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Lição 4

The Acts or Effects of Friendship

Ora, os atos de amizade que se dirigem aos amigos e pelos quais as amizades se determinam parecem ter vindo daqueles que se dirigem a si mesmo. [1797]

Pois definem o amigo como aquele que quer e faz os bens, ou os aparentes, por causa dele. [1798]

Ou como aquele que quer que o amigo exista e viva por causa dele mesmo. É o que as mães sentem em relação aos filhos, e os amigos que se ofenderam entre si. [1799]

Outros, porém, como aquele que convive e escolhe as mesmas coisas, ou que se compadece e se congratula com o amigo. E isto também acontece sobretudo com as mães. Ora, por algum desses caracteres determinam também a amizade. [1800]

Ora, em relação a si mesmo, cada um desses caracteres existe no homem probo, mas nos demais na medida em que se consideram tais. [1802]

Pois parece, como se disse, que a virtude e o homem estudioso são medida para cada um. [1803]

Pois este consente consigo mesmo e deseja as mesmas coisas segundo toda a alma, e quer para si mesmo os bens e os aparentes. E os realiza: pois é próprio do bom trabalhar pelo bem. E por causa de si mesmo: pois por causa da parte intelectiva, que cada um parece ser. [1804]

E também quer viver e conservar-se a si mesmo, e sobretudo naquilo pelo qual é sábio. Pois o ser é um bem para o estudioso, e cada um quer para si mesmo os bens. Ora, feito outro, ninguém escolheria ter todas as coisas àquele que foi feito. Pois Deus mesmo agora possui o bem, mas sendo aquilo que em algum tempo é. Ora, parecerá que cada um é sobretudo o que é intelectivo. [1806]

Mas também tal homem quer conviver consigo mesmo. Pois o faz deleitavelmente: com efeito, as memórias das coisas realizadas são deleitáveis, e as esperanças das coisas futuras são boas, e tais coisas são deleitáveis; e abunda em objetos de contemplação na mente. [1808]

E compadece-se e deleita-se sobretudo consigo mesmo; pois para ele tudo é o mesmo, triste e deleitável, e não uma coisa para uma parte e outra para outra, pois é, por assim dizer, sem arrependimento. Assim, cada um desses caracteres existe no homem probo em relação a si mesmo. [1809]

Ora, em relação ao amigo comporta-se como em relação a si mesmo; pois o amigo é outro ele mesmo. E a amizade parece ser algo desses caracteres, e amigos são aqueles em quem eles existem. [1811]

Quanto a se há ou não amizade em relação a si mesmo, deixe-se de lado por ora. Ora, parecerá que há amizade na medida em que existem dois ou mais dos caracteres mencionados, e porque a superabundância da amizade se assemelha àquela que se tem em relação a si mesmo. [1812]

Ora, parece que os caracteres mencionados existem também em muitos, ainda que sejam depravados. Portanto, na medida em que se comprazem consigo mesmos e se consideram probos, assim participam deles. Pois, dos muito depravados e nefários, em nenhum tais caracteres existem, mas nem sequer parecem existir, e quase nem nos depravados. [1813]

Diferem, porém, de si mesmos, e algumas coisas desejam, mas outras querem, como os incontinentes: pois escolhem, em lugar daquelas que lhes parecem ser boas, as coisas deleitáveis que são nocivas; estes, por sua vez, por timidez e preguiça, se afastam de fazer aquilo que julgam ser-lhes ótimo. [1814]

Ora, aqueles que praticaram muitas e duras coisas e por causa da malícia são odiados, fogem de viver e matam-se a si mesmos. [1815]

E os maus buscam com quem conviver, mas fogem de si mesmos. Pois recordam-se de muitas e difíceis coisas, e outras tais esperam, estando sozinhos consigo mesmos, mas estando com outros esquecem-se. E, nada tendo de amável, nada de amistoso experimentam em relação a si mesmos. [1816]

Tais homens nem se alegram nem se compadecem consigo mesmos. Pois a alma deles está em conflito, e uma parte, por causa da malícia, sofre ao afastar-se de certas coisas, mas outra se deleita, e uma puxa para cá, outra para lá, como que dilacerando-os. [1817]

