Skip to main content

Lição 8

Loving and Being Loved as Related to Friendship

Muitos, porém, por amor da honra, parecem querer ser amados mais do que amar. [1639]

Por isso, muitos são amantes da adulação; pois o adulador é amigo de posição inferior, ou se finge tal, e amar mais do que ser amado. [1640]

Ora, ser amado parece estar próximo daquilo que é ser honrado, o que, sem dúvida, muitos desejam. [1641]

Contudo, parecem desejar a honra não por si mesma, mas por acidente. Pois muitos se alegram por serem honrados pelos que estão em posições de poder, por causa da esperança: pois julgam alcançar deles aquilo de que necessitam; e assim se alegram com a honra como com um sinal de boa emoção. Ao passo que os que desejam a honra dos virtuosos e dos que sabem, desejam confirmar a própria opinião a respeito de si mesmos; alegram-se, sem dúvida, por serem bons, dando crédito ao juízo dos que o dizem. [1642]

Alegram-se, porém, com o ser amados por si mesmo. [1644]

Por isso, sem dúvida, parecerá ser melhor do que aquilo que é ser honrado, e a amizade ser eligível por si mesma. [1645]

Ora, parece consistir mais no amar do que no ser amado. E disto há um sinal: as mães se alegram com o que é amar; pois algumas dão seus filhos para serem criados e os amam, decerto, sabendo-os seus, mas não buscam ser reamadas, se ambas as coisas não puderem acontecer, mas parece-lhes suficiente se os virem agir bem; e elas próprias os amam, ainda que estes não possam retribuir à mãe o que convém, por ignorância. [1646]

Consistindo, porém, a amizade mais no amar, e sendo louvados os amantes dos amigos, a virtude dos amigos parece consistir no amar. Por isso, aqueles em quem isto se faz segundo a dignidade, esses são amigos permanentes, e permanente é a amizade de tais. E assim, sem dúvida, também os desiguais serão sobretudo amigos; pois se igualarão, e a igualdade e a semelhança são amizade. [1648]

E sobretudo, decerto, a semelhança daquelas coisas que são segundo a virtude; pois, sendo permanentes em si mesmos, permanecem também um em relação ao outro. E nem necessitam de coisas depravadas, nem prestam tais serviços, mas, por assim dizer, até os impedem; pois é próprio dos bons nem eles próprios pecarem, nem consentirem que os amigos os prestem. [1650]

Os maus, porém, não têm coisa alguma firme; pois nem a si mesmos permanecem semelhantes, sendo o que são. Pois por pouco tempo se tornam amigos, alegrando-se mutuamente com a malícia. [1651]

Os úteis, porém, e os deleitáveis permanecem por mais tempo, pois permanecem enquanto se oferecem mutuamente deleites ou utilidades. [1652]

Dos contrários, porém, sobretudo, decerto, parece formar-se a amizade por causa do útil, por exemplo, do pobre com o rico, do indisciplinado com o que sabe; pois, naquilo em que alguém é indigente, desejando isto, dá outra coisa em troca. [1653]

E a este tipo, sem dúvida, alguém poderia atribuir tanto o amante quanto o amado, como o belo e o feio. [1654]

Por isso, os amantes parecem por vezes ridículos, exigindo ser amados tanto quanto amam; ora, sendo igualmente amáveis, decerto se deve exigi-lo, mas, nada tendo de tal, é ridículo. [1655]

Mas talvez o contrário não deseje o contrário por si mesmo, mas por acidente. Ora, o apetite é do meio, pois isto é o bem; por exemplo, do seco, não que se torne úmido, mas que chegue ao meio; e do quente, e semelhantemente das demais coisas. Que estas coisas, portanto, sejam deixadas de lado, pois de fato são mais alheias. [1656]

1639. Muitos, porém, parecem etc. Depois que o Filósofo estabeleceu que a amizade das pessoas desiguais se preserva pelo fato de amar e ser amado proporcionalmente, aqui mostra de que modo o ser amado e o amar se comportam em relação à amizade.

E acerca disto faz duas coisas:

primeiro mostra que o amar é mais próprio da amizade do que o ser amado:

segundo mostra que a amizade se conserva pelo fato de amar segundo a dignidade, ou proporcionalmente, ali: consistindo, porém, mais a amizade etc.

Acerca do primeiro, faz três coisas:

primeiro mostra por que alguns querem mais ser amados do que amar;

segundo compara aquilo que é ser amado com aquilo que é ser honrado, ali: não por si mesmo, porém etc.;

terceiro mostra que o amar é mais próprio da amizade do que o ser amado, ali: parece, porém, consistir mais no amar etc.

Acerca do primeiro, faz três coisas.

