Lição 17
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E também confundem o furor com a fortaleza. Com efeito, parecem corajosos também os que agem por furor, assim como as feras se lançam sobre os que as ferem, porque também os corajosos têm certa aparência de furor; pois o furor é o mais impetuoso diante dos perigos. Por isso também Homero: infunde vigor ao furor, e: desperta o vigor e o furor, e: e por ambas as narinas exalava um vigor áspero e o sangue fervia. Pois todas essas expressões parecem significar o levantar-se e o ímpeto do furor. [572]
Os corajosos, portanto, agem por causa do bem, mas o furor coopera com eles. [573]
Ora, as feras agem por causa da tristeza, isto é, por serem feridas ou por temerem, pois, se estivessem na floresta ou no pântano, não avançariam. De modo algum são corajosas as feras impelidas ao perigo pela dor e pelo furor, sem prever nenhum dos perigos. Porque, assim, também os asnos famintos seriam corajosos, pois, ainda que golpeados, não desistem do pasto. Mas também os adúlteros, por causa da concupiscência, realizam muitas coisas audaciosas. De modo algum são corajosas as coisas impelidas ao perigo pela dor ou pelo furor. Ora, aquilo que se dá por causa do furor parece ser o mais natural, e, quando lhe é acrescentada a escolha e o fim em vista do qual se age, é fortaleza. [574]
E, com efeito, os homens irados sentem dor, mas ao punir se deleitam. Ora, os que por causa disto combatem são combatentes, mas não corajosos; pois não agem por causa do bem nem conforme a razão, mas por causa da paixão. Têm, contudo, algo de semelhante. [576]
Nem tampouco os que são de boa esperança, por serem diferentes, são corajosos, pois confiam nos perigos por terem, muitas vezes, vencido a muitos. [577]
São, porém, semelhantes, porque ambos são audazes. Mas os corajosos são audazes pelas razões já ditas, ao passo que estes o são por julgarem-se melhores e por nada haverem de sofrer. E o mesmo fazem também os embriagados, pois tornam-se de boa esperança. Quando, porém, não lhes acontecem tais coisas, fogem. Ora, era próprio do corajoso suportar as coisas que são e parecem terríveis ao homem, porque é um bem, ou porque não fazê-lo é torpe. [578]
Por isso parece ser próprio do mais corajoso permanecer destemido e imperturbável diante dos temores repentinos, mais do que diante dos previstos de antemão. Pois isto provém mais do hábito, uma vez que provém menos da preparação; com efeito, as coisas previstas alguém pode antecipadamente escolhê-las por razão e reflexão, ao passo que as repentinas se enfrentam segundo o hábito. [579]
Também os ignorantes parecem ser corajosos, e não estão longe daqueles que têm boa esperança; são, porém, inferiores enquanto não têm nenhuma dignidade, ao passo que aqueles a têm. Por isso estes últimos permanecem por algum tempo, mas aqueles, uma vez enganados, se percebem que a coisa é diferente do que suspeitavam, fogem. Foi o que sofreram os Argivos, ao cair sobre os Lacônios como se fossem Sicônios. E foram chamados corajosos como certos homens que são tidos por corajosos. [580]
571. E ainda o furor sobre a coragem etc. Postos dois modos de coragem não verdadeira, aqui ele sustenta um terceiro modo, que é aquele por meio da ira que impele ao ato de coragem.
E a respeito disto faz duas coisas:
primeiro, mostra como o furor inclina ao ato de coragem;
segundo, mostra a diferença em relação à verdadeira coragem, ali: os corajosos, portanto etc.
Diz, pois, primeiro que os homens, no uso comum da linguagem, atribuem o furor à coragem, na medida em que atribuem à coragem aquelas coisas que se fazem por furor. Pois os enfurecidos ou irados parecem ser corajosos, assim como também as feras que, incitadas ao furor, se lançam sobre os homens que as ferem; a coragem, com efeito, tem certa semelhança com o furor, enquanto o furor conduz aos perigos com máximo ímpeto, ao passo que o corajoso se dirige aos perigos com grande virtude de ânimo.
