Lição 1: Matéria e Finalidade da Filosofia Moral
Toda arte e todo ensino, e igualmente todo ato e toda escolha, parecem tender a algum bem. [8]
Por isso, foi corretamente enunciado que o bem é aquilo que todas as coisas desejam. [9]
Contudo, aparece certa diferença entre os fins. Alguns, com efeito, são operações, enquanto outros são, além dessas, certas obras. [12]
Ora, naqueles cujos fins são certas obras além das operações, as obras são melhores que as operações. [14]
Como há muitas operações, artes e ensinos, muitos são também os fins. De fato, o fim da medicina é a saúde; o da construção naval, a navegação; o da estratégia militar, a vitória; e o da economia doméstica, as riquezas. [15]
Ora, todas as coisas desse gênero que estão sob uma única virtude, assim como sob a arte de cavalgar está a arte de fazer freios e todas as demais artes referentes aos instrumentos equestres, e assim como esta e toda operação bélica estão sob a arte militar, do mesmo modo outras artes estão sob outras. [16]
Em todos esses casos, os fins das artes arquitetônicas são mais desejáveis que os das que lhes estão subordinadas, pois é em vista daqueles que estes últimos são buscados. [17]
Nada importa, porém, que os fins dos atos sejam as próprias operações ou algo diverso além delas, como nos ensinos mencionados. [18]
1. Como diz o Filósofo no início da Metafísica, é próprio do sábio ordenar. A razão disso é que a sabedoria é a mais poderosa perfeição da razão, cujo próprio é conhecer a ordem; pois, ainda que as potências sensitivas conheçam algumas coisas de modo absoluto, conhecer, contudo, a ordem de uma coisa a outra pertence unicamente ao intelecto ou à razão.
Ora, encontra-se nas coisas uma dupla ordem:
uma, a das partes de um todo ou de uma multidão entre si, assim como as partes de uma casa se ordenam entre si;
outra é a ordem das coisas ao fim, e esta ordem é mais principal que a primeira.
Pois, como diz o Filósofo no livro XI da Metafísica, a ordem das partes de um exército entre si existe em vista da ordem de todo o exército ao seu comandante.
Ora, a ordem se relaciona com a razão de quatro modos:
há, com efeito, certa ordem que a razão não faz, mas apenas considera, tal como a ordem das coisas naturais;
há outra ordem que a razão, ao considerar, faz em seu próprio ato, por exemplo, quando ordena entre si os seus conceitos e os sinais dos conceitos, que são as palavras significativas;
há uma terceira ordem que a razão, ao considerar, faz nas operações da vontade;
há uma quarta ordem que a razão, ao considerar, faz nas coisas exteriores das quais ela mesma é causa, tal como numa arca e numa casa.
2. E porque a consideração da razão se aperfeiçoa pelo hábito da ciência, conforme essas diversas ordens que a razão propriamente considera existem diversas ciências: pois à filosofia natural pertence considerar a ordem das coisas que a razão humana considera, mas não faz, de modo que sob a filosofia natural compreendemos também a matemática e a metafísica; a ordem, porém, que a razão, ao considerar, faz em seu próprio ato pertence à filosofia racional, à qual cabe considerar a ordem das partes do discurso entre si e a ordem dos princípios às conclusões; a ordem das ações voluntárias, por sua vez, pertence à consideração da filosofia moral; e a ordem que a razão, ao considerar, faz nas coisas exteriores constituídas pela razão humana pertence às artes mecânicas. Assim, portanto, é próprio da filosofia moral, em torno da qual versa a presente intenção, considerar as operações humanas enquanto são ordenadas entre si e ao fim.
3. E digo operações humanas aquelas que procedem da vontade do homem segundo a ordem da razão; pois, se algumas operações se encontram no homem que não estão sujeitas à vontade e à razão, não se dizem propriamente humanas, mas naturais, como fica patente nas operações da alma vegetativa, as quais de modo algum caem sob a consideração da filosofia moral. Assim, portanto, como o objeto da filosofia natural é o movimento ou a coisa móvel, também o objeto da filosofia moral é a operação humana ordenada ao fim, ou ainda o homem enquanto age voluntariamente em vista de um fim.
