Lição 2
Virtue and Action
Portanto, visto que o presente estudo não é em vista da contemplação, como os outros, pois não investigamos o que é a virtude para o sabermos, mas para nos tornarmos bons, porque de outro modo não haveria nenhum proveito dele, é necessário investigar as coisas que concernem às operações, como se deve operá-las; pois estas são as senhoras também de que tipo de hábitos se formam, como dissemos. [255]
Operar, portanto, segundo a reta razão é comum, e suponha-se assim. Falar-se-á, porém, disto depois, tanto do que é a reta razão como de como ela se relaciona com as outras virtudes. [257]
Que isto, porém, seja admitido de antemão: que todo discurso que versa sobre as coisas operáveis deve ser dito em esboço e não segundo a certeza, como também dissemos no princípio. Visto que os discursos hão de ser buscados segundo a matéria, e as coisas que estão nas operações e as que são úteis nada têm de fixo, assim como tampouco as coisas relativas à saúde. Ora, sendo tal o discurso universal, tanto mais o discurso que versa sobre os casos singulares não tem certeza, pois não cai nem sob arte nem sob narração alguma. É preciso, porém, que os próprios que operam atentem para aquilo que convém à ocasião, assim como se dá também na medicina e na arte de governar o navio. Mas, embora seja tal o presente discurso, deve-se tentar prestar auxílio. [258]
Primeiramente, portanto, deve-se considerar isto: que tais coisas são por natureza aptas a serem corrompidas pela falta e pela superabundância. Pois é preciso, quanto às coisas não manifestas, usar de sinais e testemunhos manifestos. Como vemos na força e na saúde. Pois a superabundância e a deficiência de exercícios corrompem a força, e de modo semelhante também a bebida e o alimento, feitos em maior ou menor quantidade, corrompem a saúde. As coisas, porém, que são proporcionadas produzem, aumentam e conservam. Assim, portanto, dá-se também na temperança, na força e nas outras virtudes. Pois quem tudo teme e foge e nada suporta torna-se medroso; e quem absolutamente nada teme, mas vai ao encontro de tudo, torna-se audaz. De modo semelhante também, quem se apodera de todo prazer e de nenhum se afasta é intemperado, ao passo que quem foge de todos, como os rústicos, é insensível. Pois a temperança e a força são corrompidas pela superabundância e pelo defeito, mas conservam-se pelo meio-termo. [260]
Mas não só as gerações, os aumentos e as corrupções se fazem a partir das mesmas coisas e pelas mesmas coisas, mas também as operações estarão nas mesmas coisas. Pois também nas outras coisas mais manifestas assim se dá, por exemplo, na força: ela se faz a partir de tomar muito alimento e de suportar muitos trabalhos, e é sobretudo o forte que pode fazer estas coisas. E assim também nas virtudes; pois é por afastar-nos dos prazeres que nos tornamos temperados, e, uma vez tornados temperados, podemos sobretudo afastar-nos deles; de modo semelhante também na força: pois, acostumados a desprezar as coisas terríveis e a suportá-las, tornamo-nos fortes, e, uma vez tornados fortes, poderemos sobretudo suportar as coisas terríveis. [264]
255. Portanto, visto que o presente estudo etc. Depois que o Filósofo mostrou que as virtudes são causadas em nós a partir das operações, investiga aqui como isto se faz.
E a respeito disto faz duas coisas:
primeiro, mostra que tipo de operações são aquelas a partir das quais a virtude é causada em nós;
em segundo lugar, mostra qual é o sinal da virtude já gerada em nós, em: ora, deve-se tomar como sinal etc.
Acerca do primeiro, faz três coisas:
primeiro, mostra a necessidade da presente investigação;
em segundo lugar, determina o modo de investigar, em: seja, porém, admitido previamente etc.;
em terceiro lugar, mostra a partir de quais operações são causadas as virtudes.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra a necessidade da presente investigação;
em segundo lugar, mostra o que é preciso aqui supor, em: conforme, pois, a reta razão etc.
Acerca do primeiro, deve-se considerar que, nas ciências especulativas, nas quais não se busca senão o conhecimento da verdade, basta conhecer qual seja a causa de tal efeito; mas nas ciências operativas, cujo fim é a operação, é preciso conhecer por quais movimentos ou operações tal efeito se segue de tal causa.
256. Diz, portanto, que o presente empreendimento, isto é, o da filosofia moral, não é em vista da contemplação da verdade como os outros empreendimentos das ciências especulativas, mas é em vista da operação; pois nesta ciência não investigamos o que é a virtude somente para que saibamos a verdade desta coisa, mas para que, adquirindo a virtude, nos tornemos bons. E dá a razão disto: porque, se a investigação desta ciência fosse apenas em vista do conhecimento da verdade, seria de pouca utilidade; pois não é algo grande nem muito pertinente à perfeição do intelecto que alguém conheça a verdade variável dos operáveis contingentes, acerca dos quais versa a virtude. E porque assim é, conclui que é necessário examinar acerca de nossas operações quais devam ser feitas, porque, como se disse acima, as operações têm poder e domínio sobre o fato de se gerarem em nós hábitos bons ou maus.
