Lição 1
Pleasure
Depois destas matérias, talvez convenha passar a tratar da deleitação. [1953]
Pois parece que ela sobretudo é apropriada ao nosso gênero, razão pela qual educam os jovens governando-os com deleitação e tristeza. [1955]
Parece também que é de máxima importância para a virtude moral alegrar-se com aquilo que se deve e odiar aquilo que se deve. Pois estas coisas se estendem por toda a vida, tendo inclinação e poder para a virtude e para a vida feliz; pois escolhem as coisas deleitáveis e fogem das tristes. E por causa de tais coisas de modo algum se deverá, ao que parece, fazer a escolha. [1956]
E, por outro lado, comportam também muita dúvida. Pois uns dizem que a deleitação é um bem, outros, ao contrário, que é algo muito mau; alguns destes talvez persuadidos de que assim é, outros, porém, julgando ser melhor para a nossa vida declarar que a deleitação é dos maus, ainda que não o seja; pois muitos se inclinam para ela e servem às deleitações, razão pela qual é preciso conduzi-los ao contrário, pois assim chegariam ao meio-termo. [1958]
Mas talvez isto não seja bem dito; pois, acerca daquelas coisas que estão nas paixões e nas ações, os discursos são menos dignos de fé do que as obras. Quando, pois, dissoam daquilo que é segundo o sentido, são desprezados e destroem também a verdade juntamente consigo. Pois quem vitupera a deleitação, sendo às vezes visto desejá-la, parece inclinar-se para ela como se toda ela fosse tal; pois distinguir não é próprio da maioria. Parecem, portanto, os discursos verdadeiros ser utilíssimos não só para o saber, mas também para a vida; pois, sendo concordes com as obras, são cridos, razão pela qual movem os que os entendem a viver também segundo eles. [1960]
Sobre tais coisas, pois, foi dito o suficiente; passemos agora ao que foi dito sobre a deleitação. [1963]
1953. Depois destas matérias, sobre a deleitação etc. Depois que o Filósofo determinou acerca das virtudes morais e intelectuais e também acerca da continência e da amizade, que têm certa afinidade com a virtude, neste décimo livro pretende determinar acerca do fim da virtude.
E primeiro acerca do fim da virtude que é do homem em si mesmo;
segundo, porém, acerca do fim da virtude em relação ao bem comum, que é o bem de toda a cidade, ali: se, pois, também sobre estas coisas etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro determina acerca da deleitação, que por alguns é posta como fim da virtude;
segundo determina acerca da felicidade, que segundo todos é o fim da virtude, ali: ditas, porém, estas coisas que dizem respeito às virtudes etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, a modo de proêmio, mostra que se deve determinar acerca da deleitação;
segundo prossegue o seu propósito, ali: Eudoxo, pois, a deleitação etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas.
Primeiro propõe aquilo que pretende.
1954. E diz que, depois do que foi dito, é consequente que de passagem, isto é, brevemente, se trate da deleitação. Havia, com efeito, tratado acima, no sétimo livro, da deleitação enquanto é matéria da continência, donde a sua consideração versava principalmente sobre as deleitações sensíveis e corporais; agora, porém, pretende determinar acerca da deleitação enquanto se junta à felicidade e por isso determina principalmente acerca da deleitação inteligível e espiritual.
1955. Segundo, ali: pois sobretudo etc., prova por três razões que se deve tratar da deleitação.
A primeira delas se toma da afinidade da deleitação conosco. Pois parece que a deleitação sumamente e de modo conatural é apropriada ao gênero humano, e por isso os oiakizontes, isto é, os governadores das casas, educam sobretudo as crianças por meio da deleitação e da tristeza; pois, querendo movê-las para o bem e afastá-las do mal, empenham-se em deleitar as que agem bem, por exemplo com alguns pequenos presentes, e em entristecer as que agem mal, por exemplo com açoites. E porque a filosofia moral considera as coisas humanas, pertence à moral considerar acerca da deleitação.
