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Lição 4

Comparison Between Virtue and Art

Alguém, porém, poderá com razão perguntar como dizemos que é preciso que, operando coisas justas, os homens se tornem justos, e, operando coisas temperantes, temperantes. Pois, se operam coisas justas e temperantes, já são justos e temperantes, assim como, se operam coisas gramaticais e musicais, já são gramáticos e músicos. [280]

Ou então nem mesmo nas artes é assim. Pois acontece que alguém faça algo gramatical tanto por acaso quanto com o auxílio de outro. Então, portanto, será gramático se fizer algo gramatical e gramaticalmente, isto é, segundo a gramática que há nele. [281]

E ainda não é semelhante nas artes e nas virtudes. Pois as coisas que se fazem a partir das artes têm bem em si mesmas aquilo que lhes convém. Basta, portanto, que estas sejam feitas tendo-se de certo modo. Mas as coisas que se fazem segundo as virtudes, nem se estas tiverem de certo modo, foram operadas justa ou temperantemente, mas somente se aquele que opera as operar tendo-se de certo modo. Primeiro, se sabendo; depois, se escolhendo, e escolhendo por causa disso; e, em terceiro lugar, se as tiver e as operar firme e imovelmente. Ora, estas coisas, exceto o próprio saber, não se contam entre as que se requerem para as demais artes; para as virtudes, porém, o saber pode pouco ou nada, mas as outras coisas podem não pouco, mas tudo, coisas essas que advêm do operar muitas vezes coisas justas e temperantes. [284]

As coisas, portanto, dizem-se justas e temperantes quando são tais quais o justo e o temperante as operará; mas justo e temperante não é quem opera estas coisas, mas quem as opera assim como as operam os justos e os temperantes. [285]

Bem, portanto, se diz que, do operar coisas justas, alguém se torna justo, e das temperantes, temperante. Mas, do não operar estas coisas, ninguém sequer se empenhará em tornar-se bom. [287]

Muitos, porém, não operam estas coisas, mas, refugiando-se na teoria, julgam filosofar e assim vir a ser estudiosos, fazendo algo semelhante aos enfermos que ouvem os médicos com empenho, mas não fazem nada daquilo que lhes foi prescrito. Assim, portanto, como nem aqueles terão o corpo bem tratado desse modo, assim tampouco estes terão a alma, filosofando desse modo. [288]

280. Alguém, porém, poderá com razão perguntar etc. Depois que o Filósofo mostrou que as virtudes são causadas pelas obras, aqui suscita uma dúvida.

E acerca disso faz três coisas:

primeiro, suscita a dúvida;

segundo, resolve-a, em: ou então nem mesmo nas artes etc.;

terceiro, a partir da determinação da questão, chega à conclusão principalmente pretendida, em: bem, portanto, se diz etc.

Há, pois, uma dúvida que primeiro suscita, tal como esta: nas virtudes ocorre assim como nas artes; mas nas artes ocorre que ninguém opera obra de arte a não ser tendo a arte, assim como ninguém faz obras gramaticais a não ser sendo gramático, nem obras musicais a não ser sendo músico; logo, também ocorrerá assim nas virtudes, que quem quer que faça obras justas já é justo, e quem quer que faça obras temperantes já é temperante; não parece, portanto, ser verdadeiro o que foi dito, que os homens, fazendo coisas justas, tornam-se justos, e, fazendo coisas temperantes, tornam-se temperantes.

281. Em seguida, quando diz: ou então nem mesmo nas artes etc., resolve a dúvida referida.

E primeiro, refutando aquilo que se assumia acerca das artes;

segundo, refutando a semelhança que se propunha entre as virtudes e as artes, em: e ainda não é semelhante etc.

Diz, pois, primeiro que nas artes não ocorre assim como se assumia, a saber, que quem quer que faça coisas gramaticais já seja gramático. Pois acontece às vezes que alguém faça obra gramatical não pela arte, mas ora por acaso, por exemplo, se um ignorante por acaso pronuncia uma locução correta, ora isso acontece com o auxílio de outro, isto é, a cujo exemplar opere, por exemplo, se um mimo reproduz uma locução correta que um gramático profere. Mas só então alguém deve ser julgado gramático quando faz obra gramatical e gramaticalmente, isto é, segundo a ciência da gramática que possui.

282. Em seguida, quando diz: e ainda não é semelhante etc., apresenta a segunda solução. Acerca dela faz duas coisas:

primeiro, refuta a semelhança das artes com a virtude;

segundo, conclui a solução, em: as coisas, portanto, justas etc.