E, se não é possível entristecer-se e deleitar-se ao mesmo tempo, contudo, pouco depois, entristece-se por ter-se deleitado e não quereria que essas coisas deleitáveis lhe tivessem acontecido; pois os depravados enchem-se de arrependimento. Portanto, não parece que o depravado esteja disposto amistosamente nem sequer em relação a si mesmo, porque nada tem de amável. [1818]

Se, pois, estar em tal estado é muito miserável, deve-se fugir intensamente da malícia e esforçar-se por ser probo. Pois assim tanto estará disposto amistosamente em relação a si mesmo quanto se tornará amigo de outro. [1819]

1797. Ora, os atos de amizade etc. Depois que o Filósofo determinou acerca da conservação e da dissolução da amizade, aqui trata de seus efeitos.

E, primeiro, mostra quais são os efeitos da amizade;

segundo, determina acerca deles, em: ora, a benevolência etc.

A respeito do primeiro, faz três coisas:

primeiro, expõe quais são os efeitos da amizade;

segundo, mostra como em relação a eles se comportam os bons, em: ora, em relação a si mesmo etc.;

terceiro, como em relação às coisas referidas se comportam os maus, em: ora, parece que os caracteres mencionados etc.

A respeito do primeiro, faz duas coisas:

primeiro, apresenta a origem dos efeitos ou atos da amizade;

segundo, enumera tais efeitos ou atos, ali: pois definem o amigo etc.

Diz, portanto, primeiro que os atos amigáveis, isto é, as obras da amizade, das quais alguém se serve para com os amigos e segundo as quais se determina a amizade, parecem ter procedido daquilo que o homem tem para consigo mesmo; assim, com efeito, parece que um homem é amigo de outro, se faz para com o amigo as mesmas coisas que faria para consigo mesmo.

1798. Em seguida, quando diz: pois definem o amigo etc., enumera as obras da amizade. E apresenta três,

das quais a primeira consiste na exibição voluntária de benefícios. E diz que os homens consideram amigo aquele que quer e opera para o amigo o bem ou o que aparece como bem em consideração ao próprio amigo. Diz, porém: (querendo e operando), porque um sem o outro não basta para a amizade; pois não parece ser amigável a beneficência se um beneficia o outro de má vontade ou se negligencia cumprir com a obra a vontade. Diz, porém: (o bem ou o que aparece como bem), porque às vezes alguém, por amizade, oferece a outro aquilo que estima ser-lhe um bem, ainda que não o seja. Diz, porém: (em consideração a ele), porque, se o homem exibisse voluntariamente a alguém benefícios não como que intencionando o bem daquele, mas o de si mesmo, não pareceria ser verdadeiramente amigo daquele, mas de si mesmo, assim como quando alguém nutre um cavalo por causa da própria comodidade.

1799. A segunda pertence à benevolência. Que apresenta ali: ou querendo que exista etc. E diz que o amigo quer que seu amigo exista e viva em consideração ao próprio amigo e não por causa de si mesmo, isto é, que dele busque somente a própria comodidade. E isto as mães sentem para com os filhos, a saber, que querem que existam e vivam, e igualmente os amigos quando ocorre alguma ofensa à amizade: pois, ainda que não queiram, por causa da ofensa, conviver amigavelmente com os amigos, ao menos querem que existam e vivam.

1800. A terceira pertence à concórdia. Que apresenta ali: e estes etc. A qual pode, com efeito, ser considerada quanto a três coisas:

primeiro, quanto ao convívio exterior;

segundo, quanto à escolha;

terceiro, quanto às emoções, a todas as quais segue-se a alegria e a tristeza.

Por isso diz que alguns determinam ser amigo aquele que convive, quanto ao primeiro, e que escolhe as mesmas coisas, quanto ao segundo, e que se condói e se congratula, quanto ao terceiro. E isto também se observa nas mães em relação aos filhos.

1801. Acrescenta, porém, como que a modo de epílogo, que por algum dos ditos se determina a amizade; pois os homens julgam haver amizade entre aqueles em quem se encontra algum destes traços.

