Lição 6
Happiness and a Separated Good
Quanto ao universal, porém, talvez seja melhor examinar e indagar de que modo se diz. [74]
Ainda que tal questão suscite dificuldade, pelo fato de terem sido amigos os homens que introduziram as ideias. [75]
Parecerá, contudo, sem dúvida melhor talvez, e mesmo necessário, para a salvaguarda da verdade, destruir até aquilo que nos é familiar, sobretudo sendo nós filósofos. Pois, sendo ambos amigos, é santo honrar mais a verdade. [76]
Ora, os que sustentavam esta opinião não faziam ideias daquelas coisas em que diziam haver anterior e posterior; por isso também não constituíam ideia do número. O bem, porém, diz-se tanto no que é a substância como na qualidade e na relação a algo; mas aquilo que é por si mesmo, a substância, é por natureza anterior ao que é relativo a algo; pois estes assemelham-se a um rebento e a um acidente do ente. Portanto, não haverá alguma ideia comum a respeito destas coisas. [79]
Ademais, porque o bem se diz de tantos modos quantos o ente; pois se diz tanto no que é a substância, por exemplo Deus e o intelecto, como na qualidade as virtudes, e na quantidade o que é medido, e na relação a algo o útil, e no tempo a ocasião, e no lugar a habitação conveniente, e outras coisas tais. É manifesto que não haverá algo comum universalmente e uno; pois não se diria em todos os predicamentos, mas em um só. [81]
Ademais, porque daquelas coisas que são segundo uma só ideia há também uma só ciência. E de todos os bens haveria, sem dúvida, uma só ciência. Ora, porém, são muitas até mesmo daquelas coisas que estão sob um só predicamento, por exemplo do tempo: na guerra, com efeito, a arte militar, na doença a medicinal, <... > nos exercícios a ginástica. [82]
74. Quanto ao universal, porém etc. Depois que o Filósofo refutou as opiniões dos que põem a felicidade em algum dos bens manifestos, aqui refuta a opinião dos que põem a felicidade em certo bem separado.
E a respeito disso faz duas coisas:
primeiro, mostra que é necessário investigar esta opinião;
segundo, começa a refutá-la, ali: ora, os que sustentavam esta opinião etc.
A respeito do primeiro, faz três coisas:
primeiro, apresenta a utilidade desta investigação;
segundo, mostra o que parece opor-se a esta investigação, ali: ainda que tal questão suscite dificuldade etc.;
terceiro, mostra que aquilo não deve afastar da investigação desta verdade, ali: parecerá, contudo, sem dúvida melhor etc.
A respeito do primeiro, deve-se considerar que aquele bem separado no qual os platônicos punham consistir a felicidade do homem, diziam ser o bem universal por cuja participação todos os bens se dizem. Diz, portanto, que examinar sobre este bem universal se existe, e indagar de que modo se põe que exista, talvez seja melhor do que investigar as opiniões precedentes; pois a sua investigação é mais filosófica, por pertencer mais à consideração do verdadeiro bem e do último fim do que as precedentes, se essas opiniões forem consideradas em si mesmas; se, porém, forem consideradas enquanto pertencem ao propósito, investigar as opiniões precedentes parece ter sido mais conveniente ao propósito; e por isso disse talvez, que é advérbio de dúvida.
75. Depois, quando diz: ainda que suscite dificuldade etc., expõe o que poderia afastá-lo da investigação de tal opinião. E diz que a investigação disto é contrária à sua vontade, pelo fato de ter sido introduzida por seus amigos, a saber, pelos platônicos; pois ele mesmo foi discípulo de Platão, e, refutando a opinião dele, parecia derrogar a sua honra. E diz isto aqui, em vez de nos outros livros em que refuta a opinião de Platão, porque refutar a opinião de um amigo não é contra a verdade, que se busca principalmente nas coisas especulativas, mas é contra os bons costumes, dos quais se trata principalmente neste livro.
76. Depois, quando diz: parecerá, contudo, sem dúvida etc., mostra que isto não deve afastá-lo. Porque parecerá melhor, isto é, mais honesto e pertencente aos bons costumes, e mesmo totalmente necessário, que o homem não receie combater seus familiares em prol da salvaguarda da verdade; pois isto é tão necessário aos bons costumes que sem isto a virtude não pode ser conservada; com efeito, se o homem não preferisse a verdade aos familiares, seguir-se-ia que o homem proferisse juízos falsos e falsos testemunhos em defesa dos amigos, o que é contra a virtude; e ainda que de outro modo, isto é, por outra razão que pertence a todos os homens, a verdade deva ser preferida aos amigos, especialmente, contudo, devem fazer isto os filósofos, que são professores da sabedoria, a qual é o conhecimento da verdade.
77. Que se deva, porém, preferir a verdade aos amigos, mostra-o por esta razão: àquele que é mais amigo, mais se deve deferência; ora, como temos amizade para com ambos, a saber, para com a verdade e para com o homem, devemos amar mais a verdade do que o homem, porque devemos amar o homem sobretudo por causa da verdade e por causa da virtude, como se dirá no livro VIII desta obra; a verdade, porém, é um amigo sobre-excelente ao qual se deve a reverência da honra; é também a verdade algo divino, pois em Deus se encontra primeira e principalmente; e por isso conclui que é santo honrar mais a verdade do que os homens amigos.
78. Diz, com efeito, Andrônico peripatético que a santidade é o que torna os homens fiéis e observantes daquilo que é justo para com Deus. Esta foi também a sentença de Platão, que, reprovando a opinião de Sócrates, seu mestre, disse que é preciso cuidar mais da verdade do que de qualquer outra coisa; e em outro lugar diz: amigo, sem dúvida, é Sócrates, mas mais amiga é a verdade; e em outro lugar: de Sócrates, na verdade, pouco se deve cuidar, mas da verdade muito.
79. Depois, quando diz: ora, os que sustentavam esta opinião etc., refuta a posição de Platão, que diz que a felicidade do homem consiste em certa ideia comum do bem. E a respeito disso faz duas coisas:
primeiro, mostra que não há uma ideia comum do bem;
segundo, mostra que, ainda que houvesse, nela não consistiria a felicidade humana, ali: mas talvez isto deva por ora ser abandonado etc.
A respeito do primeiro, faz duas coisas:
primeiro, mostra que não há uma ideia comum do bem;
segundo, investiga o modo de falar pelo qual os platônicos denominavam esta ideia, ali: alguém, porém, sem dúvida perguntará etc.
A respeito do primeiro, deve-se considerar que Aristóteles não pretende refutar a opinião de Platão quanto a isto, que punha um bem separado do qual dependessem todos os bens, pois o próprio Aristóteles, no livro XII da Metafísica, põe um bem separado de todo o universo, ao qual todo o universo se ordena como o exército ao bem do general; refuta, porém, a opinião de Platão quanto a isto, que punha aquele bem separado ser certa ideia comum de todos os bens. E para refutar isto usa de tripla razão.
80. A primeira delas toma-se da própria posição dos platônicos, que não faziam alguma ideia naqueles gêneros em que se encontra o anterior e o posterior; como fica claro nos números, pois o binário é naturalmente anterior ao ternário e assim por diante, e por isso os platônicos não diziam que o número comum fosse certa ideia separada, mas punham cada número ideal separado, por exemplo o binário, o ternário e semelhantes. E a razão disto é que aquelas coisas em que se encontra o anterior e o posterior não parecem ser de uma só ordem e, por consequência, nem participar igualmente de uma só ideia. Mas nos bens encontra-se o anterior e o posterior; o que se manifesta pelo fato de que o bem se encontra no que é a substância, isto é, na substância, e igualmente na qualidade e também nos outros gêneros; ora, é manifesto que aquilo que é ente por si mesmo, a saber, a substância, é naturalmente anterior a todas aquelas coisas que não têm ser senão em comparação com a substância, como é a quantidade, que é a medida da substância, e a qualidade, que é a disposição da substância, e a relação a algo, que é a habitude da substância; e o mesmo se dá nos outros gêneros, que todos se assemelham a um rebento do ente, isto é, da substância, que é principalmente ente, da qual brotam e derivam todos os outros gêneros, que também na medida em que se dizem entes acidem à substância. E disto conclui que não pode haver certa ideia comum do bem.
81. A segunda razão apresenta ali: ademais, porque o bem etc. Para evidência disso, deve-se saber que Platão punha a ideia ser a razão e a essência de todas aquelas coisas que participam da ideia, do que se segue que daquelas coisas cuja razão comum não é uma só não pode haver uma só ideia. Mas de diversos predicamentos não há uma só razão comum; pois nada se predica univocamente deles. O bem, porém, assim como também o ente com o qual se converte, encontra-se em qualquer predicamento; assim, no que é a substância, isto é, na substância, diz-se bem Deus, no qual não cai malícia, e o intelecto, que é sempre reto; na qualidade, porém, a virtude, que torna bom o que a possui; na quantidade, porém, o comensurado, que é o bem em qualquer coisa que se submete à medida; na relação a algo, porém, o bem é o útil, que é o que se refere ao devido fim; no quando, porém, o tempo, a saber, o oportuno, e no onde o lugar conveniente para caminhar, como o passeio; e o mesmo fica claro nos outros gêneros. É manifesto, portanto, que não há algum bem comum uno, que seja a ideia ou razão comum de todos os bens; do contrário, seria preciso que o bem não se encontrasse em todos os predicamentos, mas em um só.
82. A terceira razão apresenta ali: ademais, porque daquelas coisas que são etc. Para evidência disso, deve-se saber que, assim como Platão punha que as coisas existentes fora da alma alcançam a forma do gênero ou da espécie pelo fato de participarem da ideia, assim a alma é formada pela ciência pelo fato de participar da ideia, de modo que a alma não conhece a pedra senão pelo fato de participar da ideia da pedra, do que se segue que de todas aquelas coisas que têm uma só ideia há uma só ciência. Se, portanto, de todos os bens houvesse uma só ideia, seguir-se-ia que todos os bens pertenceriam à consideração de uma só ciência. Isto, porém, vemos ser falso, mesmo quanto aos bens que estão em um só predicamento (o que acrescenta para que ninguém atribuísse as diversificações das ciências à diversidade dos predicamentos): pois o tempo que se toma da conveniência considera-o, nas coisas bélicas, a arte militar; nas doenças, porém, a medicinal; nos exercícios, porém, a ginástica. Resta, portanto, que não há uma ideia comum dos bens.