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Lição 5

The Definition of Virtue

Depois disso, porém, deve-se examinar o que é a virtude. Uma vez, pois, que as coisas que se dão na alma são três, paixões, potências e hábitos, a virtude será algo dentre estes. [289]

Chamo, porém, paixões: a concupiscência, a ira, o temor, a audácia, a inveja, a alegria, a amizade, o ódio, o desejo, a emulação, a misericórdia; universalmente, aquilo a que se segue prazer ou tristeza. [291]

E potências, aquelas segundo as quais somos ditos passíveis destas coisas, por exemplo, aquelas segundo as quais somos capazes de nos irar ou de nos entristecer ou de nos compadecer. [297]

E hábitos, aqueles segundo os quais nos temos bem ou mal em relação às paixões, por exemplo, quanto ao irar-se: se veementemente ou remissamente, temo-nos mal; se, porém, de modo mediano, bem. E, de modo semelhante, também quanto às demais coisas. [298]

As paixões, portanto, não são nem virtudes nem malícias, pois nem somos ditos estudiosos ou depravados segundo as paixões, mas somos ditos assim segundo as virtudes ou as malícias. [299]

E porque segundo as paixões nem somos louvados nem vituperados; pois não é louvado quem teme nem quem se ira, nem é vituperado quem simplesmente se ira, mas quem se ira de tal modo. Segundo as virtudes, porém, ou as malícias, somos louvados ou vituperados. [300]

Além disso, iramo-nos e tememos não espontaneamente, mas as virtudes são certas escolhas ou não sem escolha. [301]

E, além disso, segundo as paixões somos ditos ser movidos, mas segundo as virtudes e as malícias não ser movidos, mas dispostos de certo modo. [302]

Por causa disso, porém, tampouco são potências. Pois nem somos ditos bons pelo poder padecer simplesmente, nem maus, nem somos louvados nem vituperados. [303]

E, além disso, somos potentes por natureza, mas não nos tornamos bons ou maus por natureza. E disso falamos antes. [304]

Se, portanto, as virtudes não são nem paixões nem potências, resta que sejam hábitos. Ficou dito, pois, qual é o gênero da virtude. [305]

289. Post haec autem quid est virtus etc. Depois que o Filósofo determinou a causa da virtude, começa aqui a investigar o que é a virtude.

E divide-se em duas partes:

na primeira mostra o que é a virtude;

na segunda determina a oposição da virtude ao vício, ali: tribus autem dispositionibus etc.

Ora, a primeira parte divide-se em duas partes:

na primeira determina o que é a virtude em geral;

na segunda manifesta a definição estabelecida em cada uma das virtudes, ali: oportet autem non solum universaliter dici etc.

Ora, a primeira divide-se em duas partes:

na primeira investiga a definição da virtude;

na segunda conclui a definição, ali: est ergo virtus habitus etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro investiga o gênero da virtude;

segundo, a sua diferença, ali: oportet autem non solum etc.

Ora, investiga o gênero da virtude por via de divisão. Por isso, quanto ao primeiro faz três coisas:

primeiro propõe a divisão;

segundo expõe os seus membros, ali: dico autem passiones etc.;

terceiro argumenta a partir da divisão estabelecida, ali: passiones quidem igitur etc.

290. Diz, pois, primeiro que, para investigar o que é a virtude, é preciso assumir que há três coisas na alma, a saber, paixões, potências e hábitos, e a virtude deve necessariamente ser uma delas. Disse, com efeito, acima que a virtude é princípio de certas operações da alma; ora, nada há na alma que seja princípio de operação senão alguma dessas três coisas; pois às vezes o homem parece agir por paixão, por exemplo por ira, outras vezes por hábito, como aquele que opera por arte, e outras vezes por simples potência, como quando o homem começa pela primeira vez a operar. Disso fica patente que sob esta divisão não se compreendem absolutamente todas as coisas que há na alma, porque a essência da alma não é nenhuma delas, nem tampouco a operação inteligível, mas aqui se tocam somente aquelas coisas que são princípios de alguma ação.

291. A seguir, quando diz: dico autem passiones etc., manifesta os membros da divisão anteriormente feita.

E primeiro manifesta quais sejam as paixões;

segundo, quais sejam as potências, ali: potentias autem etc.;

terceiro, quais sejam os hábitos, ali: habitus autem secundum quos etc.

