Skip to main content

Lição 8

Eubulia (Excellence in Deliberating)

Ora, é preciso examinar a respeito da eubulia o que ela é: se é uma certa ciência, ou opinião, ou eustoquia, ou algum outro gênero. [1217]

Certamente não é ciência. Pois não indagam a respeito daquilo que sabem, ao passo que a eubulia é um certo conselho, e quem delibera indaga e raciocina. [1218]

Mas, contudo, tampouco é eustoquia. Pois a eustoquia é sem raciocínio e veloz, ao passo que se delibera por muito tempo, e diz-se que é preciso executar velozmente o que foi deliberado, mas deliberar lentamente. [1219]

Além disso, a sagacidade é distinta da eubulia; ora, a eustoquia é uma certa sagacidade. [1220]

Nem tampouco a eubulia é opinião de modo algum. [1221]

Mas, porque quem delibera mal erra, ao passo que quem delibera bem delibera retamente, é manifesto que a eubulia é uma certa retidão, mas não pertencente nem à ciência nem à opinião. Pois da ciência não há retidão, pois nem tampouco erro; ora, a retidão da opinião é a verdade. [1222-1225]

Semelhantemente, também já está determinado tudo aquilo de que há opinião. Contudo, a eubulia não é sem raciocínio; portanto, difere da mente. Pois esta ainda não é uma enunciação; e, com efeito, a opinião não é uma indagação, mas já uma certa enunciação, ao passo que quem delibera, quer delibere bem quer mal, indaga algo e raciocina. [1226]

Mas a eubulia é uma certa retidão do conselho. Por isso é preciso indagar primeiro o que é o conselho e a respeito de que ele é. [1227]

Ora, porque a retidão se diz de muitos modos, é manifesto que nem toda retidão é eubulia. Com efeito, o incontinente e o perverso alcançará pelo raciocínio aquilo que se propõe ver; portanto, deliberará retamente, embora obtendo um grande mal. Ora, deliberar bem parece ser algo bom. Pois é uma tal retidão do conselho a eubulia que é adquiridora do bem. [1228]

Mas também é possível alcançar isto por um silogismo falso, e alcançar aquilo que é preciso fazer, mas não por aquilo pelo qual é preciso, e sim havendo um termo médio falso; portanto, tampouco isto é de algum modo eubulia, segundo a qual, na verdade, se alcança aquilo que é preciso, mas não por aquilo pelo qual era preciso. [1230]

Além disso, acontece que um, ao deliberar, alcança em muito tempo, mas outro, velozmente. Portanto, tampouco aquilo é de algum modo eubulia, mas a retidão que é segundo o útil e a respeito do que é preciso e do modo e do momento. [1232]

Além disso, há o deliberar bem absolutamente e o deliberar bem em vista de um certo fim. Aquele, na verdade, é absolutamente o que dirige em vista de um fim absoluto, mas o outro é o que dirige em vista de um certo fim. Se, pois, deliberar bem pertence aos prudentes, a eubulia será a retidão que é conforme ao que conduz ao fim a respeito do qual a prudência tem a verdadeira estimativa. [1233]

1217. Ora, é preciso examinar etc. Depois que o Filósofo tratou da prudência e das outras virtudes intelectuais principais, aqui trata de certas virtudes adjuntas à prudência.

E primeiro trata de cada uma delas em si mesma;

segundo, compara-as entre si e com a prudência, ali: todos os hábitos precedentes etc.

A respeito do primeiro, faz três coisas:

primeiro, trata da eubulia;

segundo, da synesis, ali: ora, há também a synesis etc.;

terceiro, sobre a gnome, ali: chama-se, porém, gnome etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro investiga o gênero da eubulia, mostrando que é uma certa retidão;

segundo mostra de que é a retidão, ali: nem, porém, da ciência etc.;

terceiro mostra qual seja a retidão, ali: porque, porém, a retidão etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas:

primeiro (diz) sobre o que versa a intenção;

segundo desenvolve, ali: ciência, na verdade etc.

Diz, portanto, primeiro que, após o tratado sobre as principais virtudes intelectuais, é preciso tomar, para o complemento do conhecimento das referidas virtudes, a questão da eubulia, que se chama boa deliberação: o que ela seja, isto é, se é uma certa ciência ou ao menos opinião ou também eustoquia, isto é, boa conjectura, ou em que outro gênero esteja.

1218. Em seguida, quando diz: ciência, na verdade etc., mostra qual seja o gênero da eubulia.

E primeiro mostra em que gênero não esteja;

segundo conclui o seu gênero, ali: mas porque aquele que etc.

