Lição 3
Extravagance
Ora, quem superabunda é pródigo. Por isso não chamamos pródigos os tiranos; pois, pela grande quantidade das posses, não parece fácil superabundar em doações e despesas. [678]
Sendo pois a liberalidade um meio-termo acerca da doação e da aceitação do dinheiro, o liberal dará e gastará naquilo em que convém e tudo o que convém, igualmente em coisas pequenas e grandes, e isto com prazer. [679]
E aceitará de onde convém e tudo o que convém. Pois, consistindo a virtude num meio-termo acerca de ambos, fará ambas as coisas como convém; pois a tal doação decorosa segue-se a tal aceitação, mas a aceitação contrária não. As operações que se seguem uma à outra encontram-se, pois, ao mesmo tempo nele, mas é manifesto que as contrárias não. [680]
Se, porém, acontecer que ele gaste fora do que é ótimo e do que está bem, entristecer-se-á, mas moderadamente e como convém; pois é próprio da virtude deleitar-se e entristecer-se nas coisas em que convém e como convém. [681]
Mas o liberal é também bem disposto a partilhar no tocante ao dinheiro; pois pode sofrer perdas por não valorizar o dinheiro. [682]
E fica mais penalizado se não gastou algo que convinha do que entristecido se gastou algo não oportuno; e isto desagrada a Simônides. [683]
O pródigo, porém, também nestas coisas peca. Pois nem se deleita naquilo em que convém, nem como convém, nem se entristece como convém. Isto, porém, ficará mais manifesto no que segue. [684]
Ora, foi dito por nós que a prodigalidade e a avareza são superabundâncias e deficiências, e isto em duas coisas, na doação e na aceitação, pois também as despesas incluímos na doação. A prodigalidade, pois, superabunda no dar e no não aceitar, mas é deficiente no aceitar; a avareza, porém, é deficiente no dar, mas superabunda no aceitar, exceto em coisas pequenas. [685]
678. Ora, quem superabunda etc. Depois que o Filósofo tratou do liberal, aqui trata do pródigo.
E primeiro trata daquele que é totalmente pródigo;
segundo, daquele que é em parte pródigo e em parte avaro, em: mas muitos dos pródigos etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro trata do pródigo em sentido absoluto;
segundo compara o pródigo ao avaro, em: ora, foi dito por nós etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra em relação a que o pródigo superabunda;
segundo mostra qual seja o ato do pródigo, em: sendo pois a liberalidade etc.
Diz, pois, primeiro que, como alguém é chamado liberal por gastar segundo a proporção de sua substância, chama-se pródigo quem, ao gastar ou dar, superabunda a proporção de sua substância. E disto conclui que os tiranos, que têm uma abundância inesgotável de riquezas, na medida em que usurpam para si tudo o que é comum, não se chamam pródigos, porque, pela grande quantidade daquilo que possuem, não parece ser fácil que, no dar e no gastar, superabundem a proporção das próprias riquezas.
679. Depois, quando diz: sendo pois a liberalidade etc., manifesta qual seja o ato do pródigo.
E porque os opostos se manifestam mutuamente, primeiro retoma o que foi dito acerca do ato do liberal;
segundo mostra qual seja o ato do pródigo, em: o pródigo, porém etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro retoma como o liberal se comporta acerca daquilo que principalmente lhe pertence, a saber, acerca da doação e do prazer da doação;
em segundo lugar, como se comporta naquelas coisas em torno das quais a liberalidade se ocupa secundariamente, ali: e receberá de onde é preciso etc.
Diz, portanto, primeiro que, sendo a liberalidade uma certa mediania acerca da doação e do recebimento de dinheiro, o liberal despende o dinheiro dando e gastando, e isto segundo a razão reta, naquilo que é preciso e observando quaisquer outras coisas que é preciso observar em tais matérias, pelo que o liberal difere do pródigo; e faz isto tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes, pelo que o liberal difere do magnífico, que se ocupa somente com as coisas grandes, como se dirá adiante; e faz isto com prazer, pelo que difere do avaro, que na despesa do dinheiro se entristece.
680. Em seguida, quando diz: e receberá de onde é preciso etc., retoma como o liberal se comporta acerca daquelas coisas que pertencem secundariamente à liberalidade.