4. Deve-se saber, porém, que, porque o homem é naturalmente um animal social, uma vez que necessita, para a sua vida, de muitas coisas que ele sozinho não pode preparar para si, segue-se que o homem é naturalmente parte de alguma multidão pela qual lhe seja prestado auxílio para bem viver.
Ora, ele necessita desse auxílio para duas coisas.
Primeiro, para aquilo que é necessário à vida, sem o que a vida presente não pode transcorrer; e para isso auxilia o homem a multidão doméstica da qual é parte, pois todo homem recebe dos pais a geração, o alimento e a instrução, e igualmente também os indivíduos que são partes da família doméstica se ajudam mutuamente no que é necessário à vida.
De outro modo, o homem é ajudado pela multidão da qual é parte a alcançar a suficiência perfeita da vida, isto é, para que o homem não apenas viva, mas também viva bem, tendo tudo o que lhe basta para a vida; e assim auxilia o homem a multidão civil da qual ele mesmo é parte, não só quanto às coisas corporais, na medida em que na cidade há muitos ofícios para os quais uma só casa não pode bastar, mas também quanto às coisas morais, na medida em que, pelo poder público, são refreados, pelo medo da pena, os jovens insolentes que a admoestação paterna não é capaz de corrigir.
5. Deve-se saber, porém, que este todo que é a multidão civil ou a família doméstica tem apenas unidade de ordem, segundo a qual não é algo absolutamente uno; e por isso a parte deste todo pode ter uma operação que não é operação do todo, assim como o soldado num exército tem uma operação que não é a de todo o exército; contudo, o próprio todo também tem alguma operação que não é própria de alguma de suas partes, mas do todo, por exemplo, o combate de todo o exército; e o tracionar da nau é operação da multidão dos que puxam a nau. Há, porém, outro todo que tem unidade não só de ordem, mas de composição, de ligação ou ainda de continuidade, segundo cuja unidade é algo absolutamente uno; e por isso nenhuma operação da parte deixa de ser do todo; pois, nas coisas contínuas, o movimento do todo e da parte é o mesmo, e igualmente, nas coisas compostas ou ligadas, a operação da parte é principalmente do todo. E por isso é preciso que à mesma ciência pertença a consideração de tal todo e de suas partes; não pertence, porém, à mesma ciência considerar o todo que tem apenas unidade de ordem e as suas partes.
6. E daí vem que a filosofia moral se divide em três partes,
a primeira das quais considera as operações de um só homem ordenadas ao fim, e é chamada monástica;
a segunda considera as operações da multidão doméstica, e é chamada econômica;
a terceira considera as operações da multidão civil, e é chamada política.
7. Começando, portanto, a expor a filosofia moral a partir de sua primeira parte, neste livro que se chama Ética, isto é, dos Costumes, Aristóteles antepõe um proêmio, no qual faz três coisas:
primeiro, mostra qual é a intenção;
primeiro, antepõe algumas coisas que são necessárias para mostrar o propósito;
segundo, manifesta o propósito, ali: se há, pois, algum fim etc.
Quanto ao primeiro, faz duas coisas:
primeiro, propõe a necessidade do fim;
segundo, a relação dos atos humanos com o fim, ali: como há muitas operações etc.
Quanto ao primeiro, faz três coisas:
primeiro, propõe que todas as coisas humanas se ordenam ao fim;
segundo, mostra a diversidade dos fins, ali: contudo, a diferença dos fins etc.;
terceiro, estabelece a comparação dos fins entre si, ali: ora, aqueles cujos fins etc.
Quanto ao primeiro, faz duas coisas:
primeiro, propõe o que pretende;
segundo, manifesta o propósito, ali: por isso, foi corretamente enunciado etc.