1802. Em seguida, quando diz: para consigo mesmo, porém etc., mostra como o bom se comporta a respeito destas coisas.

E primeiro mostra como o bom se comporta a respeito destas coisas para consigo mesmo;

segundo, como se comporta para com outro, ali: para com o amigo, porém etc.;

terceiro, levanta uma certa questão, ali: para consigo mesmo, porém etc.

Quanto ao primeiro, faz três coisas:

primeiro, propõe o que pretende;

segundo, atribui a razão de algo que dissera, ali: pois parece etc.;

terceiro, manifesta a proposição principal, ali: pois este etc.

Diz, portanto, primeiro que cada um dos traços sobreditos convém ao homem virtuoso a respeito de si mesmo, ao passo que aos outros, que não são virtuosos, os traços sobreditos convêm a respeito de si mesmos na medida em que se julgam ser virtuosos.

1803. Em seguida, quando diz: pois parece etc., atribui a razão daquilo que foi dito em segundo lugar. Pois cada um sente os atos amigáveis para consigo mesmo segundo julga-se virtuoso, porque a virtude e o virtuoso parecem ser medida para cada homem; pois em cada gênero tem-se por medida aquilo que é perfeito naquele gênero, na medida, a saber, em que todas as outras coisas são julgadas maiores ou menores segundo a proximidade ou o afastamento em relação ao mais perfeito; por isso, sendo a virtude a própria perfeição do homem e sendo o homem virtuoso perfeito na espécie humana, segue-se que a partir disto se tome a medida em todo o gênero humano.

1804. Em seguida, quando diz: pois este etc., manifesta a proposição principal.

E primeiro mostra que ao virtuoso convém a respeito de si mesmo aquilo que pertence à beneficência;

segundo, aquilo que pertence à benevolência, ali: e quer também viver etc.;

terceiro, aquilo que pertence à concórdia, mas também conviver etc.

Diz, portanto, primeiro que o virtuoso quer sumamente para si mesmo os bens verdadeiros e aparentes (pois nele são os mesmos os bens verdadeiros e os aparentes); pois quer para si os bens da virtude, que são os verdadeiros bens do homem. E tal vontade nele não é vã, mas ele também opera tais bens para consigo mesmo, porque é próprio do homem bom trabalhar para realizar o bem;

1805. pois foi dito no livro segundo que a virtude torna bom aquele que a possui e também torna boa a sua obra. E isto ele quer e opera em consideração a si mesmo, isto é, em consideração à parte intelectiva, que é a principal no homem; ora, cada coisa parece ser sumamente aquilo que é principal nela, e o virtuoso sempre tende a isto, a operar aquilo que é conveniente à razão, e assim é evidente que sempre quer para si o bem segundo si mesmo.

1806. Em seguida, quando diz: e quer também viver etc., mostra como ao virtuoso convém a respeito de si mesmo aquilo que pertence à benevolência. E diz que o virtuoso quer sumamente viver ele mesmo e conservar-se no ser e, principalmente, quanto àquela parte da alma na qual reside a sabedoria. Pois, se o homem é virtuoso, é preciso que queira aquilo que lhe é bom, porque cada um quer para si mesmo os bens; ora, é um bem para o virtuoso o seu ser, isto é, que seja virtuoso.

1807. Se, porém, sucedesse que algum homem se tornasse outro, por exemplo, se, segundo as fábulas, o homem se transformasse em pedra ou em asno, ninguém se importaria se aquilo em que se transformasse tivesse todos os bens, e por isso cada um quer existir na medida em que se conserva aquilo que ele mesmo é. Ora, aquilo que sumamente se conserva idêntico em seu ser é Deus, que, na verdade, não quer para si algum bem que agora não tenha, mas agora tem em si o bem perfeito e ele sempre é aquilo que em algum momento é, porque é imutável. Ora, a Deus somos sumamente semelhantes segundo o intelecto, que é incorruptível e imutável, e por isso o ser de cada homem considera-se sumamente segundo o intelecto. Por isso o virtuoso, que vive todo segundo o intelecto e a razão, quer sumamente existir e viver ele mesmo; pois quer existir e viver segundo aquilo que nele permanece. Quem, porém, quer existir e viver principalmente segundo o corpo, que está sujeito à transformação, não quer verdadeiramente existir e viver.

