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Lição 1

Censurable Moral Dispositions and Their Opposites

Depois disto, porém, deve-se dizer, fazendo outro início, que acerca dos costumes há três espécies de coisas a serem evitadas: a malícia, a incontinência e a bestialidade. [1292]

Ora, os contrários de duas delas são manifestos, pois a uma chamamos virtude e à outra continência. [1297]

À bestialidade, porém, convém sobretudo dizer que se opõe uma virtude acima de nós, uma certa virtude heroica e divina. [1298]

Assim como Homero fez Príamo dizer de Heitor que era muito bom, e não parecia ser filho de homem mortal, mas de um deus. Por isso, se, como dizem, dos homens se tornam divinos por causa da superexcelência da virtude, tal será, sem dúvida, o hábito oposto à bestialidade. [1300]

E, de fato, assim como não há malícia nem virtude na besta, assim também não em Deus; mas uma delas é mais honrosa que a virtude, ao passo que a outra é um certo gênero de malícia diverso. [1301]

E porque é raro que um homem seja divino, assim como os lacônios costumavam chamar, quando admiravam muito alguém, dizem: é um homem divino; assim também o bestial é raro entre os homens. Encontra-se, porém, sobretudo entre os bárbaros; alguns, porém, tornam-se assim também por causa de doenças e mutilações; e também por causa da malícia dos homens que a excedem, assim os infamamos sobremaneira. [1302]

Mas sobre esta disposição deve-se fazer depois uma certa recordação; sobre a malícia, porém, já se falou antes; sobre a incontinência, porém, e a moleza e a sensualidade deve-se falar, e sobre a continência e a perseverança, pois não se deve tomar cada uma delas como se fossem os mesmos hábitos que a virtude e a malícia, nem como um gênero diverso. [1304]

É preciso, porém, assim como nos outros assuntos, estabelecendo o que aparece e primeiro levantando as dúvidas, mostrar assim, sobretudo, todas as coisas prováveis acerca destas paixões, mas, se não, ao menos as mais numerosas e principais; pois, se forem resolvidas as dificuldades e permanecerem as coisas prováveis, ter-se-á mostrado suficientemente. [1305]

Parece, sem dúvida, que a continência e a perseverança são próprias dos homens de bem e dignos de louvor, ao passo que a incontinência e a moleza são próprias dos maus e dignos de censura. E o continente é o mesmo que aquele que permanece na razão, e o incontinente é o mesmo que aquele que se afasta da razão. E o incontinente, sabendo que são coisas más, age por causa da paixão; o continente, porém, sabendo que os desejos são maus, não os segue por causa da razão. [1306]

E o temperante é continente e perseverante, mas quanto a isto, uns dizem que todo temperante é assim, outros que não; e alguns dizem, confusamente, que o intemperante é incontinente e o incontinente intemperante, ao passo que outros dizem que são diversos. Quanto ao prudente, umas vezes dizem que não é possível que seja incontinente, outras vezes que alguns, sendo prudentes e hábeis, são incontinentes. [1307]

Além disso, dizem-se incontinentes também quanto à ira, à honra e ao lucro. Estas, pois, são as coisas que se dizem. [1309]

1292. Depois disto, porém, deve-se dizer, fazendo outro início etc. Depois de o Filósofo ter tratado acima das virtudes morais e intelectuais, aqui começa a tratar de algumas coisas que se seguem à virtude.

E primeiro da continência, que é algo imperfeito no gênero da virtude;

segundo da amizade, que é um certo efeito da virtude, no oitavo livro, ali: depois disto, porém, sobre a amizade etc.;

terceiro do fim da virtude, no décimo livro, ali: depois disto, porém, sobre o deleite etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro trata da continência e do seu oposto;

segundo do deleite e da tristeza, que são a matéria deles, ali: sobre o deleite, porém, e a tristeza etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro distingue a continência das outras coisas que são do mesmo gênero;

segundo trata dela, ali: parece, sem dúvida, que a continência etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro distingue a continência e o seu oposto daquelas coisas que são do mesmo gênero;

segundo mostra sobre quais delas já se falou e sobre quais resta falar, ali: mas sobre esta disposição etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro enumera os hábitos ou disposições censuráveis acerca das coisas morais;

segundo apresenta os seus opostos, ali: os contrários, porém, de duas etc.

