Lição 5
Goodwill
A benevolência, na verdade, assemelha-se ao amigável, contudo não é amizade. [1820]
Pois a benevolência se dá também para com os desconhecidos e de modo oculto, mas a amizade não. E antes tais coisas já foram ditas. [1821]
Mas tampouco é amor. Pois não tem distensão nem apetite, ao passo que ao amor estas coisas se seguem. [1822]
E o amor, na verdade, dá-se com a convivência habitual, mas a benevolência também repentinamente, como acontece também a respeito dos atletas em competição; pois os espectadores tornam-se benevolentes para com eles e se comprazem, mas em nada cooperariam; pois, como dissemos, repentinamente se tornam benevolentes e amam superficialmente. [1823]
Parece, pois, que a benevolência é princípio da amizade, assim como o deleite que se dá pela vista é princípio daquilo que é amar. Pois ninguém ama sem ter primeiro se deleitado com a aparência, mas quem se alegra com a aparência nem por isso ama mais, mas somente quando deseja o ausente e almeja a sua presença. Assim também não é possível que se tornem amigos aqueles que não se fizeram benevolentes, mas os benevolentes nem por isso amam mais; pois apenas querem os bens àqueles para com quem são benevolentes, mas em nada cooperariam nem se perturbariam por eles. Por isso, falando por transferência, alguém diria que a benevolência é uma amizade ociosa, mas que, prolongando-se por muito tempo e chegando à convivência habitual, se torna amizade. [1824]
Não aquela que é por causa do útil nem aquela que é por causa do deleitável. [1826]
Pois a benevolência não se dá nestas. O beneficiado, na verdade, retribui benevolência por aquilo que recebeu, agindo com justiça; mas quem quer que outrem prospere, tendo esperança de abundância por meio dele, não parece ser benevolente para com aquele, mas antes para consigo mesmo, assim como tampouco é amigo se cuida dele por causa de algum uso próprio. [1827]
De modo geral, porém, a benevolência se dá por causa da virtude e de certa equidade, quando a alguém parece que outrem é bom ou valente ou algo semelhante, como também dissemos a respeito dos atletas em competição. [1829]
1820. A benevolência, porém etc. Depois que o Filósofo mostrou quais são as obras da amizade e a quem convêm, aqui determina acerca de cada uma delas. Ora, as referidas obras da amizade reduzem-se a três, a saber, à beneficência, à benevolência e à concórdia, como acima se disse, e por isso agora determina acerca destas três.
Primeiro, na verdade, acerca da benevolência, que consiste no afeto interior a respeito da pessoa;
em segundo lugar, acerca da concórdia, que também consiste no afeto, mas a respeito daquilo que pertence às pessoas, ali: o amigável, porém etc.;
em terceiro lugar, acerca da beneficência, que consiste no efeito exterior, ali: os benfeitores, porém etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra que a benevolência não é amizade;
em segundo lugar mostra que é princípio da amizade, ali: parece, pois etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra que a benevolência não é amizade, a qual é significada ao modo de hábito;
em segundo lugar, que não é amor, o qual é significado ao modo de paixão, como se disse no oitavo livro, ali: mas tampouco é amor etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas.
Primeiro propõe o que pretende. E diz que a benevolência parece ser algo semelhante à amizade, na medida em que é preciso que todos os amigos sejam benevolentes, contudo não é o mesmo que a amizade.
1821. Em segundo lugar, ali: pois se dá etc., prova o proposto por dois meios.
O primeiro dos quais é que a benevolência pode dar-se para com homens desconhecidos, dos quais alguém não teve experiência convivendo familiarmente com eles, mas isto não pode acontecer na amizade.
O segundo meio é que a benevolência pode ficar oculta àquele para com quem temos benevolência, o que não se pode dizer da amizade. E estas coisas foram ditas acima, no princípio do oitavo livro.
1822. Em seguida, quando diz: mas tampouco é amor etc., mostra que a benevolência não é amor, por dupla razão.
A primeira das quais é que a benevolência não tem distensão do ânimo nem apetite, isto é, paixão no apetite sensitivo, que distende o ânimo com o seu ímpeto, como que com certa violência, movendo-o para algo, o que acontece na paixão do amor, mas não na benevolência, que consiste num simples movimento da vontade.
