Lição 9
The Nature of Happiness
Voltemos, pois, novamente ao bem procurado, para saber o que ele seja. Com efeito, parece ser diverso em diversa operação e arte; pois um é na medicina, outro na milícia e semelhantemente nas demais. Qual é, então, o bem de cada uma? Ou aquilo em razão de que as demais coisas são realizadas? Ora, isso na medicina é a saúde, na milícia a vitória, na construção a casa, e em outra arte outra coisa. Em toda operação e escolha, porém, há um fim, pois é em razão dele que todos realizam as demais coisas. Por isso, se há algum fim de tudo o que se realiza, este será o bem realizado. Se, porém, há muitos, o discurso, transcendendo-os, chega a este mesmo. [103]
Isso, porém, é preciso ainda tentar explicar mais amplamente. Ora, visto que parecem existir muitos fins, e destes escolhemos alguns por causa de outro, como as riquezas, as flautas e, universalmente, todos os instrumentos, é manifesto, pois, que nem todos são perfeitos. Mas o ótimo parece ser perfeito. Por isso, se há apenas um único perfeito, este será o que se procura; se, porém, há muitos, o mais perfeito destes. Ora, dizemos ser mais perfeito aquilo que é buscável por si mesmo do que aquilo que o é por causa de outro, e aquilo que nunca é escolhível por causa de outro do que aquelas coisas que são escolhíveis por si mesmas e por causa disto. E absolutamente perfeito é aquilo que é sempre escolhível por si mesmo e nunca por causa de outro. Ora, tal parece ser sobretudo a felicidade. Pois a escolhemos sempre por si mesma e nunca por causa de outro; a honra, porém, e o prazer e o intelecto e toda virtude escolhemos, de fato, também por si mesmos, pois, ainda que nada adviesse, escolheríamos cada um deles, mas escolhemo-los também em razão da felicidade, supondo que por meio deles seremos felizes. A felicidade, porém, ninguém a escolhe em razão destes nem de modo algum por causa de outro. [107]
Ora, o mesmo parece decorrer também da autossuficiência, pois o bem perfeito parece ser autossuficiente. Chamamos autossuficiente não aquele que basta só ao próprio homem que vive uma vida solitária, mas também aos pais e aos filhos e à esposa e aos amigos e aos concidadãos, porque o homem é por natureza um ser social. Ora, deve-se estabelecer algum limite disso, pois, estendendo-se aos pais e aos próximos e aos amigos dos amigos, procede-se ao infinito. Mas isso deverá ser examinado novamente. Estabelecemos, porém, como autossuficiente aquilo que, tomado isoladamente, torna a vida escolhível e carente de nada. E julgamos que a felicidade é tal. [112]
Ademais, ela é, de todas as coisas, a mais escolhível, sem ser contada juntamente com as demais. Contada, porém, é manifesto que é mais escolhível com o mínimo dos bens; pois aquilo que se acrescenta torna-se superabundância de bens, e um bem maior é sempre mais escolhível. Portanto, a felicidade parece ser algo perfeito e autossuficiente, sendo o fim de tudo o que se realiza. [115]
103. Voltemos, pois, novamente etc. Depois que o Filósofo tratou minuciosamente das opiniões dos outros sobre a felicidade, aqui determina acerca dela segundo a sua própria opinião.
E divide-se em duas partes:
na primeira, mostra o que seja a felicidade;
na segunda, determina acerca de certa propriedade da felicidade, ali: estabelecidas, porém, estas coisas, investiguemos acerca da felicidade etc.
A primeira parte, porém, divide-se em duas partes:
na primeira, mostra o que seja a felicidade;
na segunda, remove certa dúvida, ali: ocorrem, porém, muitas mudanças etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra o que seja a felicidade;
segundo, mostra que todas as coisas que se dizem sobre a felicidade concordam com a sentença apresentada, ali: deve-se, pois, investigar acerca dela etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, apresenta certas condições comuns da felicidade, que são quase manifestas a todos;
segundo, investiga a essência da felicidade, ali: mas talvez a felicidade etc.
Acerca do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, estabelece que a felicidade é o último fim;
segundo, estabelece as condições que competem ao último fim, ali: isto, porém, é preciso ainda explicar mais amplamente etc.
104. Diz, portanto, primeiro que, resolvidas as coisas que dizem respeito às opiniões dos outros, é preciso voltar novamente ao bem em torno do qual versa a nossa investigação, isto é, à felicidade, para investigarmos o que ela seja. Acerca disso, deve-se primeiramente considerar que, em diversas operações e artes, parece ser diverso o bem pretendido; assim como na arte da medicina o bem pretendido é a saúde, na arte militar a vitória e nas outras artes algum outro bem.
