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Lição 10

Happiness, an Activity According to the Highest Virtue

Ora, se a felicidade é uma operação segundo a virtude, é razoável que seja segundo a melhor. E esta será, sem dúvida, a do que é ótimo. Portanto, seja isto o intelecto, seja outra coisa qualquer que, segundo a natureza, parece governar e dominar e ter conhecimento das coisas boas e divinas, seja ela mesma um ente divino, seja o mais divino daquilo que há em nós, a operação deste, segundo a virtude que lhe é própria, será a perfeita felicidade.

Ora, que ela é especulativa, já se disse. E isto parecerá estar de acordo tanto com o que precede quanto com a própria verdade.

Pois esta operação é a ótima. Com efeito, o intelecto é o que há de melhor entre as coisas que estão em nós, e os inteligíveis, acerca dos quais versa o intelecto, são os melhores dentre as coisas cognoscíveis.

Além disso, é a mais contínua. Pois podemos especular continuamente, mais do que fazer qualquer outra coisa.

E julgamos que é preciso que o deleite esteja misturado à felicidade. Ora, a mais deleitável das operações que são segundo a virtude é, reconhecidamente, a que é segundo a sabedoria. Com efeito, a filosofia parece ter deleites admiráveis pela pureza e pela firmeza. E é razoável que a convivência dos que sabem seja mais deleitável do que a dos que buscam.

E aquela que se chama autarquia estará presente maximamente acerca da vida especulativa. Pois, para viver, tanto o sábio quanto o justo e os demais necessitam do que é necessário. Mas, uma vez providas suficientemente tais coisas, o justo necessita daqueles para quem e com quem aja justamente, e do mesmo modo também o temperante, o corajoso e cada um dos outros. O sábio, porém, sendo por si mesmo, pode especular, e quanto mais sábio for, tanto mais. É melhor, talvez, ter cooperadores, mas, ainda assim, ele é o mais suficiente por si.

Ora, parecerá que ela mesma, e só ela, é amada por si mesma. Pois nada dela resulta além do especular, ao passo que das coisas praticáveis adquirimos algo, mais ou menos, além da própria ação.

2080. Ora, se a felicidade é etc. Depois que o Filósofo mostrou que a felicidade é uma operação segundo a virtude, começa aqui a mostrar de que virtude ela é operação.

E primeiro mostra isto em geral;

segundo, em especial, aí: ora, que ela é especulativa etc.

Diz, portanto, primeiro que, sendo a felicidade uma operação segundo a virtude, como se mostrou tanto aqui quanto no livro primeiro, segue-se razoavelmente que seja uma operação segundo a melhor virtude; pois se mostrou no livro primeiro que a felicidade é o ótimo entre todos os bens humanos, uma vez que é o fim de todos. E porque da melhor potência é melhor a operação, como se disse acima, é consequente que a operação ótima do homem seja a operação daquilo que é ótimo no homem. E isto, segundo a verdade da coisa, é o intelecto,

2081. mas, porque acerca disto alguns opinaram de modos diversos e não é agora o lugar de discutir tais coisas, deixa por ora em dúvida se o ótimo do homem é o intelecto ou alguma outra coisa; apresenta, contudo, certos sinais a partir dos quais se pode conhecer que o intelecto é o ótimo daquilo que há no homem.

2082. E, primeiro, por comparação com aquilo que está abaixo do intelecto, que o intelecto, por causa da sua excelência, governa e domina: governa, com efeito, no que respeita ao irascível e ao concupiscível, aos quais a razão ou o intelecto preside como que por um poder político, porque em algo podem resistir à razão; domina, porém, os membros corpóreos, que obedecem prontamente ao império da razão sem contradição, e por isso a razão ou o intelecto preside ao corpo como a um servo, por um poder despótico, como se diz no livro primeiro da Política.

2083. Segundo, apresenta sinais da excelência do intelecto por comparação com as coisas superiores, isto é, com as coisas divinas, às quais se compara de dois modos:

de um modo, segundo a relação como que aos objetos, pois só o intelecto tem conhecimento das coisas essencialmente boas, que são as coisas divinas;

de outro modo, o intelecto humano compara-se às coisas divinas segundo a conaturalidade com elas, de modo diverso, na verdade, segundo as sentenças dos diversos autores.

