Lição 11
Friendships Conform to Kinds of States
Segundo cada forma de governo, parece haver amizade, na medida em que também há justiça. [1688]
Do rei para com os súditos, na superabundância do benefício. Pois faz o bem aos súditos, se, com efeito, sendo bom, tem cuidado deles para que ajam bem, assim como o pastor das ovelhas. Donde também Homero chamou Agamêmnon de pastor dos povos. [1689]
Tal é também a amizade paterna. [1690]
Difere, porém, na grandeza dos benefícios. Pois é causa do existir, o que é considerado o máximo, e do sustento e da instrução. Mas também aos progenitores se atribuem essas coisas. [1691]
E também, por natureza, o pai é governante dos filhos, e os progenitores dos netos, e o rei dos súditos. [1692]
Ora, essas amizades existem na superexcelência; e por isso também são honrados os pais. E a justiça, nesses casos, não é a mesma, mas segundo a dignidade; pois assim também é a amizade. [1693]
Mas também do homem para com a esposa há a mesma amizade que na aristocracia; pois é segundo a virtude, e ao melhor cabe mais bem e o que é conveniente a cada um; e assim também é a justiça. [1694]
Quanto à dos irmãos, porém, assemelha-se à dos companheiros; pois são iguais e da mesma idade, e tais pessoas têm, na maior parte, uma mesma instrução e um mesmo costume. Assemelha-se, pois, a esta também a que é segundo a timocracia; pois os cidadãos querem ser iguais e honestos. Por conseguinte, governam por partes e por igualdade; assim também é a amizade. [1695]
Nas transgressões, porém, assim como o justo é pequeno, do mesmo modo também é pequena a amizade. [1696]
E é mínima na pior. Pois na tirania há nenhuma ou pouca amizade. [1697]
Naqueles em que nada há de comum entre quem governa e quem é governado, não há amizade nem tampouco justiça, mas é como do artífice em relação ao instrumento, e da alma em relação ao corpo, e do senhor em relação ao servo. Estas coisas, com efeito, são beneficiadas por aqueles que as utilizam; mas não há amizade em relação às coisas inanimadas, nem justiça, nem tampouco em relação ao cavalo ou ao boi, nem em relação ao servo enquanto servo, pois nada há de comum; o servo, com efeito, é um instrumento animado, e o instrumento um servo inanimado. [1698]
Enquanto, pois, é servo, não há amizade em relação a ele, mas enquanto é homem; parece, com efeito, que há um certo justo de todo homem em relação a todo aquele que pode participar mediante lei e composição, e há também amizade enquanto homem. Pequenas, pois, são igualmente nas tiranias a amizade e o justo. [1700]
Nas democracias, porém, é máxima; pois, existindo muitas coisas comuns entre os que são iguais, muito se lhes proporciona. [1701]
1688. Segundo cada uma etc. Depois que o Filósofo distinguiu as diversas espécies de comunicação política e doméstica, aqui distingue as espécies de amizade segundo o que foi dito antes.
E acerca disto faz duas coisas.
Primeiro propõe o que pretende. E diz que segundo cada urbanidade, isto é, cada ordem política, parece dever-se admitir uma certa espécie de amizade, pelo fato de que em cada regime político se encontra algo de justo. Ora, a amizade e a justiça de certo modo versam sobre o mesmo, como foi dito acima.
1689. Segundo, em ao rei, com efeito etc., manifesta o que se propôs.
E primeiro quanto aos regimes retos;
segundo quanto aos regimes pervertidos, em nas transgressões, porém etc.
Acerca do primeiro faz três coisas:
primeiro mostra de que modo há amizade segundo a realeza;
segundo de que modo segundo a aristocracia, em mas também do marido em relação à esposa etc.;
terceiro de que modo segundo a timocracia, em a dos irmãos, porém etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra de que modo há amizade entre o rei e os súditos;
segundo compara a amizade paterna à amizade régia, em tal, porém, é também a paterna etc.
