Lição 6
Friendship in Relation to its Subject
Nos severos, porém, e nos velhos, tanto menos se dá a amizade quanto mais são intratáveis e menos se alegram com as conversas; pois estas coisas parecem ser máximamente próprias da amizade e produtoras da amizade. Por isso os jovens tornam-se amigos rapidamente, mas os velhos não; pois não se tornam amigos daqueles com quem de modo algum se alegram, e semelhantemente também os severos. Mas tais são de fato benevolentes uns para com os outros, pois querem bens e acorrem às necessidades; contudo não são de todo amigos, por não permanecerem juntos nem se alegrarem uns com os outros, o que parece ser máximamente próprio da amizade. [1607]
Ora, não é possível ser amigo de muitos segundo a amizade perfeita, assim como tampouco amar muitas ao mesmo tempo; pois assemelha-se a uma superabundância, e tal coisa é feita, por natureza, para ser dirigida a um só. [1609]
Ora, agradar máximamente a muitos ao mesmo tempo não é fácil; e talvez nem sequer fosse bom. [1610]
É preciso, porém, adquirir também a experiência e tornar-se familiar no trato, o que é totalmente difícil. [1611]
Por causa do útil, porém, e do deleitável, é possível agradar a muitos; pois muitos são tais e em pouco tempo prestam os serviços. [1612]
Destas, porém, parece ser mais amizade a que é por causa do deleitável, quando as mesmas coisas são feitas por ambos e se alegram uns com os outros ou com as mesmas coisas, tais como são as amizades dos jovens. [1613]
Pois nestas há mais de liberalidade, ao passo que as que são por causa do útil são próprias dos negociantes. [1614]
E os felizes, quanto às coisas úteis, de nada carecem, mas carecem das deleitáveis, pois querem conviver com alguns; e suportam o que é triste por pouco tempo, mas de modo contínuo ninguém o suportaria, nem mesmo o próprio bem, se este lhe fosse triste. [1615]
Por isso buscam amigos deleitáveis. É preciso, porém, talvez, que estes sejam também bons, sendo tais, e ainda bons para eles mesmos, pois assim haverá neles tudo o que convém aos amigos. [1616]
Os que estão nos poderes, porém, parecem usar de amigos divididos; pois uns lhes são úteis e outros deleitáveis, mas ambos os mesmos não de todo. [1617]
Pois não buscam nem os deleitáveis com a virtude nem os úteis para as coisas boas, mas a estes como espirituosos, desejando o deleitável, e àqueles como hábeis para executar o que é ordenado, e estas coisas não de todo se encontram no mesmo. [1618]
O deleitável e útil ao mesmo tempo já foi dito que é o virtuoso. Mas ao que sobreexcede não se torna tal amigo, se não for também sobreexcedido na virtude. Se, porém, não for, não iguala segundo a proporção do sobreexcesso. Ora, não de todo costumam tais tornar-se assim. [1619]
São, portanto, as ditas amizades na igualdade. Pois as mesmas coisas se dão em ambos e querem-nas mutuamente, ou trocam uma pela outra, por exemplo, o deleite pela utilidade. [1621]
Que estas amizades, porém, são menos amizades e permanecem menos, já foi dito, e parecem, pela semelhança e pela dessemelhança com uma mesma coisa, ser e não ser amizades. Pois pela semelhança com aquela que é segundo a virtude parecem ser amizades; pois esta tem o deleitável, aquela o útil, e estas coisas existem também naquela. Mas pelo fato de que aquela é imutável e permanente, ao passo que estas rapidamente se desfazem e diferem em muitas outras coisas, não parecem amizades, por causa da dessemelhança com aquela. [1622]
1607. Nos severos, porém, e nos velhos etc. Depois que o Filósofo distinguiu as diversas espécies de amizade, aqui trata destas amizades por comparação com o sujeito, que são os próprios amigos.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, trata da aptidão e da inaptidão de alguns para a amizade;
segundo, trata da multidão dos amigos, em: não é possível, porém, ser amigo de muitos etc.;
terceiro, da distinção deles, em: os que estão, porém, nos poderes etc.
Diz, pois, primeiro que nos homens severos e velhos tanto menos se dá a amizade quanto mais são intratáveis, isto é, porque, presumindo de si mesmos, seguem seu próprio parecer e por isso não podem concordar com os outros; alegram-se também menos com as conversas dos outros, tanto porque estão atentos a si mesmos, quanto por causa da suspeita que têm dos outros; ora, estas coisas parecem ser máximamente obras da amizade e causadoras dela, a saber, a concórdia e a conversa dos amigos.
