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Lição 7

Beneficence

Os benfeitores parecem amar mais os beneficiados do que os que são bem tratados amam os que os beneficiam. [1840]

E procura-se por que isto se dá contra a razão. [1841]

À maioria, então, parece que a razão é que uns são devedores e a outros é devido; assim como, portanto, nos empréstimos os que devem quereriam que não existissem aqueles a quem devem, ao passo que os que emprestam até cuidam da salvaguarda dos devedores, assim também os benfeitores querem que os beneficiados existam para receberem a gratidão, ao passo que estes não têm cuidado de retribuir. Epicarmo talvez dissesse que os que dizem isto o afirmam olhando pelo lado mau; contudo, isto se assemelha ao que é humano, pois muitos são esquecidos e desejam mais receber benefícios do que fazê-los. [1842]

Mas parecerá que a causa é também mais natural e não semelhante àquela que se dá em relação aos que emprestam. Pois não há amor em relação àqueles, mas apenas a vontade de que sejam preservados por causa do lucro; ao passo que os benfeitores amam e estimam os beneficiados, ainda que em nada sejam úteis nem venham a sê-lo depois. [1844]

O que também acontece aos artífices; pois cada um ama a própria obra mais do que seria amado por ela, se a obra feita fosse animada; ora, isto acontece talvez sobretudo com os poetas, pois estes amam sobremaneira os próprios poemas, estimando-os como aos filhos. A tal coisa se assemelha também o que se dá com os benfeitores; pois o beneficiado é obra deles, e a esta amam mais do que a obra ao que a faz. E a causa disto é que o ser é para todos algo eligível e amável. Ora, nós somos em ato, pois somos no viver e no operar; e o que faz a obra é, de certo modo, em ato; assim, amam a obra porque também amam o ser. E isto é natural. Pois aquilo que é em potência, a obra o manifesta em ato. [1845]

Ao mesmo tempo, para o benfeitor o bem que existe segundo o ato é tal que ele se alegra naquele em quem este bem está; ao passo que para o que recebe não há nenhum bem no que opera, mas, se algum há, é o que é útil, e este é menos deleitável e amável. [1848]

Ora, é deleitável o ato do presente, a esperança do futuro e a memória do que foi feito, mas o mais deleitável é aquilo que existe segundo o ato, e semelhantemente o mais amável. Portanto, para aquele que fez a obra, esta permanece, pois o bem é duradouro, ao passo que para o que recebe o útil passa. [1849]

E a memória das coisas boas é deleitável, mas a das coisas úteis não o é de todo ou menos; a expectativa, porém, parece comportar-se de modo inverso. [1850]

E o amar assemelha-se ao agir, e o ser amado ao padecer; para os que sobressaem no ato, portanto, seguem-se o amar e as coisas amáveis. [1852]

Além disso, todos amam mais as coisas que se fazem com trabalho, por exemplo, os que adquirem dinheiro amam-no mais do que os que o recebem. Ora, parece que receber um benefício é coisa sem trabalho, ao passo que fazer um benefício é laborioso. E por estas coisas também as mães amam mais os filhos; pois a geração é mais laboriosa e sabem melhor que os filhos são seus. E parecerá que isto também é próprio dos benfeitores. [1853]

1840. Benefactores autem etc. Depois que o Filósofo determinou acerca da benevolência e da concórdia, aqui determina acerca da beneficência.

E primeiro propõe aquilo que a ela concerne. E diz que os benfeitores parecem amar mais aqueles a quem beneficiam do que aqueles que são bem tratados por eles amam os que lhes fazem o bem.

1841. Segundo, ali: et ut praeter rationem etc., levanta sobre isto uma questão. E diz que o que se afirmou comporta uma questão, porque parece dar-se contra a razão. Pois os beneficiados são obrigados por dívida a amar os benfeitores, mas não o contrário.

1842. Terceiro, ali: pluribus quidem igitur etc., resolve a referida questão, atribuindo a razão do referido fato.

E primeiro apresenta a razão aparente;

segundo indica as razões verdadeiras, ali: mas talvez se veja etc.

Diz, portanto, primeiro que à maioria parece que a razão do referido fato é que os beneficiados devem algo aos benfeitores, mas aos benfeitores se deve algo, assim como também aos que emprestam; ora, vemos isto acontecer nos empréstimos: que aqueles que devem preferiam que não existissem aqueles a quem devem, para que ficassem isentos da dívida, ao passo que os que emprestam, a quem algo é devido, cuidam da conservação daqueles que lhes devem, para não perderem aquilo que lhes é devido; assim também parece que os benfeitores querem que existam e vivam aqueles que receberam benefícios deles, para que obtenham deles a gratidão; mas aqueles que receberam os benefícios não se preocupam em retribuir a gratidão, e antes preferiam ficar livres desta dívida e, por isso, não amam muito os benfeitores.

1843. E Epicarmo, isto é, certo filósofo ou poeta, aprovando esta razão, talvez diga que aqueles que sustentam esta razão consideram a malícia dos homens; pois ela se assemelha ao costume humano que se encontra na maioria, pois muitos são esquecidos dos benefícios e desejam mais receber bem dos outros do que fazer o bem.

1844. Depois, quando diz: mas talvez se veja etc., indica quatro razões verdadeiras.

Acerca da primeira delas, faz duas coisas.

Primeiro, prefere esta razão àquela que expôs acima. E diz que a causa daquilo que foi dito parece ser mais natural do que a que agora será dita, porque, a saber, se toma da própria natureza do benefício, e não é semelhante à razão acima indicada, que foi tomada por parte dos que emprestam. Pois os que emprestam não amam aqueles a quem emprestam, mas o quererem que estes se conservem no ser não provém do amor, e sim do lucro; ao contrário, os benfeitores amam, segundo o apetite sensitivo, e estimam, segundo a eleição, aqueles que deles recebem bens, mesmo que em nada lhes sejam úteis no presente nem esperem alguma utilidade no futuro.

1845. Segundo, ali: o que também nos artífices etc., apresenta a primeira razão. E diz que acontece o mesmo com os benfeitores em relação aos beneficiados que acontece com os artífices em relação às suas obras; pois todo artífice estima a própria obra mais do que seria estimado por ela, ainda que fosse possível que aquela obra se tornasse animada; e isto parece acontecer sobretudo com os poetas, que amam excessivamente os próprios poemas, assim como os pais amam os filhos; pois os poemas pertencem mais à razão, segundo a qual o homem é homem, do que as outras obras mecânicas. E a isto se assemelha o que acontece com os benfeitores que estimam aqueles a quem fazem o bem, porque aquele que recebe o bem de alguém é como que sua obra e, por isso, os benfeitores estimam mais a sua obra, isto é, os beneficiados, do que ao contrário.

1846. Postos os exemplos, acrescenta a razão de tudo. E diz que a causa do que foi dito é que para todos os homens o seu próprio ser é elegível e amável, pois cada coisa, na medida em que é, é boa, e o bem é elegível e amável. Ora, o nosso ser consiste em certo ato, pois o nosso ser é viver e, por conseguinte, operar (pois não há vida sem alguma operação da vida), donde para cada um é amável operar as obras da vida; ademais, o que produz, em ato, é de certo modo a própria obra do que produz, pois o ato do que move e do que age está no movido e no que padece; por isso, pois, estimam a sua obra tanto os artífices como os poetas e os benfeitores, porque estimam o seu ser. Ora, isto é natural, a saber, que cada coisa ame o seu ser.

1847. E manifesta a razão desta consequência, a saber, que estimem a obra porque estimam o ser, acrescentando: o que se é em potência, a obra em ato o anuncia. Pois o homem é homem enquanto tem alma racional; ora, "a alma é o ato primeiro de um corpo físico que tem a vida em potência", isto é, que está em potência às obras da vida; assim, pois, o primeiro ser do homem consiste em ter a potência para as obras da vida. E a redução ao ato desta potência é anunciada pela própria obra que o homem faz ao exercer em ato as obras da vida.

1848. Apresenta a segunda razão ali: ao mesmo tempo, porém etc. Acerca disto, faz duas coisas.

Primeiro propõe a razão, dizendo que cada um estima o próprio bem, ora o bem do benfeitor consiste no seu ato, com o qual, a saber, concede os benefícios (pois é um ato de virtude), e por isso o benfeitor se deleita no beneficiado como naquele em que se encontra o seu bem; mas o que recebe o bem, isto é, o que recebe o benefício, não tem nenhum bem honesto no que opera, isto é, no benfeitor (pois não é ato de virtude receber benefícios de outrem), mas, se tem algum bem, este é um bem útil, que é menos deleitável e amável do que o bem honesto. E assim é patente que o benfeitor é menos amável ao beneficiado do que ao contrário.

1849. Segundo, ali: ora, o deleitável etc., prova de dois modos o que havia suposto.

Primeiro, porque o deleitável acerca do presente é o próprio ato ou operação, acerca do futuro é a esperança e acerca do que já foi feito ou passado é a memória; entre estas três coisas, a mais deleitável é o ato, e igualmente mais amável do que a esperança ou a memória. Ora, ao benfeitor permanece a honestidade da própria obra, porque o bem honesto não passa depressa, mas é duradouro, e assim se deleita naquele a quem fez o bem como no seu bem presente; mas a utilidade que o que padece recebeu passa facilmente, e assim o beneficiado se deleita no benfeitor segundo a memória do passado. Logo, é mais deleitável e amável ao benfeitor o bem honesto que tem no beneficiado do que ao beneficiado o bem útil que tem no benfeitor.

1850. Segundo, ali: e a memória etc., prova o mesmo, dizendo que a memória dos bens, isto é, dos honestos, que alguém fez no passado é deleitável, mas a memória dos bens úteis que alguém teve em algum momento ou não é de modo algum deleitável, por exemplo quando alguém se entristece com a perda deles, ou é menos deleitável do que a memória dos honestos, por exemplo quando algo deles permanece; mas quanto à expectativa das coisas futuras parece dar-se o contrário, a saber, que é mais deleitável esperar as coisas úteis do que esperar as honestas.

1851. Ora, a razão desta diversidade é que o bem desconhecido não deleita, mas somente o bem conhecido; ora, ninguém conhece as coisas honestas senão quem as tem, donde são conhecidas se são passadas, mas não se são apenas futuras; ao passo que os bens úteis são conhecidos tanto passados quanto futuros, mas o auxílio dos passados já se foi, ao passo que o auxílio que deles se espera no futuro deleita como certo remédio contra as necessidades futuras; donde o homem se deleita mais na esperança das coisas úteis do que na memória delas, ou também do que na esperança das honestas, mas na memória das honestas o homem se deleita mais do que na memória das úteis. Ora, o benfeitor tem no beneficiado a memória de um bem honesto, ao passo que o beneficiado tem no benfeitor a memória de um bem útil. Logo, o beneficiado é mais deleitável e amável ao benfeitor do que ao contrário.

1852. Apresenta a terceira razão ali: e o amar, com efeito etc. E diz que amar se assemelha ao fazer, pois pertence ao que ama querer e operar o bem àquele que ama, mas ser amado se assemelha ao padecer; ora, o que faz sobrepuja o que padece; e por isso, com razão, àqueles que sobrepujam no agir, a saber, aos benfeitores, aos artífices e aos poetas, cabe que amem e tenham aquilo que decorre do amor.

1853. Apresenta a quarta razão ali: ademais, porém etc. Pois aquelas coisas que são feitas com trabalho são mais estimadas por todos, assim como aqueles que possuem riquezas pelo próprio empenho e trabalho as amam mais do que aqueles que as recebem por sucessão dos pais ou por dádiva gratuita de alguém, donde os que assim recebem são mais liberais, como foi dito no livro quarto. Ora, que alguém receba um benefício de outrem é sem trabalho seu, mas que alguém faça o bem a outrem é laborioso, isto é, requer esforço e trabalho. Donde é razoável que os benfeitores amem mais os beneficiados do que ao contrário.

1854. E confirma esta razão pelo exemplo das mães, que amam os filhos mais do que os pais, tanto porque trabalham mais na geração deles, carregando-os e dando-os à luz, do que os pais, como também porque as mães podem saber melhor que sejam seus os filhos do que os pais. E isto também parece ser próprio dos benfeitores, a saber, que amem os beneficiados na medida em que trabalham por eles.