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Lição 9

A Virtuous Man’s Love of Self

Mas certamente parecerá que tal homem é mais amante de si. Pois atribui a si mesmo as coisas ótimas e os máximos bens. [1866-1867]

E favorece o que há de mais principal em si mesmo, e todas as coisas obedecem a isto. [1868]

Ora, assim como a cidade parece ser sobretudo o que há de mais principal nela, e assim toda outra constituição, assim também o homem; e será amante de si ao máximo aquele que ama isto e a isto favorece. [1869]

E diz-se continente e incontinente conforme retém o intelecto ou não, como sendo isto cada um. [1870]

E as coisas que se fazem com a razão parecem ter sido feitas pelos próprios homens e voluntariamente, sobretudo. [1871]

Que, portanto, cada um é isto, ou o é ao máximo, não é obscuro, e que o virtuoso ama isto ao máximo; por isso será amante de si ao máximo. Segundo a outra espécie do censurado, e diferindo tanto quanto o viver segundo a razão difere do viver segundo a paixão, e o desejar ou o bem absolutamente ou o que parece conveniente. [1872-1873]

A respeito das boas ações, pois, todos os que se empenham de modo diferente recebem-nas e as louvam. [1874]

Ora, esforçando-se todos para o bem e empenhando-se em fazer as coisas ótimas, também comumente haverá para todos aquilo de que se carece, e para cada um os máximos bens que lhe são próprios, se de fato a virtude é algo tal. [1875]

Por isso, é preciso que o bom seja amante de si, pois ele mesmo será ajudado ao fazer o bem e ajudará os outros; mas o mau não deve sê-lo, pois prejudicará tanto a si mesmo quanto os próximos ao seguir as paixões depravadas. [1876]

Para o mau, com efeito, dissoam as coisas que deve fazer e as que faz; <...> pois todo intelecto escolhe o ótimo para si mesmo, ao passo que o virtuoso obedece ao intelecto. [1877]

Pois é verdade acerca do zeloso que faz muitas coisas por causa dos amigos, e as faz de modo eminente, ainda que seja preciso morrer; pois lançará fora tanto as riquezas quanto as honras e, em suma, os bens pelos quais se combate, procurando para si mesmo o bem. [1878]

Pois preferirá deleitar-se intensamente por um breve tempo a fazê-lo por muito tempo de modo tranquilo, e viver bem um ano a viver muitos anos de qualquer modo, e uma só ação boa e grande a muitas e pequenas. Ora, isto talvez aconteça àqueles que morrem: escolhem para si mesmos um grande bem. [1879]

E lançam fora as riquezas, para que os amigos recebam mais; pois ao amigo cabem as riquezas, mas a ele mesmo o bem; assim atribui a si mesmo o maior bem. [1881]

E a respeito das honras e dos principados vale o mesmo modo; pois lançará todas essas coisas ao amigo, pois isso é para ele um bem e algo louvável. Convenientemente, pois, parece ser zeloso quem escolhe o bem em detrimento de tudo. [1882]

Ora, acontece também que ceda as ações ao amigo. E é melhor tornar-se a causa da ação do amigo do que operar isso ele mesmo. Em todas as coisas louváveis, portanto, o zeloso parece atribuir mais do bem a si mesmo. [1883]

Assim, pois, é preciso ser amante de si, como se disse, mas não como o são muitos. [1884]

1866. Mas certamente parecerá que tal homem etc. Depois que o Filósofo mostrou de que modo alguém se diz amante de si segundo aquilo que é censurável, aqui mostra de que modo alguém se diz amante de si segundo aquilo que é louvável.

E quanto a isso faz duas coisas:

primeiro, mostra haver um certo modo pelo qual alguém é amante de si diverso do mencionado;

segundo, mostra que, segundo esse modo, ser amante de si é louvável, em: a respeito das boas ações, pois etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro, mostra que é amante de si aquele que atribui a si a abundância dos bens da razão;

segundo, mostra que o virtuoso é tal, em: que, portanto etc.;

terceiro, mostra que esse modo de amar a si mesmo é diferente do mencionado antes, em: segundo a outra espécie etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas.

Primeiro, propõe o que pretende. E diz que tal homem, a saber, o que se empenha por sobressair nas obras de virtude, parece ser mais philautos, isto é, amante de si, do que aquele que atribui a si a superabundância dos bens sensíveis.

1867. Segundo, em: pois atribui etc., prova o propósito com duas razões. A primeira delas é que alguém tanto mais ama a si mesmo quanto maiores bens atribui a si; ora, aquele que se empenha por sobressair nas obras de virtude atribui a si as coisas ótimas, que são os máximos bens, a saber, os bens honestos; logo, tal homem ama a si mesmo ao máximo.

1868. Põe a segunda razão em: e favorece etc. A saber, porque tal homem favorece com bens aquilo que há de mais principal nele mesmo, isto é, o intelecto, e faz com que todas as partes da alma obedeçam ao intelecto; ora, alguém tanto mais ama a si mesmo quanto mais ama aquilo que é mais principal nele; e assim é claro que aquele que quer sobressair nas obras de virtude ama a si mesmo ao máximo.

