Lição 1
Friendship, a Subject of Moral Philosophy
Depois disto, cabe certamente passar a tratar da amizade. Pois é uma certa virtude ou algo acompanhado de virtude. [1538]
Além disso, é sumamente necessária para a vida; pois sem amigos ninguém escolheria viver, mesmo tendo todos os demais bens. Com efeito, para os que enriquecem e possuem principados e poderes parece haver máxima necessidade de amigos. Pois que utilidade tem tal boa fortuna, se se tira o benefício que se faz de modo máximo e mais louvável para com os amigos? Ou como será ela conservada e salvaguardada sem amigos? Pois quanto maior, tanto menos segura. E na pobreza e nas demais infelicidades, consideram os amigos como o único refúgio. E aos jovens serve para não errarem. E aos mais velhos para o serviço e para suprir a deficiência da ação por causa da debilidade do auxílio. E aos que estão no auge, para as boas ações; pois dois que vêm juntos são mais poderosos tanto para entender quanto para agir. [1539]
E parece existir por natureza no que gera para com o que é gerado <...> não só nos homens, mas também nas aves e na maioria dos animais. E entre os que são de uma mesma nação, uns para com os outros, e sumamente entre os homens, donde também louvamos os filantropos. Alguém poderá ver também nos desvios dos caminhos como todo homem é familiar e amigo de todo homem. [1541]
Parece ainda que a amizade mantém coesas as cidades. E os legisladores se empenham mais em torno dela do que em torno da justiça. Pois a concórdia parece ser algo semelhante à amizade, e a esta apetecem ao máximo e expelem ao máximo a discórdia, que é inimiga. [1542]
E, existindo amigos, em nada é necessária a justiça, mas os que são justos necessitam da amizade. E, entre as coisas justas, o que mais favorece a amizade parece ser o justo. [1543]
Não só, porém, é necessária, mas também é boa. Pois louvamos os que amam os amigos, e o amor aos amigos parece ser algo dos bons, e alguns julgam que os mesmos homens são bons e amigos. [1544]
Suscitam-se, porém, a seu respeito não poucas dúvidas. Pois uns põem que ela é uma certa semelhança e que os amigos são semelhantes; donde dizem "o semelhante busca o semelhante", e "a gralha busca a gralha", e quaisquer coisas desse tipo. Outros, porém, dizem, a partir da contrariedade, que todos os oleiros são tais uns para com os outros. [1545]
E acerca dessas mesmas coisas investigam mais acima e de modo mais natural: Eurípides, dizendo que a terra ressequida deseja a chuva e que o venerável céu, cheio de chuva, deseja cair sobre a terra; e Heráclito, afirmando que o contrário concorre com o contrário, que dos diferentes provém a ótima harmonia e que todas as coisas se produzem segundo a discórdia. Em contrariedade a estes, porém, estão outros e Empédocles: pois o semelhante apetece o semelhante. [1546]
Deixem-se, pois, de lado as questões naturais, pois não são próprias da presente intenção; mas quaisquer coisas que sejam humanas e concernentes aos costumes e às paixões, essas consideremos, por exemplo, se em todos se faz a amizade ou se não é possível que os maus, sendo maus, sejam amigos, e se há uma só espécie de amizade ou muitas. [1548]
Com efeito, alguns, julgando que era uma só porque comporta o mais e o menos, apoiaram-se num sinal não suficiente; pois também as coisas de outra espécie comportam o mais e o menos. Deve-se, porém, falar dessas coisas mais acima. [1549]
1538. Depois disto, porém, da amizade etc. Depois que o Filósofo tratou das virtudes morais e intelectuais e da continência, que é algo imperfeito no gênero da virtude, aqui, em consequência, trata da amizade, que se funda sobre a virtude como um certo efeito da virtude.
E primeiro, a modo de proêmio, diz sobre o que versa a sua intenção;
segundo, começa a tratar da amizade, ali: talvez, porém, seja etc.
A respeito do primeiro faz duas coisas:
primeiro mostra que pertence à moral tratar da amizade;
segundo mostra quais são as coisas a serem tratadas acerca da amizade, ali: suscitam-se, porém, a seu respeito etc.
A respeito do primeiro, aduz seis razões para mostrar que se deve considerar a amizade.
Diz, pois, primeiro que, depois do que foi dito, deve-se considerar a amizade de passagem, isto é, de modo que consideremos a seu respeito aquilo que pertence à consideração do filósofo moral, deixando de lado o que pertence à consideração do filósofo natural.
