Lição 20
Subdivisions of the Irrational Soul
Ora, uma parte do irracional assemelha-se ao comum e vegetativo, digo a causa daquilo que é nutrir-se e crescer. Pois tal virtude da alma alguém a colocaria em todas as coisas que se nutrem, e também nos embriões. E esta mesma também nos seres imperfeitos, pois é mais razoável do que qualquer outra. [231]
Esta é, portanto, uma certa potência comum e não se mostra humana. [233]
Pois parece que esta partícula e potência opera sobretudo durante o sono. Ora, o bom e o mau de modo algum se manifestam segundo o sono. Por isso dizem que os felizes em nada diferem dos infelizes durante a metade da vida. Isto sucede convenientemente, pois o sono é o repouso da alma segundo a qual ela se diz virtuosa ou má. Todavia, se alguns dos movimentos passam pouco a pouco, também assim os fantasmas dos virtuosos se tornam melhores que os de quaisquer outros. Mas sobre estas coisas já basta. E deve-se, portanto, deixar de lado a parte nutritiva, porquanto por sua natureza é destituída de virtude humana. [234]
Parece haver também uma outra natureza da alma irracional, que todavia participa de algum modo da razão. [236]
Pois no incontinente e no continente louvamos aquilo que possui razão, já que a razão retamente aconselha e exorta ao que é ótimo. Parece, porém, haver neles algo inato além da razão, que se opõe à razão e a contraria. Pois firmemente, assim como os membros paralisados do corpo, quando se prefere movê-los para a direita, são levados perversamente para a esquerda, assim também na alma; pois os movimentos dos incontinentes tendem para o contrário. Mas nos corpos vemos aquilo que se move de modo perverso, ao passo que na alma não o vemos. Todavia, talvez não menos se deva estimar que também na alma há algo além da razão, que a ela se contrapõe e a contraria; de que modo, porém, seja distinto dela, em nada importa. [237]
Ora, também isto parece participar da razão, como dissemos. Portanto, o que há no continente obedece à razão. E ainda mais talvez esteja submetido o que há no sóbrio e no forte, pois nele tudo consoa com a razão. [239]
Parece, pois, que também o irracional é duplo. Com efeito, a parte vegetativa de modo algum comunica com a razão; mas a concupiscível e, em geral, a apetitiva participa de algum modo, na medida em que é capaz de ouvir a razão e de lhe obedecer. Assim, dizemos que ela tem a razão à maneira do pai e dos amigos, e não à maneira dos matemáticos. [240]
E que o irracional é de algum modo persuadido pela razão, mostram-no a persuasão e toda repreensão e súplica. [241]
Mas, se é preciso dizer que também isto possui razão, então o que possui razão será duplo: um, principalmente e em si mesmo; outro, como algo que ouve o pai. [242]
Ora, a virtude se determina segundo esta diferença. Pois dizemos que, dentre elas, umas são intelectuais e outras morais; a sabedoria, o intelecto e a prudência, intelectuais; a liberalidade e a sobriedade, morais. Com efeito, ao falar dos costumes, não dizemos que alguém é sábio e inteligente, mas que é manso ou sóbrio; e também louvamos o sábio segundo o hábito. E chamamos virtudes aos hábitos louváveis. [243]
231. Ora, a parte irracional etc. Depois de o Filósofo ter dividido as partes da alma em racional e irracional, aqui subdivide a parte irracional.
E primeiro apresenta um membro da divisão;
segundo, apresenta o outro, em: parece haver também uma outra etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, propõe uma certa parte irracional da alma;
segundo, mostra que essa parte da alma não é propriamente humana, em: esta é, portanto etc.
Diz, pois, primeiro que, entre as partes irracionais da alma, há uma que se assemelha à alma das plantas, a qual é comum a todos os viventes aqui embaixo; e essa parte é aquela que é causa da nutrição e do crescimento nos homens. E tal parte da alma se põe em tudo o que se nutre, não somente nos animais, mas também nas plantas; nos animais, porém, encontra-se não só nos já nascidos, mas também antes de nascerem, isto é, nos embriões, que manifestamente se nutrem e crescem.
232. De modo semelhante, encontra-se também esta parte da alma nos animais não só perfeitos, isto é, que possuem todos os sentidos e se movem com movimento progressivo, mas também nos animais imperfeitos, que têm apenas o sentido do tato e permanecem imóveis no mesmo lugar, como são os moluscos; pois é manifesto que todos os referidos vivem e têm alguma parte da alma, e mais razoavelmente se atribui a todos eles esta parte da alma do que qualquer outra, porque neles as obras desta parte aparecem mais manifestamente.
