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Lição 12

Happiness and the Moral Virtues

Em segundo lugar, aquele que vive segundo outra virtude. [2111]

Pois é segundo ela que se dão as operações humanas. Com efeito, as coisas justas, corajosas e as demais que praticamos uns em relação aos outros segundo as virtudes, nas trocas, nas necessidades e nas ações de todo tipo e nas paixões, conservando o que convém a cada um; ora, todas estas parecem ser coisas humanas. Algumas, porém, parecem também sobrevir do corpo, e a virtude do costume muito se aproxima das paixões. Ademais, a prudência está unida à virtude do costume, e esta à prudência, uma vez que os princípios da prudência são segundo as virtudes morais, ao passo que a retidão das coisas morais é segundo a prudência. E, estando estas acopladas às paixões, dizem respeito ao composto. Ora, as virtudes do composto são humanas, e assim também a vida que se dá segundo elas e a felicidade. Já aquela do intelecto é separada. Baste isto que se disse a seu respeito, pois dizê-lo com mais precisão ultrapassa o que aqui se propõe. [2112]

Parecerá também que a virtude moral necessita, na doação exterior, de pouco ou menos. Pois, quanto às coisas necessárias, ambos delas têm igual necessidade, ainda que o homem político se esforce mais em torno do corpo e de tudo o que é tal; em pouco, porém, diferirão. Mas, quanto às operações, muito diferem: pois ao liberal serão necessárias riquezas para praticar atos liberais, e ao justo para fazer as devidas restituições. As vontades, com efeito, são inaparentes; pois também os não justos simulam querer agir justamente. Ao corajoso é necessário poder, se de fato há de realizar algo do que é segundo a virtude. E ao temperante, poder; pois, de que modo se tornará manifesto este ou algum dos outros? Pergunta-se, porém, o que é mais principal na virtude, a escolha ou as ações, como se estivesse em ambas. É evidente que o que é perfeito estará em ambas. Ora, para as ações são necessárias muitas coisas, e tanto mais quanto maiores e melhores forem elas. Ao que especula, porém, nenhuma dessas coisas é necessária à operação, mas, por assim dizer, elas são até impedimentos à especulação. Contudo, enquanto é homem e convive com muitos e escolhe agir segundo a virtude, terá necessidade de tais coisas para conviver humanamente. [2117]

Que a felicidade perfeita é uma certa operação especulativa, também disto se tornará evidente. Pois julgamos que os deuses são, sobretudo, bem-aventurados e felizes; ora, que ações devemos atribuir-lhes? Acaso as justas? Ou pareceriam ridículos fazendo trocas e restituindo depósitos e todas as outras coisas semelhantes? Ou seriam corajosos, suportando coisas terríveis e arriscando-se por causa do bem? Ou liberais? A quem, porém, dariam? E seria inconveniente que houvesse para eles moeda ou algo semelhante. E, se fossem temperantes, tal louvor seria antes oneroso, pois não têm concupiscências más. Percorrendo todas as coisas, mostrar-se-á que aquelas que dizem respeito às ações são pequenas e indignas dos deuses. Contudo, todos julgam que eles vivem e, portanto, que operam: pois não convém que durmam, como Endimião. Ora, tirando ao vivente o agir e, ainda mais, o fazer, que resta senão a especulação? De modo que a operação de Deus, sobressaindo em bem-aventurança, é especulativa. E, dentre as humanas, a mais aparentada com esta é a mais feliz. [2121]

É também sinal disto o fato de os demais animais não participarem da felicidade, privados por completo de tal operação. Pois, para os deuses, toda a vida é bem-aventurada; para os homens, enquanto neles existe certa semelhança de tal operação; mas nenhum dos outros animais é feliz, porque de modo algum comunica com a especulação. Assim, na medida em que se estende a especulação, também a felicidade, e àqueles a quem mais compete especular, também mais compete ser felizes, não por acidente, mas segundo a especulação; pois esta é, por si mesma, honrosa. De modo que a felicidade será uma certa especulação. [2124]

2111. Em segundo lugar, aquele que vive segundo outra virtude etc. Depois de o Filósofo ter mostrado que a felicidade perfeita e principal se dá segundo a especulação do intelecto, aqui introduz uma outra felicidade secundária, que consiste na operação das virtudes morais.

