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Lição 10

Properties of Magnanimity

O magnânimo não corre riscos por poucas coisas nem é amante do perigo, porque valoriza poucas coisas; enfrenta porém grandes perigos por coisas de grande valor. [759]

E quando enfrenta o perigo, não poupa a vida, como se não fosse de todo digno continuar a viver. [761]

E é capaz de fazer o bem, mas envergonha-se ao receber benefícios; pois isto é próprio do que superexcede, aquilo, porém, do que é excedido. [762]

E é retribuidor com maior generosidade; pois assim se tornará devedor aquele que começou e terá recebido o bem. [763]

Parece também guardar na memória aqueles a quem faz o bem, mas não aqueles de quem recebe o bem; pois é menor quem recebe o bem do que quem o faz, e ele quer superexceder. [764]

E estas coisas ouve com prazer, aquelas porém sem prazer. Por isso também Tétis não recontou a Júpiter os benefícios, nem os lacedemônios aos atenienses, mas os benefícios que receberam. [765]

É próprio do magnânimo não precisar de nada, ou de quase nada, mas prestar serviço prontamente. [766]

E, para com aqueles que estão em dignidade e nos bens da fortuna, ser grande, mas para com os medianos, moderado. [767]

Pois superexceder a estes é difícil e venerável, mas àqueles é fácil. E, entre aqueles, ser venerado não é indigno de um homem, mas, entre os humildes, é oneroso. [768]

Como mostrar-se forte contra os fracos e não ir às coisas honráveis, ou onde outros se sobressaem. [770]

E ser ocioso e lento, mas somente onde há grande honra ou grande obra. E é operativo em poucas coisas, mas em coisas grandes e notáveis. [771]

É necessário porém ser manifesto inimigo e manifesto amigo; pois ocultar-se é próprio do tímido. [772]

E cuidar mais da verdade do que da opinião. [773]

E falar e agir manifestamente, pois é livre divulgador, porque é desprezador. E é desprezador, por isso divulga livremente; e é livre divulgador, por isso é desprezador. [774]

E é veraz, exceto naquilo que diz por ironia; e usa a ironia para com a multidão. [775]

E não pode viver conformado a outro, a não ser a um amigo; pois isto é servil. Por isso também todos os aduladores são obsequiosos, e os humildes são aduladores. [776]

Nem é dado à admiração; pois nada lhe parece grande. [777]

Nem se lembra do mal. Pois não é próprio do magnânimo recordar-se de nada, e ainda menos dos males, mas antes desprezá-los. [778]

Nem é falador; pois não fala nem de si mesmo nem de outro, pois não se importa com ser louvado nem com que os outros sejam censurados. Nem, por sua vez, é dado a louvar, e por isso tampouco é maldizente, nem mesmo dos inimigos, a não ser por causa de injúria. [779]

E, quanto às coisas necessárias ou pequenas, de modo algum se lamenta ou suplica; pois isto é próprio de quem se preocupa demais com essas coisas. [780]

E é capaz de preferir possuir bens belos e infrutíferos a bens frutíferos e úteis; pois isto é mais próprio de quem se basta a si mesmo. [781]

Mas também o movimento do magnânimo parece ser lento, e a voz grave, e a fala pausada. Pois não é apressado quem se preocupa com poucas coisas, nem contencioso quem nada estima como grande; ora, a agudeza da voz e a rapidez provêm dessas coisas. Tal é, portanto, o magnânimo. [782]

759. O magnânimo porém não corre riscos por poucas coisas etc. Depois que o Filósofo mostrou de que modo o magnânimo opera acerca de sua própria matéria, aqui determina as propriedades do magnânimo.

E a este respeito faz duas coisas:

primeiro expõe as propriedades do magnânimo que se tomam por comparação com as matérias das virtudes;

em segundo lugar expõe as propriedades que se tomam segundo a disposição do próprio magnânimo, ali: nem é dado à admiração etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro expõe as propriedades do magnânimo que se tomam por comparação com as coisas exteriores;

em segundo lugar, por comparação com os atos humanos, ali: e ser ocioso e lento etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro expõe as propriedades do magnânimo por comparação com os perigos exteriores, que são a matéria da fortaleza;

em segundo lugar, por comparação com os benefícios exteriores, que propriamente pertencem à liberalidade, ali: e é capaz de fazer o bem etc.;

em terceiro lugar, por comparação com as honras, que propriamente pertencem à magnanimidade, ali: e, para com aqueles que estão em dignidade etc.

