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Lição 10

The Prudent and the Incontinent Man

Nem se dá que o mesmo seja simultaneamente prudente e incontinente. Pois mostrou-se que aquele que é prudente é, ao mesmo tempo, virtuoso segundo o costume. [1455]

Além disso, alguém é prudente não só no saber, mas também naquilo que é prático; o incontinente, porém, não é prático. [1457]

Nada impede, contudo, que o astuto seja incontinente. Por isso é que alguns às vezes parecem ser prudentes, sendo, porém, incontinentes, porque a astúcia difere da prudência segundo o modo indicado nos primeiros discursos. [1458]

E, quanto à razão, estão próximos, mas diferem quanto à escolha. [1459]

E isso não como quem sabe e considera em ato, mas como quem dorme ou está tomado pelo vinho. [1460]

E age, na verdade, voluntariamente, pois de certo modo sabe tanto o que faz quanto aquilo em vista do qual o faz; não é, porém, mau, pois a sua escolha é honesta. [1461]

Por isso é meio-mau e não injusto, pois não é um insidioso. Com efeito, alguns dentre eles não permanecem naquilo sobre o que deliberaram; os melancólicos, porém, não deliberam de modo algum. [1462]

E o incontinente assemelha-se, na verdade, a uma cidade em que se calcula tudo o que é necessário e que tem leis boas, mas não usa nenhuma delas, como Anaxândrides zombou: A cidade queria leis, mas não fazia caso delas. O mau, porém, assemelha-se a quem usa leis, mas usa leis más. [1464]

Ora, a incontinência e a continência versam sobre o que ultrapassa o hábito da maioria. Pois este permanece mais, e aquele menos, do que pode a maioria. [1465]

É mais curável, dentre as incontinências, aquela pela qual os melancólicos agem incontinentemente do que a daqueles que deliberam, mas não permanecem. [1466]

E os incontinentes por costume são mais curáveis do que os incontinentes por natureza. Pois é mais fácil transmutar o costume do que a natureza; e por isso o costume é difícil de mudar, porque se assemelha à natureza, como também diz Eveno: Digo que a longa aplicação permanece de modo amigável e que ela, por fim, se torna natureza para todos. Ficou dito, portanto, o que é a continência e o que é a incontinência, a perseverança e a moleza, e de que modo esses hábitos se relacionam entre si. [1467]

1455. Nem se dá que o mesmo seja simultaneamente prudente etc. Depois que o Filósofo mostrou como o continente e o incontinente permanecem ou não permanecem na razão, aqui mostra se é possível que a prudência, que é a reta razão das coisas a fazer, coexista com a incontinência; e por meio disso resolve-se a segunda dúvida, que fora levantada contra o quinto ponto provável.

E acerca disso faz duas coisas:

primeiro, mostra que não se dá que o prudente seja incontinente;

segundo, mostra como o incontinente se relaciona com a prudência, ali: e, quanto à razão etc.

Acerca do primeiro, faz três coisas.

Primeiro, propõe o que pretende. E diz que não se dá que o mesmo homem seja simultaneamente prudente e incontinente.

1456. Segundo, ali: pois mostrou-se etc., prova o proposto com duas razões.

A primeira delas é que, como se mostrou acima no sexto livro, a prudência está unida à virtude moral, e assim alguém é, ao mesmo tempo, prudente e virtuoso segundo a virtude moral. (Mas o incontinente não é virtuoso segundo a virtude moral,) pois não seria arrastado pelas paixões. Logo, não pode ser que alguém seja simultaneamente prudente e incontinente.

1457. A segunda razão põe-na ali: além disso, não no saber etc. Pois alguém não é dito prudente apenas por ser sabedor, mas também por ser prático, isto é, operativo; disse-se, com efeito, acima no sexto livro que a prudência é preceptiva das obras e não só deliberativa e judicativa. Mas o incontinente falha em ser prático, pois não opera segundo a reta razão. Logo, o prudente não pode ser incontinente.

1458. Terceiro, ali: nada impede, contudo, que o astuto etc., atribui a razão pela qual às vezes os incontinentes parecem ser prudentes. E diz que nada impede que o astuto, isto é, o engenhoso ou industrioso, seja incontinente. E disto resulta que às vezes parece que alguns prudentes são incontinentes, ou seja, porque os astutos são reputados prudentes por isto, que a astúcia difere da prudência segundo o modo antes indicado no sexto livro, isto é, porque a prudência se relaciona por acréscimo à astúcia.

1459. A seguir, quando diz: e, quanto à razão etc., compara o incontinente ao prudente.

E acerca disso faz duas coisas:

primeiro, compara o incontinente ao prudente;

segundo, compara os incontinentes entre si, ali: é mais curável, porém etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas: primeiro, estabelece a comparação;

segundo, emprega uma semelhança, ali: e assemelha-se, na verdade etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro, estabelece a comparação;

segundo, infere um corolário do que foi dito, ali: por isso é meio-mau etc.

Acerca do primeiro faz três coisas.

Primeiro, propõe o que pretende.