E, primeiro, propõe o que pretende, dizendo que, sendo felicíssimo aquele que se dedica à especulação da verdade, é feliz em segundo lugar aquele que vive segundo outra virtude, a saber, segundo a prudência, que dirige todas as virtudes morais. Pois, assim como a felicidade especulativa se atribui à sabedoria, que compreende em si os outros hábitos especulativos por ser a mais principal, assim também a felicidade ativa, que se dá segundo as operações das virtudes morais, se atribui à prudência, que é aperfeiçoadora de todas as virtudes morais, como se mostrou no livro sexto.

2112. Em segundo lugar, em pois é segundo ela etc., mostra o que se propôs com quatro razões.

A primeira delas é que as operações que se dão segundo as outras virtudes ativas são operações humanas. Pois dizem respeito às coisas humanas.

Primeiro, dizem respeito às coisas exteriores, que vêm ao uso do homem; pois as obras da justiça, da fortaleza e das outras virtudes que praticamos uns em relação aos outros existem nas trocas, na medida em que, segundo a justiça, os homens permutam mutuamente seus bens; existem também nas necessidades, na medida em que um homem socorre outro em sua necessidade; existem ainda em quaisquer ações e paixões humanas, em torno das quais, segundo as virtudes morais, se conserva aquilo que convém a cada um; ora, todas as coisas ditas parecem ser algo humano.

2113. Em segundo lugar, certas coisas pertencentes às virtudes parecem pertencer ao corpo e às paixões da alma, às quais a virtude moral se apropria segundo certa afinidade; pois muitas das virtudes morais dizem respeito às paixões, como fica patente pelo que foi dito antes. Assim, portanto, a virtude moral diz respeito aos bens humanos, enquanto diz respeito aos bens exteriores, aos bens do corpo e às paixões da alma.

2114. Ora, à virtude moral une-se a prudência, que é uma virtude intelectual, segundo certa afinidade, e vice-versa, porque os princípios da prudência se tomam segundo as virtudes morais, cujos fins são os princípios da prudência, enquanto a retidão das virtudes morais se toma segundo a prudência, que faz a reta escolha daquilo que é ordenado ao fim, como fica patente pelo que foi dito no livro sexto. Ora, elas, a saber, a virtude moral e a prudência, acoplam-se juntas às paixões, porque segundo ambas as paixões são modificadas; ora, as paixões são comuns a todo o composto de alma e corpo, visto que pertencem à parte sensitiva;

2115. donde fica patente que tanto a virtude moral quanto a prudência dizem respeito ao composto. Ora, as virtudes do composto, propriamente falando, são humanas, enquanto o homem é um composto de alma e corpo; donde também a vida que se dá segundo elas, isto é, segundo a prudência e a virtude moral, é humana, a qual se chama vida ativa, e, por conseguinte, a felicidade que consiste nesta vida é humana. Mas a vida e a felicidade especulativa, que é própria do intelecto, é separada e divina.

2116. E baste, por ora, dizer isto a seu respeito, pois explicar com mais certeza é algo maior do que o que aqui se propõe; disto, com efeito, trata-se no terceiro livro Sobre a alma, onde se mostra que o intelecto é separado. Assim, portanto, fica patente que a felicidade especulativa é mais poderosa do que a ativa, tanto quanto algo separado e divino é mais poderoso do que aquilo que é composto e humano.

2117. Apresenta a segunda razão em parecerá também etc. E diz que a vida e a felicidade especulativa parecem necessitar em pouco, ou ao menos menos do que a moral, de que se concedam ao homem os bens exteriores. Pois é verdade que a ambos, isto é, tanto ao especulativo quanto ao moral, é necessário ter as coisas necessárias à vida, como comida, bebida e outras coisas do gênero, embora o ativo se esforce mais em torno do corpo do que o especulativo, porque as ações exteriores se fazem por meio do corpo; contudo, quanto a isto não há grande diferença, de modo que ambos igualmente necessitam do necessário. Mas, quanto às operações de um e de outro, grande é a diferença a este respeito, porque o virtuoso necessita de muitas coisas para suas operações, como fica patente que ao liberal são necessárias riquezas para agir liberalmente, e semelhantemente o justo necessita de riquezas para restituir aquilo que deve.

2118. E, se alguém disser que o ato da liberalidade é também querer dar, e o ato da justiça, querer restituir, o que pode existir mesmo sem riquezas, deve-se considerar que as vontades dos homens não são manifestas sem as operações exteriores; pois muitos que não são justos simulam querer agir justamente. Mas, para que se torne manifesto acerca de alguém se é corajoso, é necessário algo exterior, se há de realizar alguma obra exterior de fortaleza. E, semelhantemente, o temperante necessita do poder de usar as coisas deleitáveis, para que se manifeste a temperança; de outro modo, com efeito, a não ser que exista a faculdade de operar, não poderá tornar-se manifesto nem este virtuoso, a saber, o temperante ou o corajoso, nem qualquer outro.