Primeiro, propõe o que pretende. E diz que muitos parecem querer mais ser amados do que amar, e isso porque são amantes da honra. Pois pertence aos mais excelentes, aos quais é devida a honra, que sejam mais amados do que amem.

1640. Em segundo lugar, ali: por causa disso os amantes etc., prova o que havia dito por meio de um sinal. Pois disto, que muitos querem mais ser amados do que amem, procede que muitos são amantes da adulação, isto é, que se deleitam em que alguém os adule; pois o adulador ou na verdade é um amigo de condição inferior, porque adular é próprio dos menores, ou, adulando, alguém finge ser tal e amar mais do que é amado.

1641. Em terceiro lugar, ali: ser amado, porém etc., explica algo que havia dito, isto é, que por causa do amor da honra acontece que o homem queira mais ser amado do que amar. E diz que ser amado parece ser próximo daquilo que é ser honrado, o que é desejado por muitos. Pois a honra é um certo sinal da bondade daquele que é honrado; ora, cada coisa é amada porque é boa ou aparentemente boa.

1642. Em seguida, quando diz: não por si mesmo, porém etc., compara aquilo que é ser amado com aquilo que é ser honrado.

E a respeito disto faz três coisas.

Primeiro, mostra por que alguns querem ser honrados. E diz que os homens parecem desejar a honra não por causa da própria honra, mas por acidente. Pois de dois gêneros de homens os homens sobretudo procuram ser honrados.

1643. Pois muitos se alegram se são honrados pelos poderosos, não por causa da própria honra, mas por causa da esperança que daí concebem; pois julgam que daqueles pelos quais são honrados alcançarão algo de que necessitam, e assim se alegram com a honra como que com um sinal de boa paixão, isto é, da boa afeição dos que os honram para com eles. Outros, porém, há que apetecem ser honrados pelos epieiques, isto é, pelos virtuosos e sábios, porque por isso apetecem firmar a própria opinião acerca de sua bondade, e assim por si mesmos se alegram com o fato de serem bons, como que crendo nisso pelo juízo dos probos, os quais, por isso mesmo que os honram, parecem dizer que eles são bons.

1644. Em segundo lugar, ali: em ser amado, porém etc., diz que os homens se alegram com o fato de serem amados também segundo si mesmo, porque isto mesmo, que é ter amigos, parece ser o principal entre os bens exteriores.

1645. Em terceiro lugar, ali: por causa disso parecerá etc., conclui o proposto. Pois, porque aquilo que é por si é melhor do que aquilo que é por acidente, segue-se das premissas que ser amado é melhor do que ser honrado, na medida em que a amizade é por si mesma desejável.

1646. Em seguida, quando diz: parece, porém etc., mostra em que consiste mais a virtude da amizade, se em amar ou em ser amado. E diz que consiste mais em amar. Pois a amizade se diz ao modo de um certo hábito, como acima se mostrou; ora, os hábitos determinam-se para as operações; ora, amar é operar bem, ao passo que ser amado é antes como que padecer bem; por isso é mais próprio da amizade amar do que ser amado.

1647. E isto manifesta por meio de um certo sinal. Pois as mães, cuja amizade para com os filhos é veemente, deleitam-se mais em amar os filhos do que em ser amadas por eles; pois algumas mães dão seus filhos a outros para serem criados e, sabendo que eles são seus filhos, amam-nos; contudo, não procuram muito ser correspondidas por eles, se isso não pode acontecer, mas parece-lhes bastar se veem que eles agem bem e se encontram bem; e assim elas amam os filhos, ainda que estes não possam atribuir à mãe o amor conveniente por causa da ignorância, isto é, porque ignoram que elas são suas mães.

1648. Em seguida, quando diz: mais, porém etc., mostra como, pelo fato de amar segundo a dignidade ou proporcionalmente, a amizade se conserva.

E primeiro mostra como a amizade é permanente segundo isto, que é amar proporcionalmente;

em segundo lugar, compara quanto ao que foi dito as diversas espécies de amizade, ali: e sobretudo, na verdade, entre aqueles etc.

Diz, portanto, primeiro que, uma vez que a amizade consiste mais em amar do que em ser amado, os amigos são louvados pelo fato de amarem, não pelo fato de serem amados (pois este é o louvor dos que amam);

1649. e porque cada um é louvado segundo a própria virtude, é consequente que a virtude dos amigos seja considerada segundo isto, que é amar. E por isso, em todos aqueles em que acontece isto, que amem os amigos segundo a proporção da dignidade deles, tais permanecem amigos e a amizade deles é perseverante. Pois assim, enquanto se amam mutuamente segundo a sua dignidade, também aqueles que são de condição desigual poderão ser amigos, porque por isso serão igualados, enquanto aquele dentre eles que mais falha em bondade ou em qualquer excelência, tanto mais ama, e assim a abundância de amor compensa o defeito de condição, e desse modo, por uma certa igualdade e semelhança, que propriamente pertence à amizade, tornam-se e perseveram amigos.