E a primeira razão pela qual se deve tratar da amizade é que a consideração da virtude pertence ao filósofo moral; ora, a amizade é uma certa virtude, enquanto é um hábito eletivo, como se dirá abaixo, e se reduz ao gênero da justiça, enquanto retribui o proporcional, como se dirá abaixo, ou ao menos está acompanhada de virtude, enquanto a virtude é causa da verdadeira amizade.
1539. Apresenta a segunda razão ali: além disso, sumamente etc. Pois a filosofia moral tem consideração acerca de todas as coisas que são necessárias à vida humana, entre as quais a amizade é sumamente necessária, a tal ponto que ninguém bem disposto escolheria viver, mesmo tendo todos os demais bens exteriores, sem amigos. Pois àqueles que possuem ao máximo os bens exteriores, isto é, aos ricos, aos príncipes e aos poderosos, parecem ser sumamente necessários os amigos.
Primeiro, para o uso desses bens, pois nenhuma é a utilidade dos bens da fortuna se com eles alguém não beneficia a ninguém; e o benefício se faz de modo máximo e mais louvável para com os amigos.
Segundo, para a conservação de tais bens, que não podem ser conservados sem amigos, porque a boa fortuna, quanto é maior, tanto é menos segura, pois tem mais gente à espreita. E os amigos são úteis não só na boa fortuna, mas também na contrária,
1540. porque na pobreza os homens consideram os amigos como o único refúgio. Assim, pois, em toda fortuna os amigos são necessários. São também necessários em toda idade. Porque aos jovens são necessários para que pelos amigos sejam refreados do pecado, pois são por si mesmos propensos aos desejos das delícias, como se disse no sétimo livro. Aos mais velhos, porém, os amigos são úteis para servi-los por causa dos defeitos corporais, e, porque falham nas suas ações por causa da debilidade, os amigos lhes são necessários para o auxílio. E àqueles que estão no auge, isto é, na idade perfeita, são úteis para executarem boas ações; pois quando dois se juntam, são mais poderosos tanto na obra da especulação intelectual, enquanto um vê o que o outro não pode ver, quanto na obra da ação exterior, na qual manifestamente um ajuda o outro. E assim é evidente que se deve considerar a amizade como algo necessário a todos.
1541. Apresenta a terceira razão ali: e por natureza parece existir etc. E diz que também a amizade existe segundo a natureza no que gera para com o que é gerado, e isso não só nos homens, mas também nas aves, que manifestamente por longo tempo aplicam empenho à criação da prole, e o mesmo também se dá nos outros animais. Há também uma amizade natural entre os que são de uma mesma nação, uns para com os outros, enquanto comungam nos costumes e na convivência, e sumamente natural é aquela amizade que há de todos os homens uns para com os outros por causa da semelhança da natureza da espécie; e por isso louvamos os filantropos, isto é, os amantes dos homens, como que cumprindo aquilo que é natural ao homem, como manifestamente aparece nos desvios dos caminhos; pois cada um chama de volta o outro, ainda que desconhecido e estranho, do erro, como se todo homem fosse naturalmente familiar e amigo de todo homem. Ora, aquelas coisas que são naturalmente boas devem ser consideradas pelo moralista, e assim ele deve considerar a amizade.
1542. Apresenta a quarta razão ali: parece, porém, que também as cidades etc. E diz que pela amizade parecem conservar-se as cidades. Donde os legisladores se empenham mais em conservar a amizade entre os cidadãos do que mesmo a justiça, que às vezes descuidam, por exemplo ao infligir penas, para que não surja dissensão. E isto é evidente pelo fato de que a concórdia se assemelha à amizade, a qual, isto é, a concórdia, os legisladores sumamente apetecem, ao passo que sumamente expelem a contenda dos cidadãos, como inimiga da salvação da cidade. E porque toda a filosofia moral parece ordenar-se ao bem civil, como se disse no princípio, pertence à moral considerar a amizade.
1543. A quinta razão ele a apresenta ali: e para os amigos etc. E diz que, se alguns forem amigos, em nada precisariam da justiça propriamente dita, porque teriam todas as coisas como que em comum, visto que o amigo é um outro eu mesmo; ora, não há justiça para consigo mesmo; mas, se forem justos, ainda assim precisam da amizade recíproca. E aquilo que é sumamente justo parece ser conservador e reparador da amizade. Portanto, muito mais pertence à moral considerar a amizade do que a justiça.