1608. E daí vem que os jovens, que muito se alegram com as conversas e facilmente concordam com os outros, tornam-se amigos rapidamente, o que não acontece com os velhos; pois não podem tornar-se amigos daqueles de cujo convívio e conversa não se alegram, e a mesma razão vale para os severos, a saber, os que são litigiosos e mordazes a respeito das coisas que são feitas pelos outros. Ora, tais, isto é, os velhos e os severos, podem ser benevolentes, enquanto querem bens aos outros no afeto e também no efeito os socorrem nas necessidades; contudo não se tornam verdadeiramente amigos, por isto: que não convivem nem se alegram na sociedade dos amigos, o que parece ser máximamente obra da amizade.
1609. Em seguida, quando diz: não é possível, porém, ser amigo de muitos etc., trata da multidão dos amigos.
E a respeito disto faz três coisas:
primeiro, mostra que, segundo a amizade perfeita, que é dos bons, não é possível ter muitos amigos;
segundo, mostra que isto é possível nas outras duas amizades, a saber, as que são por causa do útil e do deleitável, em: por causa do útil, porém etc.;
terceiro, compara ambos os amigos entre si, em: destas, porém, mais etc.
Mostra, pois, primeiro que, segundo a amizade perfeita, que é por causa do bem da virtude, não é possível que alguém seja amigo de muitos, por três razões.
A primeira delas é que, sendo tal amizade perfeita e máxima, tem a semelhança de uma certa superabundância no amar, se se considerar a saber a quantidade do amor; mas, se se considerar a razão de amar, não pode haver ali superabundância, pois não é possível que a virtude e o virtuoso sejam amados em demasia por outro virtuoso, que pela razão ordena seus afetos. Ora, o amor superabundante não é feito, por natureza, para muitos, mas somente para um só, como se vê no amor venéreo, segundo o qual não é possível que um homem ame ao mesmo tempo muitas mulheres de modo superabundante. Logo, a amizade perfeita dos bons não pode ser tida em relação a muitos.
1610. A segunda razão põe em a muitos, porém etc. É a seguinte. Segundo a amizade perfeita, os amigos agradam-se muito mutuamente. Mas não é fácil que muitos agradem ao mesmo tempo muito a um só, porque não se encontram muitos nos quais não haja algo que desagrade a um homem de certo modo disposto, por causa dos muitos defeitos dos homens e das contrariedades deles entre si, do que resulta que, enquanto um agrada muito, o outro não possa agradar muito; talvez também não fosse bom nem conveniente que a um só homem muitos agradassem muito, porque, enquanto convivesse com muitos, não poderia estar atento a si mesmo. Logo, segundo a amizade perfeita não há muitos amigos.
1611. A terceira razão põe em é preciso, porém etc. É a seguinte. Na amizade perfeita é preciso adquirir, pelo convívio, a experiência do amigo. Ora, isto é muito difícil e assim não pode acontecer em relação a muitos. Logo, segundo a amizade perfeita não há muitos amigos.
1612. Em seguida, quando diz: por causa do útil, porém etc., mostra que nas outras duas amizades, a saber, as que são por causa do útil e do deleitável, é possível que o homem tenha muitos amigos aos quais agrade: e isto por duas razões:
primeiro, porque se encontram muitos que podem ser úteis e deleitáveis,
segundo, porque não se requer a experiência de longo tempo, mas basta para tais amizades que também em pouco tempo prestem mutuamente deleite ou também alguma utilidade.
1613. Em seguida, quando diz: destas, porém etc., compara os amigos das duas amizades entre si.
E primeiro propõe o que pretende. E diz que, entre os ditos amigos, que podem ser muitos, parece ser mais amizade a daqueles que são amigos por causa do deleitável, se, contudo, o mesmo for feito por ambos, isto é, se cada um oferecer ao outro o deleite; pois assim se alegram nas mesmas coisas uns com os outros, o que é próprio da amizade, pois é sinal de que é uma só a alma daqueles que se alegram nas mesmas coisas; mas isto não acontece quando de uma parte se oferece o deleitável e da outra parte o útil. Ora, tais são as amizades dos jovens, isto é, os que de ambas as partes se amam por causa do deleitável.
1614. Em segundo lugar, em magis enim in his etc., prova o proposto com duas razões.
A primeira delas é que, na amizade do deleitável, os amigos se amam mutuamente de modo mais liberal do que na amizade do útil, na qual se requer uma recompensa de lucro, e assim tal amizade parece ser como que uma espécie de negociação. E, deste modo, a amizade que se dá por causa do deleitável é mais forte, sendo mais semelhante à amizade perfeita, que é ao máximo liberal, na medida em que, segundo ela, os amigos são amados por si mesmos.