572. E a respeito disto aduz os exemplos de Homero, que, admoestando alguém, diz: infunde virtude ao teu furor, isto é, para que o furor seja regulado pela virtude do ânimo, e: ergue a virtude e o furor, isto é, para que, pela ira, a virtude do ânimo se torne mais pronta para o ato; e em outro lugar diz de alguns que por ambas as narinas exalavam uma áspera virtude, isto é, o furor que, por causa do aquecimento do coração, faz respirar com grande ímpeto, a tal ponto que às vezes, pelo ímpeto da ira, o sangue borbulha pelas narinas. E acrescenta o Filósofo que as referidas palavras de Homero parecem significar que o furor se ergue e dá ímpeto aos atos de coragem.
573. Depois, quando diz: os corajosos, portanto etc., mostra a diferença desta coragem em relação à verdadeira coragem.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, mostra o que convém à verdadeira coragem;
segundo, o que convém ao furor das feras, ali: as feras, porém, por causa da tristeza etc.;
terceiro, o que convém ao furor humano, ali: e também os homens irados etc.
Diz, pois, primeiro que os corajosos não são impelidos a realizar as obras de coragem pelo ímpeto do furor, mas pela intenção do bem; o furor, porém, intervém secundariamente no ato deles ao modo de cooperador.
574. Depois, quando diz: as feras, porém, por causa da tristeza etc., mostra como a ira das feras se relaciona com o ato de coragem. E diz que as feras enfrentam os perigos por causa da tristeza, isto é, dos males que atualmente padecem, por exemplo, quando são feridas, ou por causa do temor daqueles males que temem vir a padecer, por exemplo, se temem ser feridas; pois, incitadas por isso à ira, atacam os homens, porque, se estivessem na floresta ou no pântano, não seriam feridas nem temeriam ser feridas, e assim não sairiam para atacar os homens. Donde é evidente que nelas não há verdadeira coragem, pois são impelidas aos perigos somente pela dor e pelo furor, embora não prevejam nenhum dos perigos, como fazem aqueles que operam corajosamente por escolha. Pois, se as feras que agem por paixão fossem corajosas, pela mesma razão também os asnos seriam corajosos, os quais, por causa da concupiscência do alimento, não deixam os pastos quando têm fome, ainda que sejam golpeados. E semelhantemente também os <adúlteros>, por causa da concupiscência dos prazeres venéreos, enfrentam muitas coisas ousadas, e todavia neles não há verdadeira coragem, porque não operam por escolha do bem, mas por causa da paixão. E assim é evidente que nem mesmo os animais que, por causa da dor, são impelidos aos perigos têm verdadeira coragem.
575. E embora se tenha posto a semelhança quanto à concupiscência e ao furor, contudo, entre todas as paixões, aquela coragem que se dá por causa do furor parece ser mais conatural à verdadeira coragem, de tal modo que, se de antemão receber a escolha e o devido fim em vista do qual opere, será verdadeira coragem. E significativamente diz recebendo de antemão, porque na verdadeira coragem o furor deve seguir a escolha da razão, não precedê-la.
576. Depois, quando diz: e também os homens irados etc., mostra o que convém à coragem que provém da ira nos homens, os quais de fato parecem operar por escolha e intentar algum fim, a saber, a punição daquele contra quem se irritam. Donde diz que os homens, enquanto estão irados, sofrem por causa da injúria infligida e ainda não vingada, mas, quando já punem, então se deleitam, como quem satisfaz o próprio desejo. Ora, aqueles que por isso operam corajosamente podem, de fato, ser chamados combatentes, mas não corajosos, porque não operam por causa do bem nem sob a condução da razão, mas por causa da paixão pela qual desejam a vingança. Têm, todavia, algo semelhante à verdadeira coragem, como é evidente pelo que foi dito.
577. Depois, quando diz: tampouco os de boa esperança etc., estabelece um quarto modo de coragem, segundo o qual alguns são chamados corajosos por causa da esperança.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, estabelece este modo de coragem;
segundo, compara este modo à verdadeira coragem, ali: são semelhantes, porém etc.;
terceiro, infere um certo corolário do que foi dito, ali: por isso, é do mais corajoso etc.