1808. Em seguida, quando diz: mas também conviver etc., mostra como ao virtuoso compete a respeito de si mesmo aquilo que pertence à concórdia.

E primeiro quanto ao convívio. E diz que o virtuoso quer sumamente conviver consigo mesmo, isto é, voltando ao seu coração e meditando consigo.

Pois isto ele faz deleitosamente:

de um modo, quanto à memória das coisas passadas, porque a memória dos bens que operou lhe é deleitosa;

segundo, quanto à esperança das coisas futuras, pois tem a esperança de bem operar no futuro, a qual lhe é deleitosa;

terceiro, quanto ao conhecimento das coisas presentes, pois abunda segundo a mente em teoremas, isto é, em considerações verdadeiras e úteis.

1809. Segundo, ali: e condói-se etc., mostra que o virtuoso tem concórdia para consigo mesmo segundo as emoções. E diz que ele sumamente se condói e se compraz consigo mesmo, porque para todo o seu ser, isto é, quanto à parte sensitiva e à intelectiva, é o mesmo o que é triste e o que é deleitoso, e não uma coisa para uma parte e outra para a outra, porque, a saber, a parte sensitiva nele está de tal modo sujeita à razão que segue o movimento da razão ou ao menos não resiste veementemente: pois não é conduzido pelas emoções da parte sensitiva de modo que depois, cessada a emoção, se arrependa daquilo que já fez contra a razão, mas, porque sempre age segundo a razão, não se arrepende facilmente, e assim consente sumamente consigo mesmo.

1810. Por fim, a modo de epílogo, conclui que as coisas sobreditas convêm ao virtuoso a respeito de si mesmo.

1811. Em seguida, quando diz: para com o amigo, porém etc., mostra como as coisas sobreditas convêm ao virtuoso a respeito do amigo. E diz que o virtuoso se comporta para com o amigo como para consigo mesmo, porque o amigo, segundo o afeto do amigo, é como que um outro ele mesmo, porque, a saber, o homem se afeiçoa ao amigo como a si mesmo. Parece, portanto, que a amizade consiste em algum dos traços sobreditos que os homens sentem para consigo mesmos e que são verdadeiramente amigos aqueles em quem os traços sobreditos existem.

1812. Em seguida, quando diz: para consigo mesmo, porém etc., levanta uma certa dúvida, a saber, se há amizade do homem para consigo mesmo. E diz que essa questão deve ser deixada de lado no presente, porque pertence mais ao nome do que à verdade da coisa. Pois a amizade parece existir entre quaisquer pessoas segundo lhes convenham dois ou três dos traços sobreditos, e, quando para com alguns temos amizade de modo superabundante, esta se assemelha à dileção que o homem tem para consigo mesmo; por isso, quando alguém quer recomendar sua amizade para com outro, costuma dizer: "Eu o amo como a mim mesmo". Por isso não importa, quanto à verdade da coisa, se o nome de amizade é dito a respeito de si mesmo, uma vez que a própria realidade da amizade convém de modo superabundante ao homem para consigo mesmo.

1813. Em seguida, quando diz: parecem, porém etc., mostra como os maus se comportam a respeito das sobreditas obras da amizade.

E primeiro mostra que estas não podem convir aos maus;

segundo, infere um certo corolário do que foi dito, ali: se, pois etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, propõe o que pretende;

segundo, manifesta a proposição, ali: diferem, porém etc.

Diz, portanto, primeiro que as sobreditas obras da amizade parecem convir a muitos a respeito de si mesmos, ainda que sejam depravados. Contudo, deve-se considerar que participam das sobreditas obras da amizade para consigo mesmos na medida em que se comprazem em si mesmos e se julgam ser virtuosos. Mas a nenhum daqueles que são muito depravados e nefandos convêm as coisas sobreditas nem parecem conviver, e a quase nenhum dos depravados parecem convir as coisas sobreditas. Pois raramente se encontram homens depravados que se julguem virtuosos, não conhecendo a própria malícia.