1293. Diz, então, primeiro que, depois daquilo que foi dito sobre as virtudes morais e intelectuais, para que nada do que pertence à moral seja omitido, é preciso recomeçar a partir de outro princípio, de modo que digamos que, entre as coisas que dizem respeito aos costumes, há três espécies que devem ser evitadas, a saber, a malícia, a incontinência e a bestialidade.

1294. E a diferença entre essas coisas deve-se compreender assim. Com efeito, como foi dito no livro sexto, a boa ação não existe sem a razão prática verdadeira e o apetite reto; por isso, pelo fato de uma dessas duas coisas se perverter, acontece que haja algo a ser evitado nos costumes. Se, portanto, houver perversidade da parte do apetite de modo que a razão prática permaneça reta, haverá incontinência, isto é, aquela que ocorre quando alguém tem uma avaliação reta acerca daquilo que deve ser feito ou evitado, mas por causa da paixão do apetite é arrastado para o contrário. Se, porém, a perversidade do apetite crescer a ponto de dominar a razão, a razão seguirá aquilo para o qual o apetite corrompido inclina, avaliando-o como uma espécie de princípio, como fim e como o melhor; por isso agirá de maneira perversa por escolha, e por causa disso alguém é dito mau, como foi dito no livro quinto, donde tal disposição é chamada malícia.

1295. Deve-se, porém, considerar ainda que a perversidade em qualquer coisa acontece pelo fato de se corromper a devida proporção daquela coisa, assim como a doença corporal no homem provém do fato de se corromper a devida harmonia dos humores própria desse homem; e, de modo semelhante, a perversidade do apetite, que às vezes perverte a razão, consiste em que se corrompe a comensuração das afeições humanas; ora, tal corrupção acontece de dois modos: com efeito, a consonância ou proporção de uma coisa não consiste em algo indivisível, mas tem uma certa latitude, como é claro no caso da proporção dos humores no corpo humano, pois a natureza humana é preservada tanto com maior quanto com menor calor, e, de modo semelhante, a proporção da vida humana é preservada segundo diversas maneiras de afeições;

1296. de um modo, portanto, pode acontecer perversidade em tal consonância de tal maneira que não se saia dos limites da vida humana, e então será chamada absolutamente incontinência ou malícia humana, assim como a doença corporal humana na qual a natureza humana pode ser preservada;

de outro modo, pode-se corromper a proporção das afeições humanas de tal maneira que ela avance além dos limites da vida humana, à semelhança das afeições de alguma fera, por exemplo, do leão, do urso ou do porco, e isto é o que se chama bestialidade, e é semelhante ao que ocorreria se, da parte do corpo, a compleição de alguém se transformasse na compleição leonina ou suína.

1297. Depois, quando diz: as coisas contrárias, porém etc., expõe as disposições contrárias às sobreditas.

E primeiro apresenta duas acerca das quais a coisa é manifesta. E diz que os contrários de dois dos sobreditos são manifestos, pois à malícia se contrapõe a virtude, e à incontinência a continência.

1298. Em segundo lugar, ali: à bestialidade, porém etc., mostra o que se contrapõe ao terceiro, a saber, à bestialidade.

E primeiro propõe o que pretende;

em segundo lugar manifesta o proposto, ali: assim como Homero etc.

Diz, então, primeiro que à bestialidade convenientemente se diz opor-se uma certa virtude, que excede o modo comum dos homens e pode ser chamada heroica ou divina; com efeito, os gentios chamavam heróis as almas de alguns homens ilustres já falecidos, os quais diziam também terem sido divinizados.

