Lição 22
Intemperance Compared with Cowardice and the Sins of Children
Ora, a intemperança assemelha-se mais ao voluntário do que o temor. Pois esta é por causa do prazer, aquele por causa da tristeza, das quais uma é desejável e a outra é para ser evitada. [635]
E a tristeza, de fato, entorpece e corrompe a natureza de quem a tem; o prazer, porém, nada disso faz. É, portanto, mais voluntária. [637]
Por isso é também mais censurável. Com efeito, facilmente nos acostumamos a estas coisas, pois muitas ocasiões tais ocorrem na vida, e os hábitos podem ser praticados sem perigo. Nos temores, porém, dá-se o contrário. [638]
Não parecerá, contudo, que o temor seja voluntário do mesmo modo naquilo que ocorre nos casos particulares. Pois estas coisas são sem tristeza, ao passo que aquelas, por causa da tristeza, entorpecem os homens de tal modo que abandonam as armas e fazem outras coisas de maneira torpe. Por isso também parecem ser feitas sob violência. [640]
Já no intemperante dá-se o contrário: os casos particulares são voluntários, pois provêm de quem concupisce e apetece, mas o todo é menos voluntário, pois ninguém deseja ser intemperante. [641]
Ora, transferimos o nome de intemperança também aos pecados das crianças. Pois têm certa semelhança. Mas qual é denominado a partir do outro em nada importa ao que agora tratamos; é manifesto, porém, que o posterior deriva do anterior. [643]
Não parece, porém, que a transferência tenha sido mal feita; pois é preciso punir aquele que apetece coisas torpes e que tem grande crescimento nelas, e tal coisa é máxime a concupiscência e a criança. Pois também as crianças vivem segundo a concupiscência, e nelas máxime está o apetite do que é deleitável. Se, portanto, não for bem persuadível, chegará ao domínio e ao muito. Pois o apetite do deleitável é insaciável. E daí que a operação própria do insensato e da concupiscência aumenta o que lhe é conato, e isso se forem grandes e veementes e afetarem o pensamento. [644]
Por isso é preciso que sejam mensuradas e poucas e em nada contrariem a razão. E a tal coisa chamamos bem persuadível e punida. Pois assim como é preciso que a criança viva segundo o preceito do pedagogo, assim também o concupiscível <... > consoe com a razão. Pois a intenção de ambos é o bem. E o temperante concupisce o que é preciso e como é preciso e quando, assim também o ordena a razão. Estas coisas, pois, foram por nós ditas acerca da temperança. [647]
635. Ora, a intemperança assemelha-se mais etc. Depois que o Filósofo determinou acerca do ato da temperança e dos vícios opostos, aqui compara o pecado da intemperança com outros pecados.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, compara a intemperança com o vício da covardia;
segundo, com os vícios das crianças, ali: ora, o nome de intemperança etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra que a intemperança tem mais de voluntário do que a covardia;
segundo, mostra que o voluntário se encontra em ordem diversa em cada um dos vícios, ali: não parecerá, contudo etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra que a intemperança tem mais de voluntário do que a covardia;
segundo, infere um corolário do que foi dito, ali: por isso é mais censurável etc.
Diz, pois, primeiro que a intemperança se assemelha mais ao voluntário do que o temor, isto é, porque tem mais de voluntário.
E isso prova por duas razões.
636. A primeira delas se toma daquilo que propriamente segue ao voluntário e ao involuntário. Pois cada um se deleita naquilo que faz voluntariamente, e se entristece naquilo que é involuntário. Ora, é manifesto que o intemperante age por causa do prazer que concupisce, ao passo que o covarde age por causa da tristeza que foge; e destes dois, o prazer é desejável, porque não só se deleita aquele que atualmente frui do prazer, mas também aquele que busca o prazer pela esperança de alcançá-lo; a tristeza, porém, é para ser evitada e, por conseguinte, involuntária. E assim é manifesto que a intemperança é movida por aquilo que é por si voluntário, ao passo que a covardia é movida por aquilo que é para ser evitado e involuntário. Portanto, a intemperança aproxima-se mais do voluntário do que a covardia.