2084. Alguns, com efeito, sustentaram que o intelecto humano é algo sempiterno e separado, e, segundo isto, o próprio intelecto seria algo divino; pois dizemos serem divinas as coisas que são sempiternas e separadas. Outros, porém, sustentaram que o intelecto é parte da alma, como Aristóteles, e, segundo isto, o intelecto não é absolutamente algo divino, mas é o mais divino entre tudo o que há em nós, por causa da maior conveniência que tem com as substâncias separadas, na medida em que a sua operação se dá sem órgão corpóreo.

2085. De qualquer modo, porém, que se comporte, é necessário, segundo o que foi dito, que a perfeita felicidade seja a operação deste ótimo segundo a virtude que lhe é própria; pois não pode haver operação perfeita, o que se requer para a felicidade, a não ser numa potência aperfeiçoada pelo hábito que é a sua virtude, segundo a qual torna boa a operação.

2086. A seguir, quando diz: ora, que ela é especulativa etc., mostra em especial de que virtude é operação a perfeita felicidade.

E acerca disto faz duas coisas:

primeiro, mostra que a felicidade perfeita consiste na operação da virtude especulativa;

segundo, compara a felicidade perfeita às coisas exteriores, ali: opus erit autem etc.

A respeito do primeiro ponto, faz duas coisas:

primeiro, mostra que a felicidade perfeita consiste na operação da especulação;

segundo, prefere esta felicidade à felicidade que consiste na ação, ali: secundo autem qui secundum aliam virtutem etc.

A respeito do primeiro ponto, faz duas coisas:

primeiro, mostra que a felicidade consiste na operação especulativa;

segundo, mostra como ela se relaciona com o homem, ali: talis autem utique erit etc.

A respeito do primeiro ponto, faz duas coisas.

Primeiro, propõe aquilo que pretende. E diz que, pelo que foi dito acima no sexto livro, é manifesto que a operação especulativa é a do intelecto segundo a sua virtude própria, isto é, principalmente segundo a sabedoria, que compreende o intelecto e a ciência. E que a felicidade consista em tal operação parece estar em consonância com aquilo que foi dito no primeiro livro acerca da felicidade e também com a própria verdade.

2087. Segundo, ali: optima et enim etc., prova aquilo que se propõe com seis argumentos.

O primeiro argumento é, pois, o seguinte. Foi dito antes que a felicidade é a melhor operação. Ora, a melhor entre as operações humanas é a especulação da verdade, e isto é evidente pelas duas coisas com base nas quais se avalia a dignidade de uma operação:

de um modo, por parte da potência, que é o princípio da operação, e assim é evidente que esta operação é a melhor, assim como também o intelecto é o melhor daquilo que há em nós, como foi mostrado antes;

de outro modo, por parte do objeto, que dá espécie à operação, e segundo isto também esta operação é a melhor, porque, entre todas as coisas cognoscíveis, as melhores são as inteligíveis e sobretudo as divinas. E assim, na especulação delas consiste a felicidade humana perfeita.

2088. Coloca o segundo argumento ali: adhuc autem continuissima etc. Pois foi mostrado no primeiro livro que a felicidade é sumamente contínua e permanente. Ora, entre todas as operações humanas, a mais contínua é a especulação da verdade; com efeito, é manifesto que o homem pode perseverar de modo mais contínuo na especulação da verdade do que em qualquer outra operação.

2089. A razão disso é que é necessário que a nossa operação seja interrompida por causa do cansaço, que não podemos suportar continuamente; ora, o cansaço e a fadiga sobrevêm em nossas operações por causa da passibilidade do corpo, que se altera e é removido de sua disposição natural; por isso, como o intelecto usa muito pouco o corpo em sua operação, segue-se que muito pouco cansaço e fadiga sobrevêm à sua operação, e não haveria nenhum se o intelecto, ao especular, não necessitasse dos fantasmas existentes nos órgãos corporais. E assim é evidente que a felicidade se encontra sumamente na especulação da verdade por causa de sua continuidade.