1823. A segunda razão põe ali: e o amor, na verdade etc. E diz que o amor se dá com a convivência habitual; pois o amor implica, como se disse, certo veemente ímpeto do ânimo, mas o ânimo não costuma logo mover-se veementemente para algo, mas é conduzido pouco a pouco para o maior, e por isso, por certa convivência habitual, o amor cresce. Mas, como a benevolência implica um simples movimento da vontade, pode dar-se repentinamente, como acontece aos homens que veem as lutas dos atletas; pois tornam-se benevolentes para com um dos que lutam; e agradaria aos espectadores que este ou aquele vencesse, contudo não dariam nenhum esforço para isso, porque, como se disse, os homens tornam-se repentinamente benevolentes e amam superficialmente, isto é, segundo um só e débil movimento da vontade que não irrompe em obra.
1824. Em seguida, quando diz: parece, pois etc., mostra que a benevolência é princípio da amizade.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro mostra que a benevolência é princípio da amizade;
em segundo lugar mostra de qual amizade é princípio, ali: não aquela que é por causa do útil etc.
Diz, portanto, primeiro que a benevolência parece ser princípio da amizade, assim como deleitar-se na vista de alguma mulher é princípio do amor a ela. Pois ninguém começa a amar alguma mulher se antes não se tiver deleitado na sua beleza, nem contudo logo, quando se alegra na vista da forma da mulher, a ama, mas é sinal de amor completo quando, se ela está ausente, a deseja, como que suportando com pesar a sua ausência e almejando a sua presença. E de modo semelhante se passa com a amizade e a benevolência; pois não é possível que alguns sejam amigos se antes não se tiverem feito benevolentes,
1825. nem contudo, pelo fato de serem benevolentes, podem ser ditos amigos, porque aos benevolentes pertence somente isto, que queiram bens àqueles para com quem são benevolentes, de tal modo, porém, que nada fariam por eles nem se perturbariam pelos seus males. Donde alguém pode, falando por transferência, dizer que a benevolência é uma espécie de amizade ociosa, a saber, porque não tem operação amigável associada; mas, quando o homem persevera por muito tempo na benevolência e se acostuma a querer o bem a alguém, firma-se o seu ânimo para querer o bem, de tal modo que a vontade não será ociosa, mas eficaz, e assim se torna amizade.
1826. Em seguida, quando diz: não aquela que é por causa do útil etc., mostra de qual amizade a benevolência é princípio.
E primeiro mostra de qual não é princípio;
em segundo lugar de qual é princípio, ali: de modo geral, porém etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas.
Primeiro põe o que pretende. E diz que a benevolência, pela sua duração e pela convivência habitual, não é conduzida à verdadeira espécie de amizade que é por causa do útil ou do deleitável.
1827. Em segundo lugar, ali: pois não etc., prova o proposto. Pois a benevolência não passa àquela amizade na qual a benevolência não tem lugar; ora, a benevolência não tem lugar nas referidas amizades. E isto de fato se manifesta claramente na amizade do deleitável, na qual cada um dos amigos quer para si, a partir do outro, o deleite, o qual às vezes se dá com prejuízo do outro, e assim se elimina a benevolência. Mas na amizade útil pode haver benevolência quanto àquele que já recebeu os benefícios, o qual, se agir com justiça, retribui ao menos a benevolência pelos benefícios que recebeu;
1828. mas, se alguém quer a respeito de outrem que este esteja bem e aja bem por causa da esperança que tem de, por meio dele, abundar em bens, não parece ser benevolente para com aquele por meio de quem espera abundar, mas antes para consigo mesmo, assim como também não parece ser amigo de alguém quem aplica algum cuidado ao bem deste por causa de alguma utilidade própria, a saber, para dele se servir para algo.
1829. A seguir, quando diz: totaliter autem etc., mostra de qual amizade a benevolência é o princípio. E diz que universalmente a benevolência parece existir para com alguém por causa de alguma virtude e equidade sua, ou seja, quando a alguém parece que aquele para com quem é benevolente é bom ou forte ou algo desse gênero, pelo que os homens costumam ser louvados, como se disse a respeito dos atletas, para com os quais nos tornamos benevolentes por causa da fortaleza que neles aparece ou por causa de algo desse gênero.