Diz, pois, primeiro que entre o rei e os súditos há uma amizade de superabundância segundo a noção de benefício, como é a do benfeitor em relação ao beneficiado. Pertence, com efeito, ao rei fazer o bem aos súditos; pois, se é bom, tem cuidado dos súditos para que ajam bem, pois pretende tornar os súditos virtuosos; por isso também é nomeado a partir do fato de que dirige os súditos como o pastor as ovelhas. Por isso Homero nomeou o rei Agamêmnon pastor dos povos.
1690. Em seguida, quando diz: tal, porém, é também a paterna etc., compara a amizade paterna à régia.
E acerca disto faz quatro coisas.
Primeiro compara a amizade paterna à régia. E diz que a amizade paterna é tal, isto é, semelhante à régia.
1691. Segundo, em difere, porém etc., mostra a diferença de uma e outra amizade. E diz que as duas amizades mencionadas diferem segundo a grandeza dos benefícios. Pois, embora o benefício do rei seja absolutamente o máximo enquanto diz respeito a toda a multidão, todavia, em comparação com uma única pessoa, o benefício do pai é maior. É, com efeito, o pai para o filho causa de três máximos bens:
primeiro, com efeito, gerando-o, é para ele causa do existir, o que se reputa ser o máximo;
segundo, educando-o, é para ele causa do sustento;
terceiro, instruindo-o, é para ele causa da disciplina.
Estes três, porém, não são atribuídos somente aos pais em relação aos filhos, mas também aos progenitores, isto é, aos avós e bisavós, em relação aos netos e bisnetos.
1692. Terceiro, em pois também por natureza etc., prova o que havia dito, isto é, que a amizade paterna é tal como também a régia. Por natureza, com efeito, o pai comanda os filhos e os progenitores os netos, assim como também o rei os súditos. Por isso também os filhos estão sob o poder do pai e os netos sob o poder do avô, assim como também os súditos sob o poder do rei.
1693. Quarto, em no superexcesso, porém etc., mostra em que convêm todas as amizades deste gênero. E põe duas coisas.
Uma delas é que todas as amizades deste gênero consistem em um certo superexcesso de um em relação ao outro; e porque no rei e nos súditos isto é manifesto, manifesta-o acerca dos pais e dos filhos: pois, porque o pai é superexcedente, disso resulta que os pais são honrados pelos filhos; a honra, com efeito, é devida ao que superexcede, como se estabeleceu no primeiro livro; e o mesmo se deve dizer acerca dos progenitores.
A outra é que em tais amizades não é o mesmo justo de uma e outra parte, isto é, que o rei faça ao súdito o mesmo que o súdito ao rei, ou o pai ao filho o mesmo que o filho ao pai, mas atende-se de ambas as partes ao justo segundo a dignidade, isto é, que cada um faça ao outro o que é digno, porque assim também se considera a amizade entre eles, de modo que um ame o outro segundo o que é digno.
1694. Em seguida, quando diz: mas também do marido etc., mostra de que modo há amizade segundo a aristocracia. E diz que a amizade que há entre o marido e a esposa é tal como a que há na aristocracia, na qual alguns são postos à frente segundo a virtude e por causa dela são amados e, porque aqueles que são postos à frente são melhores, por isso lhes é atribuído mais do bem, enquanto são preferidos aos outros; e todavia a cada um se atribui aquilo que lhe convém (pois os virtuosos constituídos no principado não subtraem aos súditos o bem que lhes é próprio); e por este modo também se conserva a justiça segundo a aristocracia. E assim é também na amizade do marido e da esposa; pois o marido, porque é melhor, é posto à frente da esposa, todavia o marido não arrebata as coisas que são da esposa.
1695. Em seguida, quando diz: a dos irmãos, porém etc., mostra de que modo se toma a amizade segundo a timocracia. E diz que a amizade que há entre os irmãos se assemelha à etairiké, isto é, à amizade dos coetâneos; pois os irmãos são iguais e coetâneos, e tais parecem ser, na maior parte das vezes, de uma mesma disciplina e de um mesmo costume, pelo fato de que os costumes seguem o hábito da vida, como se estabeleceu no segundo livro. E disto fica patente que a tal amizade se assemelha a amizade que há segundo a timocracia, na qual os cidadãos que são postos à frente são iguais e epieikeîs, isto é, virtuosos. Por isso é justo que governem por parte, de modo que um não tenha todo o principado, mas um parcial, de sorte que se igualem no principado; e assim há também amizade entre eles. E isto também se observa manifestamente na amizade dos irmãos e dos coetâneos ou dos criados juntos.
