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Lição 8

The Morality of Pleasures

Ora, diferindo as operações em bondade e maldade, e sendo umas dignas de escolha, outras a evitar e outras neutras, do mesmo modo se comportam também as delectações, pois segundo cada operação há uma delectação própria; a que é própria da operação virtuosa é, pois, boa, e a que é própria da má é má. [2050]

E, com efeito, as concupiscências das coisas boas são louváveis, mas as das torpes são vituperáveis. Ora, mais próprias das operações são as delectações que nelas há do que as concupiscências; pois estas são separadas tanto nos tempos quanto na natureza, ao passo que aquelas são próximas das operações e indistintas, de tal modo que se levanta a dúvida se a operação é o mesmo que a delectação. Todavia, não parece que a delectação seja a mente nem o sentido; seria inconveniente, porém, se, por não estarem separadas, parecesse a alguns o mesmo. Assim, pois, como as operações são diversas, também as delectações. [2051]

Ora, a visão difere do tato em pureza, e a audição e o olfato do gosto. Do mesmo modo diferem também as delectações, tanto as que concernem à mente, como umas das outras. [2056]

Ora, parece que a cada um há também uma delectação própria, assim como uma obra, a saber, a que é segundo a operação. E isto aparecerá a quem considera cada coisa; pois uma é a delectação do cavalo, outra a do cão, outra a do homem, como diz Heráclito, que o asno preferiria o feno ao ouro; pois o alimento é para os asnos mais deleitável que o ouro. As delectações, pois, das coisas diversas em espécie diferem em espécie; ao passo que é razoável que as das mesmas sejam indiferentes. [2057]

Ora, diferem não pouco nos homens. Pois as mesmas coisas deleitam a estes, mas entristecem àqueles, e para estes são tristes e odiosas, mas para aqueles deleitáveis e amáveis. E também nas coisas doces isto acontece: pois as mesmas coisas não parecem iguais ao febricitante e ao são; nem o quente parece igual ao débil e ao que está bem disposto; e do mesmo modo isto acontece também nas outras coisas. [2059]

Ora, parece que em todas as coisas tais é aquilo que parece ao virtuoso. E se isto é bem dito, como parece, e se a medida de cada coisa é a virtude e o homem bom enquanto tal, então as delectações serão as que a este parecem, e deleitáveis aquelas com que este se alegra. Mas se as coisas que a este são tristes parecem deleitáveis a outrem, nada de admirável; pois muitas corrupções e danos dos homens acontecem; ora, não são deleitáveis, mas o são para estes e para os assim dispostos. Sendo, pois, reconhecidamente torpes, é manifesto que não se deve dizer que sejam delectações, a não ser para os corrompidos. [2062]

Ora, entre os prazeres que parecem ser virtuosos, é preciso dizer qual e quanto seja o prazer próprio do homem. Isso fica manifesto a partir das operações, pois a elas seguem os prazeres. Portanto, seja uma seja mais de uma a operação do homem perfeito e feliz, os prazeres que aperfeiçoam essas operações serão ditos, em sentido principal, os prazeres próprios do homem; os demais, porém, em sentido secundário e submúltiplo, tal como as operações. [2064]

2050. Differentibus autem operationibus etc. Depois que o Filósofo mostrou que os prazeres diferem em espécie segundo a diferença das operações, aqui mostra que, segundo a diferença dessas operações, diferem em bondade e malícia.

E primeiro quanto à bondade moral;

segundo quanto à bondade natural, que se considera segundo a pureza e a impureza, ali: differt autem visus etc.

Acerca do primeiro ponto faz duas coisas:

primeiro propõe o que pretende;

segundo prova o proposto, ali: etenim concupiscentiae etc.