Acerca do primeiro faz três coisas:

primeiro mostra que a eubulia não é ciência;

segundo, que não é eustoquia, ali: mas, contudo, nem a eustoquia etc.;

terceiro, que não é opinião, ali: nem, de modo algum, opinião etc.

Diz, portanto, primeiro que a eubulia não é ciência. O que fica claro por isto: os que têm ciência já não indagam sobre aquilo que sabem, mas têm dele conhecimento certo; a eubulia, porém, sendo uma certa deliberação, está acompanhada de uma certa investigação; pois aquele que delibera indaga e raciocina, mas a ciência se tem no termo da investigação; logo, a eubulia não é ciência.

1219. Em seguida, quando diz: mas, contudo, nem a eustoquia etc., mostra que a eubulia não é eustoquia, por dupla razão.

A primeira delas é esta. A eustoquia, isto é, a boa conjectura, é sem a investigação da razão e é veloz; pois advém a alguns disto: que têm um juízo pronto do intelecto ou da parte sensitiva para bem estimar acerca de algo, por causa da sutileza dos espíritos, da bondade da imaginação e da pureza dos órgãos sensitivos; coopera também para isto muita experiência. E estas duas coisas faltam à eubulia; pois a eubulia, como se disse, está acompanhada da investigação da razão e, por outro lado, não é veloz, mas antes os bons deliberadores deliberam por muito tempo, a fim de investigar diligentemente tudo o que concerne ao negócio; donde também no provérbio se diz que é preciso executar velozmente aquilo que foi determinado na deliberação, mas deliberar lentamente. Donde fica claro que a eubulia não é eustoquia.

1220. Põe a segunda razão ali: além disso, a sagacidade etc. A qual é esta. Se a eubulia fosse o mesmo que a eustoquia, seria preciso que tudo o que se contém sob a eustoquia se contivesse sob a eubulia; mas a sagacidade é uma certa espécie de eustoquia, pois é uma boa conjectura acerca do descobrimento do meio; contudo, a sagacidade difere da eubulia, porque a eubulia não versa sobre o fim, o qual se comporta nas coisas operáveis como o meio nos silogismos, pois não há deliberação sobre o fim, como se disse no terceiro livro; logo, a eubulia não é o mesmo que a eustoquia.

1221. Em seguida, quando diz: nem, de modo algum, opinião etc., mostra que a eubulia não é opinião, de tal modo, a saber, que não só nem toda opinião é eubulia, mas que nem uma só, isto é, nenhuma opinião é eubulia. E isto fica claro pela mesma razão que acima propôs acerca da ciência: pois, embora aquele que opina não esteja certo, contudo já se determinou a uma só coisa, o que não acontece com aquele que delibera.

1222. Em seguida, quando diz: mas porque aquele que etc., mostra qual seja o verdadeiro gênero da eubulia, por isto: que aquele que delibera mal se diz pecar ao deliberar, ao passo que aquele que delibera bem se diz deliberar retamente, e tal é o eubulo; donde fica manifesto que a eubulia é uma certa retidão.

1223. Em seguida, quando diz: nem, porém, da ciência etc., mostra de que é a retidão.

E primeiro mostra de que não é a retidão;

segundo, de que é, ali: mas uma certa retidão etc.

Acerca do primeiro faz duas coisas.

Primeiro propõe o que pretende. E diz que a eubulia não é retidão nem da ciência nem da opinião.

1224. Segundo, ali: da ciência, na verdade etc., mostra o proposto.

E primeiro quanto à ciência. Pois aquilo parece necessitar de retidão pela qual seja retificado, em que pode haver erro; mas na ciência não pode haver erro, visto que é sempre das coisas verdadeiras; logo, a eubulia não é retidão da ciência.

1225. Segundo, ali: da opinião, porém etc., mostra o proposto quanto à opinião. E isto por dupla razão.

A primeira delas é esta. Da opinião, na verdade, porque nela pode haver erro, pode haver alguma retidão; mas a sua retidão não se chama bondade, mas verdade, assim como também o seu erro se chama falsidade; logo, a eubulia, que se denomina a partir da bondade, não é retidão da opinião.

1226. Põe a segunda razão ali: semelhantemente, porém etc. E diz que tudo aquilo de que se tem opinião já está determinado quanto ao que opina, embora não esteja determinado quanto à verdade da coisa. E nisto a eubulia difere da opinião, porque não é sem a razão que investiga. Pois a eubulia não é enunciação de alguma coisa, mas investigação; ao contrário, porém, a opinião não é investigação, mas uma certa enunciação daquilo que se opina; pois aquele que opina diz ser verdadeiro aquilo que opina, mas aquele que delibera, bem ou mal, ainda indaga algo e raciocina, e ainda não enuncia que assim é ou não é. Logo, a eubulia não é retidão da opinião.

