Lição 14
Amiability
Nas conversações, no conviver, nos discursos e no comunicar-se nas coisas, alguns de fato parecem ser aprazíveis, louvando tudo em vista do deleite e a nada contradizendo, mas julgando que se deve estar sem tristeza para com quaisquer pessoas. [816]
Ao contrário destes, porém, aqueles que a tudo se contrariam e que em nada se importam com entristecer são chamados ríspidos e litigiosos. [817]
Que, pois, os hábitos mencionados são censuráveis, não é obscuro, e que o meio deles é louvável, segundo o qual receberá o que é preciso e como é preciso, e semelhantemente também desprezará. [818]
A este, porém, não se atribui nome algum. [819]
Assemelha-se, porém, sobretudo à amizade. Pois tal é aquele que, segundo o hábito médio, quereríamos chamar de amigo moderado, ao acolher a quem ama. [820]
Difere, porém, da amizade, porque é sem paixão e sem o amar aqueles com quem conversa. Pois não é por amar ou por hostilizar que recebe cada coisa como é preciso, mas por ser de tal índole. Pois semelhantemente agirá para com desconhecidos e conhecidos, e habituados e não habituados. [821]
Contudo, também nos casos singulares, conforme convém; pois não convém tratar do mesmo modo os habituais e os estranhos, nem, de novo, entristecê-los. [822]
Universalmente, pois, foi dito que ele conversa como é preciso. [823]
E, referindo-se ao que é bom e útil, procurará não entristecer ou deleitar juntamente; pois parece, de fato, estar a respeito dos deleites e das tristezas que ocorrem nas conversações. [824]
Ora, entre estas coisas, todas aquelas cujo deleitar juntamente não é bom ou é nocivo para ele próprio, desprezará e escolherá entristecer; e se traz uma desonra àquele que age, e esta não pequena, ou um dano, ao passo que a oposição traz uma pequena tristeza, não a acolherá, mas a desprezará. [825]
Conversa, porém, diferentemente com aqueles que estão em dignidades e com quaisquer outros, e com os mais ou menos conhecidos, e semelhantemente também segundo outras diferenças, atribuindo a cada um o que lhe convém. [826]
E, desejando por si deleitar juntamente, mas recusando entristecer, considerando, porém, os acontecimentos futuros se são maiores — digo, porém, os bens e o que é útil — e em vista do deleite que há de haver no futuro em grande medida, entristecerá um pouco. O meio, pois, é de tal índole, mas não é nomeado. [827]
Dentre os que deleitam juntamente, aquele que de fato é conjecturador do que é deleitável, sem ser aprazível por causa de alguma outra coisa, é aprazível; mas aquele que age para que lhe advenha alguma utilidade em dinheiro, ou em quaisquer coisas que se avaliam pelo dinheiro, é adulador. [828]
Ora, aquele que entristece a todos, foi dito que é litigioso e ríspido. [829]
Os extremos, porém, parecem opor-se entre si por causa de o meio ser inominado. [830]
816. Nas conversações, porém, e no conviver etc. Depois que o Filósofo tratou das virtudes que dizem respeito às coisas exteriores, aqui trata das virtudes que dizem respeito aos atos humanos.
E primeiro nos sérios;
segundo, nos lúdicos, ali: existindo, porém, o repouso etc.
Ora, nos atos sérios há duas coisas a considerar, a saber, o deleite e a verdade.
Primeiro, pois, trata da virtude que se refere aos deleites e às tristezas nos atos sérios dos homens;
segundo, da virtude que se refere à verdade, ali: a respeito das mesmas coisas, porém, é quase etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra que, a respeito dos deleites e das tristezas dos atos humanos, há um meio e extremos;
segundo, trata deles, ali: a este, porém, não se atribui nome etc.
A respeito do primeiro faz três coisas.