105. E se se perguntar qual é o bem pretendido em cada arte ou em cada atividade, deve-se saber que é aquilo em razão de que todas as outras coisas se fazem naquela arte ou naquela atividade; assim como na medicina tudo se faz por causa da saúde, na milícia tudo se faz por causa da vitória e na construção tudo se faz por causa da casa a ser construída; e semelhantemente, em qualquer outra atividade há algum outro bem pretendido em razão de que todas as outras coisas se fazem. Ora, esse bem pretendido em cada operação ou escolha chama-se fim, pois o fim não é outra coisa senão aquilo em razão de que as demais coisas se fazem.
106. Se, portanto, imediatamente se apresentar algum fim ao qual se ordenem todas as coisas que realizam todas as artes e operações humanas, tal fim será o bem realizado absolutamente, isto é, aquilo que se pretende a partir de todas as operações humanas. Se, porém, ainda se apresentarem muitos bens aos quais se ordenam os diversos fins das diversas artes, será preciso que a investigação da nossa razão transcenda esses muitos até chegar a este mesmo, isto é, a algo uno; pois é necessário que haja um único último fim do homem enquanto é homem, por causa da unidade da natureza humana, assim como há um único fim do médico enquanto é médico, por causa da unidade da arte médica; e esse único último fim do homem chama-se o bem humano, que é a felicidade.
107. Em seguida, quando diz: isto, porém, é preciso ainda explicar mais amplamente etc., estabelece duas condições do último fim:
primeiro, que seja perfeito;
segundo, que seja autossuficiente, ali: ora, o mesmo parece decorrer também da autossuficiência etc.
Pois o último fim é o último termo do movimento do desejo natural. Ora, para que algo seja o último termo do movimento natural, requerem-se duas coisas.
Primeiro, que seja algo que tem espécie, e não a caminho de ter espécie, assim como a geração do fogo não se termina na disposição para a forma, mas na própria forma; ora, o que tem forma é perfeito, e o que está disposto para a forma é imperfeito; e por isso é preciso que o bem que é o último fim seja um bem perfeito.
Segundo, requer-se que aquilo que é o termo do movimento natural seja íntegro, porque a natureza não falha no que é necessário; donde o fim da geração humana não é um homem diminuído de algum membro, mas um homem íntegro; e semelhantemente também o último fim, que é o termo do desejo, necessariamente é autossuficiente, como um bem íntegro.
108. Acerca da perfeição do bem final, deve-se considerar que, assim como o agente move para o fim, assim o fim move o desejo do agente; donde é preciso que os graus dos fins sejam proporcionados aos graus do agente. Ora, há três tipos de agente.
Um, o mais imperfeito, que não age por sua própria forma, mas somente enquanto é movido por outro, assim como o martelo forja a faca; donde o efeito, segundo a forma adquirida, não se assemelha a este agente, mas àquele por quem é movido.
Outro é o agente perfeito, que age de fato segundo a sua forma, donde o efeito se lhe assemelha, assim como o fogo aquece; mas todavia precisa ser movido por algum agente principal anterior, e quanto a isso tem algo de imperfeição, como que participando da condição de instrumento.
O terceiro agente é o mais perfeito, que age de fato segundo a sua própria forma e não é movido por outro.
109. E semelhantemente se dá nos fins. Pois há algo que é desejado não por causa de alguma bondade formal existente nele mesmo, mas somente enquanto é útil para algo, assim como o remédio amargo. E há algo que é, de fato, desejável por causa de algo que tem em si e, todavia, é desejado por causa de outro, assim como o remédio saboroso, e este é um bem mais perfeito. Ora, o bem mais perfeito é aquele que é desejado por si de tal modo que nunca é desejado por causa de outro. Portanto, o Filósofo distingue aqui esses três graus de bens. E diz que aquilo que se disse acerca do último fim é preciso ainda explicar mais amplamente, investigando, a saber, as condições que se requerem para o último fim.
110. Ora, parece haver muitos graus de fins, dos quais alguns escolhemos somente por causa de outro, assim como as riquezas, que não são desejadas senão enquanto são úteis à vida do homem, e as flautas, com que se toca música, e, universalmente, todos os instrumentos, que não são procurados senão por causa do seu uso; donde é manifesto que todos esses fins são imperfeitos. Mas o ótimo fim, que é o último, é preciso que seja perfeito. Donde, se apenas um for tal, é preciso que este seja o último fim que procuramos; se, porém, houver muitos fins perfeitos, é preciso que o mais perfeito destes seja o ótimo e o último. Ora, é manifesto que, assim como aquilo que é desejável por si é mais perfeito do que aquilo que é desejável por causa de outro, assim aquilo que nunca é desejado por causa de outro é mais perfeito do que aquelas coisas que, ainda que sejam desejadas por si, todavia são desejadas por causa de outro.
