ócio senão para termos ócio, isto é, trabalhamos operando, o que é não estar em ócio, para chegarmos a descansar no fim, o que é estar em ócio, e isto mostra pelo exemplo dos que guerreiam, que travam guerras para que cheguem à paz desejada.

2099. Deve-se, todavia, considerar que acima o Filósofo disse que o repouso é em vista da operação; mas ali falou do repouso pelo qual se interrompe a operação antes da consecução do fim, por causa da impossibilidade de operar continuamente, repouso este que se ordena à operação como a um fim; o ócio, porém, é o repouso no fim ao qual se ordena a operação, e assim à felicidade, que é o último fim, compete sumamente o ócio. Este, com efeito, não se encontra nas operações das virtudes práticas, dentre as quais as principais são aquelas que consistem nas coisas políticas, enquanto ordenam o bem comum, que é o mais divino, ou nas coisas bélicas, pelas quais o próprio bem comum é defendido contra os inimigos, e todavia a estas obras não compete o ócio.

2100. E, primeiro, quanto às operações bélicas, isto é inteiramente manifesto, porque ninguém escolhe travar guerras ou preparar guerras só em vista do guerrear, o que seria ter ócio nas coisas bélicas, porque, se constituísse o seu fim no travar guerras, seguir-se-ia que seria violento e assassino, a ponto de fazer dos próprios amigos combatentes, para poder lutar e matar.

2101. Segundo, isto também é manifesto nas ações políticas, que nelas não há ócio, mas, além do próprio convívio civil, o homem quer adquirir alguma outra coisa, por exemplo poderes e honras; ou, porque nestas não está o último fim, como foi mostrado no primeiro livro, é mais conveniente que, por meio do convívio civil, alguém queira adquirir a felicidade para si mesmo e para os cidadãos, de modo que tal felicidade, que alguém pretende adquirir por meio da vida política, seja outra que a própria vida política; pois assim, por meio da vida política, buscamos a felicidade como sendo outra que ela mesma, porque esta é a felicidade especulativa, à qual toda a vida política parece ordenada, enquanto, pela paz, que é estabelecida e conservada pela ordenação da vida política, é dada aos homens a faculdade de contemplar a verdade.

2102. Se, portanto, entre todas as ações das virtudes morais sobressaem as políticas e as bélicas, tanto pela beleza, porque são sumamente honoráveis, como também pela grandeza, porque versam sobre o máximo bem, que é o bem comum, uma vez que tais operações não têm em si mesmas o ócio, mas são feitas por causa do apetite de outro fim e não são elegíveis por si mesmas, não estará nas operações das virtudes morais a felicidade perfeita.

2103. Mas a operação do intelecto que é especulativa parece diferir das operações precedentes segundo a razão da dedicação, isto é, porque o homem se entrega a tal operação por causa dela mesma, de modo que não apetece nenhum outro fim além dela; tal operação tem também um prazer próprio que dela procede e que a aumenta; assim, pois, é evidente que, segundo tal operação especulativa do intelecto, manifestamente aparecem existir no homem todas as coisas quaisquer que costumam ser atribuídas ao bem-aventurado, a saber, que seja autossuficiente e que esteja em ócio e que não se fadigue, e digo isto quanto é possível ao homem que leva uma vida mortal, na qual tais coisas não podem existir perfeitamente.

2014. Assim, portanto, na contemplação do intelecto consiste a felicidade perfeita do homem, contanto que esteja presente a longa duração da vida, que de fato é requerida para o bem-estar da felicidade, segundo o que é preciso que nada daquilo que pertence à felicidade seja imperfeito.

2015. Em seguida, quando diz: talis autem utique etc., mostra como tal vida contemplativa se relaciona com o homem.

E primeiro mostra aquilo que se propõe;

segundo, exclui um erro, ali: oportet autem non secundum suadentes etc.