1299. Para evidência disto, deve-se considerar que a alma humana está no meio entre as substâncias superiores e divinas, com as quais comunga pelo intelecto, e os animais brutos, com os quais comunga nas potências sensitivas; assim, portanto, como as afeições da parte sensitiva às vezes se corrompem no homem até à semelhança das feras, e isto se chama bestialidade acima da malícia e da incontinência humanas, assim também a parte racional às vezes se aperfeiçoa e se fortalece no homem além do modo comum da perfeição humana, quase à semelhança das substâncias separadas, e isto se chama virtude divina acima da virtude e da continência humanas; pois a ordem das coisas é tal que o meio, por suas diversas partes, atinge um e outro extremo, donde também na natureza humana há algo que atinge aquilo que é superior, algo, porém, que se une ao inferior, e algo que se comporta de modo intermediário.

1300. Depois, quando diz assim como Homero etc., manifesta o que havia dito.

E primeiro manifesta que há nos homens uma certa virtude heroica ou divina;

em segundo lugar mostra que tal virtude se opõe à bestialidade, ali, pois assim como etc.

Ora, manifesta o primeiro de dois modos.

De um modo, pelo dito de Homero, que apresenta Príamo dizendo de seu filho Heitor que era excelentemente bom, de tal modo que não parecia ser filho de homem mortal, mas de um deus, porque, a saber, aparecia nele algo divino além do modo comum dos homens.

Em segundo lugar manifesta o mesmo pelo dito comum dos gentios, que diziam que alguns homens eram divinizados, o que Aristóteles não diz que se deva crer, no sentido de que o homem se converta em natureza divina, mas por causa da excelência da virtude acima do modo comum dos homens; disso se torna claro que há em alguns homens uma certa virtude divina, e conclui que essa virtude é oposta à bestialidade.

1301. Depois, quando diz: pois assim como etc., prova o proposto com dois argumentos.

Primeiro, porque chamamos malícia ou virtude como algo próprio do homem, donde nem a malícia se atribui à fera, que está abaixo do homem, nem a virtude a Deus, que está acima do homem; mas a virtude divina é mais honrosa do que a virtude humana, à qual chamamos absolutamente virtude, e a perversidade da fera é um certo outro gênero de malícia, diverso da malícia humana, que se diz malícia absolutamente.

1302. Apresenta o segundo argumento ali: porque, porém etc. E diz que os homens nos quais se encontra tanta bondade, que raramente se encontra nos homens, parecem ser homens divinos, donde os lacônios, isto é, certos cidadãos da Grécia, quando admiram muito a bondade de algum homem, dizem: este é um homem divino; e, de modo semelhante, da parte da malícia, o bestial raramente se encontra entre os homens.

1303. E apresenta três modos segundo os quais alguns se tornam bestiais:

o primeiro deles é pelo convívio de um povo, como entre os bárbaros, que não são governados por leis razoáveis, e por causa do mau costume de convívio alguns caem na malícia bestial;

em segundo lugar, acontece a alguns por causa de doenças e privações, isto é, perdas de entes queridos, das quais caem em loucura e se tornam quase bestiais;

em terceiro lugar, por causa de um grande aumento da malícia, do que acontece que a alguns infamamos de modo sobremaneira excelente, chamando-os de bestiais.

Porque, portanto, assim como a virtude divina raramente se encontra entre os bons, assim a bestialidade raramente entre os maus, parece que se correspondem mutuamente por oposição.

1304. Depois, quando diz: mas sobre esta etc., mostra o que foi dito sobre tais coisas e o que resta dizer.

E primeiro liga-se ao que precede e ao que segue;

em segundo lugar determina o modo de proceder, ali: é preciso, porém etc.