1544. A sexta razão ele a apresenta ali: não somente, porém etc. E diz que se deve considerar a amizade não somente porque é algo necessário à vida humana, mas também porque é algo bom, isto é, louvável e honesto. Com efeito, louvamos os filófilos, isto é, os amantes dos amigos, e a filofilia, isto é, a amizade de muitos, parece ser algo de bom, a tal ponto que alguns julgam serem os mesmos os homens bons e os amigos.
1545. Em seguida, quando diz: indaga-se, porém etc., mostra quais coisas se devem considerar acerca da amizade.
E primeiro apresenta certa dúvida que aparece acerca da amizade.
Segundo mostra quais dúvidas se devem determinar acerca da amizade, ali: as questões naturais, portanto etc.;
terceiro exclui o erro de alguns, ali: pois uma só etc.
Acerca do primeiro ponto faz duas coisas:
primeiro apresenta as diversas opiniões de alguns, nas coisas humanas, acerca da amizade;
segundo, nas coisas naturais, ali: e sobre estas mesmas coisas etc.
Diz, pois, primeiro que acerca da amizade não são poucas as coisas de que se duvida. E primeiro isto se manifesta a partir das diversas opiniões. Com efeito, alguns querem que a amizade seja certa semelhança e que os semelhantes sejam amigos uns dos outros, e para isto invocam o provérbio que diz que o semelhante vai ao seu semelhante e a gralha à gralha (há certas aves gregárias, como os estorninhos) e invocam também quaisquer provérbios semelhantes. Outros, porém, ao contrário, dizem que todos os oleiros se opõem uns aos outros, na medida em que um impede o lucro do outro. Ora, a verdade da questão é que o semelhante, falando por si, é amável, mas é odiado por acidente, na medida em que é impeditivo do próprio bem.
1546. Em seguida, quando diz: e sobre estas mesmas coisas etc., apresenta acerca do mesmo tema opiniões contrárias nas coisas naturais. E diz que sobre esta mesma questão alguns indagam mais acima, isto é, mais alto, e mais à maneira dos naturalistas, como Eurípides, que disse que a terra ressequida deseja a chuva, como que amando o seu contrário, e que o céu venerável, por causa de sua dignidade, quando está cheio de chuva deseja cair sobre a terra, isto é, que envie a chuva à terra, o que é contrário à sua altura e plenitude; Heráclito também disse que o contrário confere ao seu contrário, como ao homem por demais aquecido conferem as coisas frias, na medida em que das coisas diferentes e contrárias resulta a ótima harmonia, isto é, a justa temperança; disse também que o contrário é conferente na medida em que todas as coisas foram feitas segundo a discórdia, pela qual os elementos, antes confusos, se distinguem. Mas, ao contrário destes, disseram alguns outros, e principalmente Empédocles, que disse que o semelhante deseja o seu semelhante.
1547. Resolve-se, porém, esta dúvida do mesmo modo, por isto que o semelhante, falando por si, é desejável e amável naturalmente, mas por acidente se deseja o contrário, na medida em que é conferente e medicinal, como acima disse a respeito das delícias corporais.
1548. Em seguida, quando diz: as questões naturais, portanto etc., mostra quais dúvidas se devem determinar acerca da amizade. E diz que as questões naturais devem ser deixadas de lado, porque não são próprias da presente intenção, mas quaisquer coisas que sejam humanas, enquanto pertencentes aos costumes e às emoções humanas, dessas nos ocupemos, como se pode haver amizade em todos os homens ou não pode haver nos maus, e se há uma única espécie de amizade ou várias.
1549. Em seguida, quando diz: pois uma só etc., exclui o erro de alguns que julgavam existir uma só espécie de amizade, pelo fato de todas as espécies de amizade serem comparáveis segundo o mais e o menos, como quando dizemos que maior é a amizade do honesto do que a do útil. Mas ele mesmo diz que não confiaram num sinal suficiente, porque também as coisas que diferem em espécie recebem o mais e o menos, na medida em que convêm no gênero, por exemplo, se dissermos que o branco é mais colorido do que o negro, ou segundo a analogia, por exemplo, se dissermos que o ato é melhor do que a potência e a substância do que o acidente.
1550. Por fim, diz que acerca das coisas mencionadas que pertencem às coisas humanas em torno da amizade se deve falar mais acima, isto é, começando pelas coisas anteriores.