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Lição 16

Happiness and Changes of Fortune

Ora, seguir as fortunas de modo algum é correto; pois não é nelas que está o bem ou o mal, mas a vida humana necessita delas, como dissemos; são, porém, dominantes na felicidade as operações que são segundo a virtude, e as contrárias, do contrário. [187]

Ora, também aquilo que agora foi investigado dá testemunho a esta afirmação. Pois em nada existe tanta constância das obras humanas como nas operações que são segundo a virtude. De fato, estas parecem ser mais permanentes até do que as próprias ciências. E, entre elas mesmas, as mais dignas de honra são mais permanentes, porque os felizes vivem nelas de modo máximo e de modo máximo contínuo. Isto, com efeito, parece ser a causa de não se dar esquecimento a respeito delas. [188]

Existirá, pois, no feliz aquilo que foi investigado, e ele será tal por toda a vida. [191]

Pois sempre, ou o mais possível de todos, operará e contemplará aquilo que é segundo a virtude. [192]

E suportará as fortunas do melhor modo e em tudo agirá de modo inteiramente prudente, como quem é verdadeiramente bom e tetrágono sem censura. [193]

Ora, acontecendo muitas coisas segundo a fortuna e diferindo em grandeza e pequenez, é manifesto que as pequenas prosperidades, e igualmente as pequenas adversidades, não produzem inclinação da vida. Mas as grandes e numerosas, quando acontecem bem, tornarão a vida mais feliz, pois estas por natureza servem de ornamento, e seu uso torna-se bom e virtuoso. Ao contrário, porém, os acontecimentos atribulam e perturbam o feliz, pois trazem tristezas e impedem muitas operações. Contudo, mesmo nestas coisas resplandece o bem, pois, quando alguém suporta com facilidade muitas e grandes desventuras, não é por insensibilidade à dor, mas por ser viril e magnânimo. [194]

Ora, se as operações são dominantes na vida, como dissemos, nenhum dos felizes se tornará miserável, pois jamais operará coisas odiosas e más. Com efeito, assim como julgamos que o homem verdadeiramente bom e sábio suporta convenientemente as fortunas e sempre opera o melhor a partir das coisas existentes, como a partir do que lhe é dado; e que o bom general usa do exército presente do modo mais bélico possível, e que o cortador de couros faz o melhor calçado a partir dos couros que lhe são dados, e do mesmo modo também todos os demais artífices. Ora, sendo assim, o miserável de modo algum se tornará feliz, nem o feliz cairá nas fortunas de Príamo. <... > Pois não será facilmente movido para longe da felicidade, nem por desventuras casuais, mas por grandes e numerosas, e, após tais coisas, não se tornará de novo feliz em pouco tempo, mas, se de fato o for, em muito e completo tempo, tendo-se tornado nele mesmo abundante de grandes e bons bens. [198]

Que impede, então, de chamar feliz aquele que opera segundo a virtude perfeita e está suficientemente dotado de bens exteriores, não por um tempo qualquer, mas por uma vida completa? Ou deve-se acrescentar: e que há de viver assim e há de terminar segundo a razão, já que o futuro nos é incerto, ao passo que estabelecemos a felicidade como fim e perfeito de todo e por todos os modos? Ora, sendo assim, chamaremos felizes, dentre os viventes, aqueles em quem existem e existirão as coisas que foram ditas, mas felizes enquanto homens. E, portanto, sobre estas coisas fique dito até aqui. [200]

187. Ora, seguir as fortunas etc. Tendo exposto a dúvida, aqui o Filósofo resolve a dúvida.

E, primeiro, resolve a dúvida principal;

segundo, a secundária, ali: ora, as fortunas dos descendentes etc.

Quanto ao primeiro, faz duas coisas:

primeiro, expõe algo que é necessário para a solução da questão;

segundo, aplica-o à solução da presente questão, ali: ora, também dá testemunho a esta afirmação etc.

