Lição 19
Temperance
Depois disto, falemos da temperança. Com efeito, estas parecem ser virtudes das partes irracionais. [595]
Que a temperança seja, portanto, um meio-termo a respeito dos prazeres, já foi dito por nós; pois ela é menos, e não do mesmo modo, a respeito das tristezas; e nestas também parece haver a intemperança. [598]
Determinemos, portanto, agora a respeito de que tipo de prazeres ela se ocupa. [599]
Distingam-se, porém, os prazeres animais e os corporais, por exemplo, o amor da honra e o amor do saber; pois cada um destes se alegra com aquilo de que é amante, sem que o corpo padeça nada, mas antes com a mente. [600]
Ora, aqueles que se ocupam com tais prazeres não são ditos nem temperados nem intemperados. [601]
Igualmente, tampouco os que se ocupam com quaisquer outros prazeres que não sejam corporais. Pois os amantes de fábulas e os narradores, e os que passam os dias tagarelando sobre coisas contingentes, chamamo-los faladores, mas não os chamamos intemperados. [602]
Nem os que se entristecem por causa do dinheiro ou dos amigos. A respeito dos prazeres corporais, porém, é que estará certamente a temperança. [603]
Não a respeito de todos, contudo, nem destes. Pois aqueles que se alegram com as coisas que se percebem pela vista, por exemplo, com as cores, as figuras e a pintura, não são ditos nem temperados nem intemperados, embora pareça certamente ser possível alegrar-se também com estas tanto como se deve quanto segundo a superabundância e o defeito. [604]
Igualmente também naquelas coisas que dizem respeito à audição. Pois ninguém chama intemperados aos que se alegram superabundantemente com as melodias e a representação, nem temperados aos que o fazem como se deve. [607]
Nem aos que se ocupam com o olfato, a não ser por acidente. Pois aos que se alegram com os odores das maçãs, ou das rosas, ou dos incensos, não os chamamos intemperados, mas antes àqueles que se alegram com os odores dos unguentos ou dos condimentos; pois os intemperados se alegram com estes, porque por meio destes se faz neles a rememoração das coisas concupiscíveis. E poderá certamente alguém ver também outros que, quando têm fome, se alegram com os odores dos alimentos; alegrar-se, porém, com tais coisas é próprio dos intemperados, pois para este são concupiscíveis estas coisas. [608]
Ora, tampouco nos outros animais há deleite segundo estes sentidos, a não ser por acidente. Pois nem os cães se alegram com os odores das lebres, mas com a alimentação, da qual o odor produziu a percepção. Nem o leão se alegra com a voz do boi, mas com o alimento; mas, porque está próximo, percebeu-o pela voz, e parece certamente alegrar-se com esta. Igualmente, tampouco vendo ou encontrando o cervo ou a cabra selvagem, mas porque terá alimento. [610]
A respeito, portanto, de tais operações ou prazeres é que estão a temperança e a intemperança, os quais os demais animais também partilham. Donde parecem servis e bestiais. E estes são os do tato e do gosto. [612]
595. Depois disto, falemos da temperança etc. Depois que o Filósofo tratou da fortaleza, que diz respeito às coisas terríveis que são corruptivas da vida humana, aqui trata da temperança, que diz respeito às coisas deleitáveis pelas quais a vida humana se conserva, a saber, os alimentos e as coisas venéreas.
E a respeito disto faz duas coisas:
primeiro diz qual é a intenção;
segundo executa a tese, ali: que a temperança seja, portanto etc.
Diz, portanto, primeiro que, depois destas coisas que foram ditas acerca da fortaleza, deve-se falar da temperança. E atribui a razão da continuação a partir do fato de que estas duas virtudes convêm no sujeito; pois ambas são das partes irracionais, enquanto, a saber, se diz irracional aquela parte da alma que é feita por natureza tanto para contrariar quanto para obedecer à razão, como se estabeleceu acima, no livro I. Ora, deste modo é o apetite sensitivo, ao qual pertencem as paixões da alma,
596. donde é preciso que no apetite sensitivo estejam todas as virtudes que se ocupam com as paixões; ora, a fortaleza se ocupa com a paixão do temor e da audácia, que estão no irascível, e a temperança, com os prazeres e as tristezas, que estão no concupiscível; donde a fortaleza está no irascível, mas a temperança no concupiscível.
597. Deve-se, contudo, considerar que os prazeres a respeito dos quais se ocupa a temperança são comuns a nós e aos brutos, a saber, os prazeres dos alimentos e das coisas venéreas; e igualmente os temores a respeito dos quais se ocupa a fortaleza são comuns a nós e aos brutos, a saber, os temores da morte; e por isso disse especialmente que estas duas virtudes são das partes irracionais, porque pertencem às partes irracionais da alma não só por causa das próprias paixões, mas também por causa dos objetos das paixões; pois há certas paixões com cujos objetos os animais brutos não se ocupam, como as riquezas, as honras e outras coisas deste gênero.
