Lição 12
Confirmation of the Definition
Portanto, deve-se examinar acerca dele não somente a partir da conclusão e daquilo de que parte o discurso, mas também a partir do que dele se diz. Pois com o verdadeiro concordam todas as coisas existentes, ao passo que o verdadeiro logo destoa do falso. [139]
Divididos assim os bens em três, sendo estes ditos exteriores, aqueles relativos à alma e ao corpo, dizemos que os relativos à alma são principalíssima e maximamente bens. Ora, pomos os atos e as operações vitais como relativos à alma. Por isso será bem dito, segundo esta opinião que é antiga e confessada pelos filósofos. [141]
Corretamente também se diz que certos atos e operações são o fim. Assim, com efeito, ele se conta entre os bens que são relativos à alma, e não entre aqueles que são exteriores. [144]
Concorda também com a razão que o feliz viva bem e opere bem. Pois a boa vida é quase uma certa boa operação. [145]
Ora, também tudo o que se buscou acerca da felicidade parece existir no que foi dito. [146]
Pois a uns parece ser a virtude, a outros a prudência, a outros ainda uma certa sabedoria. A alguns, porém, parece serem estas coisas, ou alguma delas, com prazer ou não sem prazer. E outros compreendem também a abundância que é exterior. [147]
Dentre estas opiniões, uma é dita por muitos e pelos antigos, outra por poucos e por homens ilustres. Não é razoável que uns e outros tenham errado em tudo, mas que tenham acertado em uma coisa ou em várias. [150]
Àqueles, pois, que dizem ser a felicidade toda virtude ou uma certa virtude, concorda a nossa razão. Pois a esta pertence a operação segundo ela. [151]
Ora, difere talvez não pouco que o ótimo consista na posse ou no uso, no hábito ou na operação. Pois o hábito pode existir sem realizar bem algum, como no que dorme ou de outro modo está ocioso, mas a operação não é possível que assim seja: pois operará por necessidade, e operará bem. [152]
Ora, assim como nas Olimpíadas não são coroados os mais belos e os mais fortes, mas os que competem, pois destes alguns vencem, assim também, dentre os que na vida operam as coisas boas e ótimas, corretamente se tornam ilustres. [153]
139. Scrutandum ergo de ipso etc. Depois de o Filósofo ter mostrado em geral o que é a felicidade, pretende aqui confirmar a sua sentença, que expôs sobre a felicidade, por meio daquilo que se diz sobre a felicidade.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, diz sobre o que versa a sua intenção;
segundo, executa o proposto, ali: divisis itaque etc.
Diz, pois, primeiro que, porque é preciso sobretudo determinar bem o princípio, e o princípio nas coisas operativas é o fim último, para que se tenha uma consideração mais diligente acerca dele, deve-se examiná-lo não somente considerando as conclusões e os princípios de que parte o discurso raciocinativo, mas também a partir daquilo que se diz sobre ele mesmo, isto é, sobre o fim último ou sobre a felicidade. E atribui a razão disto, porque todas as coisas concordam com o verdadeiro. E a razão disto é que, como se dirá no VI livro desta obra, o verdadeiro é o bem do intelecto; ora, o bem, como se diz no II livro desta obra, acontece de um só modo, isto é, concorrendo todas as coisas que pertencem à perfeição da coisa,
140. mas o mal acontece de muitos modos, isto é, pela falta de qualquer condição devida; não se encontra, porém, mal algum no qual o bem esteja totalmente corrompido, como se dirá no IV livro desta obra; e por isso todas as coisas concordam com o bem, não somente as boas mas também as más, na medida em que retêm algo do bem. E, do mesmo modo, todas as coisas falsas concordam com o verdadeiro, enquanto retêm algo da semelhança da verdade; pois não é possível que o intelecto de quem opina algo falso fique totalmente privado do conhecimento da verdade. Mas pelo verdadeiro imediatamente se julga o falso, como aquilo que dele deficiente; e é isto o que ele acrescenta, que o verdadeiro destoa do falso, assim como o reto destoa do oblíquo.
141. Em seguida, quando diz: divisis itaque bonis etc., prossegue o intento.
E primeiro quanto àquilo que é dito por outros sobre a felicidade;
segundo, quanto àquilo que acima foi proposto por ele mesmo sobre a felicidade, ali: confessa autem haec utique erunt etc.