Quanto ao primeiro, deve-se considerar que a felicidade consiste essencialmente na operação da virtude, ao passo que os bens exteriores, que estão sujeitos à fortuna, pertencem à felicidade de modo secundário e como que instrumental. E por isso diz que não devemos seguir as fortunas ao julgar que alguém é miserável ou feliz, porque o bem ou o mal do homem, que se considera segundo a razão, não consiste principalmente nestas coisas, mas a vida humana necessita delas instrumentalmente, como foi dito; ao passo que as operações segundo a virtude são principais e detêm o domínio no fato de alguém ser feliz, de modo que, principalmente por isto, alguém é chamado feliz: por operar segundo a virtude; e as operações contrárias, isto é, viciosas, têm a primazia e o domínio no contrário, isto é, na miséria, de modo que verdadeiramente miserável é aquele que insiste em operações viciosas.

188. Em seguida, quando diz: ora, também dá testemunho a esta afirmação etc., adapta o que foi dito à solução da questão.

E, primeiro, mostra que as operações segundo a virtude se encontram como as mais permanentes entre todas as coisas humanas;

segundo, mostra que, segundo o que foi dito, a felicidade poderá permanecer por toda a vida, ali: existirá, pois etc.;

terceiro, mostra que, segundo o que foi dito, evitam-se todos os inconvenientes, ali: ora, se as operações são dominantes na vida etc.

Diz, pois, primeiro que a esta afirmação, pela qual dizemos que as operações segundo a virtude são principais na felicidade, dá testemunho aquilo que um pouco acima foi investigado sobre a permanência da felicidade. Pois nada de humano se encontra tão constantemente permanente como as operações segundo a virtude; com efeito, é manifesto que os bens exteriores, e também os interiores pertencentes ao corpo, por serem materiais e corporais, estão por si sujeitos à mudança, ao passo que aqueles que pertencem à alma só o estão por acidente, donde estão menos sujeitos à mudança. E, dentre aqueles que pertencem à alma humana, alguns pertencem puramente ao intelecto, como as ciências, e outros às operações da vida, como as virtudes, as quais são mais permanentes até do que as próprias disciplinas, isto é, do que as ciências demonstrativas.

189. Isto, contudo, deve-se entender não quanto à matéria (pois as ciências demonstrativas versam sobre coisas necessárias, que é impossível serem de outro modo), mas deve-se entender quanto ao exercício do ato; pois não nos incumbe um exercício da contemplação das ciências tão contínuo como o das operações segundo a virtude, uma vez que continuamente nos ocorrem aquelas coisas nas quais é preciso agirmos segundo a virtude ou contra a virtude, como o uso dos alimentos, o convívio com as mulheres, as conversações dos homens entre si e outras coisas do gênero, nas quais continuamente se ocupa a vida humana; donde é preciso que o hábito da virtude se firme mais no homem pelo costume do que o hábito da ciência.

190. E, entre as próprias virtudes, aquelas que são as mais dignas de honra parecem ser mais permanentes, tanto porque são mais intensas, quanto também porque se opera mais continuamente para que se viva segundo elas; e tais são as operações das virtudes em que consiste a felicidade, porque são as mais perfeitas, como foi dito. E isto parece ser a causa por que o homem não se esquece de ser virtuoso, a saber, porque continuamente o homem se exercita nestas coisas. Há também outra causa, a saber, porque a virtude consiste principalmente na inclinação do apetite, que não é suprimida pelo esquecimento.

191. Em seguida, quando diz: existirá, pois etc., mostra que, segundo o que foi dito, a felicidade poderá durar por toda a vida. E diz que, sendo as operações segundo a virtude as mais permanentes, como foi dito, se nelas se colocar principalmente a felicidade, como dissemos, seguir-se-á que no feliz haverá aquilo que foi investigado na questão precedente, a saber, que ele será tal por toda a sua vida.