111. E assim absolutamente perfeito é aquilo que é sempre escolhível por si e nunca por causa de outro. Ora, tal parece ser a felicidade, a qual nunca escolhemos por causa de outro, mas sempre por si mesma. A honra, porém, e os prazeres e a inteligência e a virtude escolhemo-los, de fato, por si mesmos, pois os escolheríamos ou desejaríamos ainda que nada mais nos proviesse deles, e todavia os escolhemos por causa da felicidade, enquanto por meio deles cremos que seremos felizes. A felicidade, porém, ninguém a escolhe por causa destes nem por causa de qualquer outra coisa. Donde se conclui que a felicidade é o mais perfeito dos bens e, por consequência, o ótimo e último fim.
112. Em seguida, quando diz: ora, o mesmo parece decorrer também da autossuficiência etc., trata da autossuficiência da felicidade.
E primeiro, quanto àquilo que diz respeito à noção de suficiência;
segundo, quanto àquilo que se acrescenta "por si", ali: ademais, de todas as coisas etc.
Diz, portanto, primeiro que o mesmo parece seguir-se da autossuficiência assim como também da perfeição, isto é, que a felicidade é o ótimo e último fim; pois estas duas coisas decorrem uma da outra, uma vez que o bem perfeito parece ser autossuficiente: pois, se em algo não é suficiente, já não parece aquietar perfeitamente o desejo e assim não será um bem perfeito. Ora, diz-se que o bem é autossuficiente não porque seja suficiente apenas para um único homem que vive uma vida solitária, mas para os pais e os filhos e a esposa e os amigos e os concidadãos, isto é, de modo que lhes baste tanto prover nas coisas temporais, ministrando os auxílios necessários, como também nas espirituais, instruindo ou aconselhando; e isso porque o homem é por natureza um animal social, e por isso não basta ao seu desejo que proveja a si mesmo, mas também que possa prover aos outros. Mas isso é preciso entender até certo limite:
113. pois, se alguém quiser estender isso não somente aos consanguíneos e aos amigos próprios, mas também aos amigos dos amigos, isso procederá ao infinito e assim a ninguém poderá advir tal suficiência; e assim ninguém poderia ser feliz, se a felicidade exigisse essa suficiência infinita. Pois, neste livro, o Filósofo fala da felicidade tal como pode ser tida nesta vida, uma vez que a felicidade da outra vida excede toda investigação da razão. Ora, qual seja o limite até o qual é preciso que o feliz seja suficiente, deverá ser examinado novamente em outro lugar, isto é, na economia ou na política.
114. E porque expusera para quem deve ser suficiente o bem perfeito que se chama felicidade, isto é, não para um único homem, mas para si e para todos aqueles cujo cuidado lhe cabe, expõe consequentemente o que é aquilo que se chama autossuficiente. E diz que se chama autossuficiente aquilo que, ainda que seja tido isoladamente, torna a vida escolhível e carente de nada exterior. E isso convém sobretudo à felicidade, do contrário não terminaria o movimento do desejo, se fora dela permanecesse algo de que o homem tivesse necessidade; pois todo o que tem necessidade deseja alcançar aquilo de que necessita. Donde é manifesto que a felicidade é um bem autossuficiente.
115. Em seguida, quando diz: ademais, de todas as coisas etc., expõe a noção de autossuficiência quanto àquilo que diz "por si". Ora, diz-se que algo é autossuficiente pelo fato de que, tomado à parte das demais coisas, é suficiente. O que pode ocorrer de dois modos.
De um modo, de tal maneira que aquele bem perfeito que se chama autossuficiente não possa receber acréscimo de bondade a partir de outro bem acrescentado, e esta é a condição daquele que é o bem total, isto é, de Deus; pois, assim como a parte contada juntamente com o todo não é algo maior do que o todo, porque a própria parte se inclui no todo, assim também qualquer bem contado juntamente com Deus não produz algum acréscimo de bondade, porque nada é bom senão pelo fato de participar da bondade divina. Diz-se também que algo é suficiente isoladamente, ou sem ser contado com nenhum outro, enquanto contém tudo aquilo de que o homem tem necessidade por necessidade.
116. E assim a felicidade de que agora se fala tem por si a suficiência, porque, a saber, contém em si tudo aquilo que é necessário ao homem, mas não tudo aquilo que pode advir ao homem, donde pode tornar-se melhor com o acréscimo de alguma outra coisa; nem, contudo, permanece inquieto o desejo do homem, porque o desejo regulado pela razão, tal como convém ser o do feliz, não tem inquietude a respeito daquelas coisas que não são necessárias, ainda que seja possível alcançá-las. Isto é, portanto, o que diz convir sobretudo, entre todas as coisas, à felicidade: que ela, mesmo não computada com outras, seja preferível, mas, contudo, se for computada com alguma outra coisa, ainda que o mínimo dos bens, é manifesto que será mais preferível; cuja razão é que, pela adição, se faz uma superabundância ou aumento de bondade, e quanto mais algo é bom, tanto mais é preferível.
117. Por fim, conclui, recapitulando o que foi dito, a saber, que a felicidade, sendo o fim último de todas as coisas operadas, é o bem perfeito e suficiente por si.