2090. Coloca o terceiro argumento ali: existimamusque etc. E diz que, como foi dito no primeiro livro, comumente julgamos que à felicidade se ajunte o prazer. Ora, entre todas as operações da virtude, a mais deleitável é a contemplação da sabedoria, como é manifesto e concedido por todos. Com efeito, a filosofia, na contemplação da sabedoria, tem prazeres admiráveis tanto quanto à pureza como quanto à firmeza. A pureza de tais prazeres considera-se pelo fato de que versam sobre coisas imateriais, ao passo que a firmeza deles se considera pelo fato de que versam sobre coisas imutáveis;

2091. pois quem se deleita com as coisas materiais incorre em certa impureza do afeto pelo fato de se ocupar com coisas inferiores, e quem se deleita com as coisas mutáveis não pode ter um prazer firme, porque, mudada ou destruída a coisa que trazia o prazer, o prazer cessa e por vezes se converte em tristeza. Diz, porém, que os prazeres da filosofia são admiráveis por causa da raridade de tais prazeres entre a multidão dos homens, que se deleitam com as coisas materiais.

2092. A especulação da verdade é dupla:

uma, que consiste na investigação da verdade;

outra, porém, que consiste na contemplação da verdade já encontrada e conhecida,

e esta é mais perfeita, por ser o termo e o fim da investigação; por isso é também maior o prazer na consideração da verdade já conhecida do que em sua investigação. E por isso diz que vivem de modo mais deleitável aqueles que já conhecem a verdade, tendo o intelecto aperfeiçoado pela virtude intelectual, do que aqueles que ainda a investigam. Por isso, a felicidade perfeita não consiste em qualquer especulação do intelecto, mas naquela que é segundo a sua virtude própria.

2093. Coloca o quarto argumento ali: et quae dicitur etc. Pois foi mostrado no primeiro livro que a autossuficiência, que em grego se diz autarquia, é requerida para a felicidade. Ora, tal autossuficiência encontra-se sumamente na operação especulativa, para a qual o homem só necessita daquilo que é necessário a todos para a vida em comum; com efeito, tanto o sábio, isto é, o especulativo, quanto também o justo e os demais que possuem as virtudes morais que aperfeiçoam a vida ativa necessitam do que é necessário à vida.

2094. Ora, ainda que a alguém sejam dados suficientemente os bens necessários à vida, o virtuoso segundo a virtude moral necessita ainda de mais coisas; com efeito, o justo necessita de outros para a sua operação,

e primeiro daqueles em relação aos quais deve agir com justiça, porque a justiça é para com outrem, como foi dito no quinto livro,

e segundo, necessita de alguns com quem exerça a justiça, para o que o homem necessita frequentemente do auxílio de muitos; e a mesma razão vale para o temperante e o forte e para os demais virtuosos moralmente.

2095. Mas não é assim com o sábio especulativo, que pode especular a verdade mesmo que exista sozinho por si mesmo, porque a contemplação da verdade é uma operação inteiramente intrínseca, que não procede para fora, e tanto mais alguém, existindo sozinho, poderá especular a verdade quanto mais for perfeito na sabedoria, porque tal pessoa conhece mais coisas e necessita menos de ser instruída ou ajudada pelos outros.

2096. Nem se diz isto porque a companhia não ajude aquele que contempla, porque, como foi dito no oitavo livro, dois reunidos podem tanto entender como agir mais, e por isso acrescenta que é melhor para o sábio ter colaboradores na consideração da verdade, porque às vezes um vê aquilo que a outro, ainda que mais sábio, não ocorre. E, embora o sábio seja ajudado pelos outros, todavia, entre todos, ele por si mesmo é o mais autossuficiente para a sua própria operação. E assim é evidente que a felicidade se encontra sumamente na operação da sabedoria.

2097. Coloca o quinto argumento ali: videbitur autem utique etc. Pois foi mostrado no primeiro livro que a felicidade é de tal modo apetecível por si mesma que de modo algum é apetecida por causa de outra coisa. Ora, isto só se manifesta na especulação da sabedoria, que é amada por si mesma e não por causa de outra coisa: com efeito, nada advém ao homem da contemplação da verdade além da própria especulação da verdade, ao passo que das operações exteriores o homem sempre adquire algo além da própria operação, mais ou menos, por exemplo a honra e o favor junto aos outros, que o sábio não adquire de sua contemplação senão por acidente, isto é, enquanto anuncia aos outros a verdade contemplada, o que já pertence à ação exterior. Assim, pois, é evidente que a felicidade consiste sumamente na operação da contemplação.