1650. Em seguida, quando diz: e sobretudo, na verdade etc., compara as diversas espécies de amizade segundo o que foi dito.

E primeiro mostra qual amizade é sobretudo permanente. E diz que a semelhança, que é produtora e conservadora da amizade, parece existir sobretudo entre os virtuosos; pois estes tanto permanecem semelhantes em si mesmos, porque não mudam facilmente de uma coisa para outra, como permanecem também na amizade mútua. E isto porque um deles não necessita de que o outro faça por ele algo depravado, o que seria contra a virtude daquele que o faz, e nenhum deles serve ao outro em algo depravado; mas, se se pode dizer que entre os virtuosos haja algo depravado, antes um deles impede o outro de agir depravadamente; pois pertence aos bons que nem eles próprios pequem nem tolerem que seus amigos cometam pecados.

1651. Em segundo lugar, ali: os maus, porém etc., mostra qual amizade é minimamente permanente. E diz que os homens maus não têm nada de firme e estável em si mesmos; pois, porque a malícia à qual se aferram é por si mesma odiosa, é preciso que sua afeição varie por coisas diversas, enquanto nada encontram em que sua vontade possa repousar, e assim nem a si mesmos permanecem por muito tempo semelhantes, mas querem coisas contrárias àquelas que antes quiseram. E assim tornam-se amigos por pouco tempo, isto é, enquanto se alegram com a malícia na qual concordam.

1652. Em terceiro lugar, ali: os úteis, porém etc., mostra quais amizades a respeito disto se comportam de modo intermediário. E diz que os amigos úteis e deleitáveis um ao outro permanecem mais na amizade do que os maus; pois a utilidade e o deleite têm em si aquilo pelo qual são amados, e por isso tal amizade dura apenas enquanto mutuamente se proporcionam deleites ou utilidades. Ocorre de outro modo, porém, com aqueles que são amigos por causa da malícia, a qual por si mesma nada tem de amabilidade.

1653. Em seguida, quando diz: a partir dos contrários, porém etc., determina acerca da amizade dos contrários entre si.

E primeiro mostra em que espécie de amizade acontece isto, que pareça existir amizade entre contrários;

em segundo lugar mostra como o contrário apetece o seu contrário, ali: talvez, porém etc.

A respeito do primeiro faz três coisas.

Primeiro mostra que este tipo de contrariedade dos amigos parece existir sobretudo na amizade útil. E diz que a amizade que provém dos contrários, por exemplo, que o pobre ame o rico e o indouto ame o sábio, parece existir sobretudo por causa da utilidade, na medida em que um dos amigos, apetecendo do outro aquilo de que ele próprio necessita, dá-lhe em troca alguma outra coisa, assim como o pobre apetece obter riquezas do rico, pelas quais lhe dispensa serviço.

1654. Em segundo lugar, ali: isto, porém, certamente etc., mostra como isto também pode pertencer à amizade deleitável. E diz que a este modo de amizade também alguém pode reduzir o amor venéreo, pelo qual o amante ama o amado; pois ali há às vezes contrariedade, como entre o belo e o feio. Na amizade, porém, que se dá por causa da virtude, de modo algum tem lugar a contrariedade, porque em tal amizade há a máxima semelhança, como acima se disse.

1655. Em terceiro lugar, ali: por causa disso parecem etc., infere um certo corolário do que foi dito. E diz que, porque entre o amante e o amado há às vezes contrariedade, como entre o feio e o belo, daí vem que às vezes parecem dignos de escárnio os amantes que se reputam dignos de ser amados tanto quanto amam; o que é, na verdade, digno, se são igualmente amáveis, mas, se não têm nada de tal, pelo qual sejam dignos de ser tão amados, é ridículo se procuram isso.

1656. Em seguida, quando diz: talvez, porém etc., mostra como o contrário apetece o seu contrário. E diz que isto não se dá por si, mas por acidente. Pois por si é apetecido o meio, que é o bem para o sujeito que é afetado por um dos contrários em excesso; por exemplo, se o corpo de algum homem for muito seco, não lhe é bom e apetecível tornar-se úmido, por si falando, mas chegar ao meio, o que acontece pela superveniência do úmido; e a mesma razão vale acerca do quente e de outros contrários deste tipo. E porque estas coisas pertencem mais à consideração física, por isso diz aqui que devem ser omitidas.