Diz, pois, primeiro que, assim como aqueles que operam corajosamente por causa da ira não são verdadeiramente corajosos, assim também não o são aqueles que são chamados verdadeiramente corajosos apenas por causa da esperança da vitória; há, todavia, neles certa preeminência pela qual diferem dos outros, porque, pelo fato de terem vencido muitas vezes em meio aos perigos, confiam também agora obter a vitória, não por causa de alguma perícia que tenham adquirido pela experiência, pois isto pertence ao segundo modo de coragem, mas apenas por causa da confiança que receberam das frequentes vitórias.
578. Depois, quando diz: são semelhantes, porém etc., compara esta coragem à verdadeira coragem. E diz que aqueles que assim têm boa esperança são semelhantes aos verdadeiramente corajosos, porque ambos são audazes, isto é, enfrentam audazmente os perigos, não, porém, no sentido em que se chama audaz alguém de modo vicioso. Mas diferem, porque os corajosos enfrentam audazmente por causa do que foi dito, a saber, por escolha e por causa do bem, ao passo que aqueles que são de boa esperança enfrentam audazmente porque estimam ser melhores no combate e não vir a sofrer nada de contrário por parte dos outros. E é semelhante ao caso dos embriagados, que também, multiplicados os espíritos por causa do vinho, se tornam de boa esperança. Mas, quando a tais homens não acontecem as coisas que esperam, não persistem, mas fogem. Ora, é próprio do corajoso suportar, por causa do bem ou para evitar a torpeza do desonesto, aquelas coisas que são terríveis ao homem segundo a verdade da coisa e não somente segundo a aparência.
579. Depois, quando diz: por isso, é do mais corajoso etc., infere um certo corolário do que foi dito. Pois, como pertence ao corajoso suportar as coisas terríveis segundo a inclinação do próprio hábito, parece ser mais corajoso aquele que, nos temores repentinos, não teme nem se perturba, do que se isto acontecesse naquelas coisas que são manifestas de antemão. Pois isto parece provir mais do hábito, na medida em que menos parece ter-se preparado para suportar tais coisas; com efeito, aquelas coisas que são previstas de antemão alguém pode escolhê-las por razão e deliberação, mesmo contra a inclinação do hábito ou da paixão, pois nenhuma inclinação do hábito ou da paixão é tão veemente que a razão não possa resistir-lhe, contanto que permaneça no homem o uso da razão, pelo qual ele se relaciona com os opostos; mas, nas coisas repentinas, o homem não pode deliberar, donde parece operar por inclinação interior, que é segundo o hábito.
580. Depois, quando diz: também parecem corajosos etc., estabelece um quinto modo de coragem não verdadeira. E diz que também aqueles que ignoram os perigos parecem ser corajosos, na medida em que enfrentam audazmente as coisas que são perigosas, ainda que a eles não pareçam sê-lo, e não diferem muito daqueles que são corajosos por causa da boa esperança (pois uns e outros estimam que os perigos não os ameaçam),
581. mas nisto diferem: que os ignorantes não estimam que aquelas coisas que enfrentam sejam absolutamente e em si mesmas perigosas, ao passo que aqueles que são de boa esperança conhecem, de fato, quais sejam em si mesmas as coisas que enfrentam, mas todavia não as reputam perigosas para si; donde aqueles que são ignorantes são tanto piores do que os que são de boa esperança quanto não têm nenhuma dignidade, mas correm aos perigos apenas por defeito de conhecimento, ao passo que aqueles que são de boa esperança têm alguma dignidade, na medida em que, por causa do costume de vencer, confiam bem de si. E por isso aqueles que são de boa esperança, mesmo depois de conhecerem os perigos, permanecem por algum tempo, isto é, até que a grandeza do perigo supere a sua esperança; mas aqueles que são corajosos por ignorância, logo que conhecem que a coisa é diferente do que suspeitavam, fogem. Foi o que sofreram os Argivos, que eram certos cidadãos da Grécia, os quais, ao pensarem que combatiam contra os Sicônios, que eram outros cidadãos mais fracos do que eles, caíram sobre alguns outros mais fortes.
582. Por fim, conclui que aqueles de quem se falou são chamados corajosos na medida em que são tidos por corajosos por causa da semelhança dos atos, não porque sejam verdadeiramente corajosos.