8. Quanto ao primeiro, deve-se considerar que há dois princípios dos atos humanos, a saber, o intelecto ou razão e o apetite, que são princípios motores, como se diz no livro III do Da alma; ora, no intelecto ou razão considera-se o especulativo e o prático, e no apetite racional consideram-se a escolha e a execução; todos esses, porém, se ordenam a algum bem como a um fim, pois o verdadeiro é o fim da especulação. Portanto, quanto ao intelecto especulativo, ele estabelece o ensino, pelo qual a ciência é transmitida do mestre ao discípulo; quanto ao intelecto prático, estabelece a arte, que é a reta razão das coisas a fazer, como se tem no livro VI desta obra; quanto ao ato do intelecto apetitivo, estabelece-se a escolha; e quanto à execução, estabelece-se o ato. Não faz menção, porém, da prudência, que está na razão prática assim como a arte, porque pela prudência é propriamente dirigida a escolha. Diz, portanto, que cada um desses manifestamente deseja algum bem como fim.
9. Em seguida, quando diz: por isso enunciaram bem etc., manifesta o propósito pela definição do bem. A respeito disso deve-se considerar que o bem se conta entre as coisas primeiras, a tal ponto que, segundo os platônicos, o bem é anterior ao ente; mas, segundo a verdade das coisas, o bem se converte com o ente. Ora, as coisas primeiras não podem ser dadas a conhecer por algo anterior, mas dão-se a conhecer pelo que é posterior, como as causas pelos seus próprios efeitos. Como, porém, o bem seja propriamente o que move o apetite, descreve-se o bem pelo movimento do apetite, assim como a força motriz costuma manifestar-se pelo movimento. E por isso diz que os filósofos enunciaram bem que o bem é aquilo que todas as coisas apetecem.
10. Nem há objeção a partir de alguns que apetecem o mal, pois não apetecem o mal senão sob a razão de bem, isto é, na medida em que o julgam ser bom; e assim a sua intenção se dirige por si ao bem, mas por acidente recai sobre o mal.
11. Quanto ao que diz: que todas as coisas apetecem, não se deve entender apenas dos que têm conhecimento, os quais apreendem o bem, mas também das coisas que carecem de conhecimento, as quais por apetite natural tendem ao bem, não como se conhecessem o bem, mas porque são movidas ao bem por algo que conhece, a saber, pela ordenação do intelecto divino, ao modo como a flecha tende ao alvo pela direção do que atira; ora, o próprio tender ao bem é apetecer o bem, donde também disse que aquilo apetece o bem na medida em que tende ao bem. Não há, porém, um único bem para o qual todas as coisas tendem, como se dirá adiante; e por isso não se descreve aqui algum bem único, mas o bem tomado em comum; e porque nada é bom senão na medida em que é certa semelhança e participação do sumo bem, o próprio sumo bem é de certo modo apetecido em qualquer bem, e assim pode-se dizer que um único bem é aquilo que todas as coisas apetecem.
12. Em seguida, quando diz: há, porém, certa diferença etc., mostra a diferença dos fins. A respeito disso deve-se considerar que o bem final para o qual tende o apetite de cada coisa é a sua última perfeição. Ora, a primeira perfeição se dá ao modo de forma, e a segunda ao modo de operação. E por isso é preciso que esta seja a diferença dos fins: que alguns fins sejam as próprias operações, e outros sejam as próprias obras, isto é, certas obras além das operações.
13. Para evidência disso deve-se considerar que a operação é dupla, como se diz no livro IX da Metafísica:
- uma que permanece no próprio agente, como ver, querer e entender, e tal operação propriamente se chama ação;
- outra, porém, é a operação que passa para a matéria exterior, a qual propriamente se chama fabricação; e esta é dupla:
- pois, às vezes, alguém toma a matéria exterior apenas para uso, como o cavalo para cavalgar e a cítara para tocar,
- às vezes, porém, toma a matéria exterior para mudá-la em alguma forma, como quando o artífice faz um leito ou uma casa.
