Lição 3
Pleasure is Not a Good According to Plato
Contudo, se o prazer não é do gênero das qualidades, nem por isso deixa de ser do gênero dos bens; pois nem as operações da virtude são qualidades, nem a felicidade. [1980]
Dizem, porém, que o bem é determinado, mas que o prazer é indeterminado, porque recebe o mais e o menos. [1982]
Portanto, se julgam isso a partir do fato de deleitar-se, então, também quanto à justiça e às outras virtudes segundo as quais manifestamente dizem que uns são mais e outros menos tais, o mesmo se dará também segundo as virtudes; pois há os que são mais justos e mais fortes. E há também o agir justamente e o agir temperantemente segundo o mais e o menos. Se, porém, isso se dá nos prazeres, talvez não digam a causa, a saber, que uns são não misturados e outros misturados. Pois o que impede que, assim como a saúde, sendo determinada, recebe o mais e o menos, assim também o prazer? Com efeito, não há a mesma comensuração em todos, nem no mesmo há sempre uma só e única, mas, mesmo diminuída, permanece até certo ponto e difere no mais e no menos. [1983]
Além disso, pondo que o bem por si é perfeito, mas que os movimentos e as gerações são imperfeitos, tentam enunciar que o prazer é movimento e geração. [1989]
Ora, não parecem dizer bem, nem que seja movimento. Pois a todo movimento parece próprio a rapidez e a lentidão, e, se não segundo si mesmo, como o do mundo, então em relação a outro. Mas ao prazer não convém nenhum desses; pois ter-se deleitado é rápido, assim como ter-se irado, mas deleitar-se não o é, nem em relação a outro; ao passo que caminhar, crescer e todas as coisas tais o são. Portanto, transpor-se para o prazer é algo rápido ou lento, mas operar segundo ele mesmo não é rápido, digo o deleitar-se. [1990]
E de que modo poderá ser geração? Pois parece que não se gera qualquer coisa a partir de qualquer coisa, mas aquilo a partir do qual algo se gera é aquilo em que ele se dissolve. E aquilo de que o prazer é geração, disso a tristeza é corrupção. E dizem, ademais, que a tristeza é o defeito daquilo que é segundo a natureza, mas o prazer é o preenchimento. Ora, essas são paixões corporais. Se, portanto, o prazer é o preenchimento daquilo que é segundo a natureza, aquilo em que se dá o preenchimento é o que também se deleitará. Logo, o corpo. Mas não parece ser assim. Não é, portanto, o prazer o preenchimento, mas, feito o preenchimento, alguém se deleitará, e, cortado, se entristecerá. [1993]
Ora, essa opinião parece ter surgido das tristezas e dos prazeres relativos ao alimento; pois os que se tornaram carentes e previamente entristecidos deleitam-se com o preenchimento. Isso, porém, não acontece com todos os prazeres: com efeito, são sem tristeza os prazeres matemáticos e os dos sentidos que se dão pelo olfato, mas também as audições e as visões, e muitas das memórias e das esperanças. De que, portanto, serão essas gerações? Pois de nenhum defeito surgiram, do qual pudesse haver preenchimento. [1995]
1980. Contudo, se não é do gênero das qualidades etc. Depois de o Filósofo ter afastado as objeções dos platônicos às razões de Eudoxo, apresenta aqui as razões deles contra a própria posição de Eudoxo.
E a respeito disso faz duas coisas:
primeiro, propõe razões para mostrar que o prazer não é do gênero dos bens;
segundo, apresenta razões para mostrar que o prazer não é bem por si e universalmente, ali: parece, porém, manifestar-se etc. E, porque as primeiras razões concluem o falso, por isso Aristóteles, ao mesmo tempo em que as expõe, as destrói.
Põe, portanto, a respeito do primeiro, quatro razões.
A primeira delas é esta: o bem parece pertencer ao gênero da qualidade, pois, a quem pergunta qual é isto, respondemos que é bom; ora, o prazer não é qualidade; logo, não é bem.
1981. Mas Aristóteles refuta isso, dizendo que não se segue, se o prazer não é do gênero das qualidades, que por isso não seja do gênero dos bens, porque também as operações da virtude e a própria felicidade, que manifestamente são do gênero dos bens, não são qualidades. Com efeito, o bem se diz não somente na qualidade, mas também em todos os gêneros, como se disse no primeiro livro.