E isto prova primeiro pelas próprias operações, ali: pois sempre etc.

192. Pois aquele que tem um hábito perfeito sempre pode operar segundo aquele hábito, ou o mais continuamente de todos; ora, o feliz tem a virtude perfeita, como foi estabelecido acima; logo, ele sempre ou o mais possível poderá operar, na vida ativa, aquilo que é segundo a virtude, e contemplar, na vida contemplativa.

193. Segundo, ali: e suportará as fortunas etc., mostra o mesmo a partir dos bens da fortuna, que são secundários na felicidade. E diz que o feliz suportará do melhor modo todas as fortunas e em tudo se comportará de modo inteiramente prudente, como quem é verdadeiramente bom, não segundo a mera aparência, e é tetrágono sem censura, isto é, perfeito nas quatro virtudes cardeais, como alguns expõem; mas isto não parece estar de acordo com a intenção de Aristóteles, que nunca se encontra a fazer tal enumeração; antes, chama tetrágono ao que é perfeito na virtude, à semelhança de um corpo cúbico que tem seis superfícies quadradas, razão pela qual se mantém bem sobre qualquer superfície; e, de modo semelhante, o virtuoso se comporta bem em qualquer fortuna. Portanto, uma vez que pertence à virtude suportar bem todas as fortunas, é evidente que por nenhuma mudança de fortuna o feliz desistirá da operação da virtude.

E isto mostra em seguida em particular, como que por modo de divisão, quando acrescenta: ora, acontecendo muitas coisas etc.

194. E diz que, uma vez que muitos bens e males acontecem segundo a fortuna, os quais diferem em grandeza e pequenez, é manifesto que as pequenas prosperidades e, do mesmo modo, as pequenas desventuras não inclinam a vida da felicidade para a miséria ou vice-versa. Mas, se forem muitas e grandes, serão ou bens ou males. Se bens, contribuirão para que a vida do homem seja mais feliz, porque, como foi dito acima, a felicidade necessita de bens exteriores, seja para o ornamento, seja enquanto são instrumentos da operação segundo a virtude; e quanto ao primeiro diz que eles por natureza servem ao mesmo tempo para ornar a vida do feliz; quanto ao segundo, porém, diz que o uso dos bens exteriores é bom e virtuoso, a saber, enquanto a virtude usa deles como de certos instrumentos para bem agir.

195. Mas, se acontecerem ao contrário, isto é, se forem muitos e grandes males, causam de fato ao feliz uma certa tribulação por fora e uma perturbação por dentro; porque por dentro trazem tristezas e por fora impedem de muitas boas operações. Contudo, por elas não se suprime totalmente a operação da virtude, porque a virtude usa bem até das próprias desventuras, e assim resplandece nelas o bem da virtude, a saber, enquanto alguém suporta com facilidade muitas e grandes desventuras, não por não sentir a dor ou a tristeza, como sustentaram os Estoicos, mas porque, como quem é viril e magnânimo, a sua razão não sucumbe a tais tristezas.

196. Pois esta foi a diferença entre os Estoicos e os Peripatéticos, cujo chefe foi Aristóteles: os Estoicos sustentaram que a tristeza de modo algum recai sobre o virtuoso, porque afirmavam que nenhum bem do homem consiste nas coisas corporais e exteriores; os Peripatéticos, porém, admitiam no homem virtuoso uma tristeza moderada pela razão, mas não uma que subvertesse a razão; pois sustentavam que nas coisas corporais e exteriores consiste algum bem do homem, não, na verdade, o máximo, mas o mínimo, a saber, enquanto ajuda e orna a virtude.

197. Parece, contudo, que ao virtuoso pode acontecer alguma mudança que lhe retire totalmente a felicidade, impedindo por completo a operação da virtude, por exemplo, se, por doença, incorrer em mania ou furor ou qualquer demência. Mas, como a felicidade só se busca na vida humana, que é segundo a razão, faltando o uso da razão, falta tal vida; donde o estado de demência deve ser reputado, quanto à vida humana, como o estado de morte; e por isso parece que se deve dizer o mesmo daquele que permaneceu na operação da virtude até a demência, como se tivesse permanecido até a morte.