637. A segunda razão põe ali: e a tristeza, de fato etc. A qual se toma da ignorância que causa o involuntário. Pois, visto que a tristeza segue da presença de algo contrário e nocivo, segue-se que a tristeza entorpece e corrompe a natureza daquele que tem tristeza, e daí vem que o sentido do homem, por causa da tristeza, é impedido do próprio conhecimento; mas o prazer é causado pela presença do que é conveniente, o qual não corrompe a natureza, donde o prazer não entorpece nem corrompe o sentido daquele que se deleita. Do que se segue que a intemperança, que opera por causa do prazer, tem mais de voluntário do que o temor, que é movido por causa da tristeza.
638. A seguir, quando diz: por isso é mais censurável etc., conclui que, visto que aos atos voluntários se deve o louvor nos bens e a censura nos males, o vício da intemperança é mais censurável do que o vício da covardia, que tem menos de voluntário. Ao que também acrescenta outra razão, a partir do fato de que um vício é tanto mais censurável quanto mais facilmente pode ser evitado.
639. Ora, cada vício pode ser evitado pela acostumação ao contrário. E é fácil acostumar-se a agir bem naquelas coisas em torno das quais está a temperança, por dupla razão:
primeiro, porque os prazeres dos alimentos e das bebidas e de outras coisas deste gênero ocorrem muitas vezes na vida humana, donde não falta ao homem a ocasião de acostumar-se a agir bem em tais matérias;
segundo, porque acostumar-se a agir bem em tais matérias não tem perigo, pois não há grande perigo se alguém às vezes se abstém de algum dos prazeres do tato. Mas no vício da covardia dá-se o contrário, porque tanto raramente ocorrem os perigos bélicos, quanto é perigoso enfrentar coisas deste gênero. Donde se segue que o vício da intemperança é mais censurável do que o da covardia.
640. A seguir, quando diz: não parecerá, contudo etc., mostra que o voluntário não se encontra na mesma ordem em cada um dos vícios.
E primeiro mostra em que ordem se encontra na covardia;
segundo, em que ordem se encontra na intemperança, ali: já no intemperante etc.
Diz, pois, primeiro que o temor não parece ter o voluntário do mesmo modo no universal e nos particulares. Pois os universais parecem ser sem tristeza, por exemplo, que alguém vá à luta e ataque os inimigos; mas os particulares que ocorrem, por exemplo, que alguém seja ferido e repelido e padeça outras coisas deste gênero, causam tanta tristeza que os homens, por causa disso, são entorpecidos a tal ponto que abandonam as armas e fazem outras coisas deste gênero de maneira torpe. Donde, visto que no universal são voluntários e no particular se tornam involuntários, parecem ser violentos, isto é, na medida em que o homem é induzido por um princípio exterior a abandonar aquilo que antes queria.
641. A seguir, quando diz: já no intemperante etc., mostra qual é a ordem acerca da intemperança. E diz que ali a ordem é inversa, porque os particulares são máxime voluntários, pois provêm segundo o que o homem concupisce e apetece, mas o todo considerado no universal é menos voluntário, por exemplo, que alguém cometa adultério; pois ninguém concupisce ser intemperante no universal, mas os particulares pelos quais o homem se torna intemperante são deleitáveis.
642. Ora, a razão desta diferença deve tomar-se do fato de que a tristeza que move o temor pertence ao involuntário, assim como o prazer que move a intemperança pertence ao voluntário; ora, toda afeição da alma acerca dos particulares é mais veemente; e por isso, acerca dos particulares, a covardia tem mais de involuntário, ao passo que a intemperança tem mais de voluntário. E por isso, nos vícios de intemperança, é máxime nocivo demorar-se no pensamento pelo qual o homem desce aos particulares que atraem a vontade.
