Skip to main content

Lição 9

The Nature of Happiness

Ora, tendo sido ditas estas coisas que dizem respeito às virtudes, às amizades e aos prazeres, resta percorrer, em traços gerais, o que se refere à felicidade, porque a estabelecemos como o próprio fim das coisas humanas. E, retomando o que foi antes dito, o discurso será por certo mais compendioso. [2065]

Dissemos, porém, que ela não é um hábito. Pois, com efeito, existiria mesmo para quem passasse a vida a dormir, vivendo a vida de uma planta. E até para o mais infeliz. Se, pois, estas coisas não agradam, mas antes se deve pô-la em alguma operação, tal como nas coisas que antes foram ditas. [2066]

Ora, das operações, umas são necessárias e dignas de escolha por causa de outras, ao passo que outras o são por si mesmas. [2068]

É manifesto que se deve pôr a felicidade entre aquelas coisas que são dignas de escolha por si mesmas, e não entre as que o são por causa de outra. Pois a felicidade de nada carece, mas é suficiente por si; ora, são dignas de escolha por si mesmas aquelas coisas das quais nada se busca além da própria operação. [2069]

E parece que tais são as ações que são segundo a virtude, pois praticar coisas boas e diligentes é uma das coisas dignas de escolha por si mesmas. Mas também são deleitáveis os divertimentos, pois não se escolhem por causa de outras; com efeito, é-se por eles mais prejudicado do que ajudado, negligenciando-se o corpo e a posse. [2070]

Ora, muitos dos que parecem felizes recorrem a tais convivências. Por isso, junto dos tiranos são apreciados, nessas convivências, os chistosos; pois, naquilo que os tiranos apetecem, esses se mostram deleitáveis, e os tiranos precisam de tais homens. Parecem, pois, estas coisas fazer a felicidade, por causa daqueles que estão no poder e nelas se ocupam. [2071]

Mas talvez tais homens não sejam sinal de nada. Pois não estão no poder nem a virtude nem o intelecto, dos quais procedem as operações diligentes. Nem, se esses homens, sendo incapazes de saborear o prazer puro e liberal, recorrem aos prazeres corporais, se deve por isso estimar que estes sejam mais dignos de escolha; pois também as crianças estimam ser ótimas as coisas que entre elas são preciosas. É, pois, razoável que, tal como às crianças e aos varões parecem preciosas coisas diversas, assim também aos maus e aos que são virtuosos. Portanto, tal como muitas vezes se disse, também são preciosas e deleitáveis as coisas que, sendo tais, o são para o diligente. Ora, para cada um é dignissíma de escolha a operação que é segundo o próprio hábito, e para o diligente é aquela que é segundo a virtude. Não está, pois, no divertimento a felicidade. [2073]

Com efeito, é inconveniente que o divertimento seja o fim, e que se trabalhe e se padeça o mal por toda a vida em vista do divertimento; pois escolhemos todas as coisas, por assim dizer, por causa de outra, exceto a felicidade: pois esta é o fim. Ora, esforçar-se e labutar em vista do divertimento parece insensato e demasiado pueril. Mas divertir-se para depois se esforçar, segundo Anacarsis, parece ter razão; pois o divertimento assemelha-se ao repouso, e os que são incapazes de labutar continuamente precisam de repouso; ora, o repouso não é fim, pois se dá em vista da operação. [2076]

Ora, parece que a vida feliz é a que é segundo a virtude; e esta é acompanhada de alegria, mas não no divertimento; e dizemos que as coisas diligentes são melhores do que as ridículas e as que são acompanhadas de divertimento. E dizemos que sempre é melhor a operação da parte melhor e do homem mais diligente; ora, a operação do que é melhor já é melhor e mais feliz. E dos prazeres corporais participará qualquer um, mesmo o bestial, não menos do que o ótimo; a felicidade, porém, ninguém a atribui ao bestial, a não ser que também lhe atribua uma vida propriamente humana. Pois não está em tais convivências a felicidade, mas naquelas operações que são segundo a virtude, tal como também antes se disse. [2078]

2065. Dictis autem his quae circa virtutes etc. Depois que o Filósofo determinou acerca do prazer, aqui determina acerca da felicidade.

E primeiro liga-se ao que precede;

segundo executa o proposto, ali: diximus autem etc.

Acerca do primeiro ponto faz três coisas.

Primeiro narra aquelas coisas que acima foram tratadas; pois acima se falou das virtudes, do segundo livro até o oitavo; das amizades, no oitavo e no nono; do prazer, na primeira parte deste décimo.

Segundo diz do que resta a dizer, a saber, da felicidade, sobre a qual é preciso percorrer, isto é, dizer brevemente, em traços gerais, isto é, figuradamente, tal como também acerca das demais coisas morais acima se disse; e deve-se falar da felicidade porque comumente todos a estabelecem como o fim de todas as coisas humanas, e é preciso que o fim não seja ignorado, para que sem erro as operações se dirijam ao fim.

Terceiro determina o modo de tratar da felicidade e diz que é preciso retomar aquelas coisas que acima, no primeiro livro, se disseram acerca dela, pois assim o discurso será mais breve, se não se tratar dela desde o princípio.