1615. A segunda razão ele expõe em et beati autem etc. E é esta. Os homens venturosos, isto é, os que abundam em bens, não precisam de amigos úteis, porque os venturosos são suficientes a si mesmos; precisam, porém, de amigos deleitáveis, porque é preciso que convivam com alguns, o que não pode acontecer sem deleite; pois os homens suportam algo triste por um breve tempo, mas continuamente ninguém poderia suportar algo com tristeza, nem sequer o próprio bem honesto, se lhe fosse triste (e daí vem que os homens que não se deleitam nas obras da virtude não podem perseverar nelas). Assim, pois, fica claro que a amizade do deleitável é mais forte do que a amizade do útil, sendo necessária a um maior número e a homens melhores.
1616. Em terceiro lugar, em propter quod amicos etc., infere um certo corolário do que foi dito. Pois, uma vez que nem mesmo o bem honesto, se for triste, alguém pode suportar continuamente, daí também vem que é preciso que os amigos por causa da virtude sejam mutuamente deleitáveis. É preciso, além disso, que, assim como são bons em si mesmos, assim também sejam bons um para o outro, pois deste modo terão tudo quanto se requer na amizade.
1617. Em seguida, quando diz: qui autem in potestatibus etc., trata da divisão dos amigos.
E a respeito disso faz três coisas.
Primeiro, propõe o que pretende, a saber, que os homens que estão constituídos em posições de poder se servem de amigos divididos, de tal modo que uns dos amigos lhes são úteis e outros deleitáveis, mas não acontece facilmente que os mesmos homens lhes sejam amigos de ambos os modos.
1618. Em segundo lugar, em neque enim delectabiles etc., prova o proposto, a saber, porque tais poderosos não buscam os deleitáveis segundo a virtude (pois este deleite tem anexa uma utilidade), nem tampouco buscam os úteis para os bens honestos (utilidade que, na verdade, tem adjunto um deleite), mas, em vista do deleite, apetecem certos eutrapélicos, isto é, jocosos, como os histriões; e por causa da utilidade apetecem certos amigos hábeis, isto é, industriosos, para executar tudo o que ordenarem, seja bom seja mau; ora, essas duas coisas não se dão no mesmo, a saber, a industriosidade e a jocosidade, porque os homens industriosos não se dão às brincadeiras, mas às coisas sérias. Donde fica claro que os poderosos têm amigos divididos.
1619. Em terceiro lugar, em delectabilis autem etc., responde a uma certa objeção. Pois alguém poderia dizer que os poderosos têm os mesmos amigos deleitáveis e úteis, porque, como foi dito acima, o estudioso, isto é, o virtuoso, é ao mesmo tempo deleitável e útil. Mas ele responde que o virtuoso não se torna amigo de um homem que o superexcede em poder ou riquezas, a não ser [também] que o virtuoso seja superexcedido pelo mais poderoso também na virtude. Mas, se isso não acontece, aquele mais poderoso que é superexcedido na virtude não iguala segundo o análogo, isto é, não recompensa o virtuoso segundo a proporção; de modo que, assim como o virtuoso lhe defere como ao mais poderoso, assim ele defira ao virtuoso como ao melhor;
1620. pois, na maior parte das vezes, os homens, quanto excedem em poder e riquezas, tanto se estimam melhores. Ora, não se costumam encontrar tais poderosos que também excedam na virtude ou defiram ao virtuoso como aos melhores.
1621. Em seguida, quando diz: sunt autem etc., mostra que as referidas espécies de amizade consistem na igualdade.
E a respeito disso faz duas coisas.
Primeiro, mostra o proposto, concluindo do que precede que as referidas amizades consistem na igualdade. E, porque a respeito da amizade que se dá por causa do bem isso é manifesto, prova o proposto na amizade do útil e do deleitável, a saber, porque ou querem e fazem as mesmas coisas um para o outro, isto é, recompensando deleite com deleite ou utilidade com utilidade, ou trocam uma coisa pela outra, isto é, utilidade por deleite ou ao contrário.
1622. Em segundo lugar, em quoniam autem etc., mostra como as duas espécies se relacionam com a noção de amizade. E diz ser manifesto, pelo que precede, que são menos amizades e menos permanecem do que a amizade perfeita, que é a dos bons, segundo cuja semelhança e dessemelhança parecem ser e não ser amizades. Pois, na medida em que têm semelhança com a amizade perfeita, parecem ser amizades, a saber, enquanto uma delas tem o deleitável e a outra o útil, ao passo que a amizade perfeita tem ambos.
1623. Mas quanto às demais coisas são dessemelhantes, a saber, enquanto a amizade perfeita é imutável e permanente, ao passo que as outras se transmutam velozmente; diferem também em muitas outras coisas, como fica claro do que precede; e, por causa dessa dessemelhança, não parecem ser verdadeiras amizades.