643. A seguir, quando diz: ora, o nome de intemperança etc., compara o vício da intemperança aos pecados das crianças.
E primeiro põe a conveniência quanto ao nome;
segundo, atribui a razão da conveniência, ali: não parece, porém, que tenha sido mal etc.
Diz, pois, primeiro que o nome de intemperança se transfere aos pecados das crianças. O que, de fato, na nossa língua aparece mais do lado da virtude do que do lado do vício; pois chamamos a castidade de espécie da temperança, assim como também chamamos as crianças disciplinadas de castigadas; e aqueles que são indisciplinados podemos chamar de incastigados, assim como também aquele que não é casto se diz incestuoso. E a razão de tal transferência é que tais pecados têm certa semelhança, como depois se mostrará. Mas qual destes é denominado a partir do outro em nada importa ao propósito; é manifesto, contudo, que aquilo ao qual o nome foi imposto posteriormente é denominado a partir daquilo ao qual o nome foi imposto anteriormente.
644. A seguir, quando diz: não parece, porém, que tenha sido mal etc., atribui a razão da referida transferência do nome segundo a semelhança do pecado da intemperança com os pecados das crianças:
primeiro, quanto à necessidade do castigo ou do refreamento;
segundo, quanto ao modo de castigar ou refrear, ali: por isso é preciso etc.
Diz, pois, primeiro que não parece ter sido mal feita a transferência deste nome de um pecado para outro, e isso por causa da semelhança segundo a qual se fazem as transferências; pois é preciso punir, isto é, castigar e refrear, aquele que apetece coisas depravadas e cujo mau apetite muito se aumenta, no que convêm a concupiscência e a criança.
645. E esta conveniência parece ser razoável, porque as crianças vivem máxime segundo a concupiscência, pois elas apetecem máxime o prazer, o que pertence à noção de concupiscência. A causa, porém, pela qual apetecem o prazer será dita no livro VII. E por isso, se a criança e a concupiscência não forem bem persuadidas pela razão, chegam a certo domínio e a muito crescimento, isto é, de tal modo que dominará o apetite do prazer, que é a concupiscência.
646. E a razão disso é que o apetite do prazer é insaciável; ao contrário, quanto mais é degustado, tanto mais é concupiscido, pelo fato de ser por si mesmo apetecível. E daí vem que, assim como para a criança insensata, assim também para a concupiscência a operação própria aumenta o conato, isto é, aquilo que lhes é semelhante; pois, se a criança insensata for deixada agir segundo a sua insensatez, mais crescerá nela a insensatez; e se o homem satisfizer a concupiscência, mais a concupiscência cresce no homem e domina, e sobretudo se as concupiscências ou os prazeres forem grandes, do lado do objeto, isto é, de coisas muito deleitáveis, e veementes, do lado daquele que concupisce e se deleita, que muito é afetado por elas, a tal ponto que impedem o pensamento ou o raciocínio do homem, o qual, quanto mais permanece, tanto menos pode a concupiscência dominar.
647. A seguir, quando diz: por isso é preciso etc., mostra a semelhança de ambos os pecados quanto ao modo de castigar ou refrear. E diz que, visto que a concupiscência e o prazer, se forem veementes, produzem o seu próprio aumento, por isso é preciso que sejam mensurados, isto é, não excedentes na grandeza ou na veemência da afeição, e poucos, quanto ao número; e que em nada contrariem a razão, quanto à espécie da concupiscência ou do prazer, que se toma do lado do objeto. E aquilo que assim se comporta nas concupiscências e nos prazeres dizemos ser bem persuadido e punido, isto é, castigado pela razão. Pois assim como é preciso que a criança viva segundo o preceito do pedagogo, assim é preciso que a força concupiscível consoe com a razão. Pois a intenção de ambos, isto é, tanto da razão quanto do pedagogo, é para o bem. E assim se comporta o concupiscível no homem temperante, que concupisce o que é preciso e como é preciso e quando é preciso, conforme ordena a razão.
648. Por fim, conclui que estas são as coisas que dissemos acerca da temperança. E com isto termina o terceiro livro.