Diz, pois, primeiro que tal vida, que se dedica à contemplação da verdade, é melhor do que a vida que é segundo o homem. Com efeito, sendo o homem composto de alma e corpo, tendo natureza sensitiva e intelectiva, a vida comensurada ao homem parece consistir em que o homem ordene segundo a razão as afecções e as operações sensitivas e corporais, mas dedicar-se somente à operação do intelecto parece ser próprio das substâncias superiores, nas quais se encontra somente a natureza intelectiva, da qual o homem participa segundo o intelecto.

2106. E por isso, manifestando aquilo que foi dito, acrescenta que o homem que assim vive, isto é, dedicando-se à contemplação, não vive segundo aquilo que é homem, que é composto de coisas diversas, mas segundo aquilo de divino que nele existe, isto é, enquanto participa da semelhança divina segundo o intelecto. E por isso, quanto o intelecto, considerado em sua pureza, difere do composto de alma e corpo, tanto dista a operação especulativa da operação que se faz segundo a virtude moral, que propriamente versa sobre as coisas humanas. Assim, pois, como o intelecto, em comparação com o homem, é algo divino, assim também a vida especulativa, que é segundo o intelecto, se compara à vida moral como o divino ao humano.

2107. Em seguida, quando diz: oportet autem etc., exclui o erro de alguns que aconselhavam que o homem deve dedicar-se a saber as coisas humanas e o mortal a saber as coisas mortais. E isto foi dito pelo poeta Simônides, como consta no princípio da Metafísica. O que de fato o Filósofo diz ser falso, porque o homem deve tender à imortalidade quanto pode e, segundo todo o seu poder, fazer com que viva segundo o intelecto, que é o melhor daquilo que há no homem, e que de fato é imortal e divino. Com efeito, ainda que este melhor seja pequeno em massa, porque é incorpóreo e sumamente simples e, por conseguinte, carece de grandeza de massa, todavia, pela quantidade de virtude e de preciosidade, supera muito todas as coisas que há no homem;

2108. pela virtude, isto é, pela potência, supera em suas operações, pelas quais se une aos seres superiores e domina os inferiores, e assim, de certo modo, abarca todas as coisas; pela preciosidade, porém, quanto à dignidade de sua natureza, porque o intelecto é imaterial e simples, incorruptível e impassível. Ora, cada um, isto é, o homem todo, parece ser isto, a saber, o intelecto, se assim é, ou melhor, porque assim é, que o intelecto é o que há de mais principal e melhor no homem;

2109. pois foi dito acima, no nono livro, que cada coisa parece ser sumamente aquilo que nela é mais principal, porque todas as outras coisas são como que instrumentos daquilo, e assim, enquanto o homem vive segundo a operação do intelecto, vive segundo a vida que lhe é sumamente própria; ora, seria inconveniente se alguém escolhesse viver não segundo a vida própria de si mesmo, mas segundo a vida de algum outro, por isso dizem inconvenientemente os que aconselham que o homem não deva dedicar-se à especulação do intelecto. E como foi dito antes, no nono livro, que aquilo que é segundo o intelecto é próprio do homem, convém também agora ao propósito: pois aquilo que é o melhor segundo a natureza em cada um é o que lhe é sumamente próprio; e aquilo que é o melhor e próprio, por consequência, é o mais deleitável, porque cada um se deleita no bem que lhe convém; assim, pois, é evidente que, se o homem é sumamente o intelecto, como o que há de mais principal nele, a vida que é segundo o intelecto é a mais deleitável para o homem e a que lhe é sumamente própria.

2110. Nem isto é contra aquilo que foi dito acima, que não é segundo o homem, mas acima do homem; pois não é segundo o homem quanto à natureza composta, mas é propriíssimamente segundo o homem quanto àquilo que é o mais principal no homem; o que de fato se encontra do modo mais perfeito nas substâncias superiores, mas no homem imperfeitamente e como que por participação, e todavia esse pouco é maior do que todas as outras coisas que há no homem. Assim, pois, é evidente que aquele que se dedica à especulação da verdade é sumamente feliz, quanto o homem pode ser feliz nesta vida.