Primeiro, apresenta o vício que diz respeito à superabundância de prazer. E diz que, no tocante às conversações humanas, pelas quais sobretudo os homens convivem uns com os outros segundo a propriedade de sua natureza, e universalmente no tocante a todo o convívio dos homens, que se realiza pelo fato de os homens se comunicarem mutuamente em palavras e em coisas, alguns parecem ser aprazíveis, como que pretendendo agradar aos homens; por isso louvam tudo o que é dito e feito pelos outros, para se mostrarem agradáveis a eles, e em nada contradizem aqueles com quem convivem, para não os entristecer, julgando que é preciso conviver com todos sem tristeza.
817. Em segundo lugar, ali: os que, porém, ao contrário destes etc., expõe o vício que diz respeito ao defeito em tais coisas. E diz que aqueles que se comportam de modo contrário aos aprazíveis querem contradizer tudo o que é dito ou feito, como que pretendendo entristecer os outros e não se importando de deixar de fazer nada para não entristecer os outros: e estes são chamados de intratáveis e litigiosos.
818. Em terceiro lugar, ali: uma vez que, portanto etc., conclui haver certo hábito intermediário que é louvável. E diz que, uma vez que os referidos hábitos, que estão no extremo, são censuráveis, é manifesto que o hábito intermediário é louvável, segundo o qual alguém aceita aquilo que é dito ou feito pelos outros, ou também despreza e contradiz segundo o que é preciso.
819. Em seguida, quando diz: não se lhe atribui, porém, um nome etc., determina a respeito das coisas referidas.
E primeiro a respeito do intermediário;
em segundo lugar, a respeito dos extremos, ali: daquele que se compraz etc.
Quanto ao primeiro, faz duas coisas:
primeiro determina a respeito do nome do hábito intermediário;
em segundo lugar, a respeito de suas propriedades, ali: universalmente, portanto etc.
Quanto ao primeiro, faz três coisas.
Primeiro, propõe que o hábito intermediário é sem nome.
820. Em segundo lugar, ali: assemelha-se, porém etc., nomeia-o pela semelhança com a amizade. E diz que essa virtude se assemelha ao máximo à amizade, porque comunga com ela no ato exterior que lhe é mais próprio, que é conviver aprazivelmente com os amigos. Com efeito, aquele que está disposto segundo o hábito intermediário desta virtude se comporta, no convívio aprazível para com os outros, tal como dizemos convir ao amigo, isto é, cuja amizade é moderada pela razão, o que diz respeito à amizade do honesto (pois nem toda amizade é segundo a virtude, como se dirá adiante); e, se fosse assim que aquele que possui esta virtude assumisse o afeto da dileção para com aqueles com quem convive, seria inteiramente tal qual é aquele que é inteiramente virtuoso.
821. Em terceiro lugar, ali: difere, porém, da amizade etc., mostra a diferença desta virtude para com a verdadeira amizade.
E quanto a isso faz duas coisas:
primeiro, expõe a diferença;
em segundo lugar, exclui um entendimento falso, ali: na verdade, todavia, também em cada caso etc.
Diz, pois, primeiro que esta virtude difere da verdadeira amizade, porque esta virtude existe também sem o amor, que é uma paixão do apetite sensitivo, e sem a dileção para com aqueles com quem se conversa, a qual diz respeito ao apetite intelectivo. Pois não é por isto que aceita, como é preciso, cada uma das coisas ditas ou feitas pelos outros, porque esteja afetado para com eles de ódio ou de amor, mas porque está assim disposto segundo o hábito. E sinal disto é que ele observa isto não somente para com os amigos, mas comumente para com todos, desconhecidos e conhecidos, familiares e não familiares. E é semelhante o que ocorre com a liberalidade; pois o amigo confere dádivas aos amigos por causa do amor, ao passo que o liberal o faz não pelo fato de amar, mas pelo fato de ser tal que facilmente despende o dinheiro.