Diz, então, primeiro que sobre esta disposição, a saber, a bestial, far-se-á posteriormente uma certa recordação, isto é, neste mesmo livro; sobre a malícia oposta à virtude, porém, foi dito antes, onde se tratou das virtudes; mas sobre a incontinência, que é censurada acerca dos prazeres, e sobre a moleza e as delícias, que são censuradas acerca das tristezas, deve-se falar agora, e de modo semelhante sobre a continência, que é louvada acerca dos prazeres, e sobre a perseverança, que é louvada acerca das tristezas, de tal modo, contudo, que não consideremos esses hábitos nem idênticos à virtude e à malícia nem diversos deles em gênero.

1305. Depois, quando diz: é preciso, porém etc., mostra o modo de proceder. E diz que é preciso proceder aqui como nas outras coisas, isto é, de modo que, postas aquelas coisas que parecem prováveis acerca do sobredito, primeiro introduzamos as dúvidas sobre elas e assim mostremos tudo o que é máximamente provável acerca do sobredito e, se não tudo (porque não é próprio do homem que nada escape de sua mente), mostremos a maior parte e as coisas mais principais, porque, se em alguma matéria se resolvem as dificuldades e se deixam como verdadeiras aquelas coisas que são prováveis, está suficientemente determinado.

1306. Depois, quando diz: parece, com efeito etc., trata da continência e da incontinência, da perseverança e da moleza.

E, segundo aquilo que foi determinado, primeiro apresenta as coisas prováveis;

em segundo lugar introduz as dúvidas, ali: alguém poderá, porém, duvidar etc.;

em terceiro lugar as resolve, ali: primeiro, então, portanto etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro apresenta as coisas prováveis acerca da própria continência e incontinência;

em segundo lugar acerca da comparação delas com outras, ali: e o temperado, com efeito etc.;

em terceiro lugar acerca da matéria delas, ali: além disso, os incontinentes etc.

Acerca do primeiro apresenta três coisas prováveis.

A primeira delas diz respeito à bondade e à malícia das sobreditas coisas. E diz que provavelmente parece que a continência e a perseverança são estudiosas e louváveis, ao passo que a incontinência e a moleza são más e censuráveis.

A segunda diz respeito às noções definitivas delas mesmas. E diz que parece ser continente o mesmo que aquele que permanece na razão, isto é, naquilo que segundo a razão julga dever ser feito, ao passo que incontinente parece ser aquele que se afasta do juízo da razão.

A terceira diz respeito às operações delas. E diz que o incontinente sabe que algumas coisas são más e, contudo, as faz por causa da paixão, ao passo que o continente sofre, sim, as concupiscências que sabe serem más, donde não as segue por causa do juízo da razão. E estas duas coisas devem também ser estendidas à perseverança e à moleza, mas acerca das tristezas.

1307. Depois, quando diz: e o temperado, com efeito etc., apresenta duas coisas prováveis acerca da comparação delas com outras.

A primeira delas é tomada segundo a comparação da continência com a temperança. E diz que parece que o temperado é continente e perseverante; mas alguns dizem que todo continente e perseverante é temperado, ao passo que alguns dizem que não; quanto aos opostos destes, porém, alguns dizem que todo intemperado é incontinente e vice-versa de modo confuso, isto é, sem nenhuma distinção, ao passo que alguns dizem que eles são diferentes.

1308. A segunda é tomada por comparação com a prudência. E diz que às vezes os homens dizem que não acontece que o prudente seja incontinente, ao passo que às vezes dizem que alguns prudentes e hábeis, isto é, engenhosos, são incontinentes.

1309. Depois, quando diz: além disso, os incontinentes etc., apresenta uma coisa provável acerca da matéria das sobreditas coisas. E diz que às vezes alguns são chamados incontinentes não só das concupiscências, mas também da ira, da honra e do lucro. Estas, portanto, são seis coisas que comumente se costumam dizer sobre a continência, a incontinência, a perseverança e a moleza.