E diz que o incontinente, sob certo aspecto, é próximo ao prudente, a saber, quanto à razão, porque ambos têm a reta razão, mas diferem quanto à escolha, que o prudente segue e o incontinente não segue.

1460. Segundo, ali: e isso não etc., mostra de que modo estão próximos quanto à razão. E diz que isso não se dá de tal maneira que o incontinente seja como quem sabe em hábito e considera, isto é, considera em ato as coisas particulares elegíveis, mas comporta-se como quem dorme e está tomado pelo vinho, nos quais o hábito da razão está atado, como se expôs acima.

1461. Terceiro, ali: e age, na verdade, voluntariamente etc., esclarece o que dissera sobre a diferença quanto à escolha. E diz que o incontinente peca, na verdade, voluntariamente, pois de certo modo sabe, a saber, no universal, tanto aquilo que faz quanto aquilo em vista do qual o faz e as demais circunstâncias, donde age voluntariamente; não é, contudo, mau, porque não age por escolha, mas a sua escolha é honesta, isto é, boa, quando está fora da paixão; mas quando sobrevém a paixão, corrompe-se a sua escolha e ele quer o mal. E por isso, quanto à escolha, o incontinente difere do prudente, porque a escolha do prudente não se corrompe, ao passo que a do incontinente se corrompe.

1462. A seguir, quando diz: por isso é meio-mau etc., infere um corolário do que foi dito. Pois, como antes da paixão tem boa escolha, mas pela paixão quer o mal, segue-se que é mau em parte, enquanto quer o mal, e não é injusto ou mau absolutamente, porque não é um insidioso, como que agindo o mal por deliberação e escolha. Com efeito, alguns dos incontinentes, a saber, os fracos, deliberam, mas não permanecem no que deliberaram; os melancólicos, porém, e os impetuosos, que acima chamou de precipitados, não deliberam de modo algum; donde fica claro que nenhum dos dois age o mal por deliberação e escolha.

1463. Ora, do que se disse podemos apreender qual é o sujeito da continência e da incontinência: pois não se pode dizer que o sujeito de ambas seja o concupiscível, porque não diferem segundo as concupiscências, que ambos, a saber, o continente e o incontinente, têm depravadas; nem tampouco o sujeito de ambas é a razão, porque ambos têm a reta razão; resta, portanto, que o sujeito de ambas seja a vontade, porque o incontinente peca voluntariamente, como se disse, ao passo que o continente permanece voluntariamente na razão.

1464. A seguir, quando diz: e assemelha-se, na verdade etc., emprega uma semelhança com o que foi dito. E acerca disso faz duas coisas.

Primeiro, propõe a semelhança. E diz que o incontinente se assemelha a uma cidade em que tudo o que é necessário é calculado, isto é, disposto, e que tem boas leis, mas não usa nenhuma delas, como Anaxândrides zombando disse que uma certa cidade queria leis, mas não fazia caso da observância das leis; e semelhantemente o incontinente não usa a reta razão que tem. O mau, porém, por exemplo o intemperado, assemelha-se a uma cidade que usa leis, mas más; pois o mau usa a razão perversa.

1465. Segundo, ali: ora, a incontinência etc., esclarece o que dissera, isto é, de que modo o incontinente é semelhante a uma cidade que não usa retas leis. Pois não é qualquer excesso da reta razão que faz o incontinente, mas a continência e a incontinência são ditas segundo aquilo que ultrapassa o hábito, isto é, a capacidade, da maioria. Com efeito, o continente permanece na reta razão mais do que muitos podem, porque vence as concupiscências pelas quais muitos são vencidos; o incontinente, porém, permanece menos do que muitos podem, porque é vencido pelas concupiscências que muitos vencem, como se disse acima.

1466. A seguir, quando diz: é mais curável, porém etc., compara os incontinentes entre si segundo uma dupla diferença.

Pois primeiro diz que, entre as incontinências, é mais curável aquela pela qual os melancólicos agem incontinentemente, a saber, sem antes deliberar, do que a incontinência daqueles que deliberam, mas não permanecem, porque estes, uma vez adotada a deliberação, parecem poder ser curados, mas não aqueles, como se disse acima.

1467. Segundo, ali: e por costume etc., compara os incontinentes segundo outra diferença. E diz que aqueles que são incontinentes por costume são mais curáveis do que os que são incontinentes por natureza, a saber, da compleição corporal que a isso inclina, porque mais facilmente se pode transmutar o costume do que a natureza, porque aquilo por causa do qual cada coisa é, isso o é em maior grau; o costume, porém, é difícil de mudar porque se assemelha à natureza, como diz o poeta Eveno: Afirmo, isto é, digo, que a longa meditação, isto é, o estudo habitual, permanece de modo amigável, isto é, amigavelmente ou conformemente, e digo que ela, por fim, isto é, quando se aperfeiçoa, se torna natureza para todos.

1468. Por último, epilogando, conclui que ficou dito o que é a continência e a incontinência, a perseverança e a moleza, e de que modo esses hábitos se relacionam entre si.