2066. Em seguida, quando diz: diximus autem etc., executa o proposto.

E primeiro manifesta o gênero da felicidade, mostrando que não é um hábito, mas uma operação;

segundo mostra que é operação segundo a virtude, ali: operationum autem etc.;

terceiro investiga de qual virtude seja a operação, ali: si autem felicitas etc.

Diz, portanto, primeiro, o que acima, no livro primeiro, foi dito, a saber, que a felicidade não é um hábito.

Seguir-se-iam, com efeito, dois inconvenientes.

Um deles é que, como os hábitos permanecem naquele que dorme, seguir-se-ia, se a felicidade fosse um hábito, que ela estaria presente também naquele que dorme por toda a sua vida ou pela maior parte dela; e isto é inconveniente, porque aquele que dorme não exerce perfeitamente as operações da vida, exceto aquelas que pertencem à alma vegetativa, a qual se encontra nas plantas, às quais não se pode atribuir a felicidade; pois é manifesto que os sentidos e os movimentos exteriores cessam naquele que dorme, ao passo que as imagens interiores são desordenadas e imperfeitas, e, do mesmo modo, se há alguma operação do intelecto naquele que dorme, ela é imperfeita; somente as operações da parte nutritiva é que são perfeitas.

2067. Outro inconveniente é que nos infortunados permanecem os hábitos das virtudes, mas as operações das virtudes são impedidas neles por causa dos infortúnios; se, portanto, a felicidade fosse um hábito, seguir-se-ia que os infortunados seriam verdadeiramente felizes. Isto, porém, os estoicos não têm por inconveniente, sustentando que os bens exteriores de modo algum são bens do homem e que, por isso, nada da sua felicidade pode ser diminuído no homem pelos infortúnios; isto, contudo, é contrário à opinião comum, que julga o infortúnio ser incompatível com a felicidade. Portanto, segundo aqueles a quem estes inconvenientes desagradam, deve-se dizer que a felicidade não é um hábito, mas antes deve ser colocada entre as operações, como se disse no livro primeiro.

2068. A seguir, quando diz: mas das operações etc., mostra que a felicidade é uma operação segundo a virtude.

E acerca disto faz três coisas:

primeiro, mostra que a felicidade está contida entre as operações que são desejáveis por si mesmas;

segundo, divide tais operações em operações da virtude e operações do divertimento, aí: ora, tais parecem ser etc.;

terceiro, mostra sob quais dessas a felicidade está contida, aí: recorrem, porém, também a tais etc.

Acerca do primeiro ponto faz duas coisas.

Primeiro, apresenta certa divisão das operações. E diz que, das operações, algumas são necessárias para outra coisa e desejáveis por causa de outras coisas, ou seja, não apetecíveis a não ser por causa do fim; algumas, porém, são desejáveis por si mesmas, porque, ainda que nada de mais proviesse delas, contudo têm em si mesmas por que sejam apetecidas.

2069. Segundo, aí: é manifesto etc., mostra que a felicidade está contida entre aquelas operações que são desejáveis por si mesmas, e não entre aquelas que são desejáveis por causa de outra coisa. Pois é próprio da noção de felicidade que seja por si suficiente e não necessite de nenhuma outra coisa, como fica claro pelo que foi dito no livro primeiro; ora, aquelas operações se dizem desejáveis por si mesmas das quais nada de mais se busca além da própria operação, como que não necessitando de nenhuma outra coisa para que sejam desejáveis; já aquelas que são desejáveis por causa de outra coisa necessitam de outra coisa para que sejam desejáveis. E assim fica claro que a felicidade é uma operação desejável por si mesma.

2070. A seguir, quando diz: ora, tais etc., subdivide as operações desejáveis por si mesmas.

E diz que, primeiramente, parecem ser tais as operações que são segundo a virtude, porque é por si desejável ao homem que escolha aquilo que é por si bom e honesto; por isso, também o honesto é chamado por alguns aquilo que por sua força nos atrai e por sua dignidade nos seduz.

Segundo, parecem ser desejáveis por si também as operações deleitáveis que estão no divertimento; pois não parece que os homens escolham tais operações por causa de alguma utilidade, uma vez que por tais operações os homens são mais prejudicados do que ajudados; com efeito, parece que os homens, por causa dos divertimentos, negligenciam tanto os corpos, que expõem a fadigas e perigos, quanto as posses, por causa dos gastos que se fazem nos divertimentos.

2071. A seguir, quando diz: recorrem, porém etc., mostra sob quais dessas está contida a felicidade.

E primeiro mostra por que parece a alguns que a felicidade está na operação do divertimento;

segundo, exclui a razão aduzida para isso, aí: nenhum sinal, porém, talvez etc.;

terceiro, determina a verdade, aí: pois seria inconveniente etc.

Diz, portanto, primeiro que muitos daqueles que são reputados felizes entre os homens recorrem a tais convivências, querendo, a saber, entreter-se em divertimentos. E daí vem que os tiranos aprovam, na convivência do divertimento, os espirituosos, isto é, aqueles que sabem divertir-se convenientemente.