1814. Em seguida, quando diz: diferem, porém etc., manifesta a proposição.

E primeiro mostra que aos depravados não convém a respeito de si mesmos a obra da amizade que pertence à beneficência;

segundo, que tampouco aquilo que pertence à benevolência, ali: àqueles, porém, em quem há muitas etc.;

em terceiro lugar, que também não lhes convém aquilo que pertence à concórdia, ali: e os maus buscam etc.

Diz, portanto, primeiro que os maus estão em desacordo consigo mesmos, na medida em que desejam certas coisas segundo a parte sensitiva e querem outras segundo a razão, como se evidencia nos incontinentes, os quais, em lugar daquelas que segundo a razão julgam ser boas para si, apetecem os deleites que lhes são nocivos; outros, porém, por timidez e preguiça, deixam de fazer aquilo que segundo a razão julgam ser bom para si. E assim, de dois modos, carecem de beneficência para consigo mesmos:

de um modo, na medida em que fazem para si o que é nocivo;

de outro modo, na medida em que evitam para si o que é proveitoso.

1815. Em seguida, quando diz: mas aqueles a quem etc., mostra que a eles não convém, para consigo mesmos, a obra que compete à benevolência. E diz que aqueles por quem foram cometidos muitos e graves males, de tal modo que por si mesmos são odiados pelos homens, não querem existir nem viver; antes, sua vida lhes é enfadonha, conhecendo-se pesados a todos, e assim de tal modo fogem de viver que às vezes se matam a si mesmos.

1816. Em seguida, quando diz: e os maus buscam etc., mostra que aos maus não convém a obra que pertence à concórdia.

E primeiro quanto ao convívio. Pois os maus não podem conviver consigo mesmos voltando-se ao seu coração, mas buscam outros com quem permanecer, conversando e cooperando com eles segundo palavras e ações exteriores. E isto porque, logo que pensam consigo mesmos a respeito de si, recordam-se de muitos e graves males que no passado cometeram e presumem que farão semelhantes no futuro, o que lhes é doloroso; mas, quando estão com outros homens, dispersando-se para as coisas exteriores, esquecem-se de seus males. E assim, como nada têm em si mesmos que seja digno de ser amado, nada de amigável experimentam para consigo mesmos.

1817. Em segundo lugar, ali: nem se alegram etc., manifesta que não têm consigo concórdia quanto às paixões. E diz que tais pessoas nem se regozijam nem se condoem consigo mesmas. Pois a alma deles está em certa contenda contra si mesma, na medida em que a parte sensitiva se opõe à razão, e de um lado se entristece se se afasta dos deleites, por causa da malícia que nele domina, a qual causa tristeza semelhante na parte sensitiva, mas de outro lado se deleita segundo a razão, que julga que os males devem ser evitados, e assim uma parte da alma arrasta o homem mau para um lado, enquanto a outra parte o arrasta para o lado contrário, como se a sua alma fosse despedaçada em diversas partes e discordasse contra si mesma.

1818. Em terceiro lugar, ali: mas se não é possível etc., remove certa dúvida. Pois poderia alguém dizer que não é possível que o homem depravado ao mesmo tempo se entristeça e se deleite a respeito da mesma coisa, e isto é verdade quanto à sensação de ambos, embora a causa de ambos possa estar presente ao mesmo tempo segundo diversas partes da alma. Diz, portanto, que, se não é possível que o homem depravado ao mesmo tempo se entristeça e se deleite perfeitamente, contudo, pouco depois do deleite, entristece-se pelo próprio fato de se ter deleitado e quereria não ter recebido tais deleites; pois os homens depravados enchem-se de arrependimento, porque, cessando o ímpeto da malícia ou da paixão pelo qual fazem os males, segundo a razão conhecem que agiram mal e se entristecem. E assim se evidencia que os depravados não se dispõem amigavelmente para consigo mesmos, pelo fato de não terem em si mesmos algo digno de amizade.

1819. Em seguida, quando diz: se, pois, estar assim etc., conclui do que precede que, se é muito miserável estar assim sem amizade para consigo mesmo, devemos intensamente, isto é, com veemente empenho, fugir da malícia e esforçar-nos por sermos virtuosos. Pois deste modo alguém se disporá amigavelmente para consigo mesmo e tornar-se-á também amigo dos outros.