Lição 1
Proportionate Properties in Friendship
Ora, em todas as amizades de espécies dissemelhantes, o proporcional é que iguala e preserva a amizade, conforme se disse. Por exemplo, também na vida política se faz ao curtidor, pelos calçados, uma retribuição segundo o valor, e ao tecelão e aos demais. [1757]
Aqui, pois, foi descoberta uma medida comum, a moeda, e a ela se referem todas as coisas e por ela se medem. [1759]
Na amizade, porém, por vezes aquele que ama acusa, porque, amando em excesso, não é retribuído no amor, nada tendo de amável, se assim acontecer. Muitas vezes, porém, aquele que é amado acusa, porque o outro, tendo antes prometido tudo, agora nada cumpre. [1760]
Tais coisas acontecem quando um ama o amado por causa do deleite, e o outro ama o amante por causa do útil. Ora, essas coisas não existem em ambos; pois, existindo a amizade por causa dessas coisas, dá-se a dissolução quando não se realizam aquelas em vista das quais amavam; com efeito, não se amavam a si mesmos, mas as coisas existentes, que não permanecem sendo, e por isso também tais são as amizades. Mas a que é dos costumes, existindo por si mesma, permanece, conforme se disse. [1761]
Contendem, porém, também quando lhes acontecem coisas diferentes e não as que desejam; pois é semelhante a nada receber quando não se obtém aquilo que se deseja. Por exemplo, também ao citaredo aquele que prometia, quanto melhor cantasse, tanto mais; mas, ao pedir de manhã as promessas, disse que havia retribuído deleite por deleite. Se, portanto, ambos queriam isto, ter-se-ia suficientemente; mas se um queria o deleite e o outro o lucro, e este tem, aquele porém não, não haverá o que é bom segundo a comunicação; pois a aquilo de que se encontra necessitado alguém atende, e por causa disso dará estas coisas. [1762]
Ora, cabe determinar o valor devido a cada um: ao que dá primeiro ou ao que recebe primeiro. Pois aquele que dá primeiro parece deixar isso àquele, o que dizem que também Protágoras fazia: pois, quando ensinava quaisquer coisas, mandava o discípulo honrar tanto quanto lhe parecia digno saber, e recebia tanto. Em tais matérias, porém, a alguns basta, mas ao homem o salário. [1764]
Ora, os que recebem primeiro o dinheiro e depois nada fazem daquilo que disseram, por causa das exageradas promessas, convenientemente se tornam alvo de acusações; pois não cumprem o que reconheceram. Isto, porém, talvez sejam os sofistas forçados a fazer, porque ninguém daria dinheiro por aquilo que eles sabem. Estes, pois, dos quais recebiam o salário sem o fazer, convenientemente estão sob acusações. [1766]
Mas naqueles casos em que não se faz por causa de um compromisso de prestação de serviço, aqueles que dão primeiro por causa de si mesmos, disse-se que são inacusáveis. Pois tal é a amizade segundo a virtude, e a retribuição deve fazer-se segundo a escolha; pois estas coisas são próprias do amigo e da virtude. Assim parece também aos que comunicam a filosofia; pois o valor não se mede pelo dinheiro, nem se poderá fazer um preço equivalente, mas talvez o que é suficiente, como acontece para com os deuses e os pais. [1767]
Não sendo, porém, a doação de tal natureza, mas em vista de algo, talvez, sobretudo, seja preciso que a retribuição se faça de modo que pareça a ambos ser segundo o valor. Se, porém, isto não acontecer, não só parecerá necessário que o que recebeu primeiro determine, mas também justo. [1769]
Pois em quanto este foi ajudado ou por quanto quereria o deleite, tanto, recebendo, terá deste o valor; e, com efeito, nas compras assim parece fazer-se. [1770]
Em alguns lugares, porém, há leis de que não há ações judiciais para as convenções voluntárias, de modo que convém que aquele em quem se confiou seja pago conforme comunicou com este. Pois àquele a quem se concedeu, julgam mais justo que ele determine, do que ao que concedeu. Muitas coisas, com efeito, não são avaliadas igualmente pelos que as têm e pelos que querem recebê-las: pois as coisas próprias e as que dão parecem a cada um muito dignas. Mas, contudo, a retribuição faz-se conforme aquilo que os que recebem determinam. [1771]
Convém, porém, talvez avaliar não em tanto quanto parece digno ao que já tem, mas em quanto foi avaliado antes de tê-lo. [1772]
1757. Ora, em todas as amizades de dissemelhantes etc. Depois que o Filósofo mostrou o que é a amizade e determinou sobre as espécies de amizade, aqui, no nono livro, determina sobre as propriedades da amizade.