Diz, pois, primeiro que, uma vez que as operações diferem segundo a bondade e a depravação, isto é, segundo a virtude e a malícia — de tal modo que algumas operações são dignas de escolha, como as operações virtuosas, outras a serem evitadas, como as operações viciosas, e outras, segundo a sua espécie, não se comportam de nenhum dos dois modos, mas podem ser arrastadas para um ou outro —, assim também acontece a respeito dos prazeres; porque, uma vez que a cada operação corresponde algum prazer próprio, como acima se disse, o prazer que é próprio da operação virtuosa é virtuoso, e aquele que é próprio da operação depravada é mau.

2051. Em seguida, quando diz: et enim concupiscentiae etc., prova o proposto por uma razão tomada da parte dos apetites. Pois vemos que os apetites pelos quais se deseja algum bem, isto é, algo honesto, são louváveis, por exemplo, se alguém deseja agir com justiça ou com fortaleza; ao passo que os apetites de coisas torpes são censuráveis, por exemplo, se alguém deseja furtar ou adulterar. Ora, é manifesto que os prazeres com que nos deleitamos nas próprias operações são mais próximos e mais próprios das operações do que os apetites com que as desejamos;

2052. pois os apetites distinguem-se das operações pelo tempo, uma vez que desejamos fazer algo antes de o fazermos; distinguem-se também segundo a natureza, porque a operação é ato do que é perfeito, ao passo que o apetite é ato do que é imperfeito e ainda não o possui; mas os prazeres são próximos das operações, porque ambos pertencem a algo perfeito, e são também indiscerníveis quanto ao tempo, porque, se alguém ainda não opera, não se deleita em tal operação, visto que o prazer é de coisa presente, assim como o apetite é de coisa futura; e a tal ponto o prazer é próximo da operação que parece ser duvidoso se a operação é o mesmo que o prazer.

2053. Todavia, não se deve dizer que seja assim: pois não pode haver prazer senão na operação do sentido ou do intelecto (com efeito, as coisas que carecem de conhecimento não podem deleitar-se),

2054. e, contudo, ele não é o mesmo que a operação do intelecto nem o mesmo que a operação do sentido, pois o prazer pertence mais à parte apetitiva; ora, é inconveniente que a alguns o prazer pareça ser o mesmo que a operação, pelo fato de não se separar dela no tempo.

2055. Assim, pois, fica patente que, tal como as operações são diversas segundo a virtude e a malícia, assim também o são os prazeres. Do que fica patente que inconvenientemente enunciaram alguns, universalmente, acerca dos prazeres, que sejam bons ou maus.

2056. Em seguida, quando diz: differt autem visus etc., mostra a diferença dos prazeres segundo a pureza e a impureza. Pois é manifesto que as operações dos sentidos diferem segundo a pureza: com efeito, mais pura é a operação da vista do que a do tato, e igualmente a operação do ouvido e do olfato do que a operação do gosto. Ora, diz-se mais pura a operação que é mais imaterial, e, segundo isso, entre todas as operações sensitivas a mais pura é a operação da vista, porque é mais imaterial, como que tendo menos mistura de disposições da matéria — quer da parte do objeto, que se torna sensível em ato pela luz, a qual deriva do corpo celeste; quer da parte do meio, que só por uma transmutação espiritual é alterado; e pelas mesmas causas a operação do tato é a mais material, porque os seus objetos são condições da matéria passível e o seu meio não é extrínseco, mas conjunto. E a mesma diferença de pureza se considera entre os prazeres dos sentidos, uns em relação aos outros. São também as operações e os prazeres do intelecto mais puros do que as operações e os prazeres sensitivos, por serem mais imateriais.

2057. Em seguida, quando diz: videtur autem esse unicuique etc., mostra qual seja a diferença dos prazeres da parte do objeto.

E primeiro quanto aos animais de diversas espécies;

segundo quanto aos homens, que são de uma só espécie, ali: differunt autem non parum etc.