1869. Terceiro, em: ora, assim como etc., prova o que tinha suposto, a saber, que aquele que ama o que há de mais principal nele mesmo, isto é, o intelecto ou a razão, ama a si mesmo ao máximo.

E isso mostra com três razões.

A primeira delas é que a cidade parece ser sobretudo aquilo que há de mais principal nela, donde aquilo que nela fazem os governantes da cidade se diz ser feito por toda a cidade, e a mesma razão vale para toda outra coisa constituída de muitas partes; donde também o homem é sobretudo aquilo que é principal nele, a saber, a razão ou o intelecto; e assim aquele que ama o intelecto ou a razão e a favorece com bens parece ser philautos, isto é, amante de si, ao máximo.

1870. Põe a segunda razão em: e continente etc. Pois alguém se diz continente por assim dizer contendo-se, e incontinente por assim dizer não se contendo, e isso enquanto o homem retém o intelecto submetendo-se ao seu juízo por meio da continência, ou não o retém por meio da incontinência, como se cada homem fosse isto, isto é, o seu intelecto; e assim parece que verdadeiramente ama a si mesmo o homem que ama o intelecto.

1871. Põe a terceira razão em: e as coisas que se fazem parecem etc. E diz que aquelas coisas que os homens fazem pela razão parecem sobretudo ter sido feitas por eles mesmos e feitas voluntariamente, ao passo que as que o homem faz por concupiscência ou por ira parece não as ter feito ele mesmo por vontade própria, mas conduzido por um movimento estranho; e assim é claro que o homem é principalmente aquilo que é segundo o intelecto e a razão, donde ama a si mesmo ao máximo quando ama o intelecto e a razão.

1872. Em seguida, quando diz: que, portanto etc., mostra a quem convém ser amante de si segundo o modo mencionado. E diz ser manifesto pelo que foi dito que cada um é isto, a saber, o intelecto ou a razão, ou, porque algumas outras coisas concorrem para o ser do homem, pode-se dizer que o homem é sobretudo isto, a saber, o intelecto ou a razão, porque isso é o formal e o que completa a espécie humana; é também manifesto que o virtuoso ama isto ao máximo, a saber, o intelecto e a razão, porque o conserva totalmente e em todas as coisas lhe obedece; donde é manifesto que o virtuoso é ao máximo philautos, isto é, amante de si.

1873. Em seguida, quando diz: segundo outra espécie etc., mostra que este modo de amar a si mesmo difere em espécie do anteriormente mencionado. E diz que o virtuoso é amante de si mesmo segundo outra espécie de amor a si diferente daquela que é reprovada, como se disse acima,

e aponta duas diferenças,

das quais uma está da parte da ação: pois o virtuoso ama a si mesmo enquanto vive segundo a razão, mas aquele que é censurado vive segundo a paixão (pois segue as paixões da alma irracional, como se disse acima);

a outra diferença, porém, está da parte do fim: pois o virtuoso ama a si mesmo enquanto deseja para si aquilo que é absolutamente bom, ao passo que aquele que é censurado ama a si mesmo enquanto deseja para si aquilo que aparece como bem útil, quando, no entanto, é nocivo.

1874. Em seguida, quando diz: quanto às boas ações etc., mostra que amar a si mesmo deste segundo modo é louvável.

E primeiro mostra a proposição;

segundo, exclui daquele que ama a si mesmo do segundo modo aquilo pelo qual o amante de si é censurado, ali: pois é verdadeiro o que se diz do virtuoso etc.

Acerca do primeiro ponto faz três coisas.

Primeiro, mostra que aquele que ama a si mesmo segundo a razão é digno de louvor. Pois tal pessoa, como se disse, se empenha em sobreexcelir nas obras das virtudes; ora, é manifesto que todos aceitam e louvam aqueles que se empenham nas boas ações de modo diferente dos outros, isto é, mais abundantemente que os outros; e assim é evidente que aquele que ama a si mesmo segundo a virtude é louvável.

1875. Segundo, ali: ora, para todos etc., mostra que ele é também útil tanto a si mesmo quanto aos outros. Pois se disse que aquele que ama a si mesmo segundo a virtude se empenha em agir bem de modo sobreexcelente. Ora, se todos se esforçassem pelo bem, de tal modo que cada um procurasse superar o outro em bondade agindo do melhor modo, seguir-se-ia que todos teriam em comum aquilo de que necessitam, porque um socorreria o outro e se tornariam próprios de cada um aqueles que são os maiores dos bens, isto é, as virtudes.

1876. Terceiro, ali: portanto o bem etc., infere dois corolários do que foi dito.

O primeiro dos quais é que convém que o bom ame a si mesmo, porque, agindo bem, ajudará tanto a si quanto aos outros; mas não convém que o mau ame a si mesmo, porque, seguindo paixões depravadas, prejudicará tanto a si mesmo, privando-se das virtudes, quanto aos próximos, privando-os dos bens sensíveis.

1877. Segundo, expõe ali: portanto, para o mau etc. Diz que no homem mau são contrárias as coisas que faz e as que convém que ele faça; pois age contra o intelecto e a razão, ora, todo intelecto escolhe aquilo que é o melhor para si mesmo, e assim o mau não faz as coisas que convém que ele faça, mas isto compete ao virtuoso, que em tudo obedece ao intelecto.

1878. Em seguida, quando diz: pois é verdadeiro o que se diz do virtuoso etc., exclui daquele que ama a si segundo a virtude aquilo que acima foi posto como acusação contra o amante de si mesmo, a saber, que nada faz por outrem.

E acerca disto faz três coisas:

primeiro, propõe aquilo que pretende;

segundo, manifesta a proposição, ali: pois por pouco tempo etc.;

terceiro, concluindo em epílogo, conclui a verdade da questão, ali: assim, pois etc.

Diz, pois, primeiro que é verdadeiro o que se diz do virtuoso, que fará muitas coisas por causa dos amigos e primariamente, isto é, sobretudo entre todos os outros, e, mesmo que seja preciso morrer, não abandonará o amigo; já as riquezas e as honras e todos os bens exteriores em torno dos quais os homens lutam, como que os lançará fora e os desprezará por causa do amigo, e por meio de tudo isto procura para si mesmo o bem, a saber, o honesto, que é mais eminente, donde também nisto ama mais a si mesmo, por procurar para si um bem maior.

1879. Em seguida, quando diz: pois por pouco tempo etc., manifesta o que havia dito.

E primeiro quanto à morte que o virtuoso suporta pelo amigo;

segundo, quanto ao fato de que por causa do amigo despreza os bens exteriores, ali: e as riquezas etc.;

terceiro, quanto às ações virtuosas que às vezes o virtuoso concede ao amigo, ali: acontece, porém etc.

Diz, pois, primeiro que por isso, morrendo pelo amigo, procura para si mesmo o bem, porque prefere deleitar-se muito por pouco tempo numa grande obra de virtude a deleitar-se por muito tempo tranquilamente, isto é, medianamente, em obras medíocres de virtude,

1880. e preferirá viver bem de modo excelente por um ano a viver medianamente por muitos anos, e, do mesmo modo, também preferirá uma só ação boa e grande a muitas boas e pequenas. Ora, isto acontece àqueles que morrem por causa da virtude, porque, embora vivam menos, contudo numa só ação, pela qual se expõem pelo amigo, fazem um bem maior do que em muitas outras ações, e assim, ao se exporem à morte pelos amigos, agindo virtuosamente escolhem um grande bem para si mesmos. E nisto é manifesto que amam a si mesmos ao máximo.

1881. Em seguida, quando diz: e as riquezas etc., manifesta o mesmo quanto ao desprezo dos bens exteriores.

E primeiro quanto à riqueza. E diz que os virtuosos, por causa dos amigos, lançam fora, isto é, desprezam ou dispersam, as riquezas, de tal modo que seus amigos recebam mais em riquezas, e também nisto amam mais a si mesmos segundo a verdade; pois enquanto alguém concede riqueza ao amigo e adquire para si mesmo o bem honesto, é manifesto que atribui a si mesmo o bem maior, e assim ama mais a si mesmo.

1882. Segundo, ali: e quanto às honras etc., mostra o mesmo acerca das honras e dignidades. E diz que do mesmo modo se comporta acerca das honras e dos principados: pois todas estas coisas o virtuoso facilmente cederá ao amigo, porque isto mesmo é um certo bem, isto é, obra de virtude e louvável. E assim é evidente que o virtuoso age convenientemente em vez de todos, isto é, em lugar de todos os bens exteriores, escolhendo o bem da virtude, que é o máximo, e assim amará ao máximo a si mesmo.

1883. Em seguida, quando diz: acontece, porém etc., mostra o mesmo quanto às próprias ações da virtude. E diz que às vezes acontece que o virtuoso conceda também ações virtuosas ao seu amigo: por exemplo, se houver alguma obra de virtude a ser feita por ele ou por outro, concede que seja feita pelo amigo, para que este com isto aproveite e seja louvado. E, contudo, também nisto toma para si aquilo que é melhor, pois é melhor e mais virtuoso que ele seja causa de o seu amigo fazer tais coisas do que se ele próprio o fizesse, sobretudo permanecendo-lhe a oportunidade de fazer outras vezes tais coisas ou maiores. Assim, pois, é evidente que o virtuoso atribui a si mesmo mais do bem quanto a todas as coisas louváveis e assim ama ao máximo a si mesmo.

1884. Por último, concluindo em epílogo, conclui que é preciso ser amante de si assim, como se disse do virtuoso, e não como muitos homens, isto é, os que não são virtuosos, amam a si mesmos.