598. Depois, quando diz: que a temperança seja, portanto etc., começa a determinar a respeito da temperança.
E primeiro investiga qual é a matéria da temperança;
segundo determina o ato dela própria e dos vícios opostos, ali: ora, dos desejos etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro propõe em geral a matéria da temperança;
segundo investiga a matéria especial, ali: a respeito de que tipo, portanto etc.
A respeito do primeiro, retoma três coisas que foram ditas acima, no livro II,
das quais a primeira é que a temperança mantém o meio-termo a respeito dos prazeres;
a segunda é que ela também se ocupa com as tristezas, as quais, a saber, provêm da ausência das coisas deleitáveis, donde a temperança se ocupa menos com as tristezas do que com os prazeres, porque algo age mais eficazmente pela sua presença do que pela sua ausência;
a terceira, porém, é que a intemperança se ocupa igualmente com os prazeres e com as tristezas, pelo fato de que os contrários se dão a respeito do mesmo.
599. Depois, quando diz: a respeito de que tipo, portanto etc., investiga a matéria especial da temperança.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, diz de que trata sua intenção;
segundo, distingue os prazeres, ali: determinem-se, porém etc.;
terceiro, mostra a respeito de quais prazeres versa a temperança, ali: ora, os que a respeito de tais etc.
Diz, portanto, primeiro que, uma vez que a temperança versa sobre os prazeres, é preciso agora determinar a respeito de quais prazeres ela versa, para que também em particular se conheça a noção da temperança.
600. Em seguida, quando diz: determinem-se, porém etc., distingue os prazeres. E diz que alguns deles são anímicos, outros corporais; os prazeres corporais são os que se consumam em certa paixão corporal do sentido exterior; já os prazeres anímicos são os que se consumam a partir da só apreensão interior. E dá exemplo dos prazeres anímicos, começando pela causa do prazer que é o amor, pois cada um se deleita pelo fato de possuir aquilo que ama; ora, encontra-se em alguns o amor da honra e em alguns o amor da disciplina, os quais não se apreendem pelo sentido exterior, mas pela apreensão interior da alma, donde cada um destes, isto é, tanto aquele que é amante da honra quanto aquele que é amante da disciplina, se alegra por aquilo que ama, enquanto o possui, e essa alegria não se dá por alguma paixão do corpo, mas pela só apreensão da mente.
601. Em seguida, quando diz: ora, os que a respeito de tais etc., mostra que a temperança não versa sobre os prazeres anímicos.
E designa três gêneros destes prazeres.
Pois alguns são anímicamente deleitáveis e têm certa aparência de honestidade, como a honra e a disciplina, conforme se disse antes. E por isso diz que a respeito de tais prazeres não se dizem alguns nem temperantes nem intemperantes, porque a temperança e a intemperança parecem referir-se a alguns prazeres que têm torpeza. Há, contudo, também a respeito dos prazeres das honras e da disciplina certos outros meios e extremos pertencentes a outras virtudes, como ficará patente no livro IV.
602. Em segundo lugar, ali: semelhantemente, porém etc., expõe alguns outros prazeres anímicos que consistem em ditos ou feitos dos homens. E diz que, assim como a temperança não versa sobre os prazeres da honra e da disciplina, assim também não versa sobre os outros prazeres que não são corporais. Pois àqueles que amam ouvir fábulas e narrar e gastam ou consomem o dia inteiro em quaisquer coisas contingentes, isto é, em ditos ou feitos não necessários nem úteis, dizemos serem tagarelas, mas não os dizemos intemperantes, porque a intemperança tem não só vaidade, mas também certa torpeza.
603. Em terceiro lugar, ali: nem os que se entristecem pelas riquezas etc., expõe o terceiro gênero de prazeres anímicos, os quais são a respeito das coisas exteriores, como são as riquezas e os amigos. Donde diz que aqueles que desordenadamente se entristecem na subtração das riquezas e dos amigos não se dizem intemperantes, mas podem dizer-se viciosos segundo algo diverso, porque tais tristezas não têm torpeza, mas só a desordenação do apetite. E disto conclui que, uma vez que a temperança não versa sobre nenhum gênero de prazeres anímicos, ela versa sobre os prazeres corporais.
604. Em seguida, quando diz: não todos, porém etc., mostra que a temperança não versa sobre todos os prazeres corporais, mas sobre alguns.
E primeiro mostra que a temperança não versa sobre os prazeres dos três sentidos que sentem por um meio exterior;
segundo, mostra de que modo versa sobre os prazeres dos dois sentidos que sentem por um meio conjunto, ali: parecem, na verdade, também pelo gosto etc.
A respeito do primeiro faz três coisas:
primeiro, mostra que a temperança não versa sobre os prazeres dos três sentidos supraditos;
segundo, mostra que tais prazeres não convêm aos animais brutos, ali: não há, porém, nem nos outros etc.;
terceiro, infere certa conclusão do que foi dito, ali: a respeito de tais, portanto etc.