198. Em seguida, quando diz: ora, se as operações são etc., a partir do que foi exposto exclui os inconvenientes que pareciam seguir-se. E diz que, se as operações virtuosas têm o domínio na felicidade, como foi dito, não se segue que o feliz se torne miserável por causa das desventuras, por causa das quais não operará coisas odiosas e más, isto é, contrárias à virtude. Mas podemos julgar dele com probabilidade que, por causa da virtude perfeita que tem, como quem é verdadeiramente bom e sábio, suportará convenientemente todas as fortunas, o que é operar segundo a virtude em qualquer fortuna; e, ainda que não faça as mesmas operações em cada uma, mas segundo aquilo que existe, isto é, o próspero ou o adverso, sempre operará do melhor modo, como que usando daquilo que a fortuna traz como de certas coisas que lhe são dadas; assim como também pertence ao bom general usar do exército que lhe foi dado do modo mais bélico possível segundo a condição do exército, fazendo, contudo, de um modo se tiver no exército soldados experientes e de outro modo se tiver um exército de recrutas; e, de modo semelhante, pertence ao cortador de couros fazer o melhor calçado a partir dos couros que lhe são dados, fazendo, contudo, melhores calçados de um couro do que de outro; e o mesmo se dá também em todos os demais artífices.

199. E, sendo assim, jamais o miserável será tornado feliz por algumas prosperidades sobrevindas, porque usará mal dessas prosperidades e, operando viciosamente, permanecerá sempre miserável; e, de modo semelhante, aquele que é feliz não cairá nas desventuras de Príamo: primeiro, porque prudentemente se acautelará contra elas; segundo, porque, se sobrevierem de improviso, as suportará do melhor modo, como foi dito. E assim não será facilmente transmutado da felicidade para a miséria, nem por quaisquer desventuras, mas por muitas e grandes que o afastarão da operação da razão; e, se assim tiver sido tornado infeliz, não se tornará de novo feliz com facilidade, mas em muito tempo receberá abundância de coisas grandes e boas, tanto pelo exercício do ato virtuoso, quanto também pela reparação da fortuna exterior.

200. Em seguida, quando diz: que impede, então etc., conclui a sua sentença sobre a felicidade. E diz que nada impede de dizer que é feliz aquele que opera segundo a virtude perfeita e tem bens exteriores suficientes para a operação da virtude, não, na verdade, por algum breve tempo, mas em uma vida completa, isto é, por longo tempo. E isto, de fato, basta para que alguém possa ser chamado feliz nesta vida,

201. mas, se quisermos tomar a felicidade segundo o melhor que pode ser, então deve-se acrescentar à noção de felicidade que ele há de viver, como foi dito, por toda a sua vida e há de terminar, isto é, morrer, segundo convém à razão; e a razão por que parece que se deve acrescentar esta condição é que o futuro nos é desconhecido, ao passo que à noção de felicidade, por ser o fim último, parece pertencer tudo aquilo que é perfeito e ótimo; e deste segundo modo falava Sólon sobre a felicidade. E, sendo assim como foi dito, aqueles, dentre o número dos viventes nesta vida, em quem existem no presente e existirão no futuro as coisas que foram ditas;

202. mas, porque estas coisas parecem não alcançar de todo as condições da felicidade estabelecidas acima, acrescenta que a tais chamamos felizes enquanto homens, os quais, nesta vida sujeita à mutabilidade, não podem ter a bem-aventurança perfeita. E, porque o desejo da natureza não é vão, pode-se com razão julgar que se reserva ao homem a bem-aventurança perfeita depois desta vida. Por fim, conclui dizendo que sobre estas coisas fique dito até aqui.