2072. (Chama, porém, tiranos a esses poderosos, porque não parecem visar à utilidade comum, mas ao próprio deleite, aqueles que se entretêm em divertimentos); e os tiranos aprovam os espirituosos porque tais brincalhões se mostram deleitáveis aos tiranos naquilo que os próprios tiranos apetecem, isto é, nos deleites do divertimento, para os quais necessitam de tais homens. Assim, portanto, parece que a felicidade consiste em tais coisas, pelo fato de que a elas se dedicam aqueles que estão constituídos em posições de poder, os quais os homens reputam felizes.

2073. A seguir, quando diz: nenhum sinal, porém etc., exclui a razão referida. E diz que, a partir de tais poderosos, não se pode tomar um sinal suficiente de que a felicidade consista no divertimento. Pois neles não se encontra excelência acima dos outros homens senão segundo o poder mundano, do qual não se segue que suas operações sejam virtuosas, porque a virtude moral e a intelectual, que são os princípios das boas operações, não consistem em que alguém seja poderoso; e por isso não é preciso que as operações do divertimento a que os poderosos se dedicam sejam as melhores.

2074. E, do mesmo modo, também quanto ao apetite, que é retificado pela virtude, não é preciso que os poderosos se comportem bem; e por isso, se os poderosos, com o gosto interior, não percebem o deleite da virtude ativa ou especulativa, que é sincero, isto é, sem corrupção daquele que se deleita, e liberal, porque é segundo a razão, segundo a qual o homem é livre no agir, e por causa disso recorrem aos deleites corporais, entre os quais se compreendem os deleites do divertimento, nem por isso se deve julgar que tais deleites ou operações sejam mais desejáveis do que os outros, porque vemos que também as crianças, por carecerem de intelecto e de virtude, reputam preciosas e ótimas certas coisas pueris em que se ocupam, as quais, contudo, não são de grande peso nem são tidas em conta alguma pelos homens perfeitos. É razoável, portanto, que, assim como às crianças e aos homens perfeitos parecem preciosas coisas diversas, assim também aos maus e aos virtuosos.

2075. Foi mostrado, porém, acima, muitas vezes, que são verdadeiramente preciosas e deleitáveis aquelas coisas que são julgadas tais pelo virtuoso, que é a regra dos atos humanos. Ora, assim como a cada um parece ser maximamente desejável a operação que lhe convém segundo o próprio hábito, assim também, para o virtuoso, é maximamente desejável e preciosa a operação que é segundo a virtude. E por isso em tal operação se deve colocar a felicidade, e não na operação do divertimento.

2076. A seguir, quando diz: pois seria inconveniente etc., determina a verdade, provando por duas razões que na operação do divertimento não está a felicidade.

A primeira delas toma-se do fato de que a felicidade é fim, porque, a saber, se a felicidade consistisse no divertimento, seguir-se-ia este inconveniente: que o fim de toda a vida humana seria o divertimento, de modo que o homem trabalhasse e suportasse todas as outras coisas laboriosas e penosas somente para se divertir; e isto se seguiria porque escolhemos quase todas as outras coisas por causa de outra, exceto a felicidade, que é o último fim; ora, que o homem se esforce na especulação e trabalhe na ação por causa do divertimento parece ser tolo e muito pueril.

2077. Mas, ao contrário, parece correto, segundo a sentença de Anacársis, que alguém se divirta por uma hora, a fim de que depois se esforce mais diligentemente; porque no divertimento há certo relaxamento e descanso da alma, e os homens, uma vez que não podem trabalhar continuamente, necessitam de descanso; por isso fica claro que o descanso ou o divertimento não é o fim, porque o descanso é buscado por causa da operação, ou seja, para que o homem depois trabalhe com mais vigor. E assim fica claro que a felicidade não consiste no divertimento.

2078. A segunda razão apresenta-a aí: parece, porém etc. Alguns colocam a felicidade no divertimento por causa do deleite que há no divertimento. Ora, a felicidade tem certo deleite, porque é uma operação segundo a virtude, que existe com alegria, não, porém, com a alegria do divertimento, porque, sendo a felicidade o sumo bem do homem, é preciso que consista no que é ótimo; ora, chamamos melhores às coisas virtuosas, que são feitas com seriedade, do que às ridículas, que se fazem por divertimento. E isto assim fica claro, porque a operação que é da melhor parte da alma e que é própria do homem é mais virtuosa; ora, é claro que a operação que é da melhor parte é melhor e, por conseguinte, mais feliz.

2079. Pode, porém, acontecer que dos deleites corporais possa gozar qualquer homem, mesmo o bestial, não menos do que qualquer homem ótimo; ora, ninguém atribui a felicidade ao homem bestial nem tampouco à parte brutal da alma, assim como não se lhe atribui a vida que é própria do homem. E assim fica claro que em tais ocupações, isto é, nos deleites corporais, entre os quais se contam os deleites do divertimento, não consiste a felicidade, mas somente nas operações que são segundo a virtude, como também antes se disse.