Omite, porém, a matéria da temperança, porque esta não tem de si mesma alguma grandeza, mas versa sobre aquelas coisas que são comuns a nós e aos brutos, como se estabeleceu no livro III; ora, é próprio da magnanimidade operar o grande em todas as virtudes, como se estabeleceu acima.

760. Quanto ao primeiro, expõe duas propriedades.

A primeira delas é que o magnânimo não é microkindinos, isto é, não corre perigo por coisas pequenas, nem é philokindinos, isto é, amante dos perigos, como que expondo-se aos perigos prontamente e com facilidade; e isto porque ninguém se expõe ao perigo a não ser por algo que é muito apreciado, ora, é próprio do magnânimo apreciar poucas coisas a tal ponto que por elas queira expor-se aos perigos, e por isso não enfrenta perigos com facilidade nem por coisas pequenas; é porém o magnânimo megalokindinos, isto é, arriscando-se por coisas grandes, expõe-se a quaisquer perigos por coisas grandes, por exemplo pela salvação comum, pela justiça, pelo culto divino e outras coisas do gênero.

761. Expõe a segunda propriedade ali: e quando enfrenta o perigo etc. E diz que o magnânimo, quando se expõe aos perigos, o faz com veemência, de modo que não poupa a própria vida, como se não fosse digno que preferisse antes viver do que alcançar grandes bens pela morte.

762. Em seguida, quando diz: e é capaz de fazer o bem etc., expõe cinco propriedades do magnânimo que se tomam por comparação com os benefícios, que são próprios da liberalidade.

A primeira delas é que o magnânimo é capaz de fazer o bem, isto é, pronto a conceder benefícios, mas envergonha-se de receber benefícios de outros; pois dar benefícios é próprio do que excede, mas receber benefícios é próprio daquele que é excedido; ora, o magnânimo sempre visa a superexceder no bem.

763. Expõe a segunda propriedade ali: e é retribuidor com maior generosidade etc. E diz que, se o magnânimo recebe benefícios, sempre se empenha em retribuir maiores; pois assim aquele que começou a conferir benefícios terá recebido mais o bem, isto é, será quem recebe benefícios, na medida em que recebeu mais do que deu.

764. Expõe a terceira propriedade ali: parece também guardar na memória etc. E esta propriedade não provém da escolha do magnânimo, mas resulta de sua disposição; pois o magnânimo está de tal modo disposto que se deleita em dar benefícios, mas recebe benefícios de má vontade; ora, aquelas coisas que nos deleitam pensamos frequentemente e, por conseguinte, guardamos na memória, mas aquelas que não nos são deleitáveis raramente pensamos e, por conseguinte, não guardamos muito na memória. E daí vem que os magnânimos parecem guardar na memória aqueles a quem dão benefícios, mas não aqueles de quem os recebem; pois isto é contrário à sua vontade, segundo a qual quer superexceder no bem, ao passo que aquele que recebe o bem, isto é, recebendo benefícios, é menor do que aquele que confere benefícios. Segundo a escolha, porém, o magnânimo não se esquece dos benefícios, mas empenha-se em recompensar com maiores, como se disse.

765. Expõe a quarta propriedade ali: e estas coisas etc. E diz que o magnânimo ouve com prazer os benefícios que ele próprio conferiu, mas não ouve com prazer os benefícios que recebeu. Pode, sim, deleitar-se no amor daquele a quem conferiu benefícios, mas não se deleita com o fato de ele próprio ter recebido benefícios.

E a este respeito expõe dois exemplos.

O primeiro é tomado das palavras de Homero, que apresenta Tétis, que diziam ser a deusa das águas, aproximando-se de Júpiter, que diziam ser o rei de todos os deuses, e que Tétis não mencionou a Júpiter os benefícios que ela mesma havia conferido a Júpiter, como se isso não lhe fosse agradável, mas antes os benefícios que ela havia recebido de Júpiter, o que Júpiter ouvia de bom grado.

Toma outro exemplo da história dos gregos, na qual se narra que certos cidadãos, a saber, os lacônios, implorando o auxílio dos atenienses, não lhes mencionaram os benefícios que haviam feito, mas os que haviam recebido.

