Skip to main content

Lição 6

Wisdom, the Principal Intellectual Virtue

E como tendo a supremacia, é a ciência das coisas mais dignas de honra. É, com efeito, inconveniente se alguém julga que a ciência política ou a prudência sejam a mais excelente, se o homem não é o melhor das coisas que há no mundo. [1184]

Ora, se o saudável e o bom são diferentes para os homens e para os peixes, ao passo que o branco e o reto são sempre os mesmos, então todos diriam que o sábio é sempre o mesmo, mas o prudente é diferente. Pois quem especula bem cada coisa acerca de si mesmo seria dito prudente, e a ele se concederia a prudência. Por isso também dizem que certos animais são prudentes, a saber, todos os que parecem ter, acerca da própria vida, a capacidade de prover a si mesmos. Será, porém, manifesto que a sabedoria e a política não são a mesma coisa; pois, se chamam sabedoria aquela que versa sobre as coisas úteis a si mesmos, haverá muitas sabedorias; pois não há uma só acerca do bem de todos os animais, mas outra acerca de cada um, se não há também uma só medicina acerca de todos os entes. [1187]

Se, porém, é porque o homem é o melhor dos outros animais, nada difere. Pois há outras coisas muito mais divinas que o homem segundo a natureza, por exemplo as coisas mais manifestas de que o mundo é constituído. [1189]

Do que foi dito é manifesto que a sabedoria é ciência e intelecto das coisas mais dignas de honra por natureza. [1190]

Por isso dizem que Anaxágoras, Tales e outros semelhantes são de fato sábios, mas não prudentes, ao verem que ignoram o que lhes é proveitoso; e dizem que eles sabem coisas supérfluas, admiráveis, difíceis e divinas. Inúteis, porém, porque não buscam os bens humanos. [1191]

A prudência, porém, versa sobre as coisas humanas e sobre aquelas acerca das quais é possível deliberar; pois dizemos que a obra máxima do prudente é deliberar bem, ora, ninguém delibera sobre as coisas impossíveis de serem de outra maneira nem sobre quaisquer coisas para as quais não há algum fim que seja aqui um bem realizável. Mas, em sentido absoluto, é bom conselheiro aquele que, segundo o raciocínio, conjectura o que é o melhor a ser realizado pelo homem. [1193]

Pois a prudência não versa somente sobre os universais, mas é preciso que também conheça os singulares; pois é ativa, ora, a ação versa sobre os singulares. Por isso também alguns que não têm ciência são mais ativos em certas coisas do que alguns que têm, e são peritos em outras. Pois, se alguém sabe que as carnes leves são de boa digestão e saudáveis, mas ignora quais são leves, não produzirá a saúde, mas quem sabe que as carnes das aves são leves e saudáveis produzirá mais. Ora, a prudência é ativa, por isso é preciso ter ambas ou esta em maior grau. [1194]

1184. E como tendo a supremacia etc. Depois que o Filósofo tratou de cada uma das virtudes intelectuais, aqui mostra qual é a principal entre elas.

E primeiro mostra qual é a principal em sentido absoluto;

segundo, qual é a principal no gênero das coisas realizáveis humanas, ali: haverá, porém, também aqui uma certa etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro mostra que a sabedoria é em sentido absoluto a principal entre todas;

segundo infere um certo corolário do que foi dito, manifestando por um certo sinal aquilo que foi dito, ali: por isso Anaxágoras etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro propõe o que pretende;

segundo exclui o erro contrário, ali: pois é inconveniente etc.;

terceiro conclui a verdade, ali: do que foi dito é manifesto etc.

Diz, portanto, primeiro que a sabedoria não é uma ciência qualquer, mas a ciência das coisas mais dignas de honra, isto é, das divinas, como se ela tivesse a função de cabeça entre todas as ciências. Pois, assim como pelos sentidos, que estão na cabeça, são dirigidos os movimentos e as operações de todos os outros membros, assim a sabedoria dirige todas as outras ciências, uma vez que todas as outras supõem dela os seus princípios.