Quanto ao primeiro, deve-se considerar que, segundo a alma vegetativa, não se falam paixões da alma, porque as forças desta parte da alma não são passivas, mas ativas. Ora, as forças apreensivas e apetitivas são passivas tanto na parte sensitiva quanto na parte intelectiva, exceto o intelecto agente. E, embora sentir e entender seja um certo padecer, contudo não se falam paixões da alma segundo a apreensão do sentido ou do intelecto, mas somente segundo o apetite. Porque a operação da potência apreensiva se dá conforme a coisa apreendida está no apreensor ao modo do apreensor, e assim a coisa apreendida é de certo modo atraída ao apreensor; ao passo que a operação da potência apetitiva se dá conforme o que apetece se inclina para o apetecível; e, porque é próprio do que padece ser atraído para o agente e não o contrário, daí vem que as operações das potências apreensivas não se dizem propriamente paixões, mas somente as operações das potências apetitivas.

292. Entre estas, também a operação do apetite intelectivo não se diz propriamente paixão, tanto porque não se dá segundo transmutação de órgão corporal, a qual se requer para a razão de paixão propriamente dita, quanto também porque, segundo a operação do apetite intelectivo que é a vontade, o homem não é levado como quem padece, mas antes ele mesmo se dirige, existindo como senhor de seu ato. Resta, portanto, que se digam propriamente paixões as operações do apetite sensitivo, que se dão segundo transmutação de órgão corporal e pelas quais o homem é de certo modo conduzido.

293. Ora, o apetite sensitivo divide-se em duas forças, a saber, na concupiscível, que respeita o bem sensível absolutamente, isto é, o que é deleitável segundo o sentido, e o mal contrário a ele; e na irascível, que respeita o bem sob a razão de uma certa elevação, como se diz que a vitória é um certo bem, embora não seja acompanhada de deleite do sentido.

Assim, portanto, quaisquer paixões que respeitam o bem ou o mal absolutamente estão na concupiscível; as quais, em relação ao bem, são três, a saber, o amor, que importa uma certa conaturalidade do apetite com o bem amado, e o desejo, que importa um movimento do apetite para o bem amado, e a deleitação, que importa um repouso do apetite no bem amado; a estas se opõem três em ordem ao mal, a saber, o ódio ao amor, a aversão ou fuga ao desejo e a tristeza à deleitação. Já aquelas paixões que respeitam o bem ou o mal sob a razão de algo árduo pertencem à irascível, como o temor e a audácia em relação ao mal, a esperança e o desespero em relação ao bem; e a quinta é a ira, que é uma paixão composta, e por isso não tem contrário.

294. E por isso, enumerando as paixões, diz que as paixões são a concupiscência, que chamamos desejo, e a ira e o temor e a audácia e a inveja, que se contém sob a tristeza, e o gozo, que se contém sob a deleitação (pois há uma deleitação não corporal, mas que consiste na apreensão interior), e a amizade e o ódio e o desejo, que difere da concupiscência porque a concupiscência é de deleitação corporal, ao passo que o desejo é de qualquer outro deleitável.

295. Acrescenta ainda o zelo e a misericórdia, que são espécies da tristeza; pois a misericórdia é tristeza pelos males alheios, ao passo que o zelo é tristeza pelo fato de o homem carecer daquilo que os outros têm.

296. Acrescenta ainda que, universalmente, a todas as coisas sobreditas seguem-se a deleitação e a tristeza, porque todas as outras importam certos movimentos para o bem e para o mal, de cuja sobrevinda se causa a deleitação ou a tristeza; por isso todas as outras paixões terminam na deleitação ou na tristeza.

297. A seguir, quando diz: potentias autem secundum quas etc., manifesta quais sejam as potências, não porém em geral, mas em torno da matéria moral, segundo a diferença em relação às paixões. Diz, com efeito, que se falam potências aquelas segundo as quais somos ditos passíveis das sobreditas paixões, isto é, capazes de padecer as sobreditas paixões; por exemplo, a potência irascível é aquela segundo a qual podemos irar-nos, ao passo que a potência concupiscível é aquela segundo a qual podemos entristecer-nos ou compadecer-nos.

