Lição 10
Doubts About the Usefulness of Wisdom and Prudence
Poderá, porém, alguém pôr em dúvida a respeito delas mesmas para que são úteis. [1257]
A sabedoria, com efeito, nada especula daquilo pelo qual o homem se tornará feliz; pois não é de nenhuma geração. [1258]
A prudência, por sua vez, tem isto; mas para que é ela necessária, se a prudência é aquela que versa sobre as coisas justas, belas e boas para o homem? Ora, estas são as coisas que é próprio do homem bom operar; mas em nada somos mais operativos pelo fato de as conhecermos, se as virtudes são hábitos, do mesmo modo que nem as coisas sãs nem as que estão em boa disposição se dizem tais pelo fato de fazer, mas pelo fato de proceder do hábito; pois em nada somos mais operativos pelo fato de ter a arte medicinal e a ginástica. [1259]
Mas se não se deve estabelecer o prudente por causa destas coisas, e sim por causa daquilo que é tornar-se virtuoso, então, para os que já são virtuosos, ela em nada será útil. [1261]
E, além disso, tampouco para os que não a têm. Pois em nada diferirá que eles mesmos a tenham ou que sejam persuadidos por outros que a têm, e nos bastaria como também a respeito da saúde; pois, querendo estar sãos, contudo não aprendemos a medicina. [1263]
Além disso, parecerá inconveniente que a sabedoria, sendo mais excelente, a tenha por mais principal do que ela mesma; pois quem opera domina e ordena acerca de cada coisa. Mas destas coisas se deverá tratar; por ora, porém, apenas se pôs em dúvida a respeito delas. [1264]
Primeiramente, pois, dizemos que, por si mesmas, é necessário que sejam elegíveis, sendo ambas virtudes de cada uma das partes, ainda que nenhuma delas faça coisa alguma. [1266]
Depois, elas de fato também operam algo, não porém como a arte medicinal opera a saúde, mas como a saúde; assim a sabedoria opera a felicidade. Pois, sendo parte de toda a virtude, faz feliz aquele que a possui e a exerce. [1267]
Além disso, a obra se realiza segundo a prudência e a virtude moral. Pois a virtude torna reta a intenção, e a prudência aquilo que conduz a ela. Mas da quarta parte da alma, a nutritiva, não há tal virtude; pois nela nada há de operar ou de não operar. [1268]
Ora, quanto ao fato de não sermos mais operativos, por causa da prudência, das coisas boas e justas, deve-se começar um pouco mais acima, tomando este princípio. Pois, assim como dizemos que alguns que praticam coisas justas de modo algum são justos, por exemplo, os que fazem as coisas ordenadas pelas leis ou contra a vontade ou por ignorância ou por outra razão qualquer e não por causa delas mesmas, embora operem o que é preciso e tudo aquilo que é preciso ao homem virtuoso, assim, ao que parece, importa de que modo operar cada coisa quem as pratica para ser bom, de modo que seja bom, isto é, por exemplo, por causa da escolha e por causa das próprias obras operadas. A escolha reta, pois, é a virtude que a faz, mas todas as coisas que por natureza são feitas por causa dela não são da virtude, mas de outra potência. [1270]
Deve-se, porém, dizer mais manifestamente sobre isso aos que sabem. Há uma certa potência que chamam de habilidade; ela é de tal natureza que aquilo que se ordena à intenção proposta ela pode operar e alcançá-lo. Se, pois, a intenção for boa, é louvável; se, porém, for má, é astúcia. [1272]
Por isso também dizemos que os prudentes são hábeis e astutos. Ora, a prudência não é essa potência, mas não existe sem essa potência. E este hábito advém a esse olhar da alma não sem a virtude, como já foi dito e é manifesto. Pois os silogismos das coisas operáveis têm como princípio que tal é o fim e o melhor, seja ele qual for; suponha-se, com efeito, por causa do argumento, um qualquer. Mas isto não aparece senão ao bom: a malícia, com efeito, perverte e faz mentir acerca dos princípios práticos. Por isso é manifesto que é impossível ser prudente quem não é bom. [1273]
Poderá, porém, alguém pôr em dúvida etc. Depois que o Filósofo determinou acerca das virtudes intelectuais, aqui suscita algumas dúvidas sobre a utilidade delas.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, propõe as dúvidas;
segundo, resolve-as, ali: primeiramente, pois, dizemos etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, suscita a dúvida sobre a utilidade da sabedoria e da prudência, às quais as demais se reduzem como às mais principais;
segundo, sobre a comparação destas duas entre si, ali: além disso, parecerá inconveniente etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas.