233. Em seguida, quando diz: esta é, portanto etc., mostra que a referida parte da alma não é humana.
E primeiro conclui isto do que foi dito. Pois chamamos humano ao que é próprio do homem; se, portanto, esta parte da alma é sumamente comum, segue-se que não é humana.
234. Segundo, em: pois parece etc., acrescenta uma demonstração a partir de um sinal evidente. Pois esta parte da alma se encontra operando com máxima eficácia durante o sono; com efeito, quando o calor natural retorna às partes internas enquanto o animal dorme, a digestão se realiza melhor. Ora, aquilo que é próprio do homem, segundo o qual o homem se diz bom ou mau, opera pouco durante o sono, nem durante o sono se manifesta quem seja bom ou mau. Por isso dizem proverbialmente que os felizes não diferem dos infelizes durante o sono, que é a metade da vida, ou seja, porque no sono se ata o juízo da razão e adormecem os sentidos externos, enquanto operam a fantasia e a força nutritiva.
235. Ora, isto sucede razoavelmente, a saber, que durante o sono não difiram o bom e o mau, o feliz e o infeliz, porque no sono descansa de sua operação aquela parte da alma segundo a qual o homem se diz bom e mau. Sucede, todavia, por acidente, que o bom e o mau diferem no sono, não por causa de uma diferença que haja no dormir, mas por causa da diferença que houve no estado de vigília, na medida em que certos movimentos dos que velam passam pouco a pouco aos que dormem, ou seja, enquanto aquilo que o homem viu, ouviu ou pensou em vigília ocorre à fantasia do adormecido; e desse modo, no dormir, tornam-se melhores os fantasmas dos virtuosos, que em vigília se ocupam de coisas honestas, do que os de quaisquer outros, que velando se ocupam de coisas vãs e desonestas. E sobre isto baste o que foi dito. Segue-se, porém, do que foi exposto, que a parte nutritiva da alma não é feita por natureza para participar da virtude humana.
236. Em seguida, quando diz: parece, pois etc., apresenta o outro membro da divisão.
E primeiro propõe o que pretende;
segundo, prova o proposto, em: pois no incontinente etc.
Diz, pois, primeiro que, além da parte nutritiva da alma, parece haver uma outra parte da alma, irracional como a nutritiva, mas participante de algum modo da razão, no que difere da nutritiva, a qual é totalmente destituída de virtude humana, como foi dito.
237. Em seguida, quando diz: pois no incontinente etc., prova o proposto:
e primeiro, que há uma outra parte irracional da alma;
segundo, que esta parte participa da razão, em: ora, também isto parece participar da razão etc.
Ora, prova o primeiro com um argumento tomado do continente e do incontinente, nos quais louvamos a parte da alma que possui razão, porque a razão deles delibera retamente e induz ao que é ótimo, como que suplicando ou persuadindo; pois ambos escolhem abster-se dos prazeres ilícitos. Mas em ambos parece haver algo naturalmente neles inserido, além da razão, que se contrapõe à razão e a contraria, isto é, a impede na execução de sua escolha; donde é claro que se trata de algo irracional, uma vez que é contrário à razão; e isto é o apetite sensitivo, que apetece aquilo que é deleitável ao sentido, o que às vezes se contrapõe àquilo que a razão julga ser bom absolutamente. Ora, isto, naquele que é continente, é vencido pela razão, pois o continente tem, sim, concupiscências más, mas a razão não as segue; no incontinente, porém, vence a razão, que é arrastada pelas concupiscências más;
238. e por isso acrescenta o exemplo de que, assim como quando os membros do corpo estão debilitados, ou seja, porque não podem de modo algum ser contidos pela força reguladora do corpo, como acontece nos paralíticos e nos ébrios, que se movem para o lado esquerdo quando os homens escolhem mover-se para a direita, assim também é firmemente verdadeiro, da parte da alma, nos incontinentes, que se movem para o contrário daquilo que a razão escolhe. Mas isto não aparece nas partes da alma tão claramente como nas partes do corpo, porque nas partes do corpo vemos manifestamente quando algo se move desordenadamente, ao passo que nas partes da alma não vemos isto tão manifestamente. Não obstante, deve-se estimar que há no homem algo que se contrapõe e contraria a razão; mas de que modo isto seja distinto da razão, isto é, se pelo sujeito ou apenas pela noção, isto em nada importa para o proposto.
239. Em seguida, quando diz: ora, também isto etc., mostra o segundo, a saber, que o irracional deste tipo participa da razão.
E primeiro manifesta isto a partir daquilo que se realiza dentro do homem;
segundo, a partir daquilo que se realiza fora do homem, em: e que o irracional é de algum modo persuadido etc.