1696. Em seguida, quando diz: nas transgressões, porém etc., mostra de que modo há amizade segundo os regimes políticos corrompidos.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro mostra que em tais regimes há pouco de amizade;
segundo mostra em qual deles há o mínimo de amizade, em e é mínima na pior etc.;
terceiro em qual deles há o máximo, em nas democracias, porém etc.
Diz, pois, primeiro que nas transgressões, isto é, nos regimes corrompidos, assim como há pouco de justiça, assim também há pouco de amizade, que de certo modo versa sobre o mesmo que a justiça.
1697. Em seguida, quando diz: e é mínima na pior etc., mostra em qual dos regimes corrompidos há o mínimo de amizade.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro propõe o que pretende;
segundo prova o que se propôs, em naqueles, com efeito, em que nada etc.;
terceiro mostra de que modo se deve entender o que foi dito, em enquanto, pois etc.
Diz, pois, primeiro que, sendo pouca a amizade nos regimes corrompidos, é consequente que seja mínima a amizade no pior dos regimes corrompidos, a saber, na tirania, na qual há nenhuma ou muito pouca amizade.
1698. Em seguida, quando diz: naqueles, com efeito, em que etc., prova o que se propôs. Pois, porque a amizade consiste na comunicação, como se mostrou acima, é manifesto que, se entre quem governa e quem é governado nada há de comum, por exemplo quando quem governa pretende o seu próprio bem, nem amizade poderá haver entre eles, assim como tampouco há justiça entre eles, enquanto quem governa usurpa para si todo o bem que é devido a quem é governado; ora, isto acontece na tirania, porque o tirano não pretende o bem comum, mas o próprio, e assim se comporta em relação aos súditos como o artífice em relação ao instrumento, e a alma em relação ao corpo, e o senhor em relação ao servo; pois o tirano usa dos súditos como de servos.
1699. Estes três que foram mencionados, com efeito, são beneficiados por aqueles que os utilizam, enquanto são movidos por eles, a saber, o servo pelo senhor, o corpo pela alma, o instrumento pelo artífice; todavia não há amizade dos que utilizam em relação àquilo de que utilizam, porque, ainda que em algo lhes sejam úteis, não pretendem por isso o bem deles senão enquanto se refere ao próprio bem; e isto é sobretudo manifesto acerca do artífice em comparação com os instrumentos inanimados, em relação aos quais não há amizade nem justiça, porque não participam da operação da vida humana; e semelhantemente não há amizade em relação ao cavalo ou ao boi, ainda que sejam animados, e assim também não há amizade do senhor em relação ao servo enquanto é servo, porque não têm algo de comum, mas todo o bem do servo é do senhor, assim como todo o bem do instrumento é do artífice; pois o servo é como que um instrumento animado, assim como, inversamente, o instrumento é como que um servo inanimado.
1700. Em seguida, quando diz: enquanto, pois etc., mostra de que modo se deve entender o que foi dito. E diz que, segundo as premissas, não há amizade do senhor em relação ao servo enquanto é servo, há todavia amizade em relação a ele enquanto é homem; pode, com efeito, haver alguma justiça de qualquer homem em relação a todo homem, enquanto podem participar em alguma lei e em alguma composição, isto é, em algum pacto ou promessa, e por este modo também pode haver amizade do senhor em relação ao servo enquanto é homem. E assim fica patente que na tirania, na qual os príncipes usam dos súditos como de servos, há pouco de amizade e de justiça.
1701. Em seguida, quando diz: nas democracias, porém etc., mostra em qual dos regimes corrompidos há o máximo de amizade. E diz que na democracia, porque neste regime aqueles que governam pretendem em muitas coisas o bem comum, enquanto querem que os populares sejam igualados aos notáveis, pretendendo principalmente o bem dos populares. A oligarquia, porém, comporta-se de modo intermediário, porque nem pretende o bem da multidão como a democracia, nem o bem de um só como a tirania, mas o bem de poucos.