E primeiro apresenta as propriedades da amizade;
em segundo lugar, levanta certas dúvidas acerca do que foi predeterminado, ali: duvida-se, porém, se é preciso etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro determina aquelas coisas que pertencem à conservação e à dissolução da amizade;
em segundo lugar, determina sobre os efeitos da amizade, ali: ora, os atos de amizade que se dirigem aos amigos etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro determina aquelas coisas que pertencem à conservação da amizade;
em segundo lugar, determina certas coisas que pertencem à sua dissolução, ali: há, porém, uma dúvida também acerca daquilo etc.
Acerca do primeiro faz três coisas:
primeiro propõe aquilo que é conservativo da amizade;
em segundo lugar, mostra de que modo, pela falta disto, a amizade se perturba, ali: aqui, pois, foi descoberta etc.;
em terceiro lugar, ensina os remédios contra tal perigo, ali: ora, o valor etc.
1758. E porque nas amizades de iguais é manifesto que a amizade se conserva por isto: que se retribui algo equivalente, torna manifesto primeiro de que modo se pode conservar a amizade que é de pessoas dissemelhantes entre si, o que parecia ser mais duvidoso. E diz que, em todas as tais amizades de pessoas dissemelhantes, por exemplo, do pai para com o filho, do rei para com o súdito, e assim por diante, iguala e conserva a amizade isto que se apresenta como proporcional, isto é, aquilo que é proporcional a cada um. E isto manifesta pelo exemplo daquilo que acontece na justiça política, segundo a qual, como se disse no quinto livro, ao curtidor, pelos calçados que deu, faz-se a retribuição segundo o valor, o que é segundo a proporção; e o mesmo se dá com o tecelão e com os demais artífices.
1759. Depois, quando diz: aqui, pois etc., mostra de que modo, por causa da falta do proporcional, a amizade se perturba.
E acerca disto faz duas coisas.
Primeiro apresenta a causa pela qual tal perturbação não pode ocorrer acerca da comutação da justiça. E diz que aqui, isto é, nas comutações políticas, foi descoberta uma certa medida comum, a saber, o dinheiro, ao qual, como a uma medida, se referem todas as coisas comutáveis, e o preço delas se mede pelo dinheiro; e por isso pode ser certo o que se deve retribuir por cada coisa. Mas aquelas coisas que se comutam segundo a amizade, por exemplo, os afetos e os obséquios dos amigos, não podem ser avaliadas em dinheiro.
1760. E por isso, em segundo lugar, ali: na amizade, porém etc., mostra de que modo, por causa da falta do proporcional, a amizade se perturba.
E primeiro mostra-o a partir do fato de que não se faz a recompensa de um amigo ao outro;
em segundo lugar, a partir do fato de que não se recompensa aquilo que se buscava, ali: contendem, porém etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro apresenta a causa da perturbação da amizade;
em segundo lugar, mostra em que amizades isto acontece, ali: tais coisas, porém, acontecem etc.
Acerca do primeiro deve-se considerar que a recompensa da amizade se observa segundo duas coisas.
Primeiro, quanto ao afeto interior do amor, e quanto a isto diz que por vezes na amizade acontece que aquele que ama acusa aquele a quem ama, porque, embora ele mesmo ame em excesso, não é retribuído no amor por aquele a quem ama, e por vezes sua acusação é injusta, por exemplo, se acontecer que ele não tenha em si nada pelo qual seja digno de ser amado.
Em segundo lugar, faz-se a recompensa da amizade quanto aos dons ou obséquios exteriores, e quanto a isto diz que muitas vezes aquele que é amado acusa o amante, porque, tendo-lhe antes prometido tudo, no fim nada cumpre.
