Lição 16
Amusement
Ora, existindo o descanso na vida e neste convívio com o jogo, parece também aqui haver certa conversação harmoniosa, e sobre quais coisas convém dizer e como, e igualmente também ouvir; diferirá, porém, tanto em dizer em tais matérias como em ouvir tais coisas. É manifesto, porém, que também a respeito destas coisas há certa superabundância e defeito do meio. [850]
Aqueles que na zombaria superabundam parecem ser bufões e importunos, desejando de todo modo o riso e visando mais a provocar o riso do que a dizer coisas decorosas e a não entristecer aquele de quem zombam. [852]
Mas aqueles que nem eles próprios dizem algo engraçado e são molestos aos que o dizem parecem ser rústicos e duros. [853]
Já os que brincam moderadamente são chamados espirituosos, isto é, os que dão bom rumo às coisas. [854]
Pois tais movimentos parecem ser próprios do caráter; e assim como os corpos são julgados pelos movimentos, assim também os caracteres. [855]
Ora, sendo o riso abundante e alegrando-se a maioria com a brincadeira e com o zombar mais do que convém, também os bufões são chamados espirituosos, como se fossem agradáveis. Que, porém, diferem, e não pouco, é manifesto pelo que foi dito. [856]
Ao hábito médio é próprio também a discrição. Ora, é próprio do discreto dizer e ouvir tais coisas quais convêm ao homem modesto e liberal. [857]
Pois há certa conveniência em dizer e ouvir tais coisas na parte da brincadeira, e a brincadeira do homem liberal difere daquela que é servil, e a do instruído difere da do não instruído. [858]
Poderá alguém ver isto também a partir das comédias dos antigos e dos modernos. Para aqueles, com efeito, a zombaria era a torpeza da linguagem; para estes, porém, é mais a insinuação. Diferem, porém, não pouco estas coisas quanto à honestidade. [859]
E se, portanto, aquele que zomba bem deve ser determinado por dizer as coisas que convêm ao liberal, ou por não entristecer o ouvinte, ou até por deleitá-lo. [860]
Ou também tal coisa é indeterminada; pois uma coisa é odiosa a um e deleitável a outro, e tais coisas ouvirá; pois aquilo que o ouvinte suporta, isso também parece fazer. [861]
Não fará, decerto, tudo; pois a zombaria é certa injúria, e os legisladores proíbem dizer certas coisas injuriosas. Convinha, porém, talvez também zombar; o agradável e liberal assim se comportará, sendo como que uma lei para si mesmo. Tal, portanto, é o homem médio, seja chamado discreto, seja espirituoso. [862]
O bufão, porém, é menor do que o zombador. E não poupa nem a si mesmo nem aos outros, contanto que provoque o riso. E diz tais coisas das quais nenhuma diria o homem agradável, e algumas até nem ouviria. [864]
Já o rústico é inútil para tais conversações; pois, nada contribuindo, entristece-se em tudo. Parece, porém, que o descanso e a brincadeira são necessários na vida. [865]
Portanto, são três os meios-termos que foram mencionados na vida. Ora, todos eles dizem respeito à comunicação de certas palavras e obras. Diferem, porém, porque este se ocupa das verdades, e aqueles do que é deleitável. E dentre aqueles que se ocupam do deleite, um está nas brincadeiras, e outro nas conversações que dizem respeito a outra parte da vida. [866]
850. Ora, existindo o descanso etc. Depois que o Filósofo tratou das virtudes que dizem respeito aos atos humanos sérios, aqui trata de certa virtude que diz respeito às coisas lúdicas.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, mostra que a respeito das brincadeiras pode haver virtude e vício;
segundo, trata da virtude que diz respeito às brincadeiras e dos vícios opostos, ali: aqueles que na zombaria etc.;
terceiro, mostra a diferença desta virtude em relação às acima mencionadas, ali: portanto, são três os que foram mencionados etc.
Quanto ao primeiro, deve-se considerar que, a respeito daquilo que é mau por si mesmo e não pode ter razão de bem, não há virtude nem vício, como se mostrou no livro II; se, portanto, a brincadeira não pudesse ter razão alguma de bem, não haveria a respeito da brincadeira virtude alguma,
851. tem, porém, alguma razão de bem, na medida em que é útil à vida humana: pois, assim como o homem precisa, cessando às vezes dos trabalhos corporais, de descansar, assim também precisa que, da intenção do ânimo com que o homem se aplica às coisas sérias, o ânimo do homem às vezes descanse, o que se faz pela brincadeira. E por isso diz que, havendo certo descanso do homem da ansiedade das preocupações nesta vida e no convívio humano por meio da brincadeira, e tendo assim a brincadeira razão de bem útil, segue-se que nas brincadeiras pode haver certa conveniente conversação dos homens entre si, a saber, que o homem diga e ouça quais coisas convém e como convém; e, contudo, em tais matérias muito difere dizer e ouvir, pois muitas coisas um homem ouve decentemente, que não diria decentemente. Ora, sempre que há diferença entre aquilo que convém fazer e aquilo que não convém, aí não só há um meio, mas também superabundância e defeito em relação ao meio. Por isso, a respeito da brincadeira acontece haver o meio da virtude e os extremos.