2119. E, por isso, pode-se perguntar o que é mais principal na virtude moral, se a escolha interior ou as ações exteriores, visto que ambas se exigem para a virtude. E, embora a escolha seja mais principal na virtude moral, como se disse acima, é contudo manifesto que, para a total perfeição da virtude moral, requer-se não só a escolha, mas também a operação exterior. Ora, para as ações exteriores é necessário que o homem tenha muitas coisas, e tantas mais quanto as ações devam ser maiores e melhores.

2120. Mas aquele que se dedica à especulação de nada disso necessita para sua operação; antes, pode-se dizer que os bens exteriores impedem o homem da especulação por causa da solicitude que deles se introduz no homem, distraindo o ânimo do homem de modo que não possa dedicar-se totalmente à especulação. Mas, se o homem especulativo necessita das coisas exteriores, isto será enquanto é um homem carente do necessário e enquanto convive com muitos homens, aos quais por vezes é preciso ajudar, e enquanto o homem contemplativo escolhe viver segundo a virtude moral; e assim necessitará de tais coisas para conviver humanamente. Assim, portanto, fica patente que a felicidade especulativa é mais poderosa do que a ativa, que se dá segundo a virtude moral.

2121. Apresenta a terceira razão em que a felicidade perfeita etc. E diz que o fato de a felicidade perfeita consistir numa certa operação especulativa fica evidente por isto: que aos deuses, isto é, às substâncias separadas, parece competir sobretudo que sejam felizes e bem-aventurados, e contudo não podemos atribuir-lhes as ações das virtudes morais. Pois, se alguém lhes atribuísse as operações da justiça, pareceriam dignos de escárnio, como se fizessem trocas ou até depositassem seus bens junto de outros, ou realizassem quaisquer outras obras da justiça. E, semelhantemente, não se lhes pode atribuir a fortaleza, isto é, que suportem coisas terríveis e perigos por causa do bem. Semelhantemente, também não lhes convém a liberalidade, enquanto é virtude humana;

2122. pois não haverá como designar a que mortal deem tais bens que os homens dão liberalmente, porque é inconveniente que alguém diga que eles se sirvam de dinheiro ou de algo do gênero para dar. E, se alguém lhes atribuir a temperança, tal louvor será antes oneroso a Deus do que grato; pois não é louvável em Deus que não tenha concupiscências más, porque não é de sua natureza tê-las. Assim, portanto, percorrendo todas as ações das virtudes morais, mostra-se que são pequenas e indignas dos deuses, isto é, das substâncias superiores.

2123. Contudo, todos opinam que eles vivem e, por conseguinte, que operam; pois não lhes convém que nada operem, como os que dormem, tal como se diz de certo filósofo que viveu muito tempo dormindo. Se, portanto, tirarmos da vida divina o agir das virtudes morais e da prudência, e, ainda muito mais, tirarmos da vida divina o fazer, que é próprio da arte, nenhuma outra operação resta a Deus além da especulação. E assim fica patente que a operação de Deus, que sobressai em bem-aventurança, é especulativa, e que por meio da especulação de sua sabedoria fez todas as coisas. Do que fica patente que, dentre as operações humanas, aquela que é mais semelhante à especulação divina é a mais feliz.

2124. Apresenta a quarta razão em é também sinal etc. E diz que o sinal de que a felicidade perfeita consiste na contemplação da sabedoria é que os animais irracionais, que carecem de felicidade, são de todo privados de tal operação, porque não têm o intelecto com que nós especulamos a verdade, mas de algum modo participam da operação das virtudes morais, como o leão do ato da fortaleza e da liberalidade, e a cegonha do ato de piedade para com os pais. E isto com razão:

2125. pois, para os deuses, isto é, para as substâncias separadas, por terem somente vida intelectual, toda a sua vida é bem-aventurada; já os homens são bem-aventurados na medida em que existe neles certa semelhança de tal operação, a saber, a especulativa; mas nenhum dos outros animais é feliz, porque em nada comunicam com a especulação. E assim fica patente que, quanto se estende a especulação, tanto se estende a felicidade, e àqueles a quem mais compete especular, mais compete ser felizes, não por acidente, mas segundo a especulação, que é por si mesma honrosa. Donde se segue que a felicidade seja, principalmente, uma certa especulação.