1761. Depois, quando diz: tais coisas, porém, acontecem etc., mostra em que amizades estas coisas acontecem. E diz que as referidas acusações mútuas entre o amante e o amado acontecem quando o amante ama o amado por causa do deleite, mas o amado ama o amante por causa do útil. Ora, acontece por vezes que essas coisas não existem, porque, a saber, nem o amado apresenta deleite ao amante, nem o amante utilidade ao amado, e por isso dá-se a dissolução da amizade, uma vez que não permanecem aquelas coisas por causa das quais unicamente havia a amizade; pois não se amavam mutuamente por si mesmos, mas por causa das coisas referidas, a saber, a utilidade e o deleite, que não são permanentes, e por isso tampouco tais amizades são permanentes. Mas, como se disse acima, a amizade que é por causa dos bons costumes é permanente, porque segundo ela os amigos se amam mutuamente por si mesmos.
1762. Depois, quando diz contendem, porém etc., mostra de que modo a amizade se perturba por isto: que não se recompensa aquilo que se buscava, mas outra coisa. E diz que muitas vezes os amigos contendem entre si quando não lhes são recompensadas aquelas coisas que desejam, mas certas outras; pois, quando alguém não obtém aquilo que deseja, é semelhante a como se nada lhe fosse dado.
1763. E apresenta o exemplo de um certo citaredo a quem alguém prometeu que, quanto melhor cantasse, tanto mais lhe daria; mas, quando de manhã, depois do canto, pediu que as promessas lhe fossem cumpridas, respondeu o que havia prometido que ele mesmo lhe havia retribuído deleite por deleite, porque, por sua vez, o havia deleitado em algo. E, se de fato o citaredo buscava o deleite, a recompensa feita é suficiente; mas se o que prometeu buscava o deleite, e o citaredo o lucro, a comunicação não foi bem feita, porque um deles tem aquilo que buscava, mas o outro não; pois aquele que apresenta algo atende àquilo de que necessita, e por causa disso dá aquilo que dá.
1764. Depois, quando diz: ora, o valor etc., ensina os remédios contra as referidas perturbações da amizade.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro ensina quais coisas devem ser observadas para que se conserve a paz da amizade;
segundo resolve uma certa dúvida, ali: têm, porém, uma dúvida etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro mostra a quem cabe avaliar a devida retribuição nas amizades;
segundo mostra de que modo se faz tal retribuição, ali: naquelas, porém, em que não se faz etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro mostra que a avaliação da devida retribuição cabe àquele que primeiro recebeu o benefício;
segundo mostra como, por sua falta, decorre a acusação nas amizades, ali: os que recebem primeiro etc.
1765. Diz, portanto, primeiro que ordenar o valor da retribuição cabe a ambos, isto é, àquele que antes deu e àquele que antes recebeu o benefício. Mas, contudo, aquele que antes deu parece conceder o juízo da retribuição àquele que recebeu, como se diz do filósofo Protágoras que, quando ensinava os discípulos, ordenava que o discípulo o honrasse com presentes tanto quanto lhe parecesse digno dar por aquilo que sabia mediante o seu ensino, e tanto recebia de cada um deles. Pois, em tais obséquios de amizade, basta a alguns que lhes seja retribuído segundo a avaliação dos que recebem os benefícios, e assim parecem receber suficientemente a paga, porque a paga é dada ao homem, isto é, ao benfeitor, e não à coisa prestada; e por isso parece ser suficiente a paga que basta ao homem, ainda que não iguale o benefício.
1766. Em seguida, quando diz: os que recebem primeiro etc., mostra como a perturbação da amizade provém da falta daqueles que primeiro recebem. E diz que aqueles que primeiro recebem o dinheiro, isto é, antes de servir, e depois não fazem nada daquilo que prometeram, porque talvez as promessas tenham sido excessivas, convenientemente são acusados, porque não cumprem aquilo que prometeram. E isto os sofistas são obrigados a fazer, porque por tudo o que sabem nada lhes seria dado, se o deixassem ao arbítrio dos que aprendem, como fazia Protágoras, visto que toda a sua ciência consiste em certas coisas aparentes e frívolas. Assim, pois, estes convenientemente são acusados, quando não faziam aquilo pelo que recebiam a paga.