E primeiro, como se comporta acerca do recebimento;
em segundo lugar, como se comporta acerca da tristeza, ali: se, porém, além do ótimo e bem etc.
Diz, portanto, primeiro que o liberal recebe de onde é preciso e observa tudo aquilo que é preciso observar no receber. Pois, uma vez que a virtude da liberalidade guarda o meio acerca de ambas as coisas, a saber, o recebimento e a doação, o liberal fará ambas as coisas como é preciso, porque a uma doação conveniente segue-se que haja um recebimento conveniente; mas, se o recebimento não for conveniente, é contrário à doação conveniente, porque procedem de causas contrárias; pois a doação conveniente procede do fato de o homem preferir o bem da razão à cobiça do dinheiro, ao passo que o recebimento inconveniente provém do fato de o homem antepor a cobiça do dinheiro ao bem da razão. E porque aquelas coisas que se seguem mutuamente uma à outra ocorrem simultaneamente no mesmo sujeito, ao passo que as que são contrárias não podem existir simultaneamente, daí resulta que a doação conveniente e o recebimento conveniente, que se seguem mutuamente, se reúnem simultaneamente no liberal, mas o recebimento inconveniente não se encontra nele simultaneamente com o recebimento conveniente, ao qual é contrário.
681. Em seguida, quando diz: se, porém, além do ótimo etc., mostra como o liberal se comporta acerca da tristeza que provém da perda do dinheiro.
E acerca disto faz três coisas.
Primeiro mostra como se entristece com a doação desordenada. E diz que, se acontecer de ele consumir algo de suas riquezas fora da ordem para o fim ótimo e fora daquilo que é bem comportar-se no dar segundo as circunstâncias devidas, entristece-se com isto, assim como também qualquer virtuoso se entristece se lhe acontecer fazer algo que seja contra a virtude, e todavia acerca da própria tristeza observa a medida da razão, isto é, que a tristeza seja moderada e conforme é preciso, porque à virtude pertence que alguém se deleite e se entristeça naquilo em que é preciso e conforme é preciso.
682. Em segundo lugar, ali: mas também bem comunicativo etc., mostra como se entristece acerca da subtração do dinheiro. E diz que o liberal é bem comunicativo no dinheiro, isto é, pronto a ter o seu dinheiro como que comum com os outros; pois pode suportar sem tristeza que alguém lhe faça injúria no dinheiro, pelo fato de não apreciar muito o dinheiro.
683. Em terceiro lugar, ali: e mais penalizado etc., mostra como se entristece acerca da retenção indevida do dinheiro. E diz que se sente mais penalizado, isto é, mais se entristece, se não consome dando ou gastando, do que se entristeceria se consumisse algo que não era preciso consumir, e isto porque mais lhe pertence dar do que receber ou conservar, ainda que isto não agradasse a Simônides, isto é, a um certo poeta que dizia dever acontecer o contrário.
684. Em seguida, quando diz: o pródigo, porém etc., mostra a partir do que foi dito qual seja o ato do pródigo. E diz que em todas as coisas antes mencionadas o pródigo peca, isto é, não somente no dar e no receber, mas também no deleitar-se e no entristecer-se, porque nem se deleita nem se entristece naquilo em que é preciso e conforme é preciso. E isto ficará mais manifesto no que se segue.
685. Em seguida, quando diz: foi dito, porém, por nós etc., compara a prodigalidade com a avareza.
E primeiro quanto à oposição;
em segundo lugar, quanto à magnitude do pecado, ali: as coisas, portanto, que etc.
Diz, portanto, primeiro ter sido dito acima que a prodigalidade e a avareza se comportam segundo a superabundância e o defeito em duas coisas, a saber, na doação e no recebimento, e isto porque as despesas, que também pertencem à liberalidade, estão compreendidas sob a doação. Ora, de modo contrário superabundam e faltam nestas coisas o pródigo e o avaro; pois o pródigo superabunda no dar e no não receber, ao passo que o avaro, ao contrário, falta no dar e superabunda no receber, a não ser porventura nas coisas pequenas, que o avaro dá e não se importa de receber.