1956. Apresenta a segunda razão ali: parece, porém etc. A qual se toma por comparação com a virtude. E diz que sumamente parece pertencer à virtude moral que o homem se alegre com aquilo que se deve e odeie aquilo que se deve e se entristeça com isso; pois a virtude moral consiste principalmente na ordenação do apetite, a qual se conhece pela ordenação da deleitação e da tristeza, que acompanham todos os movimentos apetitivos, como acima se disse no segundo livro. E isto é o que acrescenta, que estas coisas, a saber, a deleitação e a tristeza, se estendem a tudo o que pertence à vida humana e têm grande poder para que o homem seja virtuoso e viva felizmente, o que não pode acontecer se ele se deleita ou se entristece desordenadamente;
1957. pois os homens frequentemente escolhem as coisas deleitáveis, ainda que más, e fogem das tristes, ainda que boas. De modo algum, porém, parece que o homem que quer ser virtuoso e feliz deva escolher a deleitação e a fuga da tristeza por causa de tais coisas, a saber, por causa de incorrer em algumas más operações ou de carecer das obras da virtude; e, ao contrário, pode dizer-se que não se deve fazer o mal ou evitar o bem por causa de tais coisas, isto é, por causa de receber as coisas deleitáveis e fugir das tristes. E assim fica claro que ao filósofo moral pertence considerar acerca da deleitação, assim como acerca da virtude moral e da felicidade.
1958. Apresenta a terceira razão ali: e, por outro lado etc. A qual se toma da dúvida existente acerca da deleitação.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro enumera as diversas opiniões acerca da deleitação, das quais se prova a dúvida;
segundo reprova algo que foi dito nas opiniões, ali: mas talvez etc.
Diz, pois, primeiro que por outra razão se deve determinar acerca da deleitação e da tristeza, porque comportam muita dúvida. O que fica claro da diversidade dos que falam acerca delas:
1959. com efeito, alguns dizem que o prazer é algo bom, enquanto outros, ao contrário, dizem que o prazer é algo muito ruim. E isto de modos diversos: pois alguns dizem isto porque estão persuadidos de que assim se dá e assim creem dizer a verdade; outros, porém, ainda que não creiam ser verdade que o prazer seja algo ruim, julgam contudo ser melhor para a nossa vida declarar que o prazer é algo ruim, ainda que não o seja, a fim de retrair os homens do prazer para o qual muitos se inclinam e ao qual se põem a serviço; e por isso é preciso conduzir os homens ao contrário, isto é, para que abominem os prazeres, declarando-os maus; pois assim se chegará ao meio-termo, isto é, para que o homem use dos prazeres com moderação.
1960. Em seguida, quando diz: mas talvez isto etc., rejeita aquilo que por último foi dito. Pois não parece ser bem dito que os homens declarem falsamente que os prazeres são maus, para que os homens sejam retraídos deles, porque, no tocante às ações e paixões humanas, dá-se menos crédito às palavras do que às obras; pois, se alguém faz aquilo que diz ser mau, provoca mais pelo exemplo do que dissuade pela palavra.
1961. E a razão disto é que cada um parece escolher aquilo que lhe parece ser bom em particular, matéria em torno da qual estão as paixões e as operações humanas; quando, portanto, as palavras de alguém dissoam das obras que nele aparecem sensivelmente, tais palavras são desprezadas e, por consequência, destrói-se a verdade que por elas é dita. E assim acontecerá no caso proposto:
1962. pois, se alguém, vituperando todo prazer, alguma vez fosse visto inclinar-se a algum prazer, daria a entender que todo prazer seria digno de ser escolhido; pois a multidão do vulgo não pode determinar, distinguindo que isto é bom e aquilo é mau, mas indistintamente toma por bom aquilo que num só caso aparece como bom. Assim, portanto, as palavras verdadeiras parecem ser úteis não só para a ciência, mas também para a boa vida; pois nelas se crê enquanto concordam com as obras, e por isso tais palavras provocam aqueles que entendem a verdade delas a viver segundo elas.
1963. Por último, concluindo a modo de epílogo, diz que sobre tais coisas foi dito o suficiente, mas que é preciso proceder àquelas coisas que foram ditas por outros acerca do prazer.