1767. Em seguida, quando diz: naquelas, porém etc., mostra como deve ser feita a retribuição nas amizades.
E primeiro quanto às amizades que são segundo a virtude;
segundo quanto às outras amizades, ali: não sendo, porém, tal etc.
Diz, portanto, primeiro que, se a concessão do benefício não é feita por causa de um acordo, isto é, da promessa de algum serviço determinado, como acontecia nos casos precedentes, acontece por vezes que aqueles que antes dão benefícios a alguns por causa dos próprios que recebem, e não em vista de alguma retribuição, é manifesto pelo que foi dito no livro oito que tais são inacusáveis. Pois isto pertence à amizade que é segundo a virtude, na qual a retribuição deve ser feita olhando para a escolha ou afeto de quem a faz; pois a escolha pertence sobretudo à amizade e à virtude, como acima foi dito.
1768. E assim como isto se observa na amizade que consiste na comunicação da virtude, assim também se deve observar na comunicação da filosofia, por exemplo, entre o mestre e o discípulo; pois a dignidade da filosofia que alguém aprende não pode ser medida segundo o dinheiro, nem pode o discípulo devolver ao mestre um preço equivalente, mas talvez se deva devolver aquilo que basta, como também a Deus e aos pais.
1769. Em seguida, quando diz: não sendo, porém, tal etc., mostra de que modo se faz a retribuição nas outras amizades.
E acerca disto faz três coisas:
primeiro propõe aquilo que pretende;
segundo prova o proposto, ali: pois tanto quanto etc.;
terceiro responde a uma questão tácita, ali: é preciso, porém, talvez etc.
Diz, portanto, primeiro que, se não há tal doação, isto é, que alguém dê ao amigo por causa dele mesmo, mas na doação há a intenção de receber algo, é preciso que se faça uma retribuição que pareça digna a ambos, isto é, tanto ao que dá quanto ao que recebe. E, se isto não acontecer, deve avaliar a devida retribuição aquele que primeiro teve o benefício; e isto não só é necessário, mas também justo.
1770. Em seguida, quando diz: pois tanto quanto etc., prova o proposto.
E primeiro pela razão;
segundo pela autoridade da lei, ali: em algum lugar, porém etc.
Diz, portanto, primeiro que, tanto quanto alguém é ajudado pelo benefício do amigo na amizade útil, ou tanto quanto recebe o deleite na amizade deleitável, tanto é digno que retribua, porque assim também parece acontecer nas compras, isto é, que tanto quanto alguém avalia a coisa, por tanto a compra. Ora, quanto alguém foi ajudado pelo benefício ou quanto recebeu de deleite, pode sabê-lo sobretudo ele mesmo, que foi ajudado ou deleitado; e por isso é necessário e justo que a retribuição seja confiada à sua avaliação.
1771. Em seguida, quando diz: em algum lugar, porém etc., mostra o mesmo pela autoridade da lei. E diz que em algumas cidades se estabelece por lei que não se faça nenhuma reparação acerca das convenções voluntárias, se depois algum deles se considerar enganado, como se fosse preciso que, se alguém voluntariamente confiou a outro o seu benefício ou obséquio, se pague segundo o juízo daquele em quem confiou, conforme o modo da comunicação inicial. Pois os legisladores julgam que aquele a quem desde o princípio se concedeu deve ordenar a retribuição de modo mais justo do que aquele que a ele concedeu. E isto porque há muitas coisas que não são igualmente apreciadas por aqueles que já as têm e por aqueles que de novo querem recebê-las; pois parece a cada um que os próprios bens que dá são dignos de grande preço. Mas, contudo, a retribuição deve ser feita tanto quanto avaliam os que recebem.
1772. Em seguida, quando diz: é preciso, porém etc., responde a uma questão tácita, dizendo que aquele que recebe o benefício deve apreciá-lo não segundo aquilo que lhe parece digno depois que já o tem, mas quanto era apreciado antes de tê-lo. Pois os homens costumam apreciar os bens temporais uma vez obtidos menos do que quando, não os tendo, os desejavam, e sobretudo estando em necessidade.