1185. Em seguida, quando diz: pois é inconveniente etc., exclui o erro de alguns que atribuíam a primazia entre todas as ciências à política, pela qual é governada a multidão, ou à prudência, pela qual alguém governa a si mesmo, atendendo mais à utilidade do que à dignidade da ciência; pois as ciências especulativas, como se diz no início da Metafísica, não são buscadas como úteis para algo, mas como dignas de honra por si mesmas.

Donde, acerca disto faz duas coisas:

primeiro exclui este erro;

segundo remove uma certa objeção, ali: se, porém, é porque o melhor etc.

Acerca do primeiro apresenta duas razões.

1186. Acerca da primeira delas diz que é inconveniente que alguém julgue que a política ou a prudência seja a ciência mais excelente, isto é, a melhor entre as ciências, o que de fato não poderia ser a não ser que o homem fosse o melhor das coisas que há no mundo; pois uma ciência é melhor e mais digna de honra do que outra pelo fato de versar sobre coisas melhores e mais dignas de honra, como se diz no primeiro livro Da alma. Ora, é falso que o homem seja o melhor das coisas que há no mundo. Logo, nem a política nem a prudência, que versam sobre as coisas humanas, são as melhores entre as ciências.

1187. Apresenta a segunda razão ali: se, de fato, o saudável etc. Esta procede do fato de que há certas coisas cuja noção consiste numa proporção e relação a algo, e por isso as coisas deste gênero não podem ser as mesmas quanto a tudo, como fica evidente que não é o mesmo o saudável e o bom para os homens e para os peixes; outras, porém, dizem-se em sentido absoluto, como o branco entre as cores e o reto entre as figuras; e porque a sabedoria versa sobre aquelas coisas que em si e em sentido absoluto são tais (versa, com efeito, sobre as primeiras dos entes), é preciso que por todos se diga que é o mesmo aquilo que é sábio em todas as coisas e que é a mesma a sabedoria em sentido absoluto a respeito de todas; mas aquilo que é prudente é preciso que seja diverso conforme os diversos, pelo fato de que a prudência se diz segundo uma proporção e relação a algo. Pois aquele que pode especular bem cada uma das coisas que pertencem a si mesmo diz-se prudente, e a tal se concede ou atribui a prudência. E daí vem que, por uma certa semelhança, os homens dizem que certos animais são prudentes, a saber, todos aqueles que parecem ter uma certa capacidade de prover à própria vida, não porém pela razão, o que propriamente pertence à prudência. Assim, portanto, é manifesto que a sabedoria, que é a principal entre todas, não é o mesmo que a política;

1188. pois, se puséssemos que aquela ciência que versa sobre as coisas úteis, tal como é a política, fosse a sabedoria que é a cabeça de todas, seguir-se-ia que haveria muitas sabedorias; pois não pode haver uma só noção acerca daquilo que é bom para todos os animais, mas é preciso que acerca de cada um dos animais haja outra consideração que considere o que é bom para cada qual; e a mesma razão vale para a medicina, que não pode ser uma só para todos; pois foi dito acima que, assim como o saudável, também o bom é diverso para os homens e para os peixes; ora, é preciso que haja uma só sabedoria, porque a ela pertence considerar aquilo que é comum a todos os entes. Donde resta que a política, que é governativa da multidão humana, não pode ser a sabedoria em sentido absoluto, e muito menos a prudência dita comumente, que é governativa de um só.

1189. Em seguida, quando diz: se, porém, é porque etc., exclui uma certa objeção. Pois alguém poderia dizer que a política ou a prudência, sendo acerca das coisas humanas, é a principal, porque o homem é mais excelente entre os outros animais. Mas isto em nada importa para o propósito, porque certas outras coisas, segundo a sua natureza, são muito mais divinas que o homem por causa de sua excelência. E, para não falarmos de Deus e das substâncias separadas, que não estão sujeitas aos sentidos, mesmo aquelas coisas que são as mais manifestas ao sentido, de que o mundo é constituído, a saber, os corpos celestes, são superiores ao homem, quer comparemos corpo a corpo, quer comparemos as substâncias motoras à alma humana.