Acerca do primeiro ponto faz duas coisas:
primeiro, mostra que às ditas sentenças sobre a felicidade convêm aquelas coisas que são concordemente ditas por outros;
segundo, que também lhe convêm aquelas coisas em que outros discordam, ali: videntur autem et quaesita etc.
Acerca do primeiro ponto faz duas coisas:
primeiro, mostra que à dita descrição da felicidade concordam aquelas coisas que são comumente ditas pelos sábios;
segundo, mostra o mesmo acerca daquelas coisas que são comumente ditas por todos, ali: consonat autem rationi etc.
Mostra o primeiro de dois modos.
142. Primeiro, dividindo os bens humanos em três,
dos quais alguns são exteriores, como as riquezas, as honras, os amigos e outras coisas deste gênero,
outros, porém, são interiores; e estes, por sua vez, dividem-se em dois gêneros,
porque alguns deles pertencem ao corpo, como o vigor do corpo, a beleza e a saúde,
outros, porém, pertencem à alma, como a ciência e a virtude e outras coisas deste gênero; entre os quais os bens principalíssimos e máximos são aqueles que pertencem à alma, pois as coisas exteriores são por causa do homem, e o corpo é por causa da alma, assim como a matéria por causa da forma e o instrumento por causa do agente principal. E esta é a sentença comum de todos os filósofos, a saber, que os bens da alma são os principalíssimos.
143. Mas acerca dos outros bens os Estoicos e os Peripatéticos pensaram de modo diverso: pois os Estoicos sustentaram que os outros bens não são bens do homem, porque por eles o homem não se torna bom; os Peripatéticos, porém, isto é, os seguidores de Aristóteles, sustentaram que os bens exteriores são bens mínimos, os bens do corpo como que médios, mas punham como bens principalíssimos os bens da alma, pelos quais o homem se torna bom, ao passo que os outros, segundo eles, se dizem bens na medida em que servem instrumentalmente àqueles principais. E assim a felicidade, sendo o bem principalíssimo, deve ser posta entre os bens da alma. Ora, é manifesto que as operações da alma pertencem aos bens da alma. Por isso é manifesto que pôr a felicidade na operação da alma racional, como acima dissemos, é conveniente segundo esta opinião antiga e comum a todos os filósofos, isto é, que os principalíssimos dos bens são aqueles que são segundo a alma.
144. Em segundo lugar, ali onde diz: foi dito corretamente etc., demonstra o mesmo de outro modo. Com efeito, há dois gêneros de operações da alma;
algumas delas passam para uma matéria exterior, como tecer e edificar, e operações desse tipo não são fins, mas as coisas produzidas por elas, a saber, o pano tecido e a casa edificada;
outras operações da alma, porém, permanecem no próprio agente, como entender e querer, e operações desse tipo são elas mesmas fins.
Foi dito corretamente, portanto, que os próprios atos e operações são o fim, quando afirmamos que a felicidade é uma operação e não algo produzido. Pois assim a felicidade é posta entre os bens que dizem respeito à alma e não entre os que são exteriores; a operação que permanece no agente é ela mesma a perfeição e o bem do agente, ao passo que nas operações que procedem para o exterior a perfeição e o bem se encontram nos efeitos exteriores. Por isso a sentença precedente não somente concorda com a opinião dos filósofos que sustentam serem os bens da alma os mais principais, pelo fato de termos posto a felicidade em torno da operação da alma, mas também pelo fato de termos posto como felicidade a própria operação.
145. Em seguida, quando diz: concorda também etc., demonstra que também concorda com a sentença precedente aquilo em que todos convêm acerca da felicidade. Pois foi dito acima que todos consideram o viver bem e o operar bem como sendo o mesmo que ser feliz. E a essa razão, isto é, à noção da felicidade, convém a atribuição referida, porque quase nada mais parece ser a boa vida do que a boa operação, qual parece ser a felicidade; diz-se, com efeito, que vivem aquelas coisas que por si mesmas se movem a operar.
146. Em seguida, quando diz: parece também que aquilo que se busca etc., demonstra que também concordam com a sentença precedente aquelas coisas nas quais os outros diferem. E acerca disto faz três coisas:
primeiro, propõe aqueles pontos em que os homens diferem acerca da felicidade;
segundo, demonstra que cada um deles concorda com a sentença precedente, ali: aos que dizem, portanto etc.;
terceiro, a partir do que foi dito levanta certa questão e a resolve, ali: por onde também se pergunta etc.
Acerca do primeiro faz três coisas.