Acerca do primeiro faz duas coisas:
primeiro, mostra que este irracional participa da razão;
segundo, como que conclui a diferença desta parte irracional em relação àquela que foi apresentada acima, em: parece, pois, que também o irracional é duplo etc.
Diz, pois, primeiro que este irracional, do qual agora se falou, parece participar de algum modo da razão, como acima se disse. E isto é manifesto no homem continente, cujo apetite sensitivo obedece à razão; pois, embora tenha concupiscências más, não opera segundo elas, mas segundo a razão. E muito mais se submete à razão esta parte da alma no homem sóbrio, isto é, temperante, que tem o apetite sensitivo de tal modo domado pela razão que nele não há concupiscências más veementes; e a mesma razão vale para o forte e para todo aquele que possui o hábito da virtude moral, porque em tais homens quase tudo consoa com a razão, isto é, não só os atos exteriores, mas também as concupiscências interiores.
240. Em seguida, quando diz: parece, pois etc., conclui do que foi exposto a diferença entre um e outro irracional. E diz que, segundo o exposto, o irracional é aparentemente duplo. Pois a parte nutritiva, que se encontra nas plantas, em nada comunica com a razão, uma vez que não obedece ao império da razão; mas a força concupiscível e toda força apetitiva, como a irascível e a vontade, participam de algum modo da razão, na medida em que atendem à razão que adverte e lhe obedecem como a quem impera. E assim dizemos que a razão está no lugar do pai que impera e dos amigos que advertem, e não se comporta apenas ao modo de quem especula, como a razão dos matemáticos; pois de tal razão esta parte irracional da alma em nada participa.
241. Em seguida, quando diz: e que o irracional é de algum modo persuadido etc., mostra, pelas coisas que exteriormente se realizam, que este irracional participa da razão. Pois isto se significa, como ele mesmo diz, tanto pela persuasão, que vem dos amigos, quanto pela repreensão, que vem dos maiores, e pela súplica, que vem dos menores, para que o homem não siga suas concupiscências. Ora, tudo isto seria em vão se esta parte irracional da alma não pudesse participar da razão. E disto se manifesta que a razão não está sujeita aos movimentos das paixões do apetite sensitivo, mas pode reprimi-los. E por isso não está sujeita aos movimentos dos corpos celestes, pelos quais, mediante uma alteração do corpo humano, pode ocorrer alguma alteração no apetite sensitivo da alma. Pois, como o intelecto ou a razão não é potência de nenhum órgão corporal, não está diretamente sujeito à ação de nenhuma força corpórea; e pela mesma razão tampouco a vontade, que está na razão, como se diz no livro III do De anima.
242. Em seguida, quando diz: mas, se é preciso também isto etc., subdivide o outro membro da primeira divisão, a saber, a parte racional da alma. E diz que, se é preciso dizer que aquela parte da alma que participa da razão é de algum modo racional, então o racional será duplo: um, que possui a razão principalmente e em si mesmo, o qual é racional essencialmente; outro, que é feito por natureza para obedecer à razão como a um pai, e a este chamamos racional por participação. E, segundo isto, um membro está contido tanto sob o racional quanto sob o irracional: pois há algo que é apenas irracional, como a parte nutritiva da alma; algo que é apenas racional, como o próprio intelecto e a razão; e algo que é em si mesmo irracional, mas racional por participação.
243. Em seguida, quando diz: ora, a virtude se determina etc., divide a virtude segundo a referida diferença das potências da alma. E diz que a virtude se determina, isto é, se divide, segundo a referida diferença das partes da alma. Pois, sendo a virtude humana aquela pela qual se realiza bem a obra do homem, que é segundo a razão, é necessário que a virtude humana esteja em algo racional; donde, sendo o racional duplo, a saber, por essência e por participação, segue-se que a virtude humana é dupla: uma que está naquilo que é racional por si mesmo, a qual se chama intelectual; outra que está naquilo que é racional por participação, isto é, na parte apetitiva da alma, e esta se chama moral. E por isso diz que dizemos que algumas virtudes são intelectuais e outras morais;
244. pois a sabedoria, o intelecto e a prudência dizem-se virtudes intelectuais, mas a liberalidade e a sobriedade, morais. E isto prova pelos louvores humanos, porque, quando queremos louvar alguém por seus costumes, não dizemos que é sábio e inteligente, mas que é sóbrio e manso; nem só louvamos alguém por seus costumes, mas também o louvamos pelo hábito da sabedoria. Ora, os hábitos louváveis chamam-se virtudes. Portanto, além das virtudes morais, há algumas intelectuais, como a sabedoria, o intelecto e algumas outras deste tipo. E assim termina o primeiro livro.