298. A seguir, quando diz: habitus autem secundum quos etc., manifesta quais sejam os hábitos: e isto também não em geral, mas na matéria moral por comparação com as paixões. E diz que se falam hábitos aqueles segundo os quais nos comportamos bem ou mal para com as paixões. Pois o hábito é uma certa disposição que determina a potência por comparação com algo, determinação essa que, se for segundo o que convém à natureza da coisa, será um hábito bom que dispõe a que algo se faça bem; do contrário, será um hábito mau e, segundo ele, algo se fará mal. E exemplifica que, segundo um certo hábito, nos comportamos de modo a irar-nos ou mal, se isto se fizer veemente ou remissamente, isto é, segundo superabundância ou defeito, ou bem, se isto se fizer de modo mediano.

299. A seguir, quando diz: passiones quidem igitur etc., argumenta a partir da divisão anteriormente feita.

E primeiro mostra que as virtudes não são paixões;

segundo, que não são potências, ali: propter haec autem neque potentiae etc.;

terceiro conclui que são hábitos, ali: si igitur neque passiones etc.

Quanto ao primeiro, apresenta quatro razões,

das quais a primeira é esta: segundo as virtudes somos ditos bons e segundo as malícias opostas somos ditos maus; mas segundo as paixões consideradas absolutamente não somos ditos bons ou maus; logo as paixões não são nem virtudes nem malícias.

300. A segunda razão apresenta ali: et quoniam secundum passiones quidem etc. A qual se toma do louvor e da censura, que são certos testemunhos de bondade ou de malícia. Diz, pois, que segundo as virtudes somos louvados, ao passo que segundo as malícias opostas somos censurados. Mas segundo as paixões consideradas absolutamente não somos nem louvados nem censurados; pois ninguém é louvado nem censurado pelo fato de temer ou irar-se absolutamente, mas somente pelo fato de temer ou irar-se de algum modo, isto é, segundo a razão ou contra a razão; e o mesmo se deve entender nas demais paixões da alma. Logo as paixões da alma não são nem virtudes nem malícias.

301. A terceira razão apresenta ali: adhuc irascimur quidem et timemus etc. A qual se toma do modo de agir segundo a virtude. Pois as virtudes ou são escolhas ou não são sem escolha; com efeito, o próprio ato da virtude pode dizer-se virtude, e assim, se tomamos os principais atos das virtudes, que são interiores, a virtude é escolha; mas, se os exteriores, a virtude não é sem escolha, porque os atos exteriores das virtudes procedem da escolha interior; se, porém, se toma a virtude pelo próprio hábito da virtude, também assim a virtude não é sem escolha, como a causa não é sem o seu próprio efeito. Ora, as paixões nos sobrevêm sem escolha, porque por vezes antecedem a deliberação da razão que se requer para a escolha; e é isto o que diz, que nos iramos e tememos não espontaneamente, isto é, não pelo arbítrio da razão. Logo as paixões não são virtudes.

302. A quarta razão apresenta ali: adhuc autem secundum passiones quidem moveri etc. A qual se toma da própria essência da virtude. Pois as paixões são certos movimentos segundo os quais somos ditos ser movidos. Ora, as virtudes e as malícias são certas qualidades segundo as quais não somos ditos ser movidos, mas ser dispostos de algum modo, isto é, bem ou mal, a que sejamos movidos. Logo as paixões não são nem virtudes nem malícias.

303. A seguir, quando diz: propter haec autem neque potentiae sunt etc., mostra que as virtudes não são potências, por duas razões.

Das quais a primeira se toma segundo a razão do bem e do mal, assim como também provou acima acerca das paixões. E a razão é esta: ninguém é dito bom ou mau, nem é louvado nem censurado, pelo fato de poder padecer segundo alguma paixão, por exemplo pelo fato de poder irar-se ou temer; mas segundo as virtudes e as malícias somos ditos bons ou maus, somos louvados ou censurados; logo as virtudes e as malícias não são potências.

304. A segunda razão apresenta ali: et adhuc potentes sumus etc. A qual se toma da causa. E é esta: as potências estão em nós por natureza, porque são propriedades naturais da alma; mas as virtudes e as malícias segundo as quais somos ditos bons ou maus não estão em nós por natureza, como acima foi provado; logo as virtudes e as malícias não são potências.

305. A seguir, quando diz: si igitur neque passiones sunt virtutes etc., conclui o proposto, a saber, que se as virtudes não são paixões nem potências, resta que sejam hábitos, segundo a divisão anteriormente feita. E assim conclui que é manifesto o que é a virtude segundo o seu gênero, a saber, que está no gênero do hábito.