Primeiro, propõe o que pretende, a saber, que todas as coisas que por diversos foram buscadas de diversos modos acerca da felicidade parecem existir no que foi dito, isto é, salvar-se com a opinião referida.
147. Em segundo lugar, ali: a estes, com efeito etc., expõe diversas opiniões acerca da felicidade.
A primeira delas é que a felicidade seja a virtude, e esta se subdivide em três posições:
com efeito, alguns sustentaram que universalmente qualquer virtude seja a felicidade, ou especialmente a virtude moral, que é a perfeição do apetite retificado pela razão;
a outros, porém, parece que a felicidade seja a prudência, que é a perfeição da razão prática;
a outros ainda parece que a felicidade seja a sabedoria, que é a perfeição suprema da razão especulativa.
148. A segunda opinião é que todas essas coisas, ou alguma delas, seja a felicidade, mas que se lhe deva acrescentar o prazer, e esta se subdivide em duas:
pois alguns sustentaram que a virtude com o prazer, quase em igual medida, seja a felicidade,
outros, porém, sustentaram que a felicidade é a virtude não sem o prazer, tendo este como que um papel secundário em relação à felicidade.
149. A terceira opinião é a de que alguns compreenderam, juntamente com estas coisas, para o complemento da felicidade, a abundância de bens exteriores, por exemplo, das riquezas, das honras e de outros do mesmo tipo.
150. Em terceiro lugar, ali: destas coisas, algumas de fato etc., atribui a diferença entre os que opinam o que foi referido. E diz que algumas das coisas referidas, a saber, que o prazer e as riquezas sejam requeridos para a felicidade, foram ditas por muitos, isto é, pelos homens comuns, e por varões antigos, que estavam menos exercitados em tais matérias; outras, porém, a saber, que a felicidade estivesse nos bens da alma, foram ditas por poucos e gloriosos varões, isto é, famosos na ciência. Não é provável, contudo, que algum deles tenha errado em tudo, mas que cada um deles tenha sentido corretamente em um ou em vários pontos.
151. Em seguida, quando diz: aos que dizem, portanto etc., demonstra que as opiniões referidas concordam com a atribuição da felicidade anteriormente feita.
E primeiro demonstra isto acerca da primeira opinião, que pôs a virtude como sendo a felicidade;
segundo, acerca da segunda, que acrescentou o prazer, ali: a vida deles também é etc.;
terceiro, acerca da terceira, que acrescentou os bens exteriores, ali: parece, contudo, também que deles etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, demonstra em que a primeira opinião concorda com a sua sentença;
segundo, demonstra em que a sua sentença é melhor.
Diz que àqueles que dizem que a felicidade é toda virtude ou alguma virtude concorda a noção de felicidade acima posta, a saber, que seja operação segundo a virtude. Pois é manifesto que a operação segundo a virtude é algo da virtude.
152. Em seguida, quando diz: difere, porém etc., demonstra que o seu dito é melhor:
e primeiro pela razão;
segundo, pelo costume humano, ali: assim como, porém etc.
Diz, portanto, primeiro que, assim como nas coisas exteriores não difere pouco que o ótimo seja posto na posse de alguma coisa ou no seu uso, o qual é manifestamente melhor por ser o fim da posse, assim também ocorre acerca do hábito da virtude e da operação, que é o seu uso, o qual é melhor. Pois o hábito pode estar naquele que não faz nenhum bem, como no que dorme ou no que de algum modo está ocioso, mas quanto à operação isto não é possível, pois segue-se necessariamente que opere aquele em quem está a operação e que opere bem se nele estiver a operação segundo a virtude. Por isso a operação segundo a virtude é mais perfeita do que a própria virtude.
153. Em seguida, quando diz: assim como, porém etc., manifesta o mesmo pelos costumes humanos. Acerca do que se deve saber que na Macedônia há certo monte altíssimo que se chama Olimpo, no qual se realizavam certos jogos para o exercício da luta, que se chamavam Olimpíadas, nos quais não eram coroados alguns pelo fato de serem os melhores lutadores e os mais fortes, mas somente aqueles que competiam, dos quais alguns venciam; os que, porém, não lutavam não podiam vencer. Assim também, dentre o número dos que são bons e ótimos na vida virtuosa, somente se tornam ilustres e felizes os que operam corretamente. Por isso melhor se diz que a operação segundo a virtude seja a felicidade do que a própria virtude.