Lição 14
Friends’ Pleasure in Living Together
Acaso, então, assim como nos que amam ver a pessoa mais querida é o que há de mais deleitável, e preferem esse sentido aos outros, porque por ele sobretudo o amor existe e se produz, assim também para os amigos conviver é o que há de mais digno de escolha? [1944]
Pois a amizade é uma comunicação. [1946]
E tal como cada um se comporta em relação a si mesmo, assim também em relação ao amigo; ora, o sentir que existe é para si algo desejável, e do mesmo modo o é a respeito do amigo. Mas essa operação se realiza no conviver. Por isso, com razão desejam isto. [1947]
E aquilo que às vezes é para cada um o seu ser, ou por causa do qual escolhem viver, nisso querem conversar com os amigos. Por isso, uns bebem juntos, outros jogam juntos aos dados, outros ainda se exercitam juntos e caçam juntos e filosofam juntos, permanecendo cada um naquilo que mais ama entre as coisas da vida. Pois, querendo conviver com os amigos, fazem estas coisas e comunicam com aqueles com quem julgam conviver. [1948]
Torna-se, pois, má a amizade dos maus. Pois comunicam em coisas más, sendo instáveis, e tornam-se maus, assemelhando-se uns aos outros. [1950]
Mas a dos que são virtuosos é virtuosa, aumentada pelos colóquios. E parece que se tornam também melhores ao operar e ao amar-se mutuamente; pois recebem uns dos outros aquilo em que se comprazem, donde: Coisas boas, com efeito, dos bons. Sobre a amizade, pois, seja dito até aqui; a seguir, porém, cumprirá tratar da deleitação. [1951]
1944. Se, pois, tal como etc. Tratadas as questões sobre a multidão e a necessidade dos amigos, indaga aqui sobre o convívio deles.
E acerca disto faz três coisas;
primeiro propõe a questão;
segundo manifesta a verdade, ali: pois a comunicação etc.;
terceiro infere um corolário do que foi dito, ali: torna-se, pois etc.
A primeira questão funda-se, pois, numa certa semelhança da amizade com o amor libidinoso, no qual, com efeito, vemos que para os que amam é sumamente desejável ver aquelas que amam e escolhem mais este sentido, a saber, a visão, do que os outros sentidos exteriores, porque, como acima se disse, é pela visão que sobretudo começa a nascer a paixão do amor e é segundo este sentido que se conserva; pois tal amor é provocado principalmente pela beleza que a visão percebe.
1945. É, pois, a questão o que seja proporcional à visão na amizade, isto é, se o próprio conviver, de modo que, assim como os que amam se deleitam sumamente na mútua contemplação, assim os amigos se deleitem sumamente no mútuo convívio. Segundo outra versão do texto, porém, isto não é introduzido a modo de questão, mas a modo de conclusão; e essa versão diz assim: já, pois, tal como etc.; e isto pode concluir-se daquilo que acima se provou, que a presença dos amigos é deleitável em todas as circunstâncias.
1946. Depois, quando diz: pois a comunicação etc., manifesta a verdade da premissa, seja da questão, seja da conclusão, por tríplice razão.
A primeira delas é que a amizade consiste na comunicação, como fica claro daquilo que se disse no oitavo livro; ora, os homens comunicam-se sumamente a si mesmos uns aos outros no convívio; donde o conviver parece ser o que há de mais próprio e deleitável na amizade.
1947. Apresenta a segunda razão ali: e tal como em relação a si mesmo etc. Pois, assim como o homem se comporta em relação a si mesmo, assim se comporta em relação ao amigo, como fica claro do que acima se disse; ora, em relação a si mesmo comporta-se de tal modo que lhe é desejável e deleitável sentir que ele mesmo existe; logo, isto também lhe é deleitável a respeito do amigo. Mas isto se realiza no conviver, porque, pelas mútuas operações que veem, sentem que existem um para o outro. Convenientemente, portanto, os amigos desejam conviver uns com os outros.
1948. Apresenta a terceira razão ali: e aquilo que às vezes é etc. A qual se toma da experiência. Pois vemos que os homens querem conversar com seus amigos segundo a ação em que principalmente se deleitam, a qual reputam ser o seu ser e por causa da qual escolhem o seu viver, ordenando a isto, por assim dizer, toda a sua vida.
1949. E daí vem que alguns querem beber juntamente com os amigos. Outros, porém, jogar juntos aos dados, outros ainda exercitar-se juntos, por exemplo em torneios, lutas e outras coisas deste gênero, ou também caçar juntos ou filosofar juntos, de modo que cada um quer permanecer com os amigos naquela ação que ama mais que tudo nesta vida. Pois, como que querendo conviver com os amigos, realizam ações deste gênero nas quais sumamente se deleitam e nas quais reputam consistir toda a sua vida, e em tais ações comunicam com os amigos, cuja comunicação julgam ser o conviver. E assim fica claro que o conviver é o que há de mais desejável na amizade.
1950. Depois, quando diz: torna-se, pois, dos maus etc., conclui das premissas
primeiro, quanto aos maus, que a amizade deles é má. Pois deleitam-se sumamente nas obras más e nelas comunicam uns com os outros e, sendo instáveis, avançam sempre de mal a pior, porque um se torna mau ao receber a semelhança da malícia do outro.
1951. Segundo, ali: mas a dos que etc., conclui quanto aos bons que a amizade dos virtuosos é boa e sempre se acrescenta na virtude com bons colóquios. E os próprios amigos tornam-se melhores no fato de operarem juntos e se amarem mutuamente; pois um recebe do outro o exemplo da obra virtuosa, na qual se compraz, donde se diz no provérbio que o homem recebe coisas boas dos bons.
1952. Finalmente, a modo de epílogo, conclui que sobre a amizade já se disse o suficiente e que, por consequência, se deve tratar da deleitação. E assim termina a doutrina do nono livro.