257. Em seguida, quando diz: conforme, pois, a reta razão etc., mostra o que é preciso supor nesta investigação. E diz que isto deve ser suposto como algo comum acerca da qualidade das operações que causam a virtude, a saber, que sejam conformes à reta razão. A razão disto é que o bem de qualquer coisa está em que sua operação seja conveniente à sua forma; ora, a forma própria do homem é aquela segundo a qual ele é animal racional; por isso, é preciso que a operação do homem seja boa por ser conforme à reta razão, pois a perversidade da razão repugna à natureza da razão. Mais adiante, porém, será determinado, a saber, no livro VI, o que é a reta razão, que pertence às virtudes intelectuais, e como se relaciona com as outras virtudes, isto é, com as morais.
258. Em seguida, quando diz: seja, porém, admitido previamente etc., determina o modo de investigar tais coisas. E diz que se deve primeiro supor isto: que todo discurso que versa sobre os operáveis, como é este, deve ser transmitido em esboço, isto é, a modo de exemplo ou por semelhança, e não segundo a certeza, como foi dito no proêmio de todo o livro. E isto porque os discursos devem ser buscados conforme a condição da matéria, como ali se disse; ora, vemos que as coisas que estão nas operações morais e aquelas que lhes são úteis, isto é, os bens exteriores, não têm em si mesmas nada de estável ao modo da necessidade, mas todas são contingentes e variáveis, como também acontece nas operações medicinais que versam sobre a saúde, pois tanto a própria disposição do corpo a ser curado quanto as coisas que se tomam para curar variam de múltiplos modos.
259. E como o discurso das coisas morais é incerto e variável mesmo nos universais, ainda mais incerto é se alguém quiser descer mais adiante transmitindo a doutrina sobre os singulares em particular, pois isto não cai nem sob a arte nem sob alguma narração, porque os casos dos operáveis singulares variam de infinitos modos. Por isso, o juízo sobre os singulares é deixado à prudência de cada um, e é isto que acrescenta: que é preciso que os próprios agentes, por sua prudência, se apliquem a considerar aquilo que convém fazer segundo o tempo presente, consideradas todas as circunstâncias particulares, como é preciso que faça o médico ao medicar e o piloto ao governar a nave. Ainda que, porém, este discurso seja tal, isto é, incerto no universal e inenarrável no particular, devemos todavia tentar oferecer aos homens algum auxílio a esse respeito, pelo qual sejam dirigidos em suas obras.
260. Em seguida, quando diz: primeiro, pois, isto se deve considerar etc., mostra quais são as operações que causam a virtude.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, mostra a partir de quais operações é causada a virtude;
em segundo lugar, mostra que a virtude causada produz operações semelhantes, em: mas não somente as gerações etc.
Diz, pois, primeiro que se deve considerar antes de tudo que as virtudes, ou as operações que causam a virtude, são por natureza corrompidas pela superabundância e pelo defeito. E, para manifestar isto, é preciso tomar alguns sinais e testemunhos mais manifestos, a saber, aqueles que acontecem em relação às forças do corpo, que são mais manifestas que as forças da alma.
261. Pois vemos que a força corporal se corrompe pelos exercícios em excesso, isto é, por certos exercícios corporais
262. E assim se dá também nas virtudes da alma, como a fortaleza, a temperança e as outras virtudes. Pois aquele que teme e foge de tudo e não suporta nada de terrível torna-se tímido; e, do mesmo modo, quem nada teme, mas se lança precipitadamente a todos os perigos, torna-se audaz. E assim é também da parte da temperança; pois aquele que se entrega a todo prazer e nenhum evita torna-se intemperante, ao passo que aquele que a todos evita, como fazem os homens rústicos sem razão, esse torna-se insensível.
263. Não se pode, todavia, concluir disto que a virgindade, que se abstém de todo prazer venéreo, seja um vício; tanto porque com isso não se abstém de todos os prazeres, quanto porque se abstém desses prazeres segundo a reta razão; assim como também não é vicioso que alguns soldados se abstenham de todos os prazeres venéreos para se dedicarem mais livremente às coisas da guerra. Ora, isto foi dito porque a temperança e a fortaleza se corrompem pela superabundância e pelo defeito, mas se salvam pelo meio-termo; meio-termo esse que não se toma segundo a quantidade, mas segundo a reta razão.
264. Em seguida, quando diz: mas não somente as gerações etc., mostra que a virtude produz operações semelhantes àquelas a partir das quais é gerada. E diz que a partir das mesmas operações se dão as gerações das virtudes, os aumentos e as corrupções, se forem tomadas de modo contrário, mas também as operações das virtudes já geradas consistem nessas mesmas. E isto é evidente nas coisas corporais, que são mais manifestas, como a força corporal, que é causada pelo fato de se poder tomar muito alimento e suportar muitos trabalhos, e, quando alguém se tornou forte, pode fazer estas coisas em grau máximo. Assim se dá também nas virtudes da alma, porque, pelo fato de nos afastarmos dos prazeres, tornamo-nos temperantes, e, quando nos tornamos temperantes, podemos ao máximo afastar-nos dos prazeres; e de modo semelhante se dá na virtude da fortaleza, porque, pelo fato de estarmos acostumados a desprezar e suportar as coisas terríveis, tornamo-nos fortes, e, feitos fortes, podemos fazer isto em grau máximo, assim como também o fogo gerado pelo aquecimento pode aquecer ao máximo.