Primeiro, propõe a dúvida. E diz que alguém pode duvidar para que ou de que modo a sabedoria e a prudência sejam úteis.
1258. Segundo, ali: a sabedoria, com efeito etc., prossegue a dúvida.
E, primeiro, quanto à sabedoria, que parece não ser útil para nada. Pois tudo o que é útil nas coisas humanas vale para a felicidade, que é o último fim da vida humana. Ora, para ela a sabedoria em nada parece valer; pois não parece especular nada daquilo pelo qual o homem se torna feliz, o que se dá pela operação da virtude, como se estabeleceu acima, no primeiro livro; a sabedoria, porém, de nenhuma geração, isto é, operação, é consideradora, visto que versa sobre os primeiros princípios dos entes. Assim, pois, parece que a sabedoria não é útil ao homem.
1259. Segundo, ali: a prudência, por sua vez etc., prossegue a dúvida quanto à prudência.
E, primeiro, aduz a razão de que a prudência não é necessária ao homem;
segundo, exclui uma certa resposta, ali: mas se não por causa destas coisas etc.
Diz, pois, primeiro que a prudência tem isto, a saber, que é consideradora das operações humanas pelas quais o homem se torna feliz, mas não parece por isso que o homem tenha necessidade dela; pois a prudência versa sobre as coisas que são justas, em comparação com os outros, e belas, isto é, honestas, e boas, isto é, úteis, ao homem em relação a si mesmo. Operar tais coisas pertence, de fato, ao homem bom; ora, ninguém parece ser operativo daquilo que é segundo algum hábito pelo fato de conhecê-lo, mas pelo fato de ter o hábito para tais coisas,
1260 como é patente nas coisas corporais, que, pelo fato de o homem ter a ciência medicinal ou ginástica, não é mais operativo daquilo que pertence ao homem são ou ao que está em boa disposição, contanto que tais coisas não consistam somente naquilo que é fazer, mas naquilo que é proceder de algum hábito interior; pois às vezes acontece que alguém, pela notícia da arte, opera certas obras do são, como que fingindo-as e não conforme procedem do hábito da saúde, isto é, do modo como as opera o homem são, pois assim isso não procede do homem pelo fato de ele saber a medicina, mas somente pelo fato de ele ser são. Portanto, como as virtudes são hábitos, as obras das virtudes, na medida em que procedem delas e conduzem à felicidade, não são mais operadas pelo homem pelo fato de ele ter a notícia delas pela prudência. E assim a prudência não é operativa do bem.
1261. Em seguida, quando diz: mas se não por causa destas coisas etc., exclui uma certa resposta. Pois alguém poderia dizer que, embora o homem, pelo fato de ser virtuoso, não seja mais operativo das obras da virtude por conhecê-las segundo a prudência, contudo a prudência é necessária para que o homem se torne virtuoso, assim como a arte da medicina é necessária não para que o são realize as obras da saúde, mas para que se torne são; e assim se deve estabelecer que o homem deve ser prudente não por causa destas coisas, a saber, das obras da virtude, mas por causa daquilo que é tornar-se virtuoso.
Ora, esta resposta ele exclui por duas razões.
1262. A primeira delas é que, a partir do momento em que os homens fossem sérios, isto é, virtuosos, para nada lhes seria útil a prudência, o que manifestamente parece inconveniente.
1263. A segunda razão ele estabelece ali: e, além disso etc. Pois parece que, segundo a resposta anteriormente dita, não só aos que têm a virtude, mas também aos que não têm a virtude, não seria necessária a prudência. Pois parece que em nada difere, para que alguns se tornem virtuosos, que eles mesmos tenham a prudência ou que sejam persuadidos por outros que a têm, visto que por isso o homem está suficientemente disposto a tornar-se virtuoso, como é patente a respeito da saúde; pois, quando queremos estar sãos, não nos preocupamos por isso em aprender a medicina, mas nos basta usar do conselho dos médicos; logo, por igual razão, para que nos tornemos virtuosos, não é preciso que nós mesmos tenhamos a prudência, mas basta que sejamos instruídos pelos prudentes.
