Lição 4
A Fourth Argument That Pleasure Is Not a Good
Ora, aos que apresentam os mais vergonhosos dos deleites, alguém dirá certamente que estes não são deleitáveis. Pois, se estas coisas são deleitáveis aos mal dispostos, não se deve pensar que elas sejam também deleitáveis absolutamente, a não ser para estes, assim como nem para os enfermos são sadias, ou doces, ou amargas as coisas, nem tampouco são brancas as que parecem tais aos que padecem de oftalmia. [1997]
Ou então certamente se dirá que os deleites são de fato elegíveis, não, porém, a partir destas fontes, assim como também enriquecer, mas não para quem trai, e estar são, não, porém, para quem come qualquer coisa. [1999]
Ou ainda os deleites diferem em espécie. Pois são outros os que provêm das coisas boas do que os que provêm das coisas vergonhosas. E não é possível deleitar-se com aquilo que é próprio do justo sem ser justo, nem com aquilo que é próprio do músico sem ser músico, e semelhantemente também nas demais coisas. [2000]
Ora, também o amigo, sendo outro que o adulador, parece manifestar que o deleite não é um bem existente, ou que os deleites diferem em espécie. Pois este parece conversar visando ao bem, aquele, porém, visando ao deleite; e este é censurado, aquele, porém, é louvado, por conversar visando a coisas diversas. [2001]
E ninguém certamente escolheria viver tendo a mente de uma criança por toda a vida, deleitando-se naquilo em que as crianças, como se pensa, mais se deleitam, nem alegrar-se fazendo algo dos atos mais vergonhosos, ainda que de modo algum devesse entristecer-se. [2002]
E dedicaríamos certamente empenho a muitas coisas, ainda que não trouxessem nenhum deleite, por exemplo, ver, recordar, saber, ter virtudes. Mas, se por necessidade se seguem a estas coisas os deleites, em nada difere; pois escolheríamos certamente estas coisas, ainda que delas não proviesse deleite algum. Que, portanto, o deleite não é bem por si, nem todo deleite é elegível, parece manifesto, e que há certos deleites elegíveis, diferentes em espécie por si mesmos ou pelas fontes de que provêm. As coisas, portanto, que se dizem a respeito do deleite e da tristeza sejam suficientemente ditas. [2003]
1997. Ora, aos que apresentam etc. Depois que o Filósofo refutou as três razões dos platônicos que concluíam não pertencer o deleite ao gênero dos bens, aqui refuta uma quarta, que se toma da torpeza de certos deleites; pois os platônicos aduziam certos deleites vergonhosos, por exemplo, dos adultérios e das embriaguezes, para mostrar por eles que os deleites não pertencem ao gênero dos bens. Mas a isto Aristóteles responde de três modos.
1998. Primeiramente, para que alguém diga que tais torpezas não são deleitáveis absolutamente. Pois não se segue, se algumas coisas são deleitáveis aos mal dispostos, que por isso sejam deleitáveis absolutamente, mas apenas que são deleitáveis a estes, isto é, aos mal dispostos, assim como também não são absolutamente sadias as coisas que são sadias aos enfermos, nem são absolutamente doces ou amargas as que parecem tais aos que têm o paladar corrompido, nem são absolutamente brancas as que parecem tais aos que padecem de oftalmia. E esta solução procede segundo o fato de que se diz deleitável absolutamente para o homem aquilo que lhe é deleitável segundo a razão, o que não ocorre com tais torpezas, ainda que sejam deleitáveis segundo o sentido.
1999. A segunda resposta ele põe ali: ou então certamente etc. Pois pode-se dizer que todos os deleites são elegíveis, não, porém, para todos, assim como também enriquecer é um bem, não, contudo, é um bem que enriqueça aquele que é traidor da pátria, porque assim pode causar maior dano; semelhantemente também estar são é um bem, não, contudo, é um bem para quem come algo nocivo, assim como a serpente comida às vezes cura o leproso, embora mate o são. E semelhantemente os deleites bestiais são apetecíveis para as bestas, não, porém, para os homens.
2000. A terceira resposta ele põe ali: ou ainda em espécie etc. E diz que os deleites diferem em espécie. Pois são de outra espécie os deleites que são causados pelas obras boas do que os que são causados pelas vergonhosas, uma vez que as emoções diferem segundo os objetos. E assim aquele que não é justo não pode deleitar-se com o deleite que é próprio do justo, assim como nem aquele que não é músico pode deleitar-se com o deleite do músico, e o mesmo se dá com os demais deleites.
2001. Em seguida, quando diz ora, o amigo etc., prova que o deleite não é um bem por si e universalmente, e isto por três razões.
A respeito da primeira delas, diz que o fato de o deleite não ser um bem, ou de haver diversas espécies de deleite, das quais algumas são boas e outras más, manifesta-se pela diferença que há entre o amigo e o adulador. Pois o amigo conversa com o amigo visando ao bem, ao passo que o adulador visando ao deleite; donde o adulador é censurado, mas o amigo é louvado; e assim se vê que conversam por motivos diversos. Logo, uma coisa é o deleite e outra é o bem.
2002. A segunda razão ele põe ali: e ninguém certamente etc. E diz que ninguém escolheria ter por toda a sua vida a mente de uma criança, de modo que sempre se deleitasse naquilo em que as crianças se deleitam, as quais, contudo, são consideradas as que mais se deleitam; nem tampouco alguém escolheria alegrar-se fazendo os atos mais vergonhosos por toda a sua vida, ainda que nunca devesse entristecer-se. Isto ele diz contra os epicuristas, que sustentavam que os deleites vergonhosos não devem ser evitados senão porque induzem a maiores tristezas. E assim se vê que o deleite não é um bem por si, pois de qualquer modo deveria ser escolhido.
2003. A terceira razão ele põe ali: e a muitas coisas etc. Pois é manifesto que há muitas coisas às quais o homem se dedicaria, ainda que delas não se seguisse deleite algum, como ver, recordar, saber, ter virtudes. Ora, em nada difere para o propósito se destas coisas se seguem deleites, porque também as sobreditas coisas seriam escolhidas sem que delas se seguisse deleite algum. Aquilo, porém, que é bem por si é tal que sem ele nada é elegível, como se vê a respeito da felicidade. Assim, portanto, o deleite não é um bem por si.
2004. Por fim, epilogando, conclui que parece manifesto, a partir do que foi premissado, que o deleite não é um bem por si, e que nem todo deleite é elegível, e que certos deleites são elegíveis, os quais ou por si mesmos diferem em espécie dos deleites maus, ou segundo as fontes de que são causados. E assim foi suficientemente tratado a respeito das coisas que são ditas por outros sobre o deleite e a tristeza.