Portanto, a primeira e a segunda destas operações não têm algo produzido que seja o fim, mas cada uma delas é fim; contudo, a primeira é mais nobre do que a segunda, na medida em que permanece no próprio agente. A terceira operação, porém, é como certa geração, cujo fim é a coisa gerada, e por isso nas operações do terceiro gênero as próprias coisas produzidas são os fins.
14. Em seguida, quando diz: aqueles cujos fins etc., apresenta o terceiro, dizendo que, em tudo aquilo em que as coisas produzidas, que estão além das operações, são os fins, é preciso que nesses casos as coisas produzidas sejam melhores do que as operações, assim como a coisa gerada é melhor do que a geração. Pois o fim é mais poderoso do que aquilo que se ordena ao fim, porquanto o que se ordena ao fim tem a razão de bem a partir da ordenação ao fim.
15. Em seguida, quando diz: havendo, porém, muitas operações etc., trata da comparação dos hábitos e dos atos com o fim.
E a respeito disso faz quatro coisas.
Primeiro, manifesta que coisas diversas se ordenam a fins diversos. E diz que, sendo muitas as operações, as artes e as doutrinas, é necessário que os seus fins sejam diversos, porque os fins e aquilo que se ordena ao fim são proporcionais. Isto manifesta pelo fato de que o fim da arte medicinal é a saúde; o da construção naval, a navegação; o da militar, a vitória; e o da econômica, isto é, da administração da casa, as riquezas. Isto, porém, diz segundo a opinião de muitos, ao passo que ele próprio prova no livro I da Política que as riquezas não são o fim da economia, mas os instrumentos.
16. Segundo, ali: e todas as coisas que são de tal gênero etc., estabelece a ordem dos hábitos entre si. Pois acontece que um hábito operativo, ao qual chama virtude, esteja sob outro, como a arte que faz os freios está sob a arte de cavalgar, porque aquele que deve cavalgar prescreve ao artífice como faça o freio, e assim é o arquiteto, isto é, o artífice principal, em relação a ele. E a mesma razão vale para as outras artes que fazem os demais instrumentos necessários para cavalgar, por exemplo as selas ou algo semelhante. A equestre, por sua vez, ordena-se ainda sob a militar; pois antigamente chamavam-se soldados não apenas os cavaleiros, mas quaisquer combatentes para vencer, donde sob a militar se contém não apenas a equestre, mas toda arte ou virtude ordenada à operação bélica, como a de atirar com arco, a de funda ou quaisquer outras semelhantes. E do mesmo modo outras artes sob outras.
17. Terceiro, ali: em todos, portanto etc., propõe a ordem dos fins segundo a ordem dos hábitos. E diz que em todas as artes ou virtudes é comumente verdadeiro que os fins das artes arquitetônicas são, absolutamente e para todos, mais desejáveis do que os fins das artes ou virtudes que estão sob as principais. Isto prova pelo fato de que os homens buscam, isto é, procuram, aquelas coisas, isto é, os fins das artes ou virtudes inferiores, por causa destas, isto é, por causa dos fins das superiores. A letra, porém, é suspensiva e deve ler-se assim: todas as coisas que são de tal gênero sob uma certa virtude... em todos, portanto, os fins das arquitetônicas etc.
18. Quarto, mostra que, quanto à ordem dos fins, não faz diferença se o fim é obra ou operação. E diz que nada difere, no que toca à ordem, que os fins delas sejam operações ou algo produzido além das operações, como se vê nas doutrinas mencionadas. Pois o fim da arte de fazer freios é o freio produzido; mas o fim da equestre, que é mais principal, é uma operação, a saber, o cavalgar; ao contrário, porém, ocorre na medicinal e na de exercícios, pois o fim da medicinal é algo produzido, isto é, a saúde, ao passo que o fim da de exercícios, que sob ela se contém, é uma operação, isto é, o exercício.