822. Em seguida, quando diz: na verdade, todavia, também em cada caso etc., exclui um entendimento falso das coisas referidas. Pois, como havia dito que esta virtude se comporta de modo semelhante para com desconhecidos e conhecidos, alguém poderia entender essa semelhança quanto a todas as coisas. Ora, a referida semelhança deve ser entendida quanto àquilo que é comum, que é conviver aprazivelmente com todos; há, porém, diferença quanto aos modos especiais de conviver, porque em cada caso age segundo o que é conveniente, e não é conveniente que alguém deleite ou entristeça de modo semelhante os familiares e os estranhos.
823. Em seguida, quando diz: universalmente, na verdade etc., expõe cinco propriedades desta virtude.
A primeira delas toma-se do modo de conversar. E diz que, como se disse, universalmente conversa com todos como é preciso.
824. Expõe a segunda ali: referindo, porém etc. Ela toma-se da parte do fim. E diz que tende a isto, a conviver com os outros sem tristeza ou até com prazer, e refere isto ao bem honesto e ao conferente, isto é, útil, porque se ocupa dos prazeres e das tristezas que se dão nas conversações, nas quais principal e propriamente consiste o convívio humano; pois isto é próprio dos homens em relação aos demais animais, que comungam entre si nos alimentos ou em outras coisas deste gênero.
825. Expõe a terceira propriedade ali: destas coisas, porém etc. Ela toma-se por comparação com a tristeza. E diz que às vezes aquele que possui esta virtude recusa deleitar o outro, ou antes escolhe entristecê-lo,
e isto de dois modos:
de um modo, da parte de si mesmo, por exemplo, se não lhe for honesto, como quando outro profere palavras torpes, ou também se lhe for nocivo, por exemplo, quando outro fala em detrimento seu;
de outro modo, da parte daquele com quem convive, por exemplo, se disser ou fizer algo que diga respeito à sua própria grande desonestidade, ou também lhe seja muito nocivo, e, pelo fato de se lhe contradizer, produz-se nele uma pequena tristeza; pois assim o virtuoso não aceitará o que é dito ou feito pelos outros, mas antes o repreenderá.
826. Expõe a quarta propriedade ali: conversa, porém, de modo diferente etc. Ela toma-se por comparação com as diversas pessoas. E diz que este virtuoso conversa e convive de modos diversos com aqueles que estão constituídos em dignidades e com quaisquer pessoas privadas, e igualmente de modos diversos com os mais ou menos conhecidos e segundo outras diversidades de pessoas, pois atribui a cada um o que é conveniente.
827. Expõe a quinta propriedade ali: e por si, na verdade etc. Ela toma-se pela comparação do prazer com a tristeza. E diz que por si, na verdade, pretende deleitar e recusa entristecer; contudo, às vezes entristece um pouco, considerando as coisas futuras, se preponderarem sobre a presente tristeza quanto à honestidade e à utilidade, ou também quanto a um grande prazer futuro, ao qual se prepara lugar pela presente tristeza. Conclui, porém, que tal é o hábito intermediário, embora seja sem nome, ainda que entre nós possa ser chamado de afabilidade.
828. Em seguida, quando diz: daquele que se compraz, porém etc., determina a respeito dos vícios opostos.
E quanto a isso faz três coisas.
Primeiro, determina a respeito do vício que diz respeito à superabundância de prazer. E diz que aquele que superabunda em comprazer, se não o fizer por causa de outra coisa, é chamado de aprazível; se, porém, o fizer ou para adquirir dinheiro ou qualquer outra coisa que possa ser avaliada em dinheiro, é chamado de lisonjeador ou adulador.
829. Em segundo lugar, ali: aquele, porém, que a todos entristece etc., determina a respeito do vício oposto. E diz que aquele que a todos entristece é chamado de litigioso e intratável, como se disse.
830. Em terceiro lugar, ali: parecem, porém, opor-se etc., compara os dois vícios referidos entre si. E diz que os extremos parecem opor-se entre si, mas não à virtude, porque o meio da virtude é sem nome.