Diz, pois, primeiro que, uma vez que o prazer segue à operação, parece que a cada coisa corresponde um prazer próprio, assim como também uma operação própria. E que haja operação própria de cada coisa aparece do fato de que as operações seguem as formas das coisas, segundo as quais as coisas diferem em espécie. E que a cada uma corresponda um prazer próprio aparece se alguém quiser considerar cada uma em particular;

2058. pois é manifesto que outro é o prazer do cavalo, outro o do cão e outro o do homem, tal como Heráclito diz que o asno prefere o feno ao ouro, porque lhe é mais deleitável o alimento que lhe é proporcionado pelo feno do que o ouro. Assim, pois, fica patente que das coisas que diferem em espécie são os prazeres que diferem em espécie; mas, das coisas que não diferem em espécie, é razoável que seja indiferente o prazer que segue à natureza da espécie.

2059. Em seguida, quando diz: differunt autem etc., mostra a diferença dos prazeres nos homens.

E primeiro mostra que os homens têm prazeres diversos;

segundo mostra que no virtuoso há prazer mais verdadeiro, ali: videtur autem in omnibus etc.;

terceiro mostra qual seja o prazer mais poderoso entre os prazeres do virtuoso, ali: earum autem etc.

Diz, pois, primeiro que, embora pareça razoável que das coisas indiferentes em espécie seja indiferente o prazer, e assim seja nos demais animais, contudo nos homens, que todos são da mesma espécie, muito diferem os prazeres, assim como também as operações.

2060. E a razão disso é que as operações e os prazeres dos demais animais seguem a inclinação natural, que é a mesma em todos os animais da mesma espécie; mas as operações e os prazeres dos homens provêm da razão, que não está determinada a uma só coisa. E daí vem que as mesmas coisas deleitam alguns homens e entristecem outros, e a alguns são tristes e odiosas, ao passo que a outros são deleitáveis e amáveis;

2061. o que, com efeito, se segue, porque cada um se deleita naquilo que ama; e isso acontece porque alguns estão melhor ou pior dispostos segundo a razão. E o mesmo acontece a respeito do gosto das coisas doces, porque não parecem as mesmas coisas doces ao febricitante, que tem o gosto infectado, e ao são, que tem o gosto bem disposto; e o mesmo acontece a respeito do tato, porque não parece ser o mesmo quente àquele que tem o tato débil e àquele que se encontra bem disposto; e assim é também nas demais coisas.

2062. Em seguida, quando diz: videtur autem in omnibus etc., mostra que o prazer dos virtuosos é o mais poderoso entre os prazeres humanos. E diz que, em todas as coisas desse gênero que pertencem às paixões e às operações humanas, parece ser verdadeiro aquilo que aparece ao homem diligente, o qual tem reto juízo acerca de tais coisas, como o são a respeito das coisas doces. E, se isso é bem dito, como parece, de modo que a virtude seja a medida segundo a qual se julga acerca de todas as coisas humanas, e o homem seja bom enquanto é virtuoso, segue-se que são verdadeiramente prazeres aqueles que assim parecem ao virtuoso, e que são verdadeiramente deleitáveis aquelas coisas com que o virtuoso se alegra.

2063. Se, porém, algumas coisas com que o virtuoso se entristece parecem deleitáveis a outros, não é de admirar: pois isso acontece por causa das muitas corrupções e dos múltiplos danos dos homens, pelos quais se perverte a razão e o apetite; e assim aquelas coisas que o virtuoso repudia não são absolutamente deleitáveis, mas somente aos mal dispostos. Assim, pois, é manifesto que aqueles prazeres que todos confessam serem torpes não devem ser ditos prazeres senão para os homens corrompidos.

2064. Em seguida, quando diz: earum autem etc., mostra que há algum prazer mais poderoso entre os prazeres do virtuoso. E diz que se deve considerar, entre os prazeres virtuosos, qual e que seja o prazer principal do homem. E diz que isso fica manifesto a partir das operações às quais seguem os prazeres. Pois, seja uma seja mais de uma a operação que é própria do homem perfeito e feliz, é manifesto que os prazeres que seguem a essas operações são, em sentido principal, os prazeres do homem, ao passo que os demais o são em sentido secundário e multiforme, sob os prazeres principais, tal como também acontece a respeito das operações.