1264. Em seguida, quando diz: além disso etc., suscita uma dúvida acerca da comparação entre a sabedoria e a prudência. Mostrou-se, com efeito, acima que a prudência é mais baixa, isto é, inferior em dignidade, do que a sabedoria, e todavia parece ser mais principal, isto é, mais dotada de autoridade, porque a prudência tanto opera como ordena acerca dos singulares; pois sob a prudência se contém também a política, já que se disse no proêmio do livro que esta preordena quais disciplinas devem existir nas cidades e quais cada um deve aprender e até que ponto. E assim parece que a prudência domina a sabedoria, visto que ordenar é obra de quem julga. E isto parece inconveniente, que o mais baixo domine o melhor.
1265. Ele acrescenta, porém, ligando-se ao que segue, dizendo que sobre estas coisas propostas se deverá tratar, mas que por ora foram apenas tocadas por modo de dúvida.
1266. Em seguida, quando diz: primeiramente, pois, dizemos etc., resolve as dúvidas anteriormente propostas.
E, primeiro, resolve a dúvida sobre a utilidade da sabedoria e da prudência;
segundo, sobre a comparação de ambas, ali: mas, contudo, tampouco é principal etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, resolve a dúvida em comum, quanto à sabedoria e à prudência;
segundo, especialmente quanto à prudência, ali: além disso, a obra etc.
Acerca do primeiro estabelece duas soluções.
A primeira delas mostra que as razões que ele aduz não concluem eficazmente. Pois não se segue, se pela sabedoria e pela prudência o homem nada opera para a felicidade, que por isso sejam inúteis, porque, ainda que nenhuma delas tivesse alguma operação, contudo seriam por si mesmas elegíveis, visto que são virtudes que aperfeiçoam ambas as partes da alma racional, como é patente pelo que foi dito; ora, para cada um é elegível a sua perfeição.
1267. Em segundo lugar, resolve por refutação, ali: em seguida etc. E diz que a sabedoria e a prudência de fato contribuem em algo para a felicidade, mas o exemplo que se aduzia não era conveniente. Pois a sabedoria ou a prudência não se relacionam com a felicidade do mesmo modo como a arte da medicina com a saúde, mas antes como a saúde com as operações saudáveis; com efeito, a arte da medicina produz a saúde como uma certa obra exterior realizada, ao passo que a saúde produz as operações saudáveis como um certo uso do hábito da saúde; a felicidade, porém, não é uma obra exterior realizada, mas é uma operação que procede do hábito da virtude. Por isso, sendo a sabedoria uma certa espécie da virtude comum, pelo próprio fato de alguém ter a sabedoria e operar segundo ela, é feliz. E a mesma razão vale para a prudência; mas ele exprimiu especialmente a sabedoria, porque na operação dela consiste a felicidade mais elevada, como se dirá adiante, no décimo livro.
1268. Em seguida, quando diz: além disso, uma obra etc., resolve aquilo que pertence especialmente à prudência.
E, primeiro, quanto àquilo que se objetava, a saber, que a prudência nada faz para as obras da virtude;
em segundo lugar, quanto àquilo que se objetava, a saber, que a prudência não é necessária para que o homem seja virtuoso, ali: quanto, porém, àquilo que é etc.
Diz, portanto, primeiro que, ainda especialmente quanto à prudência, é falso o que se objetava, a saber, que pela prudência não nos tornamos mais aptos a realizar as obras da virtude. Pois isso é manifestamente falso, porque realizamos a obra da virtude segundo ambas, isto é, segundo a prudência e segundo a virtude moral.
1269. Com efeito, duas coisas são necessárias na obra da virtude,
das quais uma é que o homem tenha uma intenção reta acerca do fim, o que de fato é feito pela virtude moral, enquanto inclina o apetite ao fim devido;
a outra, porém, é que o homem se disponha bem em relação àquilo que conduz ao fim: e isto é feito pela prudência, que é boa conselheira, boa julgadora e boa preceptora daquilo que conduz ao fim.
E assim, para a obra da virtude concorrem tanto a prudência, que é aperfeiçoadora da parte racional por essência, quanto a virtude moral, que é aperfeiçoadora da parte apetitiva, a qual é racional por participação. Mas por que na outra parte da alma, que é totalmente irracional, isto é, a nutritiva, não há tal virtude que concorra para a operação humana, a razão é evidente: porque na potência nutritiva não há o operar ou o não operar, e isto se requer para a operação da virtude humana, como fica claro pelo que foi dito acima.
1270. Em seguida, quando diz: quanto, porém, àquilo que nada é etc., resolve o que se objetava, a saber, que sem a prudência alguém possa ser e tornar-se virtuoso.