766. Estabelece a quinta propriedade ali: o magnânimo, por sua vez etc. E diz que pertence ao magnânimo mostrar-se como não necessitando de nada, ou não facilmente, na medida em que não pede nem aceita algo, mas antes que esteja pronto para prestar benefício aos outros.

767. Em seguida, quando diz: e para com aqueles que estão em dignidade etc., estabelece uma propriedade do magnânimo por comparação com as honras.

E a respeito disto faz três coisas.

Primeiro estabelece a propriedade. E diz que pertence ao magnânimo mostrar-se grande e honrável para com aqueles que estão em dignidade e em excelência dos bens da fortuna; mas para com os medianos mostra certa moderação, não usando de sua grandeza para com eles.

768. Segundo, ali: pois a estes etc., apresenta duas razões daquilo que havia dito.

A primeira delas é que toda virtude se esforça para aquilo que é difícil e honrável; ora, que alguém sobressaia no bem aos grandes homens é difícil e venerável, mas que alguém sobressaia aos homens medianos é fácil.

769. A segunda razão é que, o fato de alguém mostrar-se digno de veneração entre os grandes homens pertence a certa virilidade de ânimo, mas que alguém queira que grande reverência lhe seja prestada por pessoas ínfimas é próprio daqueles que são pesados aos outros.

770. Terceiro, ali: assim como para com os fracos etc., apresenta um exemplo. E diz que, de modo semelhante, isto que foi dito é vicioso, tal como também o é que alguém se mostre forte contra os fracos e que não empreenda as coisas difíceis que são honráveis e nas quais os outros sobressaem.

771. Em seguida, quando diz: e ser ocioso etc., estabelece as propriedades do magnânimo segundo os atos humanos.

E primeiro quanto a si mesmo;

segundo por respeito aos outros, ali: é necessário, porém, que seja manifesto etc.

Diz, pois, primeiro que pertence ao magnânimo que seja ocioso, a saber, pelo fato de não se envolver em muitos negócios, e que seja lento, isto é, que não se envolva facilmente nos negócios, mas se dedique somente àqueles atos que pertencem a alguma grande honra ou à realização de alguma grande obra. E assim o magnânimo é operativo de poucas coisas, mas realiza coisas grandes e que são dignas de grande nome.

772. Em seguida, quando diz: é necessário, porém etc., estabelece as propriedades do magnânimo a respeito dos atos humanos que são por comparação a outro.

E primeiro quanto à verdade;

segundo quanto ao deleite (pois estas coisas são requeridas principalmente no convívio com os outros, como se dirá abaixo); a segunda ali: e não poder viver em vista de outro etc.

A respeito do primeiro estabelece quatro propriedades.

A primeira delas diz respeito ao afeto interior. E diz que é necessário que o magnânimo seja manifesto amigo e manifesto inimigo, porque o fato de alguém amar ou odiar ocultamente provém de algum temor, e o temor repugna à magnanimidade.

773. Estabelece a segunda propriedade ali: e cuidar etc. E diz que pertence ao magnânimo que cuide mais da verdade do que da opinião dos homens. Pois não se afasta, por causa da opinião humana, daquilo que deve fazer segundo a virtude.

774. Estabelece a terceira propriedade ali: e falar e agir etc. E diz que pertence ao magnânimo que fale e aja manifestamente, pelo fato de ele ser desprezador dos outros, e disso decorre que ele livremente divulga suas palavras e seus feitos. Pois o fato de alguém ocultar aquilo que faz ou diz provém de que teme os outros; ora, ninguém teme aqueles que despreza; por isso essas duas coisas se convertem mutuamente, a saber, que alguém seja livremente divulgador e desprezador. Não se diz, porém, que o magnânimo seja desprezador por desprezar os outros como que privando-os da devida reverência, mas porque não os aprecia além do que deve.

775. Estabelece a quarta propriedade ali: e verídico etc. E diz que o magnânimo em suas palavras não diz o falso, mas o verdadeiro, a não ser talvez que diga algumas coisas ironicamente por brincadeira; usa, porém, da ironia na companhia da multidão.

776. Em seguida, quando diz: e não poder viver em vista de outro etc., estabelece a propriedade do magnânimo a respeito do deleite que há no convívio. E diz que pertence ao magnânimo que não seja pronto a conviver com os outros, a não ser com os amigos; pois o fato de alguém se ingerir nas familiaridades de todos é próprio de ânimo servil. Por isso também todos os aduladores, que querem agradar indistintamente a todos, são obsequiosos, isto é, prontos a servir, e inversamente todos os humildes, que a saber são de ânimo abjeto, são aduladores.

