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Lição 20

Temperance in Relation to Touch and Taste

Parecem, na verdade, usar do gosto pouco ou nada; pois o gosto é o julgamento dos sabores, o que fazem os que provam os vinhos e temperam os manjares; não se alegram muito com estas coisas os intemperantes, ou não com elas, mas com o uso, que se faz todo pelo tato, tanto nos alimentos quanto nas bebidas e nos assim chamados prazeres venéreos. [613]

Por isso também certo Filoxeno Erixio, sendo voraz comedor de papas, orou para que seu gorgomilo se tornasse mais longo que o do grou, para deleitar-se pelo tato. [615]

Ora, o mais comum dos sentidos é aquele segundo o qual há a intemperança, e parecerá, na verdade, ser justamente censurável, pois não existe segundo o que somos homens, mas segundo o que somos animais. Alegrar-se com tais coisas e amá-las ao máximo é bestial. Pois excluem-se os mais liberais dos prazeres que se dão pelo tato, por exemplo, os que nos ginásios se produzem pela fricção e pelo aquecimento. Pois não a respeito de todo o corpo é o tato dos intemperantes, mas a respeito de certas partes. [616]

Ora, das concupiscências, umas parecem ser comuns, outras próprias e acrescentadas. [618]

Por exemplo, a do alimento é natural. Pois todo o que está necessitado cobiça alimento seco ou úmido, e às vezes ambos. E o leito, diz Homero, o jovem e o que cresce. [620]

Já tal ou tal ainda não todo, nem os mesmos. Por isso parecem ser nossas. Mas ainda tem algo também de natural; pois umas coisas são deleitáveis para uns, outras para outros, e algumas são mais deleitáveis para alguns do que as que se dão por acaso. [621]

Nas concupiscências naturais, portanto, poucos pecam, e em uma só coisa, no mais. Pois comer as coisas que se dão, ou beber, até que se encham em demasia, é superabundância segundo a natureza na multidão; pois a repleção da indigência natural é concupiscência. Por isso estes se dizem glutões, como os que a enchem além da indigência. Ora, tais se tornam muito bestiais. [622]

Já a respeito dos prazeres próprios, muitos pecam e de muitos modos. Pois dos que se dizem amantes de tais coisas, uns pecam alegrando-se com aquilo com que não é preciso, ou mais, ou como muitos, ou não como é preciso. Ora, em todas estas coisas os intemperantes superabundam. Pois também se alegram com certas coisas com que não é preciso, pois são odiáveis, e se é preciso alegrar-se com algumas de tais coisas, alegram-se mais do que é preciso e como muitos. A respeito dos prazeres, portanto, é manifesto que a superabundância é intemperança e vituperável. [624]

613. Parecem, na verdade, também pelo gosto etc. Depois que o Filósofo mostrou que a temperança e a intemperança não versam sobre os prazeres dos três sentidos, mas sobre os prazeres dos dois, isto é, do gosto e do tato, aqui mostra de que maneira versa sobre os prazeres de um e de outro.

E a respeito disto faz três coisas:

primeiro, mostra que a temperança não versa diretamente sobre os prazeres do gosto, mas sobre os prazeres do tato;

segundo, manifesta por um exemplo o que dissera, ali: por isso também orou etc.;

terceiro, infere a conclusão do que foi dito, ali: o mais comum, porém etc.

Diz, portanto, primeiro que a temperança e a intemperança parecem usar pouco ou nada daquilo que propriamente pertence ao gosto, isto é, enquanto ao gosto pertence julgar dos sabores; e desse modo usam do gosto aqueles que provam os vinhos ou que temperam os manjares e experimentam se deram aos manjares um sabor conveniente,

614. ora, os intemperantes não se deleitam muito nisso, nem se lhes subtrai muito do deleite se não discernem bem os sabores dos alimentos, mas todo o seu deleite consiste no uso de certas coisas deleitáveis, como na ingestão de alimentos e bebidas e no uso dos prazeres venéreos, uso este que se dá pelo tato. Donde é manifesto que o deleite do intemperante diz respeito diretamente ao tato, e ao paladar apenas na medida em que os sabores tornam mais deleitável o uso dos alimentos. E por isso disse acima que a intemperança se serve pouco do paladar, isto é, segundo aquilo que se ordena ao tato, ou nada quanto àquilo que por si mesmo convém ao paladar.

615. Em seguida, quando diz: por causa disso também rogou etc., esclarece por um exemplo o que havia dito. Pois um certo homem chamado Filoxeno, de pátria Erixiano, ao comer papas vorazmente, desejou que a sua garganta se tornasse mais longa do que a garganta de uma grua, para que o alimento permanecesse por muito tempo em sua garganta; do que fica claro que ele não se deleitava com o paladar, o qual não vige na garganta mas na língua, mas se deleitava apenas com o tato.

616. Em seguida, quando diz: e o mais comum etc., infere um corolário do que foi dito. Pois o sentido do tato, do qual trata a intemperança, é o mais comum entre todos os sentidos, porque neste sentido comungam todos os animais, e por isso a intemperança parece ser justamente censurável, porque está nos homens não quanto àquilo que é próprio do homem, mas quanto àquilo em que ele comunga com os outros animais. Ora, deleitar-se em tais coisas e amar coisas deste tipo como se fossem os máximos bens parece ser sumamente bestial. E daí vem que os vícios da intemperança têm a máxima torpeza, porque por eles o homem se assemelha às bestas. E daí vem que por vícios deste tipo o homem se torna sumamente infame e vituperável.