852. Depois, quando diz: aqueles que na zombaria etc., trata do meio e dos extremos.
E primeiro mostra o que é próprio de cada um deles;
segundo, mostra o que convém a cada um deles, ali: ao hábito médio etc.
Quanto ao primeiro, faz três coisas:
primeiro, mostra o que é o meio e o extremo na brincadeira;
segundo, mostra que isso pertence à diversidade dos costumes, ali: pois tais movimentos etc.;
terceiro, mostra que às vezes o extremo é tomado pelo meio, ali: sendo, porém, o riso abundante etc.
Quanto ao primeiro, faz três coisas.
Primeiro, mostra o que pertence à superabundância. E diz que aqueles que superabundam na zombaria da brincadeira são chamados bufões, isto é, saqueadores do templo, à semelhança dos milhafres que voavam ao redor do templo para arrebatar as entranhas dos animais imolados; assim também estes espreitam para poder arrebatar algo que convertam em zombaria; e por isso tais pessoas são importunas, porque desejam provocar o riso de onde quer que seja, no que se empenham mais do que em dizer coisas decorosas, isto é, honestas, e em não perturbar aquele a quem lançam a zombaria da brincadeira: pois preferem dizer coisas torpes ou com que os outros se perturbem a não induzir os homens ao riso.
853. Em segundo lugar, em qui autem neque ipsi etc., mostra o que é o vício por defeito. E diz que aqueles que nem querem dizer algo divertido e são molestos para com os que dizem, uma vez que por isso se perturbam irracionalmente, parecem ser agrii, isto é, agrestes, e duros, como aqueles que não se abrandam com o deleite do gracejo.
854. Em terceiro lugar, em moderate autem ludentes etc., mostra o que é o meio no gracejo. E diz que aqueles que se comportam moderadamente nos gracejos são chamados eutrapelos, como que bem versáteis, porque justamente convertem em riso, de modo conveniente, aquilo que é dito ou feito.
855. Em seguida, quando diz: moris enim etc., mostra que as coisas ditas pertencem à diversidade dos costumes. E diz que os referidos movimentos, a saber, que alguém queira provocar o riso, seja de modo superabundante, seja de modo diminuto, seja de modo moderado, são um certo indício da disposição moral interior; pois, assim como pelos movimentos corporais exteriores se distinguem as disposições interiores dos corpos, assim também pelas operações exteriores dos homens se distinguem os costumes interiores.
856. Em seguida, quando diz: redundante autem risu etc., mostra como o extremo é às vezes tomado pelo meio. E diz que, porque o riso redunda em muitos e muitos são os que mais do que é preciso se deleitam no gracejo e em dizer aos outros injúrias jocosas, daí vem que entre eles os bomolochos são chamados eutrapelos, porque lhes são agradáveis; pois superabundam no gracejo, o qual a maioria dos homens ama de modo superabundante. Todavia, os bomolochos diferem não pouco dos eutrapelos, como fica claro pelo que foi dito acima.
857. Em seguida, quando diz: medio autem habitui etc., mostra o que pertence propriamente aos referidos hábitos.
E primeiro mostra o que pertence propriamente ao meio da virtude;
em segundo lugar, o que pertence ao extremo da superabundância, em: bomolochus autem etc.;
em terceiro lugar, o que pertence ao extremo do defeito, em: agrios autem etc.
Quanto ao primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra como o eutrapelo se comporta universalmente a respeito do gracejo;
em segundo lugar, como se comporta especialmente a respeito das injúrias jocosas, em: et utrum igitur etc.
Quanto ao primeiro, faz três coisas.
Primeiro, propõe que ao hábito médio pertence usar de gracejos convenientes. E diz que ao hábito médio desta virtude pertence aquilo que é próprio do epidexios, isto é, daquele que está bem apto e disposto para conviver com os homens. Pois a tal pessoa pertence dizer e ouvir tais coisas jocosas que convêm ao homem modesto e liberal, isto é, àquele que tem o ânimo livre das paixões servis.