E, acerca disto, faz duas coisas:
primeiro, mostra que a prudência não pode existir sem a virtude moral;
em segundo lugar, mostra que a virtude moral não pode existir sem a prudência, ali: é preciso, pois, de novo etc.
Acerca do primeiro ponto, faz três coisas:
primeiro, mostra que, para que alguém seja virtuoso, requer-se não somente a virtude moral, mas também um outro princípio operativo;
em segundo lugar, mostra o que ele seja, ali: é preciso, porém, dizer etc.;
em terceiro lugar, mostra que a prudência acrescenta àquele princípio a junção da virtude moral, ali: a prudência, porém, é etc.
Diz, portanto, primeiro que, para resolver aquilo que foi dito, a saber, que por causa da prudência o homem não realizará mais as coisas boas e justas de modo a tornar-se virtuoso, é preciso começar um pouco mais acima, retomando algumas das coisas que foram ditas.
1271. E começaremos deste ponto: como foi dito acima, alguns realizam coisas justas e, contudo, não os dizemos justos, como quando alguns realizam aquilo que é estabelecido pelas leis, seja contra a vontade, seja por ignorância, seja por alguma outra causa, por exemplo por lucro, e não por amor às próprias obras da justiça; e tais homens, digo, não são ditos justos, embora realizem aquilo que devem fazer e também aquilo que deve fazer o homem bom; e assim também em cada uma das virtudes é preciso que o homem opere de algum modo para que seja bom ou virtuoso, isto é, que opere por escolha e porque as próprias obras da virtude lhe agradam. Ora, já foi dito acima que a virtude moral faz a escolha reta, a saber, quanto à intenção do fim, mas aquilo que é feito naturalmente por causa do fim não pertence à virtude moral, mas a uma certa outra potência, isto é, a um certo outro princípio operativo, que engenha os caminhos que conduzem ao fim; e assim um princípio deste tipo é necessário para que o homem seja virtuoso.
1272. Em seguida, quando diz é preciso, porém, dizer etc., mostra o que seja esse princípio. E diz que sobre o que foi dito é preciso ainda dizer algo, para que se conheçam mais claramente. Há, pois, uma certa potência, isto é, um princípio operativo, que chamam de destreza, como que uma certa engenhosidade ou habilidade, que é tal que por meio dela o homem pode realizar aquilo que se ordena à intenção que o homem pressupôs, seja boa, seja má, e que, por meio daquilo que realiza, possa alcançar, isto é, obter, o fim. E se de fato a intenção for boa, uma engenhosidade deste tipo é louvável; se, porém, for perversa, chama-se astúcia, que ressoa no mal, assim como a prudência ressoa no bem. E porque a destreza é comum a ambas, daí é que tanto os prudentes quanto os astutos dizemos serem destros, isto é, engenhosos ou hábeis.
1273. Em seguida, quando diz: a prudência, porém, é etc., mostra o que a prudência acrescenta ao princípio referido. E diz que a prudência não é totalmente o mesmo que a potência referida, isto é, a destreza, mas contudo não pode existir sem ela. Mas, na alma, a este olhar, isto é, a este princípio cognoscitivo, a saber, a destreza, o hábito da prudência não se produz sem a virtude moral (que sempre se refere ao bem), como foi dito, e a razão disto é manifesta. Porque, assim como os silogismos especulativos têm os seus princípios, assim também o princípio dos silogismos operativos é que tal fim seja o bem e o ótimo, qualquer que seja aquele fim por causa do qual alguém opera; e ponha-se, por exemplo, o que quer que seja, como para o temperante o ótimo e como que princípio é atingir o meio-termo nas concupiscências do tato. Mas que isto seja o ótimo não aparece senão ao bom, isto é, ao virtuoso, que tem a estimação reta acerca do fim, visto que a virtude moral faz a intenção reta do fim;
1274. e que aos outros, aos maus, não apareça aquilo que verdadeiramente é o ótimo, fica claro por isto: que a malícia oposta à virtude perverte o juízo da razão e faz mentir acerca dos fins, que são os princípios práticos, assim como ao intemperante parece ótimo seguir as concupiscências. Ora, não se pode silogizar retamente se se erra acerca dos princípios. Como, portanto, pertença ao prudente silogizar retamente acerca das coisas operáveis, é manifesto que é impossível ser prudente aquele que não é virtuoso, assim como não poderia ser sabedor aquele que errasse acerca dos princípios da demonstração.