1227. Em seguida, quando diz: mas uma certa retidão etc., mostra de que é a retidão da eubulia. E diz que, visto que não é retidão da ciência nem da opinião, resta que seja uma certa retidão da deliberação, como o próprio nome significa. E daí vem que, para o conhecimento perfeito da eubulia, é preciso indagar o que seja a deliberação e acerca de que ela versa; e estas questões foram acima determinadas no terceiro livro, donde não foi preciso que fossem aqui retomadas.

1228. Em seguida, quando diz: porque, porém, a retidão etc., mostra qual retidão seja a eubulia.

E acerca disto determina quatro condições da eubulia por ordem.

Diz, portanto, primeiro que a retidão se diz de muitos modos,

de um modo propriamente,

de outro modo metaforicamente;

propriamente, na verdade, diz-se nas coisas boas, mas por semelhança diz-se também nas coisas más, como se disséssemos que alguém é um reto ladrão, assim como dizemos que é um bom ladrão.

1229. É manifesto, porém, que nem toda retidão da deliberação é eubulia; pois não há retidão da deliberação nas coisas más, mas somente nas boas. Com efeito, o incontinente e o depravado às vezes alcançam por seu raciocínio aquilo que se propõem conhecer, por exemplo, quando encontram o caminho pelo qual possam perpetrar o pecado, donde por semelhança se diz que deliberam retamente, enquanto, a saber, encontram um caminho que conduz eficazmente ao fim, mas contudo assumem por fim algum grande mal, por exemplo, o furto ou o adultério. Mas deliberar bem, o que significa o nome da eubulia, parece ser algo bom. Donde fica manifesto que tal retidão da deliberação é eubulia, pela qual alguém alcança um fim bom.

1230. Põe a segunda condição ali: mas há também isto etc. Onde se deve considerar que acontece, nas coisas silogísticas, concluir-se às vezes uma conclusão verdadeira por meio de um silogismo falso, e assim também nas coisas operáveis acontece às vezes chegar a um fim bom por algum caminho mau. E isto é o que diz: que acontece às vezes obter um fim bom como que por um silogismo falso, de tal modo, a saber, que alguém, deliberando, chegue àquilo que é preciso fazer, mas não por aquilo por que é preciso, por exemplo, quando alguém furta para socorrer um pobre, e isto é como se, num silogismo, alguém tomasse, para uma conclusão verdadeira, algum termo médio falso.

1231. Pois, embora na intenção o fim esteja como princípio e termo médio, contudo, na via da execução que o deliberador investiga, o fim se comporta como conclusão, e aquilo que é para o fim como termo médio. É manifesto, porém, que não se diz raciocinar retamente aquele que concluísse uma conclusão verdadeira por um meio falso. Donde é consequente que não seja verdadeiramente eubulia aquela segundo a qual alguém alcança o fim que é preciso, mas não pelo caminho pelo qual é preciso.

1232. Põe a terceira condição ali: além disso, há muito tempo etc. E diz que às vezes acontece que alguém põe muito tempo na deliberação, de tal modo que talvez às vezes escape a oportunidade de executar; acontece também que alguém delibera demasiado velozmente e precipitadamente. Donde nem esta é verdadeiramente eubulia, mas sim aquela retidão da deliberação que atende àquilo que é útil ao fim, e ao fim que é preciso, e ao modo e ao tempo.

1233. Põe a quarta condição ali: além disso, há a absolutamente etc. E diz que acontece haver alguém que delibera bem absolutamente para o fim de toda a vida, acontece também haver alguém que delibera retamente para algum fim particular. Donde eubulia absolutamente será aquela que dirige a deliberação ao fim comum de toda a vida humana, ao passo que aquela que dirige a algum fim particular não é eubulia absolutamente, mas uma certa eubulia. Porque, sendo próprio dos prudentes deliberar bem, é preciso que a eubulia absolutamente seja retidão da deliberação em ordem àquele fim, acerca do qual a prudência dita absolutamente tem verdadeira estimação, e este é o fim comum de toda a vida humana, como acima se disse.

1234. De tudo, portanto, o que foi dito pode-se depreender que a eubulia é retidão da deliberação em ordem a um fim absolutamente bom, por caminhos adequados e em tempo conveniente.