Diz, pois, primeiro que não é semelhante nas artes e nas virtudes. Porque as obras que se fazem pelas artes têm em si mesmas aquilo que pertence ao bem-ser da arte. A razão disso é que a arte é a reta razão das coisas factíveis, como se dirá no livro VI desta obra; ora, o fazer é uma operação que passa para uma matéria exterior, e tal ação é a perfeição do feito, e por isso, em ações desse gênero, o bem consiste no próprio feito. E por isso, para o bem da arte, basta que as coisas que se fazem se tenham bem. Mas as virtudes são princípios de ações que não passam para uma matéria exterior, mas permanecem nos próprios agentes, donde tais ações são perfeições dos agentes, e por isso o bem dessas ações consiste nos próprios agentes.

283. E por isso diz que, para que algumas coisas se façam justa ou temperantemente, não basta que as obras que se fazem se tenham bem, mas requer-se que aquele que opera opere do modo devido.

Nesse modo, com efeito, diz que três coisas devem ser observadas.

A primeira delas pertence ao intelecto ou à razão, a saber, que aquele que faz obra de virtude não opere por ignorância ou por acaso, mas saiba o que faz.

A segunda toma-se da parte da potência apetitiva, na qual se observam duas coisas; uma delas é que não opere por paixão, por exemplo, quando alguém faz alguma obra de virtude por temor, mas que opere por escolha; a outra é que a escolha da obra virtuosa não seja por causa de outra coisa, como quando alguém opera obra de virtude por causa do lucro ou por causa da vã glória, mas seja por causa disto, isto é, por causa da própria obra de virtude, que por si mesma agrada àquele que tem o hábito da virtude como algo que lhe é conveniente.

A terceira toma-se segundo a noção de hábito, a saber, que alguém firme, isto é, constantemente, quanto a si mesmo, e imovelmente, isto é, que por nada exterior seja afastado disto, tenha a escolha virtuosa e opere segundo ela.

284. Mas para as artes não se requer senão a primeira destas coisas, que é o saber, pois alguém pode ser bom artífice ainda que nunca escolha operar segundo a arte ou se não perseverar na sua obra; mas a ciência tem pouca ou nenhuma virtude para que o homem seja virtuoso, mas tudo consiste nas outras coisas, que, com efeito, advêm ao homem do frequente operar de obras virtuosas, porque disso é gerado o hábito pelo qual alguém escolhe as coisas que convêm àquele hábito e imovelmente persevera nelas.

285. Em seguida, quando diz: as coisas, portanto etc., conclui a solução da dúvida referida. E diz que as coisas que se fazem dizem-se justas e temperantes quando são semelhantes àquelas que o justo e o temperante operam; mas não é preciso que quem quer que opere estas coisas seja justo e temperante, mas aquele que assim as opera como as operam os justos e os temperantes segundo as três coisas premissas. Assim, portanto, os homens primeiro operam coisas justas e temperantes não do mesmo modo pelo qual usam os justos e os temperantes, e de tais operações é causado o hábito.

286. Se alguém, porém, perguntar como isso é possível, uma vez que nada se reduz de si mesmo da potência ao ato, deve-se dizer que a perfeição da virtude moral, da qual agora falamos, consiste em que o apetite seja regulado segundo a razão; ora, os primeiros princípios da razão nos são naturalmente inseridos, tanto nas coisas operativas quanto nas especulativas, e por isso, assim como, por meio de princípios conhecidos de antemão, alguém, descobrindo, se faz sabedor em ato, assim, agindo segundo os princípios da razão prática, alguém se faz virtuoso em ato.

287. Em seguida, quando diz: bem, portanto, se diz etc., chega à conclusão principalmente pretendida.

E primeiro conclui o proposto;

segundo, argui o erro de alguns, em: muitos, porém, estas coisas etc.

Conclui, pois, primeiro que bem foi dito acima que o homem se torna justo pelo fato de operar coisas justas e temperante pelo fato de operar coisas temperantes. Mas, pelo fato de não operar, ninguém aplica sequer empenho a que se torne bom.

288. Em seguida, quando diz: muitos, porém, estas coisas etc., argui o erro de alguns que não operam obras de virtude, mas, refugiando-se em raciocinar acerca das virtudes, julgam tornar-se bons filosofando. Estes ele diz serem semelhantes aos enfermos que ouvem solícitos aquilo que lhes é dito pelos médicos, mas não fazem nada daquilo que lhes é prescrito. Pois a filosofia está para a cura da alma assim como a medicina para a cura do corpo. Donde, assim como aqueles que ouvem os preceitos dos médicos e não os fazem nunca estarão bem dispostos quanto ao corpo, assim tampouco aqueles que ouvem os ensinamentos dos filósofos morais e não os fazem nunca terão a alma bem disposta.