617. E porque alguém poderia dizer que também naquelas coisas que pertencem ao tato há algo próprio do homem que não é bestial, por isso, para excluir esta objeção, acrescenta que se subtraem da temperança aqueles deleites que são sumamente liberais, como apropriados aos homens e feitos segundo a razão, tais como são os deleites que ocorrem nos ginásios, isto é, nos exercícios dos jogos, pela fricção e pelo aquecimento, enquanto alguns lutam entre si ou se exercitam de outro modo, não por ordenação às concupiscências dos alimentos ou dos prazeres venéreos. Pois o deleite do tato que o intemperante busca não diz respeito a todo o corpo, mas a certas partes do corpo.

618. Em seguida, quando diz: ora, das concupiscências etc., mostra qual é o ato da temperança em relação à matéria mencionada e também dos vícios opostos.

E a respeito disto faz duas coisas:

primeiro expõe o seu propósito;

segundo compara os vícios da intemperança com certos outros vícios, ali: ora, ao voluntário mais se assemelha etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro determina acerca da intemperança, mostrando de que modo ela opera em relação à matéria antes investigada;

segundo determina acerca da insensibilidade, ali: ora, os deficientes etc.;

terceiro acerca da temperança, ali: ora, o temperante, de modo intermédio etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro mostra como a intemperança se comporta em relação aos deleites;

segundo como se comporta em relação às tristezas, ali: ora, em relação às tristezas etc.

Ora, assim como acima se disse que o temor e a tristeza se ordenam ao mesmo, porque a tristeza é dos males presentes assim como o temor é dos futuros, assim também para o mesmo se ordenam a concupiscência, que é dos bens futuros, e o deleite, que é dos presentes; donde também a temperança, pela mesma razão, diz respeito às concupiscências e aos deleites.

Primeiro, portanto, estabelece uma certa divisão das concupiscências;

segundo a esclarece, ali: como as do alimento etc.;

terceiro mostra de que modo a intemperança diz respeito a ambas as concupiscências, ali: portanto, nas naturais etc.

619. Diz, pois, primeiro que certas concupiscências são comuns e certas são próprias, as quais se comportam por uma certa adição em relação às comuns.

620. Em seguida, quando diz: como as do alimento etc., esclarece a divisão anteriormente feita.

E primeiro esclarece quais são as concupiscências comuns. E diz que a concupiscência do alimento em comum é natural, como seguindo-se de toda a natureza da espécie ou também do gênero. E daí vem que todo homem, para socorrer a indigência da natureza, deseja o alimento seco que se chama comida, ou o úmido que se chama bebida, e às vezes ambos. Assim como também Homero diz que todo homem, tanto o jovem quanto o que cresce, isto é, o adolescente, deseja um leito no qual repouse.

621. Ora, em segundo lugar, ali: ora, tal etc., mostra quais são os deleites próprios. E diz que nem todos os homens desejam este ou aquele leito, por exemplo, forrado de plumas ou com preciosas coberturas; semelhantemente também nem todos desejam este ou aquele alimento, por exemplo, precioso ou delicadamente preparado; nem tampouco todos desejam o mesmo, mas alguns em tais coisas desejam isto, outros aquilo. Donde as coisas concupiscíveis deste tipo parecem ser nossas, isto é, porque não somos inclinados a elas pela natureza, mas antes pela nossa própria invenção. Nada impede, contudo, que também nestas haja algo de natural, como pertencente à natureza do indivíduo, ainda que não pertença à natureza do gênero ou da espécie; pois vemos que diversas coisas são deleitáveis para diversos segundo as suas diversas compleições, e que para alguns certas coisas são mais deleitáveis do que outras indiferentemente, por causa da sua compleição natural.

622. Em seguida, quando diz: portanto, nas naturais etc., mostra de que modo a intemperança diz respeito às concupiscências mencionadas. E diz que nas concupiscências naturais, que são comuns, poucos pecam, e não há pecado nisto senão de um só modo, isto é, na medida em que alguém come ou bebe mais do que a natureza requer. Pois acontece que alguém come ou bebe tudo o que lhe é dado, se contudo o faz até uma repleção supérflua, na qual há superabundância em relação à quantidade de alimento ou bebida que a natureza requer; pois a natureza não deseja senão que seja suprida a indigência, donde o que alguém toma além da indigência é um excesso acima da natureza.

623. E por isso tais pessoas são chamadas gastrímargos, de gastir, que é ventre, e margos, que é furor ou insânia, como que furor ou insânia do ventre, isto é, porque enchem a natureza além da indigência. E tornam-se assim aqueles que são muito bestiais, isto é, porque só empregam cuidado nisto: em encher o ventre sem discrição, assim como as bestas.

624. Em segundo lugar, ali: ora, em relação aos deleites próprios etc., mostra de que modo a intemperança se comporta em relação às concupiscências ou deleites próprios. E diz que em relação a eles muitos pecam de muitos modos, isto é, segundo todas as circunstâncias. Pois aqueles que são amantes de tais deleites pecam por se alegrarem naquilo em que não é preciso, por exemplo, tomando alimentos que não lhes convêm; ou também pecam por se alegrarem mais do que é preciso com aquilo com que é preciso, por exemplo, se alguém se deleita demasiadamente na ingestão de alimentos convenientes; ou também porque se deleitam nestas coisas sem discrição, como a multidão dos tolos; ou também porque não guardam o devido modo, de sorte a deleitar-se como é preciso. Pois em todas estas coisas os intemperantes superabundam, porque se alegram com certas coisas com que não é preciso alegrar-se, porque são indecentes e por sua natureza odiosas, e se em certas de tais coisas for preciso alegrar-se, alegram-se mais do que é preciso e sem discrição, como muitos se alegram.

625. E assim, por fim, conclui que, sendo a intemperança uma superabundância em relação a deleites deste tipo, ela é vituperável, assim como as outras superabundâncias, como foi dito acima no livro II.