A respeito do primeiro faz três coisas.
Primeiro, manifesta que a temperança não versa sobre os prazeres da visão.
605. E diz que a temperança não versa sobre todos os prazeres corporais que se dão pelos sentidos exteriores, pois aqueles que se deleitam nas coisas visíveis não se dizem por isso temperantes nem intemperantes.
E dá exemplo de três gêneros de visíveis, dos quais alguns são sensíveis próprios da visão, como as cores; alguns, porém, são sensíveis comuns, que contudo se conhecem sobretudo pela visão, como as figuras; alguns, ainda, são sensíveis por acidente, como a escritura, em razão daquilo que pela escritura é significado.
606. Nem isto se diz de modo que nestas coisas não possa haver virtude e vício, pois acontece que em tais coisas alguém se deleite como é preciso, isto é, de modo mediano, e segundo a superabundância e o defeito, os quais pertencem à curiosidade, não porém à intemperança, que versa sobre os prazeres mais veementes.
607. Em segundo lugar, ali: semelhantemente, porém etc., mostra que a temperança não versa sobre os prazeres próprios da audição. E diz que de modo semelhante se comporta também nos prazeres que dizem respeito à audição, isto é, que a respeito deles não há temperança nem intemperança. Pois se alguém se alegra nas melodias, isto é, nas consonâncias das vozes humanas, e na hipócrise, isto é, na imitação da voz humana que se faz por instrumentos musicais, seja superabundantemente, seja conforme é preciso, não se dirá por isso temperante ou intemperante, porque nem estes são prazeres muito veementes. Pode, porém, isto pertencer a outra virtude ou vício.
608. Em terceiro lugar, ali: nem os etc., mostra que a temperança não versa sobre os prazeres do olfato. A respeito do que se deve considerar que, como se diz no livro Do sentido e do sensível, as espécies dos odores se distinguem de dois modos,
de um modo, segundo si;
de outro modo, por comparação às espécies dos sabores.
Diz, portanto, que nem aqueles se dizem temperantes ou intemperantes que se deleitam nos odores considerados em si mesmos, conforme é preciso ou mais do que é preciso, mas somente se se deleitam por acidente, isto é, conforme os odores coincidem com os deleitáveis do gosto e do tato.
609. Pois àqueles que se alegram com os odores de maçãs, ou de rosas, ou de incensos, que são espécies de odores segundo si, não os dizemos intemperantes, mas àqueles que se deleitam nos odores dos manjares ou dos ungüentos com que as mulheres se ungem, pois nestes se deleitam os intemperantes por causa da memória de certas outras coisas que cobiçam. E isto se manifesta pelo exemplo daqueles que têm fome, que se alegram com os odores dos alimentos, nos quais não se deleitam quando estão saciados, e assim fica patente que não se deleitam nos odores segundo si, mas por acidente. Pois alegrar-se assim com os odores pertence ao intemperante, para quem são cobiçáveis aquelas coisas que pelos odores são representadas.
610. Em seguida, quando diz: não há, porém, nem nos outros etc., mostra que os prazeres dos sentidos supraditos não convêm aos outros animais por si, mas somente por acidente. E diz que nos outros animais não se dá prazer segundo os três sentidos supraditos senão por acidente, isto é, em ordem ao gosto e ao tato.
E isto se manifesta primeiro no sentido do olfato, porque os cães não se deleitam no odor das lebres por causa do próprio odor, mas por causa do alimento que esperam, cuja percepção recebem pelo odor.
Em segundo lugar, mostra o mesmo no sentido da audição. E diz que o leão não se deleita na voz do boi, mas em sua comida, do qual conhece a aproximação pela voz, donde parece alegrar-se com a voz do boi, mas isto é por acidente.
Em terceiro lugar, manifesta o mesmo na visão. E diz que também o leão não se deleita no aspecto do cervo ou do cabrito, que chama de cabra silvestre, quando encontra algo deste gênero, mas se deleita na esperança de ter alimento.
611. Ora, a razão destas coisas é que o apetite dos outros animais é movido só pelo instinto da natureza, e por isso não se deleitam senão naquelas coisas que pertencem à sustentação da natureza, em razão da qual tais sentidos são dados aos animais; mas aos homens são dados em razão do conhecimento dos sensíveis, a partir dos quais se procede ao conhecimento da razão, que move o apetite do homem, e daí é que o homem se deleita na própria conveniência dos sensíveis considerados segundo si, ainda que não se ordenem à sustentação da natureza.
612. Em seguida, quando diz: a respeito de tais operações, portanto etc., conclui do premisso que a temperança versa sobre tais operações ou prazeres nos quais os demais animais também comungam com o homem, e semelhantemente a intemperança. Donde tais prazeres parecem ser servis e bestiais, porque aquilo em que comungamos com as bestas é em nós servil e naturalmente sujeito à razão. Ora, tais são os prazeres do tato e do gosto, que são os dois sentidos além dos três supraditos.