777. Em seguida, quando diz: nem admirador etc., estabelece as propriedades do magnânimo que se tomam segundo a disposição dele mesmo.

E primeiro estabelece algumas que consistem no coração;

segundo algumas que consistem na fala, ali: nem falador sobre os homens etc.;

terceiro estabelece aquelas que consistem no trato exterior, ali: e capaz de possuir etc.

A respeito do primeiro estabelece duas propriedades.

A primeira delas é que o magnânimo não é pronto a admirar-se, porque a admiração é a respeito das coisas grandes, mas para o magnânimo nada é grande dentre aquelas coisas que podem ocorrer exteriormente, porque toda a sua intenção se volta para os bens interiores que são verdadeiramente grandes.

778. Estabelece a segunda propriedade ali: nem lembrado do mal etc. E diz que o magnânimo não se recorda muito dos males que sofreu.

E a isto apresenta duas razões.

Uma delas é que não convém ao magnânimo recordar-se de muitas coisas, assim como também não lhe convém admirar-se; pois costumamos recordar-nos muito daquelas coisas que admiramos como que grandes.

A outra razão é que pertence especialmente ao magnânimo esquecer-se dos males que sofreu, a saber, na medida em que os despreza como aqueles pelos quais não pôde ser diminuído. Por isso, de Júlio César diz Túlio que costumava esquecer-se de nada, a não ser das injúrias.

779. Em seguida, quando diz: nem falador sobre os homens etc., estabelece duas propriedades do magnânimo a respeito de sua fala.

A primeira delas é que não fala muito dos homens, porque não aprecia muito as coisas particulares dos homens, mas toda a sua intenção está a respeito dos bens comuns e divinos; por isso não fala muito nem de si mesmo nem dos outros, pois não tem cuidado de que ele mesmo seja louvado nem de que os outros sejam censurados. Por isso ele mesmo não louva muito os outros, nem tampouco fala mal dos outros, nem mesmo dos inimigos, a não ser para repelir a injúria que lhe foi infligida por eles.

780. Estabelece a segunda propriedade ali: e a respeito das coisas necessárias etc. E diz que, a respeito das coisas necessárias à vida humana ou de quaisquer outras coisas, tampouco é queixoso, a saber, lamentando-se ou murmurando se lhe faltam, nem suplicante, para que lhe sejam prestadas; pois estas coisas pertencem àquele que se empenha em conseguir as coisas necessárias à vida como que a respeito de algo grande, o que é contrário à magnanimidade.

781. Em seguida, quando diz: e capaz de possuir etc., estabelece as propriedades do magnânimo por comparação às coisas exteriores.

E primeiro quanto às posses exteriores. E diz que o magnânimo está mais pronto a possuir certos bens, isto é, honráveis, e infrutíferos, isto é, que não são lucrativos, do que alguns que são lucrativos e úteis, porque pertence mais ao homem autossuficiente que não necessite lucrar de outra parte.

782. Segundo, ali: mas também o movimento lento etc., estabelece a propriedade do magnânimo quanto aos movimentos corporais. E diz que o movimento do magnânimo parece ser lento e sua voz parece ser grave e sua fala parece ser estável, isto é, pausada. E, atribuindo a razão destas coisas, diz que o movimento do magnânimo não pode ser apressado, visto que ele tende a operar poucas coisas; do mesmo modo também o magnânimo não é contencioso, pelo fato de nada das coisas exteriores estimar como grande, ora ninguém contende a não ser por algo grande; a agudeza da voz, porém, e a rapidez da fala acontecem por causa da contenção; é evidente, portanto, que a própria afeição do magnânimo requer a gravidade da voz e a lentidão da fala e do movimento. Diz, porém, o Filósofo nas Categorias que, se alguém é naturalmente inclinado a alguma paixão, por exemplo ao pudor, é preciso que tenha naturalmente tal cor que convenha ao pudor; por isso, se alguém tem aptidão natural à magnanimidade, é consequente também que tenha disposição natural a acidentes deste gênero.

783. Por último, conclui epilogando que o magnânimo é tal como foi dito.