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Lição 18

The Properties of Fortitude

Embora a coragem se ocupe das audácias e dos temores, não se ocupa de ambos do mesmo modo, mas sobretudo das coisas terríveis. Pois quem, nestas, é imperturbável e se comporta a respeito delas como é preciso é mais corajoso do que aquele que se ocupa das audácias. [583]

Ora, é ao suportar as coisas tristes, como se disse, que os homens são chamados corajosos. Por isso também a coragem é algo triste. E com justiça é louvada, pois é mais difícil, como se disse, suportar as coisas tristes do que abster-se das deleitáveis. [584]

Contudo, ainda parecerá que o fim que se dá segundo a coragem é deleitável, mas que ele desaparece por causa das coisas que o cercam, tal como acontece também nos combates ginásticos. Pois, para os pugilistas, o fim em vista do qual combatem é, de fato, deleitável, a saber, a coroa e as honras; mas ser golpeado é doloroso, se são de carne, e todo esforço é triste; e, por serem muitas estas coisas, sendo pequeno aquilo em vista do qual se dá, nada parece haver de deleitável. Se, pois, é tal também o que se refere à coragem, então a morte e os ferimentos serão tristes para o corajoso, e contra a sua vontade; ele os suporta, todavia, porque é bom, ou porque não fazê-lo é torpe. [586]

E quanto mais alguém tiver toda a virtude e for mais feliz, tanto mais será triste na morte. Pois a tal homem sobretudo é digno viver, e ele é privado, sabendo-o, dos máximos bens. E isto é triste. [588]

Mas nem por isso é menos corajoso, e talvez até mais, porque na guerra prefere o bem a esses bens. [591]

Ora, não se dá em todas as virtudes o operar de modo deleitável, a não ser na medida em que se atinge o fim. [592]

Ora, nada talvez impede que sejam ótimos soldados os homens que não são tais, mas aqueles que são, de fato, menos corajosos, e não têm nenhum outro bem; pois estes estão prontos para os perigos e trocam a vida por pequenos lucros. [593]

Da coragem, portanto, tenha-se falado até aqui. E o que ela seja não é difícil compreender em esboço a partir do que foi dito. [594]

583. Ora, a respeito das audácias e dos temores etc. Depois que o Filósofo determinou a matéria e o ato da coragem, aqui determina certas propriedades da coragem segundo o modo como ela se relaciona com a deleitação ou a tristeza.

E a respeito disto faz duas coisas:

primeiro, estabelece as propriedades da coragem;

segundo, exclui-as da coragem militar, ali: ora, nada talvez impede que os soldados etc.

A respeito do primeiro, faz três coisas:

primeiro, mostra como a coragem se relaciona com o temor e a audácia;

segundo, como a coragem se relaciona com a tristeza, ali: é ao suportar, como se disse etc.;

terceiro, como se relaciona com a deleitação, ali: contudo, ainda parecerá etc.

Diz, pois, primeiro que, como a coragem se ocupa das audácias e dos temores, não se ocupa igualmente de um e de outro, mas o louvor desta virtude está antes nisto: que alguém se comporte bem a respeito das coisas terríveis. Pois aquele que, nas coisas terríveis, não se perturba, mas se comporta a respeito delas como é preciso, é mais louvado por ser corajoso do que aquele que se comporta bem a respeito das audácias. E isto porque o temor ameaça o homem por parte de alguém mais forte que se levanta contra ele, ao passo que a audácia surge do fato de alguém estimar que aquele a quem ataca não excede o seu próprio poder; ora, é mais difícil enfrentar o mais forte do que levantar-se contra o igual ou o menor.

584. Depois, quando diz: é ao suportar etc., mostra de que modo a coragem se relaciona com a tristeza. Para o que se torna evidente, deve-se considerar que é o mesmo o objeto do temor e da tristeza, a saber, o mal, mas difere segundo a diferença entre o passado e o futuro, pois o mal futuro é terrível, ao passo que o mal presentemente iminente é contristante; ora, pertence ao corajoso não somente enfrentar os temores dos perigos futuros, mas também persistir nos próprios perigos, como antes se disse. E por isso diz que alguns são chamados corajosos principalmente pelo fato de que suportam bem as coisas tristes, isto é, os perigos presentemente iminentes, por exemplo, as pancadas e os ferimentos. E daí vem que a coragem tem a tristeza a ela adjunta.

585. E por isso com justiça é louvada, porque não se afasta do bem da virtude para fugir da tristeza; e, com razão, por isso a coragem é sumamente louvável, porque o louvor da virtude consiste sobretudo nisto: que alguém opere bem a respeito das coisas difíceis; ora, é mais difícil que alguém suporte as coisas tristes, o que pertence à coragem, do que abster-se das deleitáveis, o que pertence à temperança; donde a coragem é mais louvável do que a temperança.