1190. Em seguida, quando diz: do que foi dito é manifesto etc., conclui a verdade pretendida, a saber, que a sabedoria é ciência e intelecto, como antes foi dito, não acerca de quaisquer coisas, mas acerca das mais dignas de honra, e isto fica manifestado pelo que foi dito, porque, se alguma ciência fosse mais digna de honra, isto conviria principalmente à política e à prudência, o que acima foi refutado.

1191. Em seguida, quando diz: por isso Anaxágoras etc., infere um certo corolário do que precede, pelo qual se manifestam algumas coisas que foram ditas.

E acerca disto faz duas coisas:

primeiro introduz o corolário;

segundo manifesta uma certa parte dele, ali: pois a prudência não etc.

Diz, portanto, primeiro que, porque a prudência versa sobre os bens humanos, ao passo que a sabedoria versa sobre aquilo que é melhor que o homem, daí vem que os homens dizem que Anaxágoras e um certo outro filósofo que se chamava Tales e outros semelhantes são de fato sábios, mas não prudentes, pelo fato de que os homens os veem ignorar aquilo que lhes é útil, e dizem que eles sabem certas coisas supérfluas, isto é, inúteis, e admiráveis, como que excedendo o conhecimento comum dos homens, e difíceis, porque necessitam de diligente investigação, e divinas por causa da nobreza da natureza.

1192. Apresenta, porém, especialmente o exemplo de Tales e Anaxágoras, que especialmente sobre isto foram repreendidos. Pois, quando Tales saía de casa para contemplar os astros, caiu numa cova; e enquanto ele se lamentava, disse-lhe uma velha: Tu, ó Tales, que não podes ver o que está diante dos pés, e julgas conhecer o que está no céu? Anaxágoras também, sendo nobre e rico, deixou os bens paternos aos seus e entregou-se à especulação das coisas naturais, não se importando com as coisas políticas, donde era repreendido como negligente; e a quem lhe dizia: não te importa a pátria?, respondeu: a pátria me importa muitíssimo, mostrando o céu.

1193. Por isso, pois, os homens dizem que eles sabem coisas inúteis, porque não investigam acerca dos bens humanos. Por isso também não se dizem prudentes; pois a prudência versa sobre os bens humanos, acerca dos quais é possível deliberar; ora, a obra máxima do prudente parece ser deliberar bem, mas ninguém delibera sobre as coisas necessárias, que é impossível serem de outra maneira, de cujo gênero são as coisas divinas que os sábios sobreditos consideram, nem tampouco pode haver deliberação sobre quaisquer coisas não ordenadas a algum fim que seja um bem realizável, sobre as quais consideram as ciências especulativas, mesmo que versem sobre as coisas corruptíveis. Ora, é bom conselheiro em sentido absoluto, e por consequência prudente, aquele que, raciocinando, pode conjecturar o que é o melhor a ser realizado pelo homem.

1194. Em seguida, quando diz: pois a prudência não etc., manifesta algo que dissera, atribuindo, a saber, a razão pela qual a prudência versa sobre as coisas realizáveis. Pois a prudência não considera somente os universais, nos quais não há ação; mas é preciso que conheça os singulares, pelo fato de que é ativa, isto é, princípio do agir, ora, a ação versa sobre os singulares. E daí vem que alguns, não tendo a ciência dos universais, são mais ativos acerca de certas coisas particulares do que aqueles que têm a ciência universal, pelo fato de serem peritos em outras particulares. Por exemplo, se algum médico sabe que as carnes leves são de boa digestão e saudáveis, mas ignora quais carnes sejam leves, não poderá produzir a saúde; mas aquele que sabe que as carnes das aves são leves e saudáveis poderá curar mais. Porque, portanto, a prudência é razão ativa, é preciso que o prudente tenha ambos os conhecimentos, a saber, tanto o dos universais quanto o dos particulares; ou, se lhe acontece ter somente um deles, deve antes ter este, a saber, o conhecimento dos particulares, que estão mais próximos da operação.