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Lição 10

The Object of Willing

Ora, quanto ao querer, já foi dito que é acerca do fim. [488]

Parece, porém, a uns que ele é do bem por si, mas a outros que é do bem aparente. [489]

Ora, para os que dizem que o objeto da vontade é o bem por si mesmo, segue-se que não é objeto da vontade aquilo que quer quem não quer retamente. Pois, se for objeto da vontade, também será bem; será, porém, se assim acontece, algumas vezes mal. [490]

Por outro lado, para os que dizem que o objeto da vontade é o bem aparente, não há nada que seja por natureza objeto da vontade, mas para cada um o objeto da vontade é aquilo que lhe parece, e a diferentes homens parecem coisas diferentes, e, se assim acontece, coisas contrárias. [491]

Se, porém, estas conclusões não agradam, deve-se então dizer que, absolutamente e segundo a verdade, o objeto da vontade é o bem por si mesmo, mas para cada um é o que lhe parece bem. [492]

Com efeito, para o virtuoso é objeto da vontade aquilo que é tal segundo a verdade, mas para o perverso o que quer que aconteça. Assim como também nos corpos bem dispostos são sadias segundo a verdade as coisas que são tais, mas para os enfermos são outras; e do mesmo modo o amargo e o doce, o quente e o pesado, e cada uma das demais coisas. [493]

Pois o virtuoso julga retamente cada uma das coisas e em cada uma lhe aparece o verdadeiro. Com efeito, segundo cada hábito são próprios os bens e os deleitáveis. E talvez o virtuoso se distinga sobretudo por ver este verdadeiro em cada uma das coisas, sendo como que a regra e a medida delas. [494]

Ora, a muitos parece acontecer o engano por causa do prazer. Pois, não sendo um bem, parece bem. Desejam, portanto, o deleitável como bem, e a tristeza fogem como mal. [495]

488. Ora, a vontade, visto que se refere ao fim etc. Depois que o Filósofo determinou acerca do voluntário e da escolha, aqui determina acerca da vontade.

E a respeito disso faz três coisas:

primeiro, propõe o que é manifesto acerca da vontade;

segundo, introduz certa dúvida, ali: a alguns, porém, parece etc.;

terceiro, a resolve, ali: se, porém etc.

Diz, pois, primeiro que foi dito acima que a vontade é do próprio fim. E fala aqui da vontade enquanto nomeia o ato da potência da vontade, pois o ato de qualquer potência denominado a partir da própria potência olha para aquilo em que a potência primeira e por si tende, assim como a visão se diz ato da potência visiva em ordem às coisas visíveis; e deste modo o intelecto se diz a respeito dos primeiros princípios, aos quais primeira e por si se compara a potência intelectiva; por isso também a vontade se diz propriamente dos próprios fins, os quais, como certos princípios, primeira e por si olha a potência da vontade.

489. Em seguida, quando diz: a alguns, porém, parece etc., introduz certa dúvida. E a respeito disso faz três coisas.

Primeiro, com efeito, propõe opiniões contrárias acerca da vontade. E diz que a alguns parece que a vontade é daquilo que é bem por si; a outros, porém, parece que é daquilo que é bem aparente.

490. Segundo, ali: ora, acontece etc., refuta a primeira posição. E diz que, para os que dizem que nada é objeto da vontade, isto é, aquilo para o que a vontade se dirige, senão o que é bem por si, segue-se que não é objeto da vontade o que quer aquele que não quer retamente. Porque, segundo a posição deles, seguir-se-ia, se fosse objeto da vontade, que fosse bem; acontece, porém, algumas vezes que é mal. Não é, portanto, a vontade sempre do bem por si.

491. Terceiro, ali: por outro lado etc., refuta a segunda posição. E diz que, para os que dizem que o objeto da vontade é o bem aparente, segue-se que nada é objeto da vontade segundo a natureza, mas para cada um é objeto da vontade aquilo que lhe parece; a diversos, porém, parecem diversos objetos da vontade e algumas vezes contrários; assim como, se a cor não fosse visível, mas o que parece cor, seguir-se-ia que nada seria naturalmente visível. Isto, porém, é inconveniente, porque de qualquer potência natural há algum objeto naturalmente determinado. Não é, portanto, verdadeiro que a vontade seja do bem aparente.

492. Em seguida, quando diz: se, porém, estas coisas etc., resolve a sobredita dúvida.

E primeiro põe a solução segundo certa distinção. E diz que, se as ditas coisas inconvenientes que se seguem a ambas as sobreditas opiniões não são aceitas, deve-se dizer, distinguindo, que absolutamente e segundo a verdade o objeto da vontade é o bem por si, mas sob certo aspecto, isto é, por respeito a este ou àquele, é objeto da vontade aquilo que lhe parece bem.

493. Segundo, ali: com efeito, para o virtuoso etc., mostra a quem convém cada membro da distinção premissa. E diz que, para o virtuoso, é objeto da vontade aquilo que é objeto da vontade segundo a verdade, isto é, o bem absoluto; mas, para o perverso, isto é, o homem vicioso, é objeto da vontade o que quer que aconteça, isto é, o que quer que indeterminadamente lhe pareça bem. E aduz um exemplo nas coisas corporais: pois vemos que, para os homens cujos corpos estão bem dispostos, são sadias aquelas coisas que segundo a verdade são tais, mas para os enfermos são sadias algumas outras, a saber, as que são temperativas da malícia da sua compleição; do mesmo modo também o amargo e o doce segundo a verdade parecem assim àqueles que têm o gosto bem disposto, e as coisas quentes àqueles que têm o tato bem disposto, e bem julgam as coisas pesadas aqueles que têm a força corporal bem disposta, pois aos que são débeis até as coisas leves parecem pesadas.

494. Terceiro, ali: pois o virtuoso etc., manifesta o que dissera. E primeiro quanto aos virtuosos. E diz que o virtuoso julga retamente cada uma das coisas que pertencem às operações humanas e em cada uma lhe parece ser bem aquilo que verdadeiramente é bem. E isto porque a cada hábito parecem bens e deleitáveis aquelas coisas que lhe são próprias, isto é, aquelas que lhe convêm; ora, ao hábito da virtude convêm aquelas coisas que são segundo a verdade bens, porque o hábito da virtude moral se define por ser segundo a reta razão; e por isso aquelas coisas que são segundo a razão, que são absolutamente bens, lhe parecem bens. E nisto se distingue sobretudo o virtuoso dos outros, em que nas coisas singulares que se podem operar vê o que verdadeiramente é bem, como que sendo a regra e a medida de todas as coisas operáveis, porque, a saber, nelas se deve julgar algo bem ou mal conforme lhe parece.

495. Segundo, ali: a muitos, porém etc., manifesta o que dissera quanto aos perversos. E diz que a muitos, a saber, aos perversos, acontece o engano na discrição do bem e do mal principalmente por causa do prazer. Do qual acontece que desejem o deleitável, que não é bem, como se fosse bem, e fujam de algo que lhes é penoso, que em si é bem, como se fosse mal, porque, a saber, não seguem a razão, mas o apetite sensitivo.