586. Depois, quando diz: contudo, ainda parecerá etc., mostra de que modo a coragem se relaciona com a deleitação.

E a respeito disto faz três coisas:

primeiro apresenta a sua tese;

segundo exclui um erro, ali: e quanto mais perfeito etc.;

terceiro deduz um corolário do que foi dito, ali: não em todas etc.

Diz, portanto, primeiro que, como a fortaleza consiste em suportar coisas penosas, o corajoso parece ter algum prazer na consecução do fim por causa do qual age corajosamente; mas esse prazer se esvai, isto é, é sentido debilmente, por causa das tristezas circundantes, como acontece nos jogos ginásticos, nos quais os pugilistas lutam nus.

587. Com efeito, os pugilistas se deleitam no fim por causa do qual lutam, a saber, porque são coroados e honrados; mas suportar os golpes lhes é doloroso, e negar isto é negar que sejam de carne, porque, se têm carne sensível, é necessário que as coisas lesivas lhes causem dor; e igualmente todo o esforço que suportam ao lutar lhes é penoso; e porque são muitas estas coisas penosas e dolorosas que suportam, e o bem que têm por fim é algo pequeno, não parecem sentir algum prazer, porque o prazer é absorvido pela maior tristeza. E assim também acontece no ato da fortaleza, porque a morte e as feridas são dolorosas e penosas ao corajoso, ainda que o corajoso as suporte de bom grado por causa da obtenção do bem da virtude e por causa de evitar a torpeza viciosa. Este fim, na verdade, é mais nobre que o dos pugilistas, donde permanece mais algo do prazer do fim.

588. Depois, quando diz: e quanto mais perfeito etc., exclui o erro dos estoicos, que sustentavam que o virtuoso não tem nenhuma tristeza.

Ora, a respeito disto faz duas coisas:

primeiro mostra que ao corajoso está iminente a máxima tristeza;

segundo que por isto a sua fortaleza não é diminuída, mas aumentada, ali: mas nada menos etc.

Argumenta, porém, na primeira parte a partir daquilo que os estoicos supunham, a saber, que nada é bem do homem senão a virtude; e por isso diziam que o virtuoso não se entristece, porque no próprio bem não sofre nenhum detrimento. Mas, ao contrário, o Filósofo diz que, quanto mais alguém é mais perfeito na virtude e mais feliz segundo a felicidade da vida presente, tanto mais lhe está iminente entristecer-se na morte, segundo a consideração dos bens da vida presente.

589. Com efeito, são duas as coisas que aumentam a tristeza de algum homem na perda de algum bem:

primeiro, quando é privado de um bem do qual era digno;

segundo, por causa da grandeza do bem do qual é privado.

E ambas acontecem no caso proposto, porque para o virtuoso é máximamente digno que viva; o virtuoso é também privado, sabendo-o, dos máximos bens, a saber, da sua ótima vida e das virtudes que perde quanto ao uso na vida presente. E isto lhe causa tristeza, mesmo dado que não lhe esteja iminente tristeza em relação a quaisquer outros males que sejam tolerados salva a vida.

590. Deve-se, contudo, considerar que a alguns virtuosos, por causa da esperança da vida futura, a morte se torna desejável; mas nem os estoicos assim falavam, nem pertencia ao Filósofo falar na presente obra daquelas coisas que pertencem ao estado de outra vida.

591. Depois, quando diz: mas nada menos etc., diz que a referida tristeza não diminui a fortaleza, mas por isto alguém é dito mais corajoso, pelo fato de escolher o bem da fortaleza, que é buscado na guerra, em preferência àqueles bens que perde ao morrer, apetecendo mais fazer um grande bem do que conservar muitos bens menores, como se dirá abaixo, no livro IX desta obra.

592. Depois, quando diz: não em todas, porém etc., conclui do que foi premissado que, embora nos livros I e II se tenha dito que as operações das virtudes são deleitáveis, todavia nem em todas as virtudes existe operação deleitável, senão enquanto atinge o fim. E isto diz por causa da fortaleza, como fica patente pelo que foi dito.

593. Depois, quando diz: os soldados, porém etc., exclui as referidas propriedades da fortaleza militar. E diz que nada impede que alguns sejam ótimos soldados os quais não são tais como descrevemos serem os corajosos, mas talvez aqueles que são menos corajosos sejam melhores soldados e não atendam a nenhum outro bem, como tampouco ao da fortaleza; pois estes estão preparados para os perigos não por causa de algum bem da virtude, mas de certo modo trocam a sua vida, que expõem ao risco, por pequenos lucros, por exemplo, de soldos ou de presa.

594. Depois, quando diz: a respeito da fortaleza, portanto etc., faz o epílogo do que foi dito. E diz que somente isto foi dito acerca da fortaleza, e a partir do que foi dito pode-se acolher de modo figurado o que é a fortaleza, de sorte que digamos que a fortaleza é uma virtude que se mantém de modo mediano, segundo a reta razão, a respeito dos temores e das audácias, por causa do bem.