858. Em segundo lugar, em est enim quaedam etc., prova e aduz uma razão para aquilo que dissera. A saber, porque, onde quer que se encontre algo que possa ser feito de modo decente, isso pertence à virtude. Ora, acontece que alguém, gracejando, diga e ouça certas coisas convenientes; e isto fica claro pela diferença dos gracejos; pois o gracejo do homem liberal, que, a saber, se propõe por sua própria vontade a agir bem, difere do gracejo do homem servil, que se ocupa de coisas servis, e o gracejo do homem disciplinado, que, a saber, está instruído sobre como deve gracejar, difere do gracejo do homem indisciplinado, que por nenhuma disciplina se refreia no gracejo. Donde é manifesto que ao hábito médio da virtude pertence dizer e ouvir coisas decentes no gracejo.
859. Em terceiro lugar, em videbit autem utique aliquis etc., aduz um sinal para o que foi dito acima, a saber, que difere o gracejo do disciplinado e do indisciplinado. E diz que isto aparece sobretudo ao considerar tanto nas antigas quanto nas novas comédias, isto é, nas representações das conversações dos homens entre si. Porque, se em algum lugar em tais narrações ocorresse alguma palavra torpe, disto para alguns se gerava riso, quando tais torpezas eram convertidas em riso, mas para outros se gerava suspeita, a saber, quando suspeitavam que aqueles que diziam torpezas tivessem algum mal no coração. Ora, é manifesto que não pouco importa para a honestidade do homem se, ao gracejar, diz coisas torpes ou honestas.
860. Em seguida, quando diz: et utrum igitur etc., mostra como o virtuoso se comporta a respeito das injúrias jocosas.
E quanto a isto faz três coisas.
Primeiro, propõe a questão, a saber, se deve ser determinado que alguém injuria bem no gracejo pela parte daquilo que diz, porque, a saber, diz aquilo que convém que diga o homem liberal, isto é, virtuoso e modesto, ou se não se determina o bom injuriante por isso, mas antes pela parte do fim ou do efeito, porque, a saber, se propõe não contristar o ouvinte, ou mesmo, o que é mais, se propõe deleitá-lo.
861. Em segundo lugar, em vel et tale quidem etc., responde à questão quanto ao segundo membro. E diz que isto é indeterminado, a saber, o que contrista ou deleita o ouvinte, porque a diversos são odiosas e deleitáveis coisas diversas, e cada um ouvirá de bom grado aquilo que lhe é deleitável; pois aquilo que alguém suporta pacientemente ouvir, isso parece fazer, a saber, propondo-o aos outros, contanto que não se proponha contristá-los.
862. Em terceiro lugar, em non utique omne etc., mostra que algo é determinado quanto ao primeiro membro, isto é, quanto às injúrias que são ditas. Pois é manifesto que o virtuoso não fará, isto é, não proporá, toda injúria, porque a injúria é uma certa contumélia, quando na injúria se diz algo pelo qual o homem é difamado, e isto os legisladores proíbem dizer. Há, porém, certas injúrias que não proíbem, as quais é preciso dizer por causa do deleite ou por causa da correção dos homens, contanto que se faça sem infâmia; pois aquele que se comporta ao injuriar como homem agradável e liberal é para si mesmo lei, uma vez que por sua própria escolha evita aquilo que a lei proíbe e usa daquilo que a lei concede.
863. Por último, conclui que tal pessoa, qual foi descrita, é a que possui o meio, quer seja chamada epidexios, isto é, apto, quer eutrapelo, isto é, bem versátil.
864. Em seguida, quando diz: bomolochus autem etc., trata do vício da superabundância. E diz que o bomolocho é menor que o escarnecedor, porque o escarnecedor se propõe confundir alguém, o que o bomolocho não se propõe, mas apenas se propõe provocar o riso. E não se poupa a si mesmo nem aos outros, se deve provocar o riso, porque converte em riso os próprios exemplos e os ditos e feitos dos outros. E diz tais coisas das quais nenhuma diria o homem agradável, isto é, virtuoso, e algumas delas não só não as diria, como nem sequer as ouviria.
865. Em seguida, quando diz: agrios autem etc., trata do vício do defeito. E diz que aquele que é agrios, isto é, agreste, é inútil para tais conversações, a saber, jocosas; pois nada contribui para elas, mas em todas se contrista. E nisto é vicioso, uma vez que abomina totalmente o gracejo, que é necessário à vida humana como um certo repouso.
866. Em seguida, quando diz: tres igitur etc., mostra a diferença desta virtude em relação às duas referidas. E diz que são três os meios referidos na vida humana, os quais todos versam sobre a comunicação de palavras e obras. Diferem, porém, entre si, porque um deles consiste a respeito da verdade nos ditos ou feitos, e os outros dois a respeito do deleitável. Destes, um consiste a respeito do deleite que há nos gracejos, e o outro consiste a respeito do deleite que há nos colóquios que pertencem à outra parte da vida, a saber, à que consiste nas coisas sérias.