1982. Apresenta a segunda razão ali: dizem, porém etc.
E, primeiro, expõe a própria razão dos platônicos. Diziam, com efeito, que ser bom é algo determinado, como fica claro pelo que acima se disse no nono livro, ao passo que o prazer, como dizem, é indeterminado, o que provavam pelo fato de receber o mais e o menos, e assim concluíam que o prazer não seria do gênero dos bens.
1983. Segundo, ali: portanto, se etc., destrói tal processo.
A respeito do que se deve considerar que de dois modos algo recebe o mais e o menos:
de um modo, no concreto;
de outro modo, no abstrato;
pois algo sempre se diz mais e menos pela aproximação a alguma coisa una ou pelo afastamento dela; portanto, quando aquilo que está no sujeito é uno e simples, ele mesmo em si não recebe o mais e o menos, donde não se diz mais e menos no abstrato, mas pode dizer-se mais e menos no concreto, pelo fato de o sujeito participar mais e menos de tal forma, como fica claro na luz, que é uma forma una e simples, donde a própria luz não se diz segundo o mais e o menos, mas o corpo se diz mais ou menos luminoso pelo fato de participar da luz mais ou menos perfeitamente;
1984. quando, porém, há alguma forma que, em sua noção, implica certa proporção de muitos ordenados a um, tal forma também segundo sua própria noção recebe o mais e o menos, como fica claro a respeito da saúde e da beleza, cada uma das quais implica uma proporção conveniente à natureza daquilo que se diz belo ou são; e, porque tal proporção pode ser mais ou menos conveniente, daí vem que a própria beleza ou saúde, considerada em si, se diz segundo o mais e o menos. E disso fica claro que a unidade, segundo a qual algo é determinado, é a causa de algo não receber o mais e o menos; porque, portanto, o prazer recebe o mais e o menos, parecia não ser algo determinado e, por consequência, não ser do gênero dos bens.
1985. Aristóteles, portanto, rebatendo isso, diz que, se os platônicos julgam que o prazer é algo indeterminado pelo fato de receber o mais e o menos no concreto, isto é, pelo fato de acontecer que alguém se deleite mais e menos, o mesmo se dirá a respeito da justiça e das outras virtudes, segundo as quais alguns se dizem ser mais e menos de tal modo; pois há alguns mais e menos justos e fortes. E o mesmo também acontece a respeito das ações; pois acontece que alguém aja justa e temperantemente mais e menos. E, segundo isso, ou as virtudes não serão do gênero dos bens, ou a razão dita não retira o prazer de ser do gênero dos bens.
1986. Se, porém, disserem que o prazer recebe o mais e o menos por parte dos próprios prazeres, deve-se considerar que talvez a razão deles não se refira a todos os prazeres, mas atribuam a causa de que certos prazeres são simples e não misturados, por exemplo o prazer que se segue à contemplação do verdadeiro, ao passo que certos prazeres são misturados, por exemplo os que se seguem à harmonização de alguns sensíveis, como os que se seguem à harmonia dos sons ou à mistura dos sabores ou das cores. Com efeito, é manifesto que o prazer simples, por si, não receberá o mais e o menos, mas somente o misturado, enquanto, a saber, a harmonização dos sensíveis que causa o prazer pode ser mais ou menos conveniente à natureza daquele que se deleita.
1987. Contudo, nem mesmo os prazeres que por si recebem o mais e o menos em razão de sua mistura precisam ser não determinados nem não bons; pois nada impede que o prazer que recebe o mais e o menos seja determinado, assim como também a saúde; pois tais coisas podem dizer-se determinadas enquanto atingem de algum modo aquilo a que estão ordenadas, embora pudessem atingi-lo mais de perto, assim como a mistura dos humores tem a noção de saúde pelo fato de atingir a conveniência da natureza humana, e por isso se diz determinada, como que atingindo o próprio termo,
1988. mas a complexão que de modo algum atinge isso não é determinada, mas está longe da noção de saúde. Por isso a saúde por si recebe o mais e o menos, porque não é a mesma a comensuração dos humores em todos os homens, nem tampouco em um só e mesmo homem é sempre a mesma, mas, ainda que diminua, permanece a noção de saúde até certo termo, e assim a saúde difere segundo o mais e o menos. E a mesma razão vale para o prazer misturado.
1989. Apresenta a terceira razão ali: e, pondo que o perfeito etc. E a respeito disso faz duas coisas.
Primeiro, expõe a própria razão. Pois os platônicos punham que aquilo que é bom por si é algo perfeito; ora, todos os movimentos e gerações são imperfeitos, pois o movimento é ato do imperfeito, como se diz no terceiro livro da Física; donde põem que nenhum movimento ou geração é do gênero dos bens, mas esforçam-se por afirmar que o prazer é movimento ou geração, donde concluem que o prazer não é bem por si.
1990. Segundo, ali: ora, não parecem dizer bem etc., exclui essa razão de dois modos.
Primeiro, quanto ao que dizem, que o prazer é movimento. E diz que não parecem dizer bem ao afirmar que o prazer é movimento. Pois todo movimento parece ser rápido ou lento, mas a rapidez e a lentidão não convêm ao movimento absolutamente segundo si mesmo, mas por respeito a outro, assim como o movimento do mundo, isto é, o movimento diurno pelo qual todo o céu se revolve, se diz rápido por respeito aos outros movimentos;
1991. e a razão disso é que, como se tem no quarto livro da Física, rápido é o que em pouco tempo se move muito, e lento o que em muito tempo se move pouco, e o muito e o pouco se dizem em relação a algo, como se tem nos Predicamentos. Mas ao prazer não compete nem rapidez nem lentidão; acontece, sim, que alguém chegue rapidamente ao prazer, assim como alguém é rapidamente provocado à ira, mas que alguém se deleite rápida ou lentamente não se diz, nem tampouco por respeito a outro, como se diz que alguém caminha rápida ou lentamente, ou cresce, e todas as coisas semelhantes. Assim, portanto, fica claro que acontece que alguém se transponha para o prazer rápida ou lentamente, isto é, chegue a ele,
1992. e isso porque por algum movimento se pode chegar ao prazer, mas não acontece operar rapidamente segundo o prazer, isto é, que alguém se deleite rapidamente, porque o próprio deleitar-se está mais no ter-se feito do que no fazer-se.
1993. Segundo, ali: e de que modo será geração etc., exclui a razão dos platônicos quanto ao que punham, que o prazer é geração.
E a respeito disso faz duas coisas:
primeiro, mostra que o prazer não é geração;
segundo, mostra a origem dessa opinião, ali: essa opinião, porém etc.
Diz, portanto, primeiro que o prazer não parece ser geração. Pois não parece que qualquer coisa se gere a partir de qualquer coisa, mas cada coisa se dissolve naquilo a partir do qual se gera. E é preciso, se o prazer é geração, que a tristeza seja corrupção daquilo mesmo de que o prazer é geração. E isso, com efeito, os platônicos afirmam: pois dizem que a tristeza é o defeito daquilo que é segundo a natureza, pois vemos que da separação daquilo que naturalmente está unido segue-se a dor, e, semelhantemente, dizem que o prazer é preenchimento, porque, quando se acrescenta a algo aquilo que lhe convém segundo a natureza, segue-se o prazer.
1994. Mas ele refuta isso, porque a separação e o preenchimento são paixões corporais. Se, portanto, o prazer é o preenchimento daquilo que é segundo a natureza, seguir-se-á que se deleita aquilo em que se dá o preenchimento. Seguir-se-á, portanto, que o corpo se deleita. Mas isso não parece ser verdadeiro, porque o prazer é uma paixão da alma. Fica claro, portanto, que o prazer não é o próprio preenchimento ou geração, mas algo que a isso se segue, pois, feito o preenchimento, alguém se deleita, assim como, feita a incisão, alguém sente dor e se entristece.
1995. Em seguida, quando diz: essa opinião, porém etc., mostra a origem dessa opinião. E diz que essa opinião, que põe o prazer como preenchimento e a tristeza como subtração, parece ter provindo das tristezas e dos prazeres relativos ao alimento; pois aqueles que antes foram entristecidos pela carência de alimento depois se deleitam no próprio preenchimento. Mas isso não acontece com todos os prazeres; pois se encontram certos prazeres nos quais não há preenchimento de algum defeito: com efeito, os prazeres que se dão nas considerações matemáticas não têm tristeza oposta, a qual eles põem consistir num defeito, e assim tais prazeres não se dão para o preenchimento de um defeito; e o mesmo aparece nos prazeres que se dão segundo os sentidos, por exemplo pelo olfato, pela audição e pela visão dos sensíveis presentes;
1996. Existem também muitas espécies de memórias deleitáveis. E, contudo, não se pode designar de que coisas sejam gerações tais deleites, pois não se encontram alguns defeitos precedentes cujo preenchimento se dê por meio de tais deleites. Ora, foi dito acima que aquilo de que o deleite é geração, disso a tristeza é corrupção; donde, se algum deleite se encontra sem o defeito da tristeza, segue-se que nem todo deleite é preenchimento.