Lição 17
The Fortune of Friends and Happiness of the Dead
Ora, dizer que as fortunas dos descendentes e de todos os amigos de modo algum influem, pareceria muito contrário à amizade e oposto às opiniões comuns. [203]
Ora, acontecendo muitas coisas e tendo elas diferenças de todo o gênero, e recaindo umas mais, outras menos, dividir segundo cada uma pareceria coisa longa e infinita. Falado, porém, de modo universal e em esboço, talvez baste, se, do mesmo modo que também a respeito das próprias fortunas umas têm algum peso e auxílio para a vida, ao passo que outras parecem mais leves, assim também as que dizem respeito aos amigos, do mesmo modo, todas. [204]
Ora, faz muito mais diferença que cada uma das experiências aconteça aos vivos ou aos mortos do que as injustiças e os males terem preexistido nas tragédias ou nelas se cometerem. Deve-se, pois, também assim raciocinar sobre a diferença. [206]
Ora, talvez se deva antes investigar a respeito dos que faleceram se participam de algum bem ou de seus opostos. Pois parece, a partir destas coisas, que, se recai sobre eles qualquer coisa, seja bem, seja o contrário, é algo frágil e pequeno, seja absolutamente, seja para eles. E, se não é assim, não é, contudo, tão grande e de tal natureza que torne felizes os que não o são, nem retire a bem-aventurança aos que a têm. [209]
Parece, portanto, que as boas operações dos amigos de algum modo influem sobre os que faleceram, e igualmente também as desventuras, mas de tal natureza e tão grandes que nem tornam não felizes os felizes, nem felizes os não felizes, nem produzem qualquer outra coisa do gênero. [210]
203. Ora, as fortunas dos descendentes etc. Depois que o Filósofo resolveu a dúvida principal, que era sobre a transmutação da fortuna a respeito do feliz, aqui resolve a dúvida acrescentada, a saber, sobre a mudança da fortuna a respeito dos amigos.
E quanto a isto faz duas coisas:
primeiro, compara as boas fortunas e as desventuras que acontecem aos amigos com aquelas que acontecem ao próprio homem;
segundo, compara aquilo que acontece ao morto com aquilo que acontece ao vivo, ali: ora, faz diferença etc.
Quanto ao primeiro, faz duas coisas:
primeiro, propõe que aquilo que acontece aos amigos recai sobre o próprio homem;
segundo, mostra quais e de que natureza, ali: ora, acontecendo muitas coisas etc.
Diz, então, primeiro que, se alguém quisesse dizer que as fortunas boas ou más dos bisnetos ou de quaisquer descendentes e de todos os amigos de modo algum contribuiriam para a felicidade do homem vivo ou morto, isso pareceria ser inconveniente por dupla razão. Primeiramente, porque isso seria contra a razão da amizade, que é certa união dos amigos, de tal modo que um deles considera as coisas que são do outro como se fossem suas. Segundo, porque isso seria contrário à opinião comum, que não pode ser totalmente falsa.
204. Depois, quando diz: muitas coisas, porém etc., mostra quais e de que qualidade sejam os acontecimentos dos amigos que contribuem para a felicidade do amigo. E diz que, sendo muitas e diferentes de todos os modos as coisas que acontecem segundo as fortunas boas ou más, por exemplo, segundo a espécie, segundo a quantidade, segundo o tempo e segundo outras coisas do gênero, das quais algumas repercutem mais e outras menos, se alguém quisesse determinar cada uma singularmente, isto é, o que delas repercute sobre o homem e o que não, seria muito longo, ou antes, infinito, porque tal diversidade ocorre de infinitos modos.
205. Mas basta que se determine em universal e em esboço, isto é, figuradamente, ou seja, superficialmente ou por semelhança, se, a saber, se disser que, das fortunas que se referem ao próprio homem, algumas, a saber, as grandes, têm certo peso, isto é, força de mudar a condição da vida humana, e prestam auxílio à vida feliz; outras, porém, são mais leves, pelas quais não se muda muito a vida do homem; assim também ocorre naquelas coisas que sobrevêm a quaisquer amigos, contudo de tal modo que repercutem mais aquelas que acontecem aos mais próximos, ainda que sejam menores em quantidade.
206. Depois, quando diz: difere, porém, das paixões etc., mostra a partir de que os acontecimentos dos amigos repercutem sobre o homem, e isso é mais manifesto quanto ao homem enquanto vive, de que modo, a respeito disso, ele se relaciona com o morto.
E acerca disto faz duas coisas:
primeiro, mostra de que modo diferente ele se comporta quanto a isto a respeito dos vivos e dos mortos;
segundo, indaga se os acontecimentos dos amigos repercutem sobre os mortos, visto ser manifesto que repercutem sobre os vivos, e isto ali: mais, porém, talvez etc.
Acerca do primeiro, deve-se considerar que os mortos estão postos fora da vida presente, cuja felicidade Aristóteles aqui pretende investigar, como fica patente pelas coisas antes ditas; ora, os mortos atingem esta vida somente enquanto permanecem nas memórias dos homens vivos, e por isso deste modo os mortos se relacionam com os vivos, segundo a consideração desta vida, assim como se relacionam as coisas que agora acontecem em ato com aquelas que outrora existiram e agora são narradas, por exemplo, as guerras de Troia ou algo do gênero.
207. Diz, então, que o fato de quaisquer paixões, isto é, acontecimentos fortuitos, sobrevirem aos vivos ou aos mortos, difere muito mais do que o fato de algumas coisas injustas, por exemplo, homicídios ou roubos, e males, isto é, quaisquer infortúnios, preexistirem nas tragédias, ou seja, serem narrados pelos poetas como tendo existido outrora, ou de agora acontecerem. Porque, no primeiro caso, toma-se o mesmo da parte do evento fortuito e a diferença da parte das pessoas, das quais algumas estão em ato nas coisas humanas, ao passo que outras estão somente na memória; no segundo caso, ao contrário, toma-se o mesmo da parte das pessoas, que estão em ato nas coisas humanas, mas atende-se à diferença da parte dos eventos fortuitos, dos quais alguns estão em ato nas coisas humanas, ao passo que outros estão somente segundo a narração comemorativa; e porque a felicidade pertence às pessoas mais do que às coisas que acontecem exteriormente, por isso o Filósofo diz que a primeira diferença, quanto ao que pertence ao propósito, a saber, à mudança da felicidade, é maior do que a segunda. E a partir daquela semelhança aduzida acerca da diferença dos eventos, diz que se deve silogizar a diferença no propósito.
208. Com efeito, é manifesto que os males passados narrados, ainda que de algum modo pertençam ao homem que os ouve, o qual de algum modo é por eles afetado, todavia não a ponto de mudarem a condição dele; donde, muito menos as fortunas ou os infortúnios mudam a condição do morto. E isto o Filósofo aduziu como que resolvendo a razão acima posta, que concluía que, se algo repercute sobre os vivos que não sentem, também repercutiria sobre os mortos.
209. Depois, quando diz: mais, porém, talvez etc., indaga ainda se de algum modo repercutem sobre os mortos as coisas que acontecem a respeito dos amigos.
E primeiro indaga o propósito;
segundo, conclui o principal intento, ali: contribuir, então, decerto etc.
Diz, então, primeiro que mais parece dever-se indagar acerca daqueles que estão mortos, se de algum modo participam ou dos bens ou dos males que acontecem nesta vida, porque o fato de não serem mudados por eles da felicidade à miséria ou ao contrário parece ser bastante manifesto. Porque, se algo destas coisas que aqui se fazem repercute sobre eles, seja bem, seja mal, será algo frágil e pequeno, ou absolutamente ou quanto a eles próprios. Se, porém, é assim, não será tão grande e tal que torne felizes os que não são, nem tire a bem-aventurança aos que a têm. Com efeito, foi dito que os pequenos acontecimentos não fazem mudança da vida; se, portanto, das coisas que se fazem repercute algo pequeno sobre os mortos, segue-se que por isso a condição deles quanto à felicidade não seja mudada.
210. Depois, quando diz: contribuir, então, decerto etc., conclui sua sentença. E diz que os bens dos amigos, que eles fazem ou que a eles acontecem, parecem contribuir em algo para os mortos, e semelhantemente os infortúnios repercutir sobre eles; todavia, sob tal modo e tanta quantidade que nem tornem os felizes não felizes, nem tornem os não felizes felizes, nem tampouco os transmutem segundo algo de tal ordem, por exemplo, segundo a sabedoria e a virtude ou algo do gênero. Pode, porém, haver uma construção suspensiva a partir daquele lugar: se, porém, não é tão grande e tal etc., e então o consequente da condicional será: contribuir, então, decerto etc., e sobrará a conjunção ilativa.
211. Parece, porém, segundo a intenção de Aristóteles, que as coisas que aqui se dizem devem ser entendidas dos mortos não enquanto são em si mesmos, mas enquanto vivem nas memórias dos homens; pois assim parecem repercutir sobre eles as coisas que sobrevêm a seus amigos depois da morte, na medida em que por isso a memória e a glória deles se tornam mais célebres ou mais obscuras; mas isto, diz ele, é algo frágil, porque nada é mais frágil do que aquilo que consiste apenas na opinião dos homens; e diz que é algo pequeno e sobretudo quanto a eles próprios, porque não lhes pertence senão enquanto estão nas memórias dos homens.
212. Ora, indagar se os homens depois da morte vivem de algum modo segundo a alma, e se conhecem as coisas que aqui se fazem, ou se por elas de algum modo são mudados, não pertence ao propósito, visto que o Filósofo trata aqui da felicidade da vida presente, como fica patente pelas coisas acima ditas. E por isso questões deste gênero, que necessitariam de longa discussão, devem aqui ser omitidas, para que nesta ciência, que é operativa, não se façam muitos discursos fora das obras, o que acima o